{"id":322931,"date":"2024-02-22T06:44:25","date_gmt":"2024-02-22T09:44:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=322931"},"modified":"2024-02-22T06:44:07","modified_gmt":"2024-02-22T09:44:07","slug":"gado-uruguaio-ganha-um-sotaque-la-de-piripiri","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gado-uruguaio-ganha-um-sotaque-la-de-piripiri\/","title":{"rendered":"Gado uruguaio ganha um sotaque l\u00e1 de Piripiri"},"content":{"rendered":"<p>Foi no s\u00e9culo passado. Mais precisamente nas d\u00e9cadas de 70 e 80, quando Paulo Diniz deixou sua Piripiri para encantar o Brasil. N\u00e3o que a sua voz fosse a de um bar\u00edtono. Mas o que ele cantava o povo entoava junto. O artista, por\u00e9m, ao deixar sua cidade natal, deixou a porteira aberta. E a &#8216;terra do canavial&#8217; v\u00ea a passagem, hoje, de imensas boiadas berrando em sotaque portunhol.<\/p>\n<p>\u00c9 carne uruguaia, de primeira, para as bocas mais refinadas. E enquanto o int\u00e9rprete e compositor piauiense ouvia um coral de milh\u00f5es de vozes, aprendia-se, em outras plagas, a saga de como fazer boi mastigar cana sem que os aventureiros (perdoa-se aqui o trocadilho) entrassem em cana. Ao menos por ora.<\/p>\n<p>O certo, alardeiam por a\u00ed como quem conta um conto aumenta um ponto, \u00e9 que em meio \u00e0s sombras da corrup\u00e7\u00e3o, surge uma hist\u00f3ria peculiar, onde o inusitado encontra a contamina\u00e7\u00e3o em aulas pr\u00e1ticas de f\u00e1cil, embora sujo, aprendizado. O assunto transporta para um indiv\u00edduo que, por ironia do destino, se v\u00ea envolvido em um com\u00e9rcio inesperado: o gado do Uruguai, que atravessa a fronteira l\u00e1 no Chu\u00ed e divisas estaduais; faz uma pausa nas terras catarinenses para descansar e segue seu destino a meio caminho do Oiapoque.<\/p>\n<p>Nos meandros da gan\u00e2ncia e da ilegalidade, esse indiv\u00edduo, aluno bem-sucedido, supostamente an\u00f4nimo como muitos de sua esp\u00e9cie, come\u00e7ou sua jornada como um t\u00edpico corrupto: subornos, esquemas fraudulentos e enriquecimento il\u00edcito eram seu modus operandi. No entanto, como toda trama digna de um conto surpreendente, seu norte (ou Nordeste) enfrentou lances inesperados.<\/p>\n<p>Tudo teve in\u00edcio numa noite enevoada, em um daqueles encontros secretos em um restaurante luxuoso. A li\u00e7\u00e3o, obscura, foi dada com a facilidade com que uma professora ensina o b\u00ea-a-b\u00e1. A prova dos nove, literalmente, consistia na entrega de uma picareta, para viabilizar as picaretagens. Tendo l\u00e1 em Piripiri a porteira aberta, abria-se, quase que, geograficamente, no meio do caminho, uma verdadeira mina de ouro. O vil metal, contudo, era representado por lobos-guar\u00e1 meticulosamente enjaulados e aquele peixe grande encaixado em uma mala, que mesmo n\u00e3o sendo uma Baleia Azul, dela tem a mesma cor.<\/p>\n<p>Acertou-se que o vizinho Uruguai, famoso por sua pecu\u00e1ria, seria o palco para transa\u00e7\u00f5es lucrativas. O corrupto, inicialmente hesitante, foi lentamente seduzido pela perspectiva de ganhos ainda maiores.<\/p>\n<p>Assim, munido de sua ast\u00facia corrompida e uma dose generosa de descaramento, ele se aventurou nos campos de Mujica. L\u00e1, entre pastagens verdejantes e sob o olhar vigilante dos bois, nosso personagem, sujeito oculto, aprendeu os segredos do com\u00e9rcio de gado. Aprender a distinguir entre as melhores ra\u00e7as, entender os processos de transporte e at\u00e9 mesmo a arte de vencer as fronteiras sem levantar suspeitas tornaram-se parte de seu novo repert\u00f3rio.<\/p>\n<p>A tarefa, \u00e9 verdade, n\u00e3o era &#8211; como n\u00e3o tem sido &#8211; f\u00e1cil. Mas a professora ensinou, em novas aulas, como ser um vestibulando de sucesso, capaz de promover alquimia com uma mistura de habilidades. Chegara a hora da log\u00edstica refinada, conex\u00f5es obscuras e uma disposi\u00e7\u00e3o para correr riscos insanos. Mas nosso protagonista, agora transformado de mero corrupto a grande comprador de gado, abra\u00e7ou esse desafio com uma determina\u00e7\u00e3o surpreendente.<\/p>\n<p>As noites eram pontuadas, onde carretas transportando o gado atravessavam vias marginais pouco usuais, na tentativa de evitar os olhares curiosos das autoridades. E, como se desafiando as pr\u00f3prias leis da ironia, aquele que antes subornava agora era subornado, participando de um jogo perigoso de gato e rato com as for\u00e7as da lei.<\/p>\n<p>O enredo se desenrola com reviravoltas dignas de um thriller. Cada carga que chegava l\u00e1 para os lados de Piripiri era uma vit\u00f3ria suada, uma dose de adrenalina misturada com o sabor doce do sucesso il\u00edcito. Mas, como em todas as hist\u00f3rias sombrias, o destino finalmente alcan\u00e7a seu protagonista.<\/p>\n<p>Numa manh\u00e3 nebulosa, enquanto o sol tentava romper as nuvens no horizonte, as autoridades, preparadas com a precis\u00e3o de uma armadilha bem montada, fecharam finalmente o cerco. O corrupto que se tornou &#8216;criador&#8217; de gado foi capturado; ele viu, ent\u00e3o, seu imp\u00e9rio de ilegalidades desmoronando diante de seus olhos.<\/p>\n<p>A aventura \u00e9 dentro dessas linhas. E assim termina a saga do lobo-guar\u00e1 (mau) que aprendeu a comprar gado no Uruguai e faz\u00ea-lo garoupa. Uma hist\u00f3ria de gan\u00e2ncia, ironia e o resultado ciclo de a\u00e7\u00e3o e consequ\u00eancia. Uma hist\u00f3ria sombria, que nos lembra que, mesmo nas profundezas da corrup\u00e7\u00e3o, a vida pode surpreender de maneiras inimagin\u00e1veis.<\/p>\n<p>O resto, como diria Stanislaw Ponte Preta, \u00e9 parte do festival de besteiras que continua assolando &#8211; e assombrando &#8211; o pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi no s\u00e9culo passado. Mais precisamente nas d\u00e9cadas de 70 e 80, quando Paulo Diniz deixou sua Piripiri para encantar o Brasil. N\u00e3o que a sua voz fosse a de um bar\u00edtono. Mas o que ele cantava o povo entoava junto. O artista, por\u00e9m, ao deixar sua cidade natal, deixou a porteira aberta. 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