{"id":322198,"date":"2024-02-12T00:36:01","date_gmt":"2024-02-12T03:36:01","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=322198"},"modified":"2024-02-12T00:46:47","modified_gmt":"2024-02-12T03:46:47","slug":"desmatamento-na-amazonia-ja-afeta-plantio-duplo-de-soja-e-milho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/desmatamento-na-amazonia-ja-afeta-plantio-duplo-de-soja-e-milho\/","title":{"rendered":"Desmatamento na Amaz\u00f4nia j\u00e1 afeta plantio duplo de soja e milho"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que a ci\u00eancia alerta que o avan\u00e7o do desmatamento na Amaz\u00f4nia para a abertura de novas \u00e1reas para a agropecu\u00e1ria \u00e9 um tiro no p\u00e9 do pr\u00f3prio setor. Por motivos j\u00e1 muito bem conhecidos, como o fato de que a floresta produz a chuva que cai sobre as planta\u00e7\u00f5es. Agora uma nova pesquisa deu uma ideia mais clara do calibre desse tiro.<\/p>\n<p>As \u00e1reas mais desmatadas na Amaz\u00f4nia \u2013 como o norte do Mato Grosso, Rond\u00f4nia, sul do Amazonas e tamb\u00e9m no leste do bioma \u2013 j\u00e1 apresentam um atraso no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o chuvosa, que \u00e9 exatamente quando os produtores come\u00e7am a plantar a soja. O atraso no plantio acaba impactando tamb\u00e9m o cultivo de milho, que entra na sequ\u00eancia da colheita da soja.<\/p>\n<p>Pesquisadores do Centro de Sensoriamento Remoto da Universidade Federal de Minas Gerais observaram que em um per\u00edodo de 20 anos, entre 1999 e 2019, as regi\u00f5es que mais perderam floresta tiveram um atraso acumulado de aproximadamente 76 dias no in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o chuvosa agr\u00edcola. Esses locais tiveram uma redu\u00e7\u00e3o de 360 \u200b\u200bmm nas chuvas e um aumento de 2,5\u00baC na temperatura m\u00e1xima.<\/p>\n<p>O trabalho publicado no International Journal of Climatology, da Royal Meteorological Society, foi o primeiro a conseguir isolar apenas os impactos que o desmatamento tem sobre as altera\u00e7\u00f5es observadas. A ideia foi separar a perda da floresta de outras condi\u00e7\u00f5es que tamb\u00e9m v\u00eam afetando o comportamento do clima, como o aquecimento global e fen\u00f4menos naturais, como o El Ni\u00f1o e a La Ni\u00f1a<\/p>\n<p>Conversei com o climatologista Argemiro Teixeira, que liderou a pesquisa, e ele explicou que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas t\u00eam um efeito cumulativo, de altera\u00e7\u00f5es ao longo de d\u00e9cadas, mas o efeito do desmatamento \u00e9 quase imediato.<\/p>\n<p>&#8220;Quando tira a vegeta\u00e7\u00e3o, tira automaticamente a umidade. As secas e os problemas que a agricultura vem enfrentando n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 por causa das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e o El Ni\u00f1o, mas tamb\u00e9m do desmatamento&#8221;, disse.<\/p>\n<p>A novidade do estudo foi quantificar esse impacto na dupla safra de soja e milho que domina as paisagens amaz\u00f4nicas, um sistema extremamente dependente do in\u00edcio da esta\u00e7\u00e3o chuvosa. &#8220;Quando come\u00e7a a chover, os produtores plantam a soja. Eles ficam esperando o momento mais favor\u00e1vel porque se plantarem antes da chuva, podem perder tudo. O ciclo leva de 120 a 140 dias. Eles, ent\u00e3o, colhem a soja e na sequ\u00eancia j\u00e1 plantam o milho, ainda aproveitando o per\u00edodo de chuva&#8221;, afirma Teixeira.<\/p>\n<p>Como \u00e9 uma agenda apertada, de cerca de seis a sete meses, se as chuvas demoram a come\u00e7ar, essa segunda safra pode ficar inviabilizada. &#8220;Altera\u00e7\u00e3o no volume de chuva e o aumento de temperatura s\u00e3o importantes, mas essa mudan\u00e7a no calend\u00e1rio pode ser muito mais grave para o produtor&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n<p>&#8220;Neste ano, por causa de toda a seca do ano passado, muitos produtores n\u00e3o v\u00e3o ter a segunda safra. O milho j\u00e1 deveria estar em campo, mas n\u00e3o est\u00e1&#8221;, complementa.<\/p>\n<p>O trabalho aponta ainda que o impacto do desmatamento \u00e9 regional. &#8220;Propriet\u00e1rios em \u00e1reas mais preservadas t\u00eam um menor risco de atraso. J\u00e1 os que est\u00e3o em uma \u00e1rea mais degradada, o risco \u00e9 maior&#8221;, explica Teixeira.<\/p>\n<p>E a\u00ed, n\u00e3o adianta muito s\u00f3 fazer a li\u00e7\u00e3o de casa dentro da fronteira. Uma propriedade que est\u00e1 de acordo com o C\u00f3digo Florestal, mantendo 80% da vegeta\u00e7\u00e3o preservada, pode sofrer com falta de chuva se os vizinhos n\u00e3o estiverem preservando igualmente.<\/p>\n<p>De acordo com o trabalho, nas regi\u00f5es onde 80% da floresta j\u00e1 foi perdida, na primeira safra, da soja, h\u00e1 um risco de 58% de ocorrer uma queda no volume de chuva maior ou igual a 100 mm, em rela\u00e7\u00e3o ao que seria esperado para a \u00e9poca. J\u00e1 na segunda safra, de milho, essas regi\u00f5es mais desmatadas t\u00eam um risco de 44% de enfrentar uma redu\u00e7\u00e3o maior ou igual a 200 mm nas chuvas. Onde a cobertura de vegeta\u00e7\u00e3o \u00e9 maior que 80%, o risco cai \u00e0 metade.<\/p>\n<p>Para Teixeira, essa situa\u00e7\u00e3o vai come\u00e7ar a ter impacto no seguro agr\u00edcola. &#8220;Uma hora os pr\u00eamios v\u00e3o ter de ser ajustados para levar em conta a varia\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de conserva\u00e7\u00e3o para dar seguro e o cr\u00e9dito&#8221;, opina.<\/p>\n<p>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas j\u00e1 est\u00e3o cobrando a conta do agroneg\u00f3cio n\u00e3o \u00e9 de hoje, nem s\u00f3 na Amaz\u00f4nia. O site do Globo Rural publicou uma reportagem no \u00faltimo dia 5 informando que no ano passado dispararam no Brasil os pedidos de recupera\u00e7\u00e3o judicial feitos por produtores rurais justamente por causa das perdas nas lavouras afetadas por intemp\u00e9ries clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>De acordo com a publica\u00e7\u00e3o, citando dados da Serasa Experian, foram 80 pedidos entre janeiro e setembro de 2023, alta de 300% na compara\u00e7\u00e3o com 2022. A expectativa \u00e9 que haja uma nova alta em 2024.<\/p>\n<p>Enquanto isso, a Abiove (Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Ind\u00fastrias de \u00d3leos Vegetais) reduziu suas expectativas para a safra de soja neste ano. Em dezembro, a previs\u00e3o era de colher 160,3 milh\u00f5es de toneladas. Agora j\u00e1 caiu para 156,1 milh\u00f5es, conforme informou o InfoMoney.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que a ci\u00eancia alerta sobre a import\u00e2ncia da floresta para os cultivos agr\u00edcolas e para o fato de que o agroneg\u00f3cio seria um dos primeiros a sentir os efeitos da mudan\u00e7a do clima. Mas os avisos n\u00e3o foram levados em conta em decis\u00f5es pol\u00edticas do setor, como na altera\u00e7\u00e3o do C\u00f3digo Florestal, que flexibilizou a prote\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa no pa\u00eds.<\/p>\n<p>&#8220;E o agroneg\u00f3cio pode at\u00e9 n\u00e3o ser quem aperta a motosserra e acelera o corrent\u00e3o que derrubam a floresta, mas acaba se beneficiando dessa destrui\u00e7\u00e3o. A maior parte das \u00e1reas abertas na Amaz\u00f4nia desde 1985 foram ocupadas, posteriormente, justamente pela agropecu\u00e1ria, segundo levantamento feito pelo MapBiomas.<\/p>\n<p>No bioma, em uma outra an\u00e1lise da plataforma, as \u00e1reas de pasto saltaram de 13,7 milh\u00f5es de hectares em 1985 para 57,7 milh\u00f5es de hectares em 2022. J\u00e1 o cultivo de soja passou de cerca de 1 milh\u00e3o de hectares para 7 milh\u00f5es de hectares.<\/p>\n<p>O setor, por\u00e9m, n\u00e3o quer nem ouvir falar que est\u00e1 fazendo algo errado, que colaborou para piorar as condi\u00e7\u00f5es pelas quais \u00e9 penalizado hoje. Pelo contr\u00e1rio: tem se colocado apenas nesse papel de v\u00edtima.<\/p>\n<p>Nesta semana, no in\u00edcio do ano legislativo, a Frente Parlamentar da Agropecu\u00e1ria (FPA) se reuniu para definir as prioridades para o ano. Entre elas est\u00e1 trabalhar para aumentar o Seguro Rural, voltado justamente para atender produtores que tiveram perdas de safra.<\/p>\n<p>&#8220;As consultorias preveem entre 160 milh\u00f5es e 130 milh\u00f5es de toneladas [na safra 2024\/2025], enquanto o pa\u00eds est\u00e1 acostumado a colheitas superiores a 200 milh\u00f5es de toneladas&#8221;, afirmou o presidente da FPA, deputado Pedro Lupion (PP-PR), de acordo com reportagem do site O Eco.<\/p>\n<p>O texto tamb\u00e9m cita uma declara\u00e7\u00e3o do deputado Alceu Moreira (MDB-RS), coordenador nacional de Pol\u00edtica Agr\u00edcola da bancada ruralista: &#8220;Precisamos reconsiderar esse modelo de seguro, pois a atual quebra de safra mostra que se n\u00e3o dermos apoio ao produtor diante dos riscos que ele corre, ele vai parar de produzir, o que impactar\u00e1 a economia de forma geral&#8221;.<\/p>\n<p>Nenhuma palavra sobre restaura\u00e7\u00e3o florestal nem sobre atuar para combater quem ainda desmata ilegalmente. Um outro pesquisador do mesmo grupo da UFMG, o Raoni Raj\u00e3o, que hoje atua no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente, cunhou h\u00e1 algum tempo um termo para definir esse comportamento de uma parte do setor de destruir as bases que d\u00e3o sustenta\u00e7\u00e3o para o pr\u00f3prio neg\u00f3cio: agrosuic\u00eddio. Pois \u00e9.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 de hoje que a ci\u00eancia alerta que o avan\u00e7o do desmatamento na Amaz\u00f4nia para a abertura de novas \u00e1reas para a agropecu\u00e1ria \u00e9 um tiro no p\u00e9 do pr\u00f3prio setor. Por motivos j\u00e1 muito bem conhecidos, como o fato de que a floresta produz a chuva que cai sobre as planta\u00e7\u00f5es. 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