{"id":323164,"date":"2024-02-26T00:00:18","date_gmt":"2024-02-26T03:00:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=323164"},"modified":"2024-02-26T08:15:50","modified_gmt":"2024-02-26T11:15:50","slug":"esperanca-de-justica-une-maes-de-vitimas-da-violencia-policial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/esperanca-de-justica-une-maes-de-vitimas-da-violencia-policial\/","title":{"rendered":"Esperan\u00e7a de justi\u00e7a une m\u00e3es de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial"},"content":{"rendered":"<p>A longa espera por justi\u00e7a \u00e9 uma realidade presente entre as m\u00e3es de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial do Rio de Janeiro. Deise Silva de Carvalho, coordenadora e fundadora do N\u00facleo de Mulheres v\u00edtimas da viol\u00eancia do Estado, perdeu o filho Andreu Luiz Silva de Carvalho, em 2008, na \u00e9poca com 17 anos. O adolescente estava internado no Centro de Triagem e Reabilita\u00e7\u00e3o (CRT) na Ilha do Governador, zona norte do Rio.<\/p>\n<p>Segundo a m\u00e3e, Andreu foi submetido \u00e0 tortura por uma hora e meia por seis agentes do sistema socioeducativo no CTR na Ilha do Governador.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o estou falando de um jovem que se encontrava vulner\u00e1vel dentro da favela e tomou um tiro [dado] pela PM [Pol\u00edcia Militar], mas de um jovem que se encontrava sob a tutela do Estado, que veio a \u00f3bito com traumatismo craniano, cortes contundentes, mand\u00edbula deslocada, pesco\u00e7o quebrado, deslocamento da retina dos olhos. Segundo depoimento dos jovens, Andreu foi torturado com um saco pl\u00e1stico sobre seu rosto\u201d, contou Deise, sobre parte da viol\u00eancia sofrida pelo filho morto e pelo qual luta por justi\u00e7a h\u00e1 16 anos.<\/p>\n<p>\u201cNo Brasil, n\u00e3o vivemos um estado democr\u00e1tico de direito e sim um estado de viola\u00e7\u00e3o ao direito da dignidade humana desses jovens. Andreu deveria pagar dentro das margens da lei, e n\u00e3o este estado democr\u00e1tico decidir quem vai viver ou morrer\u201d, afirmou. \u201cO Estado cometeu um crime e deve pagar pelo seu ato criminoso\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>H\u00e1 quase 10 anos, a fundadora do Grupo M\u00e3es de Manguinhos, Ana Paula Oliveira, luta pela puni\u00e7\u00e3o dos envolvidos no crime que provocou a morte do filho Jhonatha, no dia 14 de maio de 2014, quando voltava da casa da namorada, \u00e0s 16h30. Na \u00e9poca, o jovem tinha 19 anos e foi baleado com um tiro nas costas.<\/p>\n<p>Segundo Ana Paula, o policial autor do disparo j\u00e1 respondia, naquele momento, por triplo homic\u00eddio e duas tentativas de homic\u00eddio, al\u00e9m de ter sido preso um ano antes por causa de outros crimes. \u201cFato \u00e9 que ele vivia livre, leve e solto com a certeza da impunidade dentro da favela de Manguinhos, fazendo uma nova v\u00edtima que infelizmente foi o meu filho\u201d, acrescentou Ana Paula.<\/p>\n<p>O julgamento do policial no Tribunal de Justi\u00e7a do Rio estava previsto para 2 de fevereiro, mas foi transferido para 5 de mar\u00e7o. \u201cO que eu e minha fam\u00edlia esperamos \u00e9 que haja condena\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Escuta Popular<\/strong><br \/>\nEm busca da mudan\u00e7a do cen\u00e1rio de viol\u00eancia que as m\u00e3es costumam vivenciar, a plataforma de Direitos Humanos Dhesca Brasil [Direitos Humanos, Econ\u00f4micos, Sociais, Culturais e Ambientais], com apoio das organiza\u00e7\u00f5es filiadas Instituto Brasileiro de An\u00e1lises Sociais e Econ\u00f4micas (Ibase) e Justi\u00e7a Global, reuniu integrantes de movimentos sociais, defensores de direitos humanos, pesquisadores e familiares para a Escuta Popular sobre a Letalidade Policial e seus Impactos nas Inf\u00e2ncias Negras. O encontro foi no audit\u00f3rio do Ibase, na sede da A\u00e7\u00e3o da Cidadania, na Gamboa, regi\u00e3o portu\u00e1ria da capital.<\/p>\n<p>A ideia era que hist\u00f3rias marcantes como as de Ana Paula e Deise fossem ouvidas. Para isso, segundo a diretora do Ibase, Rita Correia Brand\u00e3o, m\u00e3es de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial foram convidadas a dar depoimento, que, ao fim, resultaram na carta compromisso com propostas para a resolu\u00e7\u00e3o dos crimes. Rita destacou que o objetivo \u00e9 implementar tais propostas de forma mais incisiva, mais comprometida.<\/p>\n<p>Como seguidora do Candombl\u00e9 do Ketu, Benilda Brito, do Coletivo de Mulheres Negras de Belo Horizonte, que integra a plataforma Dhesca, evocou Ogum, orix\u00e1 guerreiro e forte, para proteger o encontro. \u201c\u00c9 sob a prote\u00e7\u00e3o de Ogum que a gente est\u00e1 abrindo essa escuta para n\u00f3s e para qualquer outra religi\u00e3o que as pessoas queiram\u201d, enfatizou.<\/p>\n<p>&#8220;Na nossa concep\u00e7\u00e3o africana, as crian\u00e7as s\u00e3o as ibejis. As crian\u00e7as correm atr\u00e1s de bala, para chupar bala e comer doce, n\u00e3o s\u00e3o as balas que correm atr\u00e1s de nossas crian\u00e7as como a gente est\u00e1 vivendo hoje\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Benilda definiu a entidade como uma plataforma que denuncia viola\u00e7\u00f5es e destacou que, na gest\u00e3o atual, o coletivo tem sete mulheres negras na administra\u00e7\u00e3o. &#8220;A gente vem adubando esperan\u00e7a em tanto tempo de morte. Sou Benilda Brito, mulher negra, l\u00e9sbica, do ax\u00e9, sou quilombola e venho carregando no meu corpo todas as viol\u00eancias &#8216;cotidi\u00e1rias&#8217; do racismo. \u00c9 por isso que a gente est\u00e1 junto, por isso, que a gente luta tanto e conhece tanto a dor umas das outras. A gente sabe o que \u00e9 ser mulher negra neste pa\u00eds\u201d, desabafou.<\/p>\n<p>Na defesa de que os casos de viola\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser esquecidos, Benilda lembrou um ditado africano. \u201c\u2018A pessoa s\u00f3 morre quando \u00e9 esquecida\u2019. Nossos mortos t\u00eam voz e hist\u00f3ria e n\u00e3o ser\u00e3o esquecidos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p><strong>Lembran\u00e7a<\/strong><br \/>\nNo in\u00edcio do encontro, antes da apresenta\u00e7\u00e3o, que emocionou os presentes, o artista Dudu Neves, integrante do coletivo N\u00f3s da Rua, pediu a participa\u00e7\u00e3o de todos, para que durante um minuto, aplaudissem e cada um lembrasse os nomes de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial. Logo depois, por meio da poesia Conto Ancestral, falou de ancestralidade, de viol\u00eancia contra corpos pretos, de viola\u00e7\u00e3o de direitos, da morte da vereadora Marielle Franco e de povos origin\u00e1rios do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cQuerem me silenciar, minha hist\u00f3ria apagar, minha ancestralidade ocultar. Querem me botar para trabalhar, sal\u00e1rio m\u00ednimo ganhar, pra mim tentar me sustentar, na crise desse pa\u00eds. Bara [orix\u00e1 mensageiro divino, guardi\u00e3o dos templos, casas e cidades], que zele pela minha vida, me livre da dura da viatura, do homem do saco, do capit\u00e3o do mato e das balas perdidas. \u00c9 que assim se foram tantas vidas, sonhos mutilados, por causa da melanina!\u201d, disse Dudu Neves, citando um dos versos do poema.<\/p>\n<p><strong>Relatos<\/strong><br \/>\nDentro da programa\u00e7\u00e3o da Escuta Popular, Ana Paula e Deise atuaram como porta-vozes de outras m\u00e3es, transmitindo aos presentes os depoimentos delas e dos pais de v\u00edtimas da viol\u00eancia policiais. Um dos depoimentos foi o de Jos\u00e9 Luiz Faria da Silva, pai de Maicon, que h\u00e1 28 anos busca por justi\u00e7a pela morte do filho de apenas 2 anos. A crian\u00e7a brincava na porta de casa em Acari, zona norte do Rio, quando foi baleada.<\/p>\n<p>Deise contou que nenhum dos policiais militares envolvidos foi levado \u00e0 Justi\u00e7a e que o caso do menino foi registrado na \u00e9poca como auto de resist\u00eancia. \u201cO termo \u00e9 usado por policiais que alegam estar se defendendo de matar alvo suspeito em trocas de tiros nas favelas e periferias. Maicon tinha 2 anos de idade e entrou no chamado auto de resist\u00eancia, onde o poder judici\u00e1rio, o Minist\u00e9rio P\u00fablico e os nobres representantes da lei encontraram essa brecha. Estamos falando de uma crian\u00e7a de apenas 2 anos de idade\u201d, ressaltou Deise.<\/p>\n<p>Ela acrescentou que, no Brasil, o crime j\u00e1 prescreveu mas est\u00e1 em avalia\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Interamericana de Direitos Humanos, que \u201cinfelizmente para a dor e desespero desta fam\u00edlia ainda n\u00e3o deu uma senten\u00e7a condenat\u00f3ria ao Brasil por este crime hediondo\u201d.<\/p>\n<p>Outro caso apresentado foi o de Sandra Gomes, m\u00e3e de Matheus Gomes, que junto a mais 27 pessoas, perdeu a vida no dia 6 de maio de 2021, na mais letal opera\u00e7\u00e3o policial do Rio, conhecida como Chacina do Jacarezinho, na zona norte da cidade. Segundo testemunhas, no momento em que foi baleado, Mateus estava sentado em uma cadeira porque estava tendo uma convuls\u00e3o. Se Matheus estivesse vivo, teria completado 24 anos na quarta-feira (21).<\/p>\n<p>Sandra conta que a vida de outro filho, Felipe, de 17 anos, se transformou com a trag\u00e9dia. Felipe sofre com as lembran\u00e7as da morte do irm\u00e3o, que viu ferido, e h\u00e1 tr\u00eas anos n\u00e3o passa da 1\u00aa s\u00e9rie do ensino m\u00e9dio. A preocupa\u00e7\u00e3o com o filho mais novo, Jo\u00e3o Paulo, de 10 anos, tamb\u00e9m \u00e9 grande.<\/p>\n<p>Como outras m\u00e3es de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial, Sandra vive fazendo tratamento de sa\u00fade e, al\u00e9m das quest\u00f5es psicol\u00f3gicas, sofre com o agravamento da diabetes. Al\u00e9m disso, depois da chacina, ela viu diminuir o movimento de sua atividade comercial, com a venda de churrasquinho, que tinha com o marido. Agora, restou apenas um trailer.<\/p>\n<p>\u201cDentro de mim, eu tenho esperan\u00e7a de justi\u00e7a, e a gente vem porque n\u00e3o pode deixar que esse sistema, que nos oprime todos os dias, nos silencie. A gente vem para continuar a dar voz para nossos filhos\u201d, disse Sandra.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora da \u00e1rea de Justi\u00e7a Socioambiental e Clim\u00e1tica da Justi\u00e7a Global, Melisanda Trentin, al\u00e9m da presen\u00e7a de familiares das v\u00edtimas, o encontro da escuta popular teve participa\u00e7\u00e3o de representantes do poder legislativo do Rio, do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e da Defensoria P\u00fablica, o que \u00e9 importante para o surgimento de medidas que possam alterar o andamento lento e muitas vezes sem resultado dos processos na Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cEssa escuta faz parte de uma miss\u00e3o da plataforma Dhesca, assim como a gente j\u00e1 fez outras miss\u00f5es. O objetivo \u00e9 a den\u00fancia mesmo, para que se chegue \u00e0 resolu\u00e7\u00e3o desses casos, na repara\u00e7\u00e3o, no acesso \u00e0 Justi\u00e7a. Enfim, tratar isso n\u00e3o como casos individuais ou isolados, mas como um fen\u00f4meno que acontece no Rio de Janeiro, muito marcado pelo racismo nas favelas&#8221;, enfatizou.<\/p>\n<p>Melisanda Trentin disse que o que unifica, desde a chacina da Candel\u00e1ria, que j\u00e1 tem 30 anos, e a de Acari, com 33 anos, at\u00e9 casos do ano passado e deste ano, \u00e9 justamente a pol\u00edtica aplicada, que ela chama de &#8220;genocida e racista&#8221; da pol\u00edcia do Rio de Janeiro. \u201cA gente espera mudan\u00e7a na abordagem policial. Tudo isso \u00e9 resultado da falida guerra \u00e0s drogas, do racismo, e a gente espera que a pol\u00edcia tenha outro tipo de atua\u00e7\u00e3o, sem blindados [ve\u00edculos das pol\u00edcias], sem helic\u00f3pteros [que fazem voos rasantes sobre as comunidades], que as investiga\u00e7\u00f5es tenham prosseguimento e de fato se chegue \u00e0 justi\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Ao fim do encontro, realizado ter\u00e7a-feira, foi divulgada uma carta compromisso com propostas de medidas para mudar a forma de tratamento dos crimes. \u201c\u00c9 uma carta ampla, que abarca todas as possibilidades que cada um dos casos, cada uma das chacinas apresentarem\u201d, observou a diretora do Ibase, Rita Correia Brand\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A longa espera por justi\u00e7a \u00e9 uma realidade presente entre as m\u00e3es de v\u00edtimas da viol\u00eancia policial do Rio de Janeiro. 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