{"id":322258,"date":"2024-02-13T07:00:41","date_gmt":"2024-02-13T10:00:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=322258"},"modified":"2024-02-13T07:17:29","modified_gmt":"2024-02-13T10:17:29","slug":"combate-as-milicias-precisa-investigar-policiais-e-politicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/combate-as-milicias-precisa-investigar-policiais-e-politicos\/","title":{"rendered":"Combate \u00e0s mil\u00edcias precisa investigar policiais e pol\u00edticos"},"content":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos meses, not\u00edcias envolvendo confrontos armados entre mil\u00edcias e assassinatos cometidos por integrantes desses grupos criminosos ganharam o notici\u00e1rio nacional. Em um dos casos, em outubro de 2023, tr\u00eas m\u00e9dicos foram assassinados em um quiosque na Praia da Barra da Tijuca. Segundo a pol\u00edcia, um deles possivelmente foi confundido com uma lideran\u00e7a de um grupo rival.<\/p>\n<p>Em janeiro deste ano, um atentado em outro quiosque da regi\u00e3o vitimou um suspeito de participar de uma mil\u00edcia da zona oeste da cidade.<\/p>\n<p>O conflito pelo controle da principal mil\u00edcia da zona oeste da cidade do Rio Janeiro come\u00e7ou depois da morte de Wellington da Silva Braga, conhecido como Ecko, em 2021, e se acentuou depois da pris\u00e3o de Lu\u00eds Ant\u00f4nio da Silva Braga, conhecido como Zinho, irm\u00e3o e sucessor de Ecko, em dezembro de 2023.<\/p>\n<p>A disputa por territ\u00f3rios tem gerado confrontos armados em comunidades controladas por milicianos, o que provoca n\u00e3o apenas mortes de rivais como tamb\u00e9m amea\u00e7a a seguran\u00e7a de moradores dessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Para especialistas ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, um efetivo combate \u00e0s mil\u00edcias demanda a desarticula\u00e7\u00e3o dos esquemas de prote\u00e7\u00e3o que contam com a participa\u00e7\u00e3o de agentes do Estado e pol\u00edticos.<\/p>\n<p>A pris\u00e3o e morte de lideran\u00e7as operacionais desses grupos criminosos, como Ecko e Zinho, n\u00e3o resolve a situa\u00e7\u00e3o e apenas cria v\u00e1cuos de poder que fomentam conflitos armados pela disputa do controle territorial, avaliam os especialistas.<\/p>\n<p>\u201cAs mil\u00edcias s\u00e3o indissoci\u00e1veis de alguns grupos policiais, que oferecem prote\u00e7\u00e3o para a atua\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias. As mil\u00edcias possuem uma rela\u00e7\u00e3o com o Estado muito mais pr\u00f3xima do que o tr\u00e1fico. Ent\u00e3o, uma a\u00e7\u00e3o de repress\u00e3o estrat\u00e9gica \u00e0s mil\u00edcias precisa justamente atacar essas conex\u00f5es com o poder p\u00fablico\u201d, defende a pesquisadora Carolina Grillo, do Grupo de Estudos de Novas Ilegalidades (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/p>\n<p>O professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Michel Misse diz que n\u00e3o adianta apenas \u201ccombater o varejo da atividade criminosa\u201d.<\/p>\n<p>\u201cDiferente do tr\u00e1fico, as mil\u00edcias sempre tiveram capital pol\u00edtico. Sempre tiveram vereadores e deputados vinculados \u00e0 mil\u00edcia, alguns inclusive que se tornaram not\u00e1veis na Rep\u00fablica. Esse tipo de liga\u00e7\u00e3o com a pol\u00edtica \u00e9 uma forma de prote\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso atacar as estruturas superiores que permitem a manuten\u00e7\u00e3o desse sistema. N\u00e3o adianta ficar no varejo. O varejo \u00e9 substitu\u00edvel rapidamente. Voc\u00ea tem milhares de operadores doidos para entrar nesse neg\u00f3cio\u201d, explica.<\/p>\n<p>Segundo o pesquisador da Universidade Federal Rural Fluminense (UFRRJ) Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Souza Alves, sem haver uma mudan\u00e7a na forma de operar das estruturas de seguran\u00e7a p\u00fablica e no jogo pol\u00edtico em que elas est\u00e3o inseridas, a elimina\u00e7\u00e3o de um l\u00edder significa a abertura de um \u201cedital\u201d para que outra pessoa ou v\u00e1rias assumam o posto.<\/p>\n<p>\u201cV\u00e3o permanecer nessa estrutura aqueles que oferecem mais para essa estrutura. Ela est\u00e1 montada. Ela quer grana e quer voto que, no fundo, acabam se somando nos per\u00edodos eleitorais. Grana e voto s\u00e3o o que decidem essa continuidade de estrutura de poder aqui no Rio de Janeiro. Ent\u00e3o, quando voc\u00ea opera em cima de morte de pessoa de lideran\u00e7a, principalmente voc\u00ea t\u00e1 abrindo um edital para ver quem \u00e9 que continua\u201d, afirma Alves.<\/p>\n<p><strong>Origem<\/strong><br \/>\nA rela\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias com a pol\u00edcia e os pol\u00edticos \u00e9 hist\u00f3rica, segundo o professor da UFRRJ Jos\u00e9 Cl\u00e1udio. Segundo ele, as mil\u00edcias surgem como uma evolu\u00e7\u00e3o dos grupos de exterm\u00ednio policiais, que aparecem na d\u00e9cada de 60 na Baixada Fluminense.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 dimens\u00f5es em comum entre os grupos de exterm\u00ednio e as mil\u00edcias. A base do surgimento de ambos grupos s\u00e3o servidores p\u00fablicos de seguran\u00e7a. Esses grupos s\u00e3o especialistas em provocar dano e sofrimento \u00e0 vida alheia, porque s\u00e3o treinados dentro da estrutura de seguran\u00e7a p\u00fablica. Outro ponto que conecta os dois grupos \u00e9 o fato de eles elegerem os seus representantes. Ent\u00e3o eles t\u00eam trajet\u00f3rias pol\u00edticas bem sucedidas\u201d, disse Alves, ressaltando que a mil\u00edcia passa a explorar uma gama muito maior de atividades criminosas do que seus predecessores.<\/p>\n<p>Essa parceria com agentes do Estado e a pol\u00edtica permite a r\u00e1pida expans\u00e3o das mil\u00edcias, de acordo com Carolina Grillo, principalmente na d\u00e9cada de 90, mas que se manteve em anos mais recentes. Um estudo publicado em 2021 pelo Geni\/UFF mostrou que esses grupos criminosos j\u00e1 dominavam 58,6% de todos os territ\u00f3rios controlados por fac\u00e7\u00f5es criminosas na cidade do Rio.<\/p>\n<p>O mesmo estudo mostrou que as opera\u00e7\u00f5es policiais em \u00e1reas de mil\u00edcia representavam apenas 6,5% do total, enquanto as outras 93,5% a\u00e7\u00f5es ocorreram em comunidades dominadas por fac\u00e7\u00f5es especializadas no tr\u00e1fico de drogas ou em regi\u00f5es em disputa.<\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea vai ter uma percep\u00e7\u00e3o por parte do poder p\u00fablico que \u00e9 um pouco leniente. Teve uma s\u00e9rie de autoridades que chegaram a se manifestar publicamente considerando que elas [mil\u00edcias] fossem um mal menor em rela\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico. As mil\u00edcias se expandem principalmente porque elas contam com a condescend\u00eancia do Estado, inclusive com a participa\u00e7\u00e3o de agentes p\u00fablicos, elas n\u00e3o foram sujeitas \u00e0 repress\u00e3o no seu per\u00edodo inicial\u201d, diz Carolina.<\/p>\n<p>Ela explica que hoje ainda h\u00e1 mais leni\u00eancia com a mil\u00edcia do que com o tr\u00e1fico de drogas, mas j\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel perceber algumas a\u00e7\u00f5es mais contundentes contra esses grupos criminosos, inclusive com a participa\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF) e do Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio de Janeiro (MPRJ).<\/p>\n<p>Por meio de nota, a Pol\u00edcia Civil fluminense informou que tem atua\u00e7\u00e3o constante de combate \u00e0s mil\u00edcias e que prendeu ou matou, em confronto, v\u00e1rias lideran\u00e7as criminosas, entre eles Ecko e Zinho.<\/p>\n<p>\u201cOs agentes tamb\u00e9m fecharam diversos estabelecimentos ilegais, como centrais clandestinas de internet e TV a cabo; dep\u00f3sitos de g\u00e1s; farm\u00e1cias; f\u00e1bricas de bebidas, entre outros. Centenas de armas e milhares de muni\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m foram apreendidas com os milicianos. A Pol\u00edcia Civil ressalta que as a\u00e7\u00f5es causaram preju\u00edzo de mais de R$ 2,5 bilh\u00f5es para as organiza\u00e7\u00f5es criminosas\u201d, informa a Pol\u00edcia Civil em nota.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos meses, not\u00edcias envolvendo confrontos armados entre mil\u00edcias e assassinatos cometidos por integrantes desses grupos criminosos ganharam o notici\u00e1rio nacional. Em um dos casos, em outubro de 2023, tr\u00eas m\u00e9dicos foram assassinados em um quiosque na Praia da Barra da Tijuca. 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