{"id":322112,"date":"2024-02-11T07:00:22","date_gmt":"2024-02-11T10:00:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=322112"},"modified":"2024-02-11T07:21:08","modified_gmt":"2024-02-11T10:21:08","slug":"carnaval-de-rua-esta-sob-ataque-em-multiplas-frentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/carnaval-de-rua-esta-sob-ataque-em-multiplas-frentes\/","title":{"rendered":"Carnaval de rua est\u00e1 sob ataque em m\u00faltiplas frentes"},"content":{"rendered":"<p>O carnaval est\u00e1 sob ataque! A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 do historiador, escritor e professor Luiz Antonio Simas, que expressa preocupa\u00e7\u00e3o com tentativas de descaracteriza\u00e7\u00e3o da festa popular pelas press\u00f5es do capital e do proselitismo religioso.<\/p>\n<p>&#8220;O carnaval assusta porque afronta a decad\u00eancia da vida em grupo, reaviva la\u00e7os contr\u00e1rios \u00e0 dilui\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria, fortalece pertencimentos e sociabilidades e cria redes de prote\u00e7\u00e3o nas frestas do desencanto&#8221;, defendeu nas redes sociais nesta sexta-feira (9), v\u00e9spera do in\u00edcio oficial do carnaval no Brasil.<\/p>\n<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, o escritor sustenta que a festa \u00e9 um dos modos de se enfrentar a morte enquanto aniquilamento do ser e disciplinar de corpos.<\/p>\n<p>Leia trecos:<\/p>\n<p><strong>Algo que impressiona \u00e9 a versatilidade do teu campo de pesquisa. Queria que falasse um pouquinho sobre a tua hist\u00f3ria. N\u00e3o sei se voc\u00ea tem um termo para sintetizar esse interesse plural.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se \u00e9 t\u00e3o diverso assim. Aparentemente, \u00e9. Venho de uma hist\u00f3ria familiar que, de certo modo, me colocou diante das coisas que eu escrevo, com as quais eu trabalho. Eu sou carioca, mas venho de uma fam\u00edlia formada, majoritariamente, por pernambucanos e alagoanos e sou neto de uma m\u00e3e de santo, a Dona Beta. Ela se iniciou no Recife, veio para o Rio de Janeiro e tinha uma casa aberta aqui. E, al\u00e9m disso, a minha fam\u00edlia acaba tendo uma rela\u00e7\u00e3o muito \u00edntima com o samba. Tive um tio que foi presidente de um bloco carnavalesco, teve aula em escola de samba. A fam\u00edlia sempre esteve muito envolvida com esse tipo de coisa. Sobretudo a experi\u00eancia de ter sido criado em terreiro, de certa maneira, moldou boa parte do que eu sou. E, sobretudo no Rio de Janeiro, a casa da minha av\u00f3 foi cruzada por diversas refer\u00eancias de encantarias, umbandas que estavam por aqui. A casa da minha v\u00f3 dialogava, por exemplo, com a tradi\u00e7\u00e3o do tambor de mina maranhense, porque ela era muito amiga de uma senhora, a Dona Luzia, que era ligada a ele. Dona Mundica, que era uma esp\u00e9cie de av\u00f3 minha, porque era praticamente irm\u00e3 da minha av\u00f3, que era ligada a encantarias do Par\u00e1.<\/p>\n<p>Venho de uma inf\u00e2ncia marcada por esse tipo de coisa. E era uma fam\u00edlia muito festeira. D\u00e1 a impress\u00e3o, penso nisso hoje, que era uma fam\u00edlia que se mobilizava, o ano todo, por um calend\u00e1rio de festividade. Primeiro, as festividades do terreiro, que eram muito importantes. Segundo, o carnaval. Fam\u00edlia muito carnavalesca, a ponto de, na minha vida, eu s\u00f3 ter passado um carnaval fora do Rio de Janeiro. O \u00fanico eu passei quando era garoto. Uma fam\u00edlia muito ligada pelas festas nordestinas. Tamb\u00e9m \u00e9 um ciclo as festas de S\u00e3o Jo\u00e3o. Era uma fam\u00edlia muito festeira, isso \u00e9 uma caracter\u00edsticas, e trouxe muito isso.<\/p>\n<p>Meu trabalho posterior, como historiador, escritor, compositor de m\u00fasica popular, dialoga muito com essa tradi\u00e7\u00e3o. Agora, isso que parece muito diverso. \u00c9 verdade, eu sou um interessado na cultura brasileira de uma forma muito ampla, mas acho que tem duas quest\u00f5es importantes. A primeira delas \u00e9 a seguinte: costumo dizer que tudo o que estudo \u00e9 atravessado por um fio que vai costurando isso. Eu, a rigor, estudo as sociabilidades festeiras do Brasil. Se voc\u00ea me der para definir, sou um estudioso das sociabilidades constru\u00eddas pela festa. Festas que s\u00e3o sagradas, festas que s\u00e3o profanas. Tenho desde livros sobre futebol, com \u00eanfase muito grande em torcidas e tal, at\u00e9 livros sobre festividades do cristianismo popular.<\/p>\n<p><strong>Simas, no seu curso de terreiriza\u00e7\u00e3o do mundo, em entrevistas e obras tuas, voc\u00ea sempre reafirma que estamos em constante luta contra a morte. O que quer dizer com isso, para quem n\u00e3o teve contato com a tua pesquisa?<\/strong><\/p>\n<p>A morte \u00e9 um fen\u00f4meno que est\u00e1 ligado ao campo da espiritualidade. Por isso \u00e9 que falo, no Corpo encantado das ruas, que o contr\u00e1rio \u00e0 vida, nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 a morte, \u00e9 o desencanto. E o contr\u00e1rio da morte n\u00e3o \u00e9 exatamente a vida, \u00e9 o encantamento. Por qu\u00ea? Porque, quando eu falo dessa luta contra a morte, n\u00e3o \u00e9 a luta contra o fen\u00f4meno fisiol\u00f3gico da cessa\u00e7\u00e3o dos nossos impulsos vitais, mas \u00e9 contra uma aniquila\u00e7\u00e3o que nos atinge em vida, \u00e9 o fen\u00f4meno do desencanto. Por isso que j\u00e1 tamb\u00e9m escrevi que existe mortos que est\u00e3o muito mais vivos do que alguns vivos.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea conhece essa cultura de terreiro, o encantamento prevalece ali. A morte da qual eu falo \u00e9 uma morte cotidiana, na produ\u00e7\u00e3o do aniquilamento do ser, do desencanto, de corpos que s\u00e3o aniquilados, coordenados ou disciplinados dentro de uma l\u00f3gica determinada pela for\u00e7a do capital, do rel\u00f3gio. N\u00f3s estamos lutando, o tempo todo, contra essas mortes que s\u00e3o parte da experi\u00eancia cotidiana. Isso \u00e9 crucial. A afirma\u00e7\u00e3o da vida opera nessa dimens\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Nesse curso, voc\u00ea comentou o caso de uma escola de samba, n\u00e3o me recordo bem, Simas, em que Exu tomou conta, durante um desfile, algo assim.<\/strong><\/p>\n<p>Acho que foi um texto que escrevi sobre, se n\u00e3o me engano, uma entrada na avenida da bateria da Portela. Foi o seguinte: em 2013, a Portela fez um enredo sobre Madureira. E a bateria veio fantasiada de Z\u00e9 Pelintra, porque o Mercad\u00e3o de Madureira \u00e9 o maior centro de artigos afroreligiosos do Rio de Janeiro e um dos maiores do Brasil. O que se conta nesse processo todo \u00e9 que a bateria faz um Z\u00e9 Pelintra trajado com as cores da Portela, azul e branco, quando o Z\u00e9 Pelintra costuma usar o vermelho e o branco, quando ele vem para trabalhar como encantado. Dizem que teria ocorrido um fen\u00f4meno que, em um ensaio, um componente da escola teria recebido Dona Maria Padilha [uma pombagira] e Dona Maria Padilha teria dito que trazia um recado de Seu Z\u00e9 Pelintra. Que a Portela s\u00f3 seria autorizada a desfilar com a bateria fantasiada de Seu Z\u00e9 Pelintra, primeiro, se usasse as cores dele e, segundo, se Seu Z\u00e9 Pelintra tivesse uma festa para ele, na entrada do desfile. E a\u00ed acontece um fen\u00f4meno muito impactante, porque a Portela estava se preparando para entrar na Sapuca\u00ed, o setor um das arquibancadas est\u00e1 lotado e, de repente, entram tambores. Os og\u00e3s come\u00e7am a cantar para ele. O que se conta ali \u00e9 que a rainha da bateria incorpora Dona Maria Padilha e come\u00e7a uma gira para Seu Z\u00e9 Pelintra antes do desfile da Portela. Foi impactante porque aquilo surpreendeu as pessoas e a Marqu\u00eas de Sapuca\u00ed virou uma gira de macumba. Foi um momento muito forte, porque a Portela cumpriu o que o Seu Z\u00e9 Pelintra havia pedido, para que pudesse desfilar. E \u00e9 o que eu digo sempre: \u00e9 um terreiro. Na minha percep\u00e7\u00e3o, o terreiro n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o de fixidez religiosa. Tento entender o terreiro como um territ\u00f3rio praticado na dimens\u00e3o de encantamento do mundo. Ent\u00e3o, a tua esquina, a pra\u00e7a podem virar terreiro, porque podem ser praticadas na dimens\u00e3o do encanto. Ali se consolidou a terreiriza\u00e7\u00e3o da Sapuca\u00ed de uma maneira muito forte.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea tem visto esse crescente interesse por terreiros? Como voc\u00ea v\u00ea as cr\u00edticas ao embranquecimento de terreiros, j\u00e1 que t\u00eam algumas pessoas que andam revoltadas com isso?<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o sei se essa realidade \u00e9 igual em tudo quanto \u00e9 lugar. Acho que tem um debate ligado a terreiro em S\u00e3o Paulo que \u00e9 completamente diferente do debate no Rio de Janeiro, onde o debate sobre a mercantiliza\u00e7\u00e3o, o mercado religioso, me parece mais acirrado do que o Rio de Janeiro. Porque o Rio de Janeiro \u00e9 aquela macumba carioca, \u00e9 aquela coisa de que tudo \u00e9 muito encruzilhado nesse sentido. Eu escrevi n\u00e3o \u00e0 toa um livro que se chama Umbandas, no plural, porque acho que, na verdade, voc\u00ea tem uma pluralidade enorme desse ecossistema de sabedorias encantadas, as mais diversas que tem.<\/p>\n<p>Agora, esse apre\u00e7o pela cultura de terreiro \u00e9, de certa maneira, uma rea\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a um processo galopante de desencanto. Isso \u00e9 muito forte. Quando a gente pensa em terreiro, em escola de samba, acho que est\u00e1 tudo junto, porque as culturas s\u00e3o brancas, operam em uma dimens\u00e3o em que n\u00e3o h\u00e1 dicotomia entre o sagrado e o profano. O que existe \u00e9 uma sacraliza\u00e7\u00e3o do profano e uma profana\u00e7\u00e3o do sagrado que se estabelece o tempo todo, isso acontece com muita frequ\u00eancia. De certa forma, o terreiro \u00e9 um espa\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o de pertencimento coletivo de vida, e a gente est\u00e1 vivendo em um mundo em que essas inst\u00e2ncias coletivas de pertencimento est\u00e3o sendo estra\u00e7alhadas. Isso acontece muito.<\/p>\n<p>H\u00e1 um ataque a essa ideia da vida usufru\u00edda como um bem coletivo que \u00e9 muito forte. H\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o a isso. O que a gente est\u00e1 vivendo \u00e9 um embate. Existe um embate entre essas quest\u00f5es. Agora, isso traz todos os paradoxos que voc\u00ea pode imaginar. A religi\u00e3o \u00e9 muito impactada pelo avan\u00e7o das redes sociais. \u00d3bvio que existe uma disputa pelo mercado religioso, que envolve muita coisa. Mas eu n\u00e3o sou um especialista nesse debate. A realidade que eu vivo \u00e9 uma realidade um pouco diferente da de certos locais. \u00c9 mais acirrado esse debate sobre embranquecimento. E a\u00ed a gente tem que pensar no que a gente est\u00e1 chamando de terreiro, porque, por exemplo. \u00c9 um embranquecimento de uma certa linha de umbanda? Isso n\u00e3o \u00e9 de hoje. \u00c9 um embate da hist\u00f3ria da umbanda que vem da primeira metade do s\u00e9culo XX. Evidente que tem. S\u00e3o os paradoxos do Brasil.<\/p>\n<p>Por outro lado, voc\u00ea vai a uma igreja evang\u00e9lica popular e \u00e9 pouco prov\u00e1vel que voc\u00ea veja que uma ampla gama de fi\u00e9is seja composta de negros. Isso acontece. Acho que a gente n\u00e3o pode perder a dimens\u00e3o de que essas culturas de terreiros s\u00e3o oriundas de saberes n\u00e3o brancos, isso \u00e9 fundamental. Saberes oriundos das praias africanas que se redefinem no Brasil. Acho important\u00edssima tamb\u00e9m a dimens\u00e3o da influ\u00eancia ind\u00edgena das encantarias e que \u00e9 interessante eu e todo mundo sairmos para estudar os encantos fora do eixo Rio-S\u00e3o Paulo. Se vai para o Maranh\u00e3o, o Par\u00e1, algumas regi\u00f5es da Para\u00edba, o Cear\u00e1, o sert\u00e3o do Cariri, as experi\u00eancias encantadas s\u00e3o muito intensas.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea tem tido interesse, no \u00e2mbito da pesquisa, por algo que n\u00e3o estava tanto no teu radar, que tem a ver com esse momento do pa\u00eds, de tentativas de retomada da cultura democr\u00e1tica, algo que tem bastante rela\u00e7\u00e3o com o teu trabalho? E teve algo que voc\u00ea ainda n\u00e3o viu nas escolas e que adoraria ver?<\/strong><\/p>\n<p>Acho que o carnaval, primeiro, \u00e9 m\u00faltiplo. A gente tem dos mais diversos aqui. Eu defino o carnaval como uma festa de reconstru\u00e7\u00e3o de sentido coletivo de vida. Ao mesmo tempo, n\u00e3o tenho d\u00favida, porque gosto de estudar a hist\u00f3ria do carnaval e tenho estudado isso, o carnaval \u00e9 muito mais marcado por confrontos do que por consensos. A disputa entre um carnaval elitista e um carnaval que \u00e9 popular, toda a complexidade que envolve as escolas de samba, a dimens\u00e3o do carnaval de rua. Tem uma coisa que me preocupa muito hoje, por exemplo. Acho que o carnaval de rua est\u00e1 sob ataque. E sob ataque m\u00faltiplo. Por qu\u00ea? Porque sofre ataque de um certo discurso de ordena\u00e7\u00e3o p\u00fablica que busca a conten\u00e7\u00e3o da festa. Est\u00e1 sob o ataque do proselitismo religioso, sobretudo pelo avan\u00e7o pentecostal, que tem a tend\u00eancia de demonizar festejos populares marcados pelas culturas de rua, afrobrasileiras.<\/p>\n<p>Mas existe uma terceira inst\u00e2ncia de ataque que acho muito relevante. O carnaval de rua tem sido violentamente atacado pelo mercado, e isso talvez seja um perigo enorme, porque voc\u00ea come\u00e7a a mensurar uma festa popular a partir de uma dimens\u00e3o restrita \u00e0 l\u00f3gica da circula\u00e7\u00e3o de capital que pode estar acontecendo. Quando o carnaval come\u00e7a a ser festivamente ordenado, muito marcado pelo impacto que t\u00eam algumas marcas, pela cultura dos megablocos, a\u00ed voc\u00ea tem um jogo que envolve o capital e \u00e9 perigoso, porque, aparentemente, um jogo favor\u00e1vel ao carnaval, mas, de certa maneira, \u00e9 complicado. De que forma, por exemplo, essas inst\u00e2ncias do mercado t\u00eam a capacidade de se apropriar das grandes celebra\u00e7\u00f5es da coletividade em uma dimens\u00e3o perigosa, elitista, que acho conservadora, que mensura tudo pela l\u00f3gica do capital? Tenho estudado bastante essas celebra\u00e7\u00f5es populares. Estou em um processo de concluir um livro que seria uma esp\u00e9cie de dicion\u00e1rio das culturas tradicionais do Brasil e pensar muito a festa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O carnaval est\u00e1 sob ataque! 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