{"id":323104,"date":"2024-02-25T11:15:26","date_gmt":"2024-02-25T14:15:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=323104"},"modified":"2024-02-24T20:13:32","modified_gmt":"2024-02-24T23:13:32","slug":"lula-expos-a-luz-o-cinismo-da-comunidade-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lula-expos-a-luz-o-cinismo-da-comunidade-internacional\/","title":{"rendered":"Lula exp\u00f4s \u00e0 luz o cinismo da comunidade internacional&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas, cometeram crimes contra a humanidade e t\u00eam de responder perante a hist\u00f3ria. Seus crimes n\u00e3o s\u00e3o compar\u00e1veis. S\u00e3o um s\u00f3.&#8221; \u2013 Luiz Eduardo Soares, &#8220;As palavras apodrecem&#8221;<\/p>\n<p>Em 1942, a chamada grande guerra estava em pleno curso e a esperan\u00e7a de vit\u00f3ria dos aliados era contida pelos avan\u00e7os das tropas do Eixo. Lutava-se praticamente em toda a Europa, e em todas as frentes. Na contram\u00e3o das invas\u00f5es dos ex\u00e9rcitos alem\u00e3es, crescia a resist\u00eancia quase suicida dos partisans e dos maquis. Eram as for\u00e7as irregulares da Segunda Guerra. Suas armas, legitimadas pelas circunst\u00e2ncias, eram a emboscada, a sabotagem, o que estivesse \u00e0 m\u00e3o, o que fosse poss\u00edvel, o que fosse \u00fatil para desestabilizar o advers\u00e1rio. Visavam a intimidar, abater o moral dos nazistas, retardar ou paralis\u00e1-los por meio do terror.<\/p>\n<p>No dia 27 de maio desse 1942, o grupo tcheco de resist\u00eancia (recrutado e treinado, para essa opera\u00e7\u00e3o pelo Special Operations Executive, SOE, do Reino Unido) assassinou, em Praga, o oficial SS Reinhard Heydrich, na chamada &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Antropoide&#8221;. Eis a motiva\u00e7\u00e3o para o que ficou conhecido como Massacre de L\u00eddice, uma cidadezinha de pouco mais de 500 habitantes, ao norte da capital tcheca. A repres\u00e1lia nazista n\u00e3o se fez esperar. No dia 1\u00ba de junho a cidade foi invadida, todas as suas constru\u00e7\u00f5es destru\u00eddas, inclusive o cemit\u00e9rio, os homens fuzilados, as mulheres e crian\u00e7as sobreviventes encaminhadas para campos de exterm\u00ednio. A vila foi incendiada; as casas que se conservaram de p\u00e9, demolidas.<\/p>\n<p>Essa pol\u00edtica de terra arrasada foi registrada pela hist\u00f3ria como ato de barb\u00e1rie de um estado fascista, poderos\u00edssimo, contra uma popula\u00e7\u00e3o indefesa. Barb\u00e1rie e covardia. O Brasil, solid\u00e1rio na dor, batizou de L\u00eddice um distrito do munic\u00edpio fluminense de Rio Claro. Diversos pa\u00edses fizeram o mesmo.<\/p>\n<p>Todos lembramos, e os meios de comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o permitem que os mais alienados esque\u00e7am o que ocorreu no \u00faltimo 7 de outubro: militantes do Hamas, grupo \u00e1rabe de resist\u00eancia \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o das terras palestinas pelo Estado de Israel, em ato condenado em todo o mundo como terrorismo, invadiu um festival de m\u00fasica eletr\u00f4nica num Kibutz em Israel (pr\u00f3ximo \u00e0 Faixa de Gaza), assassinou algo perto de 1.400 pessoas e sequestrou outras 120 ou 140, dependendo da fonte. O n\u00famero de mortos foi ampliado pela a\u00e7\u00e3o das for\u00e7as israelenses, que atiraram, propositadamente ou n\u00e3o, contra cidad\u00e3os judeus.<\/p>\n<p>A resposta do Estado de Israel, uma ocupa\u00e7\u00e3o colonial, financiada e protegida pelos EUA e a Europa ocidental, tamb\u00e9m n\u00e3o se fez esperar. A retalia\u00e7\u00e3o se desenha numa opera\u00e7\u00e3o de aniquilamento que j\u00e1 matou mais de 30 mil civis, em sua maioria mulheres, crian\u00e7as e idosos, e em poucos dias dever\u00e1 comemorar a destrui\u00e7\u00e3o de toda a infraestrutura de Gaza, todas as suas constru\u00e7\u00f5es civis, todos os hospitais. A paisagem de hoje \u00e9 a dos destro\u00e7os \u2013 cad\u00e1veres empilhados, covas coletivas, n\u00e3o h\u00e1 mais escolas nem abrigos, escasseia a \u00e1gua pot\u00e1vel, crian\u00e7as, mulheres e homens de todas as idades mutilados. N\u00e3o h\u00e1 mais escolas nem abrigos. E o Ocidente sabota a ajuda humanit\u00e1ria da ONU.<\/p>\n<p>Mas essa ainda n\u00e3o \u00e9 a heran\u00e7a toda, pois a morte se aproxima de Rafah, no Sul da Faixa, acercando-se cada vez mais do Egito ao tempo em que o fogo de Israel fustiga as fronteiras do L\u00edbano.<\/p>\n<p>Gaza, como se sabe, tem uma popula\u00e7\u00e3o de cerca de 2,6 milh\u00f5es, espremida numa faixa que se estreita permanentemente, segundo a fome de terra de seu inimigo luciferino. Ali, os ataques mortais se fazem por terra e pelo ar, com tanques , avi\u00f5es, drones e foguetes. Mas, como em L\u00eddice, n\u00e3o h\u00e1 guerra, n\u00e3o h\u00e1 &#8220;conflito&#8221;, como bem denunciou o presidente Lula, simplesmente porque n\u00e3o existem for\u00e7as em confronto: de um lado o poderoso ex\u00e9rcito invasor, furioso; de outro, uma popula\u00e7\u00e3o civil desarmada, sem teto, e sem expectativa de futuro, clamando por \u00e1gua e alimentos, exilada em sua pr\u00f3pria terra. De novo, como puni\u00e7\u00e3o, a pol\u00edtica de terra arrasada.<\/p>\n<p>O horror n\u00e3o come\u00e7ou no 7 de outubro. E o ataque a Gaza n\u00e3o \u00e9 o primeiro; mas pode ser o \u00faltimo, pois em breve n\u00e3o haver\u00e1 mais Gaza. Em 1982, nos dias 16 a 20 de setembro, grupos de milicianos invadiram os campos de refugiados palestinos de Sabra e Shatila, deixando para tr\u00e1s, assassinados, algo como 2 mil civis palestinos desarmados. Para aproveitar a viagem, mataram cem libaneses e s\u00edrios. A autoria intelectual da carnificina \u00e9 atribu\u00edda a Ariel Sharon, comandante do ex\u00e9rcito da ocupa\u00e7\u00e3o e futuro primeiro ministro de Israel.<\/p>\n<p>O nazismo fez escola entre suas v\u00edtimas, mas a bestialidade n\u00e3o legitima o sionismo, fundamento do Estado judeu, e muito menos absolve o genoc\u00eddio continuado dos palestinos.<\/p>\n<p>Gaza \u00e9 o outro lado do Gueto de Vars\u00f3via. Os palestinos de hoje revivem, com dor inimagin\u00e1vel, os genoc\u00eddios dos arm\u00eanios, dos ciganos, dos povos que h\u00e1 s\u00e9culos v\u00eam sendo dizimados, como foram os crist\u00e3os, que tamb\u00e9m se esquecem de seu mart\u00edrio, como foram os peregrinos sem destino, e caminhantes dos desertos. Os vitimados de ontem s\u00e3o os algozes de hoje. Espanta que o massacrante de nossos dias seja o Estado de um povo que sofreu o Holocausto, al\u00e9m de discrimina\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel por s\u00e9culos; povo que ainda hoje \u00e9 objeto de preconceito e discrimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O trauma, por maior que seja a viol\u00eancia, n\u00e3o ensina. \u00c9 uma n\u00e3o-experi\u00eancia. Algozes n\u00e3o s\u00e3o pedagogos.<\/p>\n<p>\u00c9 monstruoso e inaceit\u00e1vel o sil\u00eancio dos governos e dos l\u00edderes do mundo que se diz desenvolvido e &#8220;civilizado&#8221; que est\u00e1 na raiz das trag\u00e9dias humanas do Oriente, da \u00c1sia e da \u00c1frica. \u00c9 constrangedora a incapacidade de a\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es de defesa dos direitos humano \u2013 violentados, neste caso, de fio a pavio. \u00c9 chocante a invalidez paquid\u00e9rmica da ONU, condicionada por um conselho de seguran\u00e7a manietado pelo poder de veto dos EUA. Outra trag\u00e9dia \u00e9 a fal\u00eancia do Tribunal Penal Internacional, comprometido com os interesses b\u00e9licos da OTAN, assinalando o suic\u00eddio da comunidade internacional. \u00c9 particularmente constrangedor o sil\u00eancio dos estados \u00e1rabes.<\/p>\n<p>O Holocausto, hoje como ontem, revela nossa mis\u00e9ria moral; ontem e agora, os Estados poderosos, a come\u00e7ar pelos EUA, podendo fazer cessar a carnificina, a alimentam, e as grandes na\u00e7\u00f5es permanecem silentes diante dos massacres e dos genoc\u00eddios como se a morte dos povos ditos de &#8220;segunda classe&#8221; \u2013 africanos, \u00e1rabes, ciganos, arm\u00eanios, n\u00e3o lhes dissesse respeito. E assim, pela omiss\u00e3o e pelo sil\u00eancio, o mundo desenvolvido que se autoconsidera &#8220;civilizado&#8221; associou-se ao crime de lesa-humanidade.<\/p>\n<p>Desse opr\u00f3bio, por\u00e9m, salvou-nos o presidente Lula. O Brasil, por seu interm\u00e9dio, quebrou o gelo da omiss\u00e3o. E n\u00e3o \u00e9 ele quem deve satisfa\u00e7\u00f5es ao protetorado sionista, mas os dirigentes deste, consabidos criminosos de guerra, que devem um pedido de desculpas \u00e0 humanidade agredida, conforme observou Celso Amorim. Lula ergueu-se da mediocridade circundante, covarde, e emprestou dignidade ao Brasil, que se afirma, quando nossa pol\u00edtica externa volta aos seus grandes dias..<\/p>\n<p>\u00c9 rico de ensinamentos o atrito do presidente Lula com o enclave sionista, o qual n\u00e3o admite restri\u00e7\u00f5es ao exerc\u00edcio do auto-atribu\u00eddo direito de trucidar palestinos, preferencialmente desarmados, no gueto de Gaza e alhures, para consolidar o seu Lebensraum.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de expor \u00e0 luz do meio dia o cinismo da comunidade internacional, que, muito verbal e ativa noutros casos (como na Guerra da Ucr\u00e2nia), neste espera sentada que a Palestina tombe como o arraial de Canudos para chamar o genoc\u00eddio de genoc\u00eddio. O caso faz cair como um viaduto a m\u00e1scara de muitos &#8220;progressistas&#8221; que votaram no petista no \u00faltimo pleito porque do outro lado estava quem estava, e assim os fatos exp\u00f5em, na pol\u00edtica, os limites e contradi\u00e7\u00f5es da frente formada em 2022.<\/p>\n<p>A alian\u00e7a heterodoxa realizou seu destino quando contribuiu para a historicamente necess\u00e1ria elei\u00e7\u00e3o de Lula. Mas, sem surpresa para os estrategistas, o conglomerado pol\u00edtico se revela incapaz de sustentar um governo de centro-esquerda, o projeto de Lula e do PT, que o presidente, neste momento, se revela disposto a levar a cabo, quando parecem vencidas as amea\u00e7as que circundavam a estabilidade do governo e a continuidade do mandato presidencial.<\/p>\n<p>Os apoiadores (mais que aliados), recentes atrelam-se a um programa m\u00ednimo, baseado na manuten\u00e7\u00e3o da &#8220;austeridade fiscal&#8221; (n\u00e3o t\u00e3o austera para o andar de cima), melhora do clima das rela\u00e7\u00f5es federativas e pouco arrojo na diplomacia, pavimentando o caminho para a t\u00e3o sonhada &#8220;terceira via&#8221;. Mas esta suicidou-se com a socialdemocracia paulista.<\/p>\n<p>Em s\u00edntese, o suposto na ades\u00e3o: tudo deve ficar como dantes no Castelo de Abrantes.<\/p>\n<p>Eis que Lula sobe o tom e, num gesto de ousadia, imbu\u00eddo dos princ\u00edpios elencados no art. 4\u00ba da Constitui\u00e7\u00e3o brasileira, faz, na \u00c1frica, uma declara\u00e7\u00e3o que aponta para a \u00f3bvia similitude entre o massacre em curso e aqueles promovidos por Hitler contra os judeus, ciganos, comunistas, gays, doentes f\u00edsicos e mentais&#8230; Correla\u00e7\u00e3o que, de resto, centenas de judeus n\u00e3o intoxicados pela hasbar\u00e1, a incans\u00e1vel m\u00e1quina de propaganda sionista, v\u00eam fazendo h\u00e1 d\u00e9cadas (o depoimento comovente do judeu Edgar Morin est\u00e1 amplamente dispon\u00edvel nas redes).<\/p>\n<p>Horrorizados como jamais se mostraram diante do horror, colunistas, comentaristas, politic\u00f3logos, congressistas etc. saem de suas tocas para repudiar, em un\u00edssono, n\u00e3o o crime, mas o seu delator. Colonizados, nossos intelectuais se transformam em correias de transmiss\u00e3o dos interesses da ideologia expedida dos centros de controle das grandes pot\u00eancias, vale dizer, do Pent\u00e1gono.<\/p>\n<p>Na malha\u00e7\u00e3o do Judas fora de \u00e9poca que testemunhamos na \u00faltima semana (e que em certos momentos trazia \u00e0 lembran\u00e7a o Febeap\u00e1 do inesquec\u00edvel Stanislaw Ponte Preta), escapou aos nossos diligentes &#8220;formadores de opini\u00e3o&#8221; a oportunidade de fazer reparos \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos EUA, que pela terceira vez bloquearam, no Conselho de Seguran\u00e7a da ONU, uma resolu\u00e7\u00e3o visando ao cessar-fogo no gueto de Gaza \u2013 fazendo-se acompanhar, desta feita, pela omiss\u00e3o covarde de sua ex-metr\u00f3pole, hoje col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Ao servilismo associa-se o velho complexo de vira-lata, que n\u00e3o entende que o Brasil possa, na cena internacional, falar de p\u00e9, erguer a voz e impor-se como sujeito: isto \u00e9, pensar com sua pr\u00f3pria cabe\u00e7a, ter voz pr\u00f3pria e caminhar com suas pr\u00f3prias pernas.<\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os agentes das carnificinas, o governo de Israel e os nazistas, cometeram crimes contra a humanidade e t\u00eam de responder perante a hist\u00f3ria. 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