{"id":322449,"date":"2024-02-16T00:02:43","date_gmt":"2024-02-16T03:02:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=322449"},"modified":"2024-02-15T22:57:46","modified_gmt":"2024-02-16T01:57:46","slug":"s-o-s-ambiente-cade-a-arvore-que-deveria-estar-aqui","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/s-o-s-ambiente-cade-a-arvore-que-deveria-estar-aqui\/","title":{"rendered":"S.O.S ambiente! Cad\u00ea a \u00e1rvore que deveria estar aqui?"},"content":{"rendered":"<p>Pulei o Carnaval nos bloquinhos de S\u00e3o Paulo ao lado de uma amiga que fazia uma sauda\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada toda vez que se deparava com uma \u00e1rvore no caminho. Sob as altas temperaturas que faziam a gente suar tanto que nem dava vontade de ir ao banheiro, ela parava debaixo das sombras que encontr\u00e1vamos no trajeto, levantava os bra\u00e7os, jogava a cabe\u00e7a para tr\u00e1s e entoava, dram\u00e1tica: &#8220;Oh, aben\u00e7oada \u00e1rvore, obrigada pelo ventinho, obrigada por ser nosso ar condicionado natural.&#8221;<\/p>\n<p>A gente ria e seguia pulando. E suando. Mas os breves instantes de al\u00edvio e a brincadeira estavam carregados de uma \u00f3bvia e bem s\u00e9ria constata\u00e7\u00e3o: S\u00e3o Paulo precisa de um plano urgente de adapta\u00e7\u00e3o aos eventos de calor extremo que j\u00e1 estamos enfrentando e vamos ver cada vez mais. E parte desse plano passa, \u00e9 claro, por melhorar a arboriza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A gente at\u00e9 deu sorte. N\u00e3o era o bairro mais verde do mundo, mas dava para encontrar um refresco aqui, outro ali. E, se n\u00e3o vencia a quentura, pelo menos tamb\u00e9m ajudava o fato de ser uma vizinhan\u00e7a com v\u00e1rias casas, com velhinhos e crian\u00e7as se divertindo esguichando \u00e1gua na galera. Mas n\u00e3o foi a regra na cidade.<\/p>\n<p>Fazer calor no Carnaval n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 de se esperar, como \u00e9 algo desejado por quem quer curtir a festa de Momo. Est\u00e1 eternizado na marchinha Alala\u00f4, nas fantasias diminutas. A chuva que fique para a Quarta-feira de Cinzas (que n\u00e3o falhou neste ano). Mas as altas temperaturas desta semana foram bem al\u00e9m do toler\u00e1vel para muitos.<\/p>\n<p>Leio na Folha que mais de 2 mil pessoas buscaram atendimento nos postos de sa\u00fade instalados nos megablocos de S\u00e3o Paulo por causa do calor excessivo. O show de Pabllo Vittar foi interrompido, com f\u00e3s passando mal. Em Salvador, mais de 4 mil pessoas buscaram atendimento.<\/p>\n<p>No Rio, a apresenta\u00e7\u00e3o de Ludmilla foi encerrada mais cedo depois que foli\u00f5es ca\u00edram desmaiados ao redor do trio el\u00e9trico. Ainda de acordo com a reportagem, a cantora chegou a declarar: &#8220;O clima a gente n\u00e3o consegue controlar&#8221;. O t\u00edtulo da mat\u00e9ria entregava o fim do bom humor. Para o jornal, o calor foi o &#8220;vil\u00e3o&#8221; do Carnaval.<\/p>\n<p>&#8220;Entendo o apelo do t\u00edtulo, mas eu diria que o vil\u00e3o \u00e9 outro. Ou s\u00e3o outros. A come\u00e7ar pela humanidade mesmo, viciada em combust\u00edveis f\u00f3sseis, que joga g\u00e1s carb\u00f4nico adoidado na atmosfera como se n\u00e3o houvesse amanh\u00e3, aquecendo o planeta a temperaturas sem precedentes no registro hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>Mas puxando para algu\u00e9m mais perto, mais palp\u00e1vel, eu culparia os respons\u00e1veis pelo planejamento urbano, que n\u00e3o tratam de adequar a cidade para o inevit\u00e1vel: vai esquentar mais. Al\u00f4 Ricardo Nunes, al\u00f4 ex-prefeitos, al\u00f4 candidatos \u00e0 prefeitura.<\/p>\n<p>As a\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias s\u00e3o diversas, mas j\u00e1 que comecei com a justa ode que minha amiga fazia \u00e0s nossas amigas \u00e1rvores no Carnaval, vou aqui citar um estudo que n\u00e3o s\u00f3 endossa o sentimento dela como refor\u00e7a que a arboriza\u00e7\u00e3o deveria ser algo levado bem a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o retratada na pesquisa \u00e9 bastante diversa da que estamos falando aqui, mas a mensagem principal \u00e9 a mesma, ent\u00e3o pe\u00e7o ao caro leitor que releve o exemplo norte-americano-centrado.<\/p>\n<p>Trata-se de uma an\u00e1lise feita nos Estados Unidos sobre o impacto que o reflorestamento em parte do pa\u00eds teve no controle do aumento de temperatura. Assim como aconteceu aqui, a costa leste americana passou por um grande processo de desmatamento ap\u00f3s a coloniza\u00e7\u00e3o inglesa. Mais de 90% da vegeta\u00e7\u00e3o original desapareceu, entre o fim do s\u00e9culo 18 e o come\u00e7o do 20, em decorr\u00eancia da explora\u00e7\u00e3o de madeira e da abertura de \u00e1reas para a agricultura.<\/p>\n<p>A partir dos anos 1930, por\u00e9m, com a migra\u00e7\u00e3o da agricultura para o oeste e o abandono dos cultivos de baixa produtividade, teve in\u00edcio um esfor\u00e7o de recuperar as florestas que acabou se firmando ao longo das d\u00e9cadas. Em quase um s\u00e9culo, cerca de 15 milh\u00f5es de hectares (ou 150 mil km2) cresceram nessas \u00e1reas.<\/p>\n<p>Para compara\u00e7\u00e3o, essa \u00e9 mais ou menos a quantidade que ainda existe de Mata Atl\u00e2ntica mais preservada. Segundo o Atlas da Mata Atl\u00e2ntica, desenvolvido pelo Inpe e pela SOS Mata Atl\u00e2ntica, restam no pa\u00eds cerca de 16,2 milh\u00f5es de hectares de florestas nativas acima de 3 hectares no bioma que \u00e9 o mais devastado do Brasil. \u00c9 o equivalente a 12,4% da \u00e1rea de cobertura original.<\/p>\n<p>O trabalho americano, liderado por Kim Novick e Mallory Barnes, da Universidade Indiana, aponta que a restaura\u00e7\u00e3o florestal contribuiu para conter o aquecimento da temperatura na por\u00e7\u00e3o leste dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Observa\u00e7\u00f5es terrestres e de sat\u00e9lite mostraram que as florestas resfriaram a superf\u00edcie da terra em 1\u00b0C a 2\u00b0C anualmente na compara\u00e7\u00e3o com pastagens e \u00e1reas de cultivo pr\u00f3ximas. E vejam que maravilha. O efeito de resfriamento promovido pelas \u00e1rvores foi ainda mais forte por volta do meio-dia no ver\u00e3o, deixando o clima regional entre 2\u00b0C a 5\u00b0C mais fresco.<\/p>\n<p>E esse impacto n\u00e3o foi sentido somente em terra, mas se estendeu tamb\u00e9m para a superf\u00edcie do ar mais pr\u00f3xima, reduzindo em at\u00e9 1\u00b0C a temperatura ao meio-dia nas regi\u00f5es reflorestadas, em compara\u00e7\u00e3o com as sem floresta.<\/p>\n<p>As conclus\u00f5es foram publicadas nesta semana no peri\u00f3dico Earth&#8217;s Future, da Uni\u00e3o Geof\u00edsica Americana (AGU). De acordo com os autores, o amplo reflorestamento ajudou a conter, regionalmente, o aumento da temperatura provocado pelo aquecimento global e deve ser encarado como uma ferramenta de adapta\u00e7\u00e3o a ser combinada com os esfor\u00e7os de reduzir as emiss\u00f5es de gases de efeito estufa.<\/p>\n<p>O trabalho aponta que durante o per\u00edodo de recupera\u00e7\u00e3o das florestas, enquanto as temperaturas na Am\u00e9rica do Norte subiram em m\u00e9dia 0,7\u00b0C, na costa leste e no sudeste do pa\u00eds elas ca\u00edram 0,3\u00b0C entre 1900 e 2000.<\/p>\n<p>Essa diferen\u00e7a de temperatura j\u00e1 tinha sido observada, mas se imaginava que poderia ser por outros motivos. \u00c9 a primeira vez que uma pesquisa sugere a rela\u00e7\u00e3o com o reflorestamento na costa leste americana.<\/p>\n<p>Claro que estamos falando de um esfor\u00e7o de quase um s\u00e9culo de retomada da floresta, em uma \u00e1rea muito grande, com um outro tipo de vegeta\u00e7\u00e3o. Numa cidade como S\u00e3o Paulo a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 completamente outra. Mas s\u00f3 imagina que del\u00edcia se tivesse um mont\u00e3o de \u00e1rvores nas ruas?<\/p>\n<p>Quer dizer: \u00e1rvore at\u00e9 tem, mas de forma totalmente heterog\u00eanea. Enquanto alguns bairros, como Alto de Pinheiros ou Jardins, t\u00eam uma cobertura alta, no centro e na zona leste ela \u00e9 baix\u00edssima, o que refor\u00e7a a desigualdade social. Mas isso \u00e9 papo para outra newsletter.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pulei o Carnaval nos bloquinhos de S\u00e3o Paulo ao lado de uma amiga que fazia uma sauda\u00e7\u00e3o engra\u00e7ada toda vez que se deparava com uma \u00e1rvore no caminho. 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