{"id":324570,"date":"2024-03-14T02:15:40","date_gmt":"2024-03-14T05:15:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=324570"},"modified":"2024-03-14T02:15:40","modified_gmt":"2024-03-14T05:15:40","slug":"curta-historia-de-quem-teve-coragem-e-deixou-o-armario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/curta-historia-de-quem-teve-coragem-e-deixou-o-armario\/","title":{"rendered":"Curta hist\u00f3ria de quem teve coragem e deixou o arm\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Sonho de consumo de qualquer mortal, morar mais pertinho do c\u00e9u era a desatinada fantasia de Apar\u00edcio de Melo Rego Neto. Falastr\u00e3o, articulado, corajoso e com os olhos coloridos desde que deixara o aconchego da barriga da genitora, queria chegar chegando. Sem grana para come\u00e7ar a sonhar com as comunidades (eufemismo de favela) do Chap\u00e9u Mangueira\/Babil\u00f4nia, Santa Marta, Vidigal, Rocinha e morros dos Prazeres e dos Cabritos, todas bem pr\u00f3ximas do Pib\u00e3o financeiro, teve de se contentar com o Morro do Peru Molhado, um famoso corti\u00e7o da Zona Oeste do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>Na sua cabe\u00e7a de mil quimeras, n\u00e3o havia local mais apropriado para o primeiro e ut\u00f3pico Sonho de \u00cdcaro. Tamb\u00e9m foi a experi\u00eancia mais importante de sua vida. Ainda bem jovem, em cima do mundo do faz de conta, de cara percebeu que quem mora em favelas vive uma esp\u00e9cie de apartheid do asfalto. Nada que incomodasse o rapazote porreta, cuja nobreza era a padaria de igual nome, onde aprendeu a fazer p\u00e3o e, nas horas vagas, a queimar a rosca. Faceiro, recuperado da Cura Gay e j\u00e1 com ares de pegador, logo se tornou conhecido do alto ao p\u00e9 do morro.<\/p>\n<p>Da\u00ed para virar l\u00edder comunit\u00e1rio, afetivo e sexual foi mais r\u00e1pido do que engarrafar pum nas alturas. Segunda voz da comunidade ordeira e trabalhadora \u2013 a primeira era a do pastor evang\u00e9lico Gerv\u00e1sio Pedrosa -, Melo Rego e seu complicado perfil de Dom Juan faziam sucesso at\u00e9 em comunidades vizinhas, como a do Rabo Quente. Aparentemente, o passado de craque na punga de braguilha alheia e de agasalhador de croquete estava na mala de recorda\u00e7\u00f5es. J\u00e1 homem feito, se engra\u00e7ou com uma jovem do morro fronteiri\u00e7o. Era o que faltava para a alegria geral.<\/p>\n<p>O rapaz do Per\u00fa Molhado pegando a mo\u00e7a do Rabo Quente. Do romance intenso \u00e0 beira da tenda dos milagres, loca de desova do tr\u00e1fico local, ao sonho de ver\u00e3o com a imagem infinita do mar, foram pouco mais de quatro semanas de amor. Pena que, como dizem os entendidos, o que \u00e9 do homem o bicho n\u00e3o come. Depois de casado, Apar\u00edcio voltou a solicitar em tempo integral. Abandonou o Peru Molhado, liberou a patroa do Rabo Quente e hoje, poliglota, com os cabelos acaju e as unhas posti\u00e7as com lindos candelabros nas pontas, \u00e9 bispo da Igreja Presbicheriana.<\/p>\n<p>\u00c9 no p\u00falpito do local de cultos que ele prega diariamente as teses de que o amor aceita todas as cores e de que a diversidade \u00e9 for\u00e7a, n\u00e3o uma fraqueza. Salve Apar\u00edcio, o grande. Ele tem sido visto com relativa frequ\u00eancia pelas ruas da cidade zoando os antigos amigos que n\u00e3o se assumem. A estes, uma \u00fanica recomenda\u00e7\u00e3o na l\u00edngua que mais gosta: Get out of the closet. Antes que os amigos dos tais amigos saiam desesperados atr\u00e1s de um dicion\u00e1rio de portugu\u00eas-ingl\u00eas, traduzo a express\u00e3o: Saiam do arm\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sonho de consumo de qualquer mortal, morar mais pertinho do c\u00e9u era a desatinada fantasia de Apar\u00edcio de Melo Rego Neto. Falastr\u00e3o, articulado, corajoso e com os olhos coloridos desde que deixara o aconchego da barriga da genitora, queria chegar chegando. 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