{"id":323465,"date":"2024-02-29T12:00:35","date_gmt":"2024-02-29T15:00:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=323465"},"modified":"2024-02-29T12:00:35","modified_gmt":"2024-02-29T15:00:35","slug":"exposicao-revela-filosofias-de-vida-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/exposicao-revela-filosofias-de-vida-na-amazonia\/","title":{"rendered":"Exposi\u00e7\u00e3o revela \u201cfilosofias de vida\u201d na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Na aldeia Ashaninka se pode observar tudo porque as casas n\u00e3o t\u00eam paredes. Deitados na rede, observ\u00e1vamos os movimentos das casas, mas me sentia acanhado em estar sendo observado tamb\u00e9m. Com o tempo fui me acostumando. A vida integrada com o ritmo da natureza \u00e9 muito prazerosa&#8221;.<\/p>\n<p>O relato \u00e9 do premiado fot\u00f3grafo japon\u00eas Hiromi Nagakura que, na d\u00e9cada de 1990, acompanhou o fil\u00f3sofo e ativista ind\u00edgena Ailton Krenak em viagens pela Amaz\u00f4nia. Trinta anos depois, imagens que ele produziu no per\u00edodo est\u00e3o reunidas no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB), no centro do Rio de Janeiro. S\u00e3o fotos in\u00e9ditas para o p\u00fablico brasileiro. A exposi\u00e7\u00e3o, intitulada Hiromi Nagakura at\u00e9 a Amaz\u00f4nia com Ailton Krenak, abriu as portas na quarta-feira (28) e poder\u00e1 ser visitada at\u00e9 27 de maio, de quarta-feira a segunda-feira, entre 9h e 20h. A entrada \u00e9 franca.<\/p>\n<p>Ailton Krenak assina como curador. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil, ele diz que as fotos retratam &#8220;filosofias de vida&#8221; na Amaz\u00f4nia e apresentam &#8220;modos de estar no mundo&#8221;. Ele prop\u00f5e uma reflex\u00e3o sobre as casas sem paredes da aldeia Ashaninka, que tanto impressionaram Nagakura.<\/p>\n<p>&#8220;Na metr\u00f3pole, a pessoa precisa ser o tempo inteiro blindada. Ela busca se prevenir do risco de ser afetado por algum dano. Esse pensamento n\u00e3o existe para esse povo que n\u00e3o usa a parede. Por que interpor a parede? \u00c9 o meu corpo e o mundo. Colocar uma parede seria declarar que eu estou fora do mundo. E n\u00f3s estamos enfiados no mundo. \u00c9 muito comum os ind\u00edgenas dizerem que os brancos vivem em caixas. Vivem se encaixando porque n\u00e3o conseguem ficar soltos no mundo, t\u00eam medo. \u00c9 uma filosofia de vida n\u00e3o ter parede. N\u00e3o \u00e9 apenas uma escolha de como morar. \u00c9 uma escolha anterior, de como se encaixar no mundo&#8221;, avalia.<\/p>\n<p>Nascido em 1953 em Minas Gerais, no vale do Rio Doce, Ailton Krenak carrega uma trajet\u00f3ria de ativismo no movimento socioambiental, com atua\u00e7\u00e3o destacada durante as discuss\u00f5es que resultaram na inclus\u00e3o de direitos para os povos ind\u00edgenas na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. \u00c9 autor de livros como Ideias para adiar o fim do mundo (2019), A vida n\u00e3o \u00e9 \u00fatil (2020) e Futuro ancestral (2022), entre outros. No ano passado, se tornou o primeiro ind\u00edgena eleito para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL).<\/p>\n<p>Foi Nagakura a primeira pessoa a lhe atribuir o t\u00edtulo de &#8220;fil\u00f3sofo da floresta&#8221;. Por sua vez, Ailton Krenak o compara com o renomado fot\u00f3grafo brasileiro Sebasti\u00e3o Salgado. &#8220;N\u00e3o encontro melhor semelhan\u00e7a para indicar a import\u00e2ncia do seu trabalho al\u00e9m desta compara\u00e7\u00e3o simplista entre duas personalidades engajadas, sempre surfando na crista do perigo e antenadas com as quest\u00f5es mais vibrantes do planeta: seres humanos e natureza&#8221;, escreveu ele no texto de abertura da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao todo, ambos fizeram juntos cinco viagens pelo territ\u00f3rio amaz\u00f4nico, entre 1993 e 1998. Algumas delas com dura\u00e7\u00e3o de cerca de tr\u00eas meses, ao longo das quais a amizade foi se aprofundando. Krenak avalia que o encontro entre os dois foi um presente que a vida lhes deu. No Jap\u00e3o, a imers\u00e3o de Nagakura pela Floresta Amaz\u00f4nica resultou em livros, exposi\u00e7\u00f5es e document\u00e1rios exibidos na NHK, a emissora de televis\u00e3o p\u00fablica do pa\u00eds asi\u00e1tico.<\/p>\n<p>As fotos apresentadas pela primeira vez ao p\u00fablico brasileiro mostram uma diversidade de povos: yanomami, xavante, krikati, gavi\u00e3o, yawanaw\u00e1, huni kuin e ashaninka. Desde outubro do ano passado at\u00e9 o in\u00edcio desse m\u00eas, a exposi\u00e7\u00e3o estava em S\u00e3o Paulo, no Instituto Tomie Ohtake. No entanto, ela chega ao Rio de Janeiro ampliada: foram incorporadas dezenas de novas imagens, totalizando 160.<\/p>\n<p>&#8220;Eu j\u00e1 tinha uma agenda de viagens para atividades que vinha realizando desde a d\u00e9cada de 1980, quando eu descobri que podia integrar, junto com Chico Mendes, o movimento de defesa dos direitos dos povos da floresta. Eu estive no Acre e participei da mobiliza\u00e7\u00e3o junto a ind\u00edgenas, seringueiros, ribeirinhos. Criamos a Alian\u00e7a dos Povos da Floresta no final da d\u00e9cada de 1980. Quando virou a d\u00e9cada de 1990, eu estava coordenando atividades em aldeias em diversos territ\u00f3rios. Envolviam pesquisas sobre a diversidade cultural e biol\u00f3gica. T\u00ednhamos criado uma iniciativa que incidia sobre territ\u00f3rios de mais de 40 povos&#8221;, conta Krenak.<\/p>\n<p>Ele conta que Nagakura o procurou interessado em acompanhar algumas jornadas e passou a integrar sua equipe, que contava com outros profissionais como bi\u00f3logo, engenheiro florestal, agr\u00f4nomo e bot\u00e2nico. &#8220;Eram lugares onde eu j\u00e1 estava trabalhando h\u00e1 10 ou 15 anos, onde eu tinha amigos que receberiam um fot\u00f3grafo sem estranhamento. Ele tinha momentos em que sa\u00eda s\u00f3 para fazer fotos. Ficou hospedado em casas de pessoas convivendo com as crian\u00e7as. E assim foi poss\u00edvel fazer todas essas imagens de crian\u00e7as sorrindo, demonstrando uma intimidade. N\u00e3o \u00e9 qualquer fot\u00f3grafo que chega numa comunidade e acessa essa conviv\u00eancia com as pessoas de uma maneira t\u00e3o descontra\u00edda&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p><strong>Imers\u00e3o amaz\u00f4nica<\/strong><br \/>\nHiromi Nagakura realizou muitas viagens ao redor do mundo em sua carreira profissional. Fotografou, por exemplo, conflitos no Afeganist\u00e3o e a luta contra o apartheid na \u00c1frica do Sul. Ele explica como surgiu seu interesse em realizar uma imers\u00e3o pela Amaz\u00f4nia.<\/p>\n<p>&#8220;Eu j\u00e1 tinha reportado muitas guerras e conflitos. E ent\u00e3o eu vi no notici\u00e1rio que povos origin\u00e1rios da Amaz\u00f4nia estavam lutando pelo seu direito \u00e0 terra, o que me chamou a aten\u00e7\u00e3o. O primeiro povo que eu visitei foram os krikatis. Na terra deles, passavam torres de energia. Eles amea\u00e7avam atear fogo nas torres caso o processo de demarca\u00e7\u00e3o n\u00e3o avan\u00e7asse&#8221;, lembra.<\/p>\n<p>De acordo com o fot\u00f3grafo, Ailton Krenak foi a conex\u00e3o para que ele pudesse compreender a cultura dos ind\u00edgenas. &#8220;\u00c9 o olhar de uma pessoa que convivia com os ind\u00edgenas das diversas aldeias. Eu n\u00e3o queria fotografar como se estivesse retratando uma cultura ex\u00f3tica. Queria retratar o ser humano&#8221;. A experi\u00eancia tamb\u00e9m afetou sua vis\u00e3o de mundo. Nagakura diz que aprendeu a adotar um ritmo diferente para a sua vida, mais lento em compara\u00e7\u00e3o com a din\u00e2mica acelerada do cotidiano no Jap\u00e3o. Ele tamb\u00e9m aprendeu a ver mais beleza em coisas simples.<\/p>\n<p>&#8220;Fiz uma foto de uma yanomami com um beb\u00ea no colo. Ela contemplava uma montanha. Foi um dia em que todos sa\u00edram para fora de repente. Eu me assustei e fui junto. Havia um macaco subindo a montanha. Estranhei a mobiliza\u00e7\u00e3o, pois se v\u00ea muitos macacos na Amaz\u00f4nia. Mas era algo diferente. O macaco estava escalando pedras. E essa novidade chamou a aten\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas. Havia uma beleza nisso. E eu captei um instante de felicidade dessa mulher&#8221;. Passadas mais de duas d\u00e9cadas da sua \u00faltima viagem \u00e0 Amaz\u00f4nia, ele espera voltar em breve. &#8220;As crian\u00e7as que eu fotografei devem estar adultas. Quero me encontrar com elas. Quero ver como eles est\u00e3o preservando suas culturas, suas dan\u00e7as e suas festas&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Nagakura e Krenak estiveram juntos na Terra Yanomami ap\u00f3s uma ofensiva das for\u00e7as do Estado, que levou a um decl\u00ednio do garimpo ilegal. Em 1992, quando o territ\u00f3rio ind\u00edgena foi finalmente demarcado, o governo mobilizou a Pol\u00edcia Federal e o Ex\u00e9rcito para coibir a atua\u00e7\u00e3o de grupos clandestinos, que haviam crescido nas d\u00e9cadas anteriores na esteira das pol\u00edticas de ocupa\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia impulsionadas pelo regime militar. Cerca de 40 mil pessoas foram expulsas do territ\u00f3rio. Havia na \u00e9poca uma expectativa de que fosse dado um ponto final ao problema.<\/p>\n<p>&#8220;Nas viagens, busquei compreender melhor as culturas dos povos ind\u00edgenas e assim transmitir esse conhecimento por meio das fotografias. Essas fotos tentam mostrar como \u00e9 o povo yanomami em sua ess\u00eancia. \u00c9 triste ver que as condi\u00e7\u00f5es pioraram&#8221;, diz Nagakura.<\/p>\n<p>As imagens que integram a exposi\u00e7\u00e3o s\u00e3o muito diferentes daquelas que ganharam o notici\u00e1rio nacional no in\u00edcio do \u00faltimo ano, mostrando o resultado da trag\u00e9dia humanit\u00e1ria desencadeado pelo garimpo ilegal, que voltou a avan\u00e7ar com for\u00e7a na regi\u00e3o na \u00faltima d\u00e9cada. A crise se traduziu em fome, em contamina\u00e7\u00e3o e em um alarmante aumento de diferentes doen\u00e7as, sobretudo a mal\u00e1ria. Na d\u00e9cada de 1990, por\u00e9m, as c\u00e2meras de Nagakura retrataram sorrisos, brincadeiras, manifesta\u00e7\u00f5es culturais, atividades cotidianas em um territ\u00f3rio de beleza exuberante.<\/p>\n<p>&#8220;A m\u00eddia se interessa por guerras, trag\u00e9dias ambientais, trag\u00e9dias imprevis\u00edveis. Se nunca tivesse acontecido uma desgra\u00e7a com os yanomami, o Brasil nunca ia ficar sabendo deles porque n\u00f3s habitamos um mundo que adora consumir desgra\u00e7a. Essa exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 linda. Se ela fosse uma exposi\u00e7\u00e3o desgra\u00e7ada, ela ia ter a maior repercuss\u00e3o. Mas ela \u00e9 linda, ent\u00e3o ela vai ter uma m\u00e9dia repercuss\u00e3o&#8221;, lamenta Krenak.<\/p>\n<p><strong>Crise de pensamento<\/strong><br \/>\nUma das fotos que mobilizam o olhar de Ailton Krenak retrata jovens ind\u00edgenas krikati se deslocando de barco na lagoa da hidrel\u00e9trica de Tucuru\u00ed (PA). Ele considera a imagem linda, mas chama aten\u00e7\u00e3o para \u00e1rvores secas emergindo da \u00e1gua: era uma \u00e1rea de floresta alagada para a constru\u00e7\u00e3o da usina. Krenak faz men\u00e7\u00e3o ao trabalho do artista pl\u00e1stico polon\u00eas radicado no Brasil, Frans Krajcberg. Falecido em 2017, ele denunciava a destrui\u00e7\u00e3o da natureza em suas obras de arte produzidas a partir de elementos naturais. &#8220;Ele recolheu materiais e fez uma escultura com \u00e1rvores mortas tiradas de dentro desses lagos artificiais de usinas hidrel\u00e9tricas&#8221;, conta o fil\u00f3sofo ind\u00edgena.<\/p>\n<p>Em sua vis\u00e3o, \u00e9 preciso desmistificar a Amaz\u00f4nia. &#8220;As pessoas ficam fascinados com essa mitologia que coloca a Amaz\u00f4nia como um fant\u00e1stico mundo verde desconhecido, mas n\u00e3o imaginam, por exemplo, que voc\u00ea n\u00e3o pode beber \u00e1gua ao redor de Manaus. Ela est\u00e1 toda contaminada por res\u00edduos urbanos. Falta saneamento e tamb\u00e9m temos a polui\u00e7\u00e3o das embarca\u00e7\u00f5es, que jogam \u00f3leo para todo lado. Tem o garimpo. N\u00e3o \u00e9 exatamente clorofila que voc\u00ea vai experimentar em todo lugar que voc\u00ea andar pela Amaz\u00f4nia. Tem lugar que voc\u00ea vai encontrar merc\u00fario, diesel e veneno&#8221;.<\/p>\n<p>Para Krenak, n\u00e3o \u00e9 mais poss\u00edvel acreditar que o capitalismo possa se desenvolver de maneira sustent\u00e1vel. Ele observa que as aldeias tamb\u00e9m se desenvolvem, mas em equil\u00edbrio com a natureza.<\/p>\n<p>&#8220;Exploram tecnologias brandas, que n\u00e3o s\u00e3o capazes de alterar a paisagem como uma t\u00edpica tecnologia dura. S\u00e3o capazes de conviver com um rio e, 100 anos depois, aquele rio ainda ter \u00e1gua pura para voc\u00ea beber&#8221;.<\/p>\n<p>O fil\u00f3sofo tamb\u00e9m lamenta o desinteresse das pessoas sobre o conhecimento ind\u00edgena, embora destaque que os nativos resistem e continuam a insistir em transmitir seus saberes. &#8220;Veja que curioso: agora que as \u00faltimas ilus\u00f5es sobre o ocidente foram para o brejo, est\u00e3o dizendo que o modo ind\u00edgena de conhecer o mundo pode salvar a humanidade da crise clim\u00e1tica e da trag\u00e9dia global. N\u00f3s estamos vivendo em um mundo afetado por v\u00e1rias crises. Mas a principal crise \u00e9 de pensamento: os humanos pararam de pensar&#8221;, avalia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Na aldeia Ashaninka se pode observar tudo porque as casas n\u00e3o t\u00eam paredes. Deitados na rede, observ\u00e1vamos os movimentos das casas, mas me sentia acanhado em estar sendo observado tamb\u00e9m. 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