{"id":32475,"date":"2014-12-30T07:15:58","date_gmt":"2014-12-30T10:15:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=32475"},"modified":"2015-01-01T15:24:30","modified_gmt":"2015-01-01T18:24:30","slug":"obama-usa-ucrania-como-trampolim-para-guerra-contra-putin","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/obama-usa-ucrania-como-trampolim-para-guerra-contra-putin\/","title":{"rendered":"Obama usa Ucr\u00e2nia como trampolim para atingir Putin"},"content":{"rendered":"<p>Os Estados Unidos do Pr\u00eamio Nobel da Paz Barack Obama empreendem uma guerra virtual contra a R\u00fassia e preparam obstinadamente uma guerra real para ser travada em territ\u00f3rio ucraniano. N\u00e3o importa a inviabilidade dessa aventura militar, do ponto de vista estrat\u00e9gico. O objetivo n\u00e3o \u00e9 controlar o territ\u00f3rio ucraniano e \u201csalv\u00e1-lo para a democracia\u201d, mas esgotar em combate o poderio russo mediante seu estrangulamento econ\u00f4mico e militar numa guerra convencional em terceiro pa\u00eds. \u00c9 que nem os lun\u00e1ticos neoconservadores instalados no Pent\u00e1gono, no Departamento de Estado e no Conselho de Seguran\u00e7a Nacional proporiam um ataque direto \u00e0 na\u00e7\u00e3o russa, dada sua condi\u00e7\u00e3o de pot\u00eancia nuclear de primeira linha.<\/p>\n<p>A estrat\u00e9gia central norte-americana \u00e9 afirmar sua hegemonia mundial a partir da for\u00e7a. \u00c9-lhe intoler\u00e1vel a realidade de um mundo apolar ou multipolar em face da presen\u00e7a de um competidor nuclear como a R\u00fassia e de uma pot\u00eancia econ\u00f4mica ascendente como a China, tamb\u00e9m amea\u00e7adora, a m\u00e9dio prazo,\u00a0 no campo militar. Para os neoconservadores, a hora de agir \u00e9 agora, antes que essas for\u00e7as rivais criem ra\u00edzes mais profundas. O pretexto ucraniano vem a calhar. Depois de derrubar um governo leg\u00edtimo e colocar em seu lugar um bando de fac\u00ednoras, o pr\u00f3ximo passo \u00e9 a incorpora\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia \u00e0 OTAN, em aberto desafio \u00e0 R\u00fassia. S\u00f3 com muito sangue frio Putin poder\u00e1 contornar mais essa provoca\u00e7\u00e3o no quintal da R\u00fassia.<\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil come\u00e7ar uma guerra de grandes propor\u00e7\u00f5es na terra dos outros, sobretudo quando se tem a ilus\u00e3o de um poder assim\u00e9trico em rela\u00e7\u00e3o ao advers\u00e1rio e mesmo quando n\u00e3o se tem certeza quanto aos efeitos. \u00c9 que, uma vez instalado o caos que se segue a uma guerra, n\u00e3o basta ter imensa superioridade miliar para controlar suas consequ\u00eancias. Os Estados Unidos s\u00e3o peritos em come\u00e7ar guerras inacabadas: foi assim na Coreia, no Vietn\u00e3, no Iraque, no Afeganist\u00e3o; mais recentemente insuflaram revolu\u00e7\u00f5es no norte da \u00c1frica, que resultaram em dram\u00e1tica carnificina e permanente instabilidade na L\u00edbia e no Egito. Entretanto, quando se trata de conseguir a paz, os Estados Unidos lavam as m\u00e3os. Os outros \u00e9 que cuidem do estrago que provocam, como no Haiti e no Iraque.<\/p>\n<blockquote><p>\u00c9 muito f\u00e1cil entender a estrat\u00e9gia dos chamados neoconservadores americanos que acabaram de colocar agora um representante na principal cadeira no Departamento de Defesa. Querem repetir o processo que levou \u00e0 exaust\u00e3o a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Dado que Estados Unidos e R\u00fassia est\u00e3o em virtual paridade nuclear, a solu\u00e7\u00e3o \u00e9 levar a R\u00fassia \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de uma guerra convencional, n\u00e3o em territ\u00f3rio russo, que arriscaria uma guerra nuclear, mas no territ\u00f3rio de um terceiro pa\u00eds. Nada melhor, pois, que a Ucr\u00e2nia.<\/p><\/blockquote>\n<p>O objetivo dos neoconservadores \u00e9 tentar repetir uma estrat\u00e9gia que, embora tendo dado certo na liquida\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, n\u00e3o liquidou o Estado russo que estava em seu cora\u00e7\u00e3o. O Estado socialista desmoronou, mas a na\u00e7\u00e3o russa, mesmo ferida, continuou de p\u00e9. Putin tratou de recuper\u00e1-la por inteiro colocando-a na condi\u00e7\u00e3o de um estorvo nuclear que limita a vontade de poder ilimitada de Washington. A inten\u00e7\u00e3o norte-americana de atacar o governo s\u00edrio esbarrou efetivamente no veto russo e chin\u00eas. Isso, claramente, exp\u00f4s a impossibilidade pr\u00e1tica do exerc\u00edcio de um poder hegem\u00f4nico na era nuclear partilhada. Transformado num boneco operado pelos neoconservadores, Obama resolveu \u201cestrangular\u201d a R\u00fassia com embargos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Recordemos os passos que levaram \u00e0 extin\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a fim de examinarmos os paralelos atuais. Em meados dos anos 70, foi refundada em Washington por influ\u00eancia do ent\u00e3o diretor da CIA, George Bush pai, a ONG denominada \u201cComitee on the present danger\u201d, ou Comit\u00ea para o Perigo Presente (CPD). Tinha como principal objetivo estatut\u00e1rio \u201clevar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o, se necess\u00e1rio por meios militares\u201d. Do Comit\u00ea faziam parte 60 personalidades not\u00e1veis do c\u00edrculo conservador norte-americano, sendo que o futuro Presidente Ronald Reagan filiou-se \u00e0 ela pouco antes de eleger-se em 1979. Como Presidente, levou a posi\u00e7\u00f5es de alto destaque no Departamento de Defesa, no Departamento de Estado e no Conselho de Seguran\u00e7a Nacional 33 integrantes do Comit\u00ea.<\/p>\n<p>Em 1985, quando estive na Alemanha para cobrir a reuni\u00e3o dos Sete Grandes, andava por l\u00e1 o chefe do Conselho de Seguran\u00e7a Nacional dos EUA, Richard Perle, membro do CPD, fazendo confer\u00eancias sobre o conceito subjacente ao programa de escudo nuclear, ent\u00e3o conhecido como Guerra nas Estrelas, que se baseava no princ\u00edpio de \u201cguerra nuclear protegida\u201d. Perguntei aos alem\u00e3es o que achavam daquilo, pois a guerra nuclear \u201cprotegida\u201d no contexto de Guerra nas Estrelas implicava a prote\u00e7\u00e3o nuclear do territ\u00f3rio norte-americano, mas n\u00e3o do europeu. Os alem\u00e3es com quem conversei estavam perplexos. Imagino que estejam perplexos de novo com a marcha for\u00e7ada pela guerra em territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia, que os exp\u00f5e diretamente \u00e0s for\u00e7as militares russas convencionais em seu pr\u00f3prio territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00c9 importante assinalar que n\u00e3o se tratava apenas de ret\u00f3rica. Diretivas presidenciais de Reagan, na virada do primeiro para o segundo mandato, introduziram mudan\u00e7as cruciais nos programas de computador que p\u00f5em em posi\u00e7\u00e3o de ataque os tr\u00eas sistemas estrat\u00e9gicos baseados em terra, mar e ar das for\u00e7as nucleares norte-americanas. Atrav\u00e9s de vazamentos de imprensa, soube-se de mudan\u00e7as fundamentais no SIOP (Single Integrated Operational Program, ou Programa Operacional Integrado \u00danico), a parafern\u00e1lia eletr\u00f4nica capaz de desencadear uma guerra nuclear contra a ent\u00e3o Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a partir do teatro europeu.<\/p>\n<p>A principal altera\u00e7\u00e3o no SIOP, de acordo com os fragmentos de diretivas presidenciais secretas, recolhidos e reconstitu\u00eddos por um cientista canadense, F. Knelman (em \u201cAmerica, God and the Bomb\u201d), consistiu em recuar para oito minutos, pelo princ\u00edpio do pr\u00eamio por resposta r\u00e1pida, o in\u00edcio de um ataque nuclear total \u00e0 Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica a partir do primeiro alarme. N\u00e3o se tratava de uma quest\u00e3o acad\u00eamica. Como um hipot\u00e9tico m\u00edssil sovi\u00e9tico em cruzeiro levaria 36 minutos para mergulhar em territ\u00f3rio nacional norte-americano (trata-se de m\u00edssil disparado de terra: n\u00e3o se menciona a frota indetect\u00e1vel de submarinos nucleares, por expediente elusivo de convencimento), o programa Guerra nas Estrelas s\u00f3 se justifica se houver uma capacidade efetiva de intercept\u00e1-lo no meio da trajet\u00f3ria, isto \u00e9, no m\u00ednimo 18 minutos depois do disparo.<\/p>\n<p>O mesmo tempo \u00e9 o que levaria um m\u00edssil americano disparado de terra para alcan\u00e7ar o m\u00edssil hostil na estratosfera. Entretanto, seria necess\u00e1rio um sistema de detec\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea do in\u00edcio do ataque. Para qualquer efeito pr\u00e1tico, n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de alcan\u00e7ar o m\u00edssil antes que cruze o ponto m\u00e9dio da trajet\u00f3ria, a n\u00e3o ser de uma base em \u00f3rbita. O programa Guerra nas Estrelas pretendia p\u00f4r bases em \u00f3rbita, mas at\u00e9 l\u00e1 seria necess\u00e1rio contar com a boa vontade dos estrategistas sovi\u00e9ticos para n\u00e3o atacarem primeiro. Por isso reduziram o tempo de resposta do SIOP a oito minutos, pelo que ficou limitado a um n\u00edvel de redund\u00e2ncia o processo de checagem para confirmar se um disparo captado na tela de controle eletr\u00f4nico era um disparo real. Com isso ficamos todos expostos \u00e0 possibilidade de uma guerra nuclear casual na medida em que o SIOP reagiria automaticamente a uma checagem errada sem tempo de consulta para resposta ao falso ataque do Presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>O primeiro passo para implementar Guerra nas Estrelas era ignorar o tratado SALT II, que vedava a constru\u00e7\u00e3o de sistemas antibal\u00edsticos por parte de EUA e Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A l\u00f3gica do SALT II, jamais aprovado pelo Senado norte-americano mas at\u00e9 ent\u00e3o respeitado pelo Executivo, era simples: a dissuas\u00e3o nuclear s\u00f3 se efetiva na base da autodestrui\u00e7\u00e3o assegurada por quem iniciar uma guerra nuclear. Se um dos lados conseguir construir um sistema operacional que efetivamente proteja seu territ\u00f3rio de um contra-ataque nuclear, ele estar\u00e1 livre para desencadear um primeiro ataque sem medo de retalia\u00e7\u00e3o. Cientistas de todo mundo, inclusive americanos, questionaram as bases t\u00e9cnicas de Guerra nas Estrelas, mas Reagan, a fim de esgotar a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica numa corrida tecnol\u00f3gica para construir seu pr\u00f3prio escudo, levou Gorbachev a uma posi\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel por falta de condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e t\u00e9cnicas para isso.<\/p>\n<p>Foi a combina\u00e7\u00e3o de press\u00e3o tecnol\u00f3gica, econ\u00f4mica e pol\u00edtica norte-americana que levou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica \u00e0 autodestrui\u00e7\u00e3o. \u00c9 este mesmo caminho que est\u00e1 sendo seguido agora para levar a R\u00fassia \u00e0 exaust\u00e3o econ\u00f4mica e \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. N\u00e3o se trata de teoria conspirat\u00f3ria. Os norte-americanos, conscientes de sua superioridade militar e econ\u00f4mica, nunca escondem suas reais inten\u00e7\u00f5es. Seus movimentos s\u00e3o expl\u00edcitos e claramente apresentados em documentos estrat\u00e9gicos p\u00fablicos. Assim, eis como a inten\u00e7\u00e3o de eliminar qualquer possibilidade de \u201cum novo rival\u201d era colocada em 1992, imediatamente depois da derrota da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, pelo neoconservador Paul Wolfowitz, do CPD, ent\u00e3o Subsecret\u00e1rio da Defesa, no Manual de Planejamento de Defesa:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cNosso primeiro objetivo \u00e9 prevenir a re-emerg\u00eancia de um novo rival, seja no territ\u00f3rio da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica seja em outro lugar, que coloque uma amea\u00e7a do tipo que foi colocado pela antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Isso \u00e9 uma considera\u00e7\u00e3o dominante sublinhando a nova estrat\u00e9gia de defesa regional e requer que previnamos qualquer\u00a0 tentativa de um poder hostil de dominar uma regi\u00e3o cujos recursos poderiam, sob controle consolidado, ser suficiente para gerar poder global.\u201d<\/p><\/blockquote>\n<p>Essa linha estrat\u00e9gica est\u00e1 sendo trilhada religiosamente no sentido de evitar que a R\u00fassia seja um embara\u00e7o para a hegemonia militar absoluta norte-americana, contornando a realidade elidida da virtual paridade nuclear. O SALT II foi revogado,\u00a0 unilateralmente, pelos EUA. Eles se recusam, por outro lado, a fazer um tratado de desmilitariza\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. Assim, \u00e9 necess\u00e1rio recuar \u00e0 geopol\u00edtica anterior \u00e0 Guerra Fria para entender os movimentos americanos. De fato, h\u00e1 uma d\u00e9cada e meia a possibilidade real de uma guerra na Ucr\u00e2nia est\u00e1 sendo preparada metodicamente pela OTAN, que agora mesmo acaba de decidir aumentar o comprometimento de or\u00e7amento militar de seus membros (2% do PIB) por press\u00e3o americana. Desde 1999 que a Organiza\u00e7\u00e3o avan\u00e7a para o Leste. Naquele ano, incluiu a Rep\u00fablica Checa, a Hungria e a Pol\u00f4nia. Uma segunda expans\u00e3o se deu em 2004, incluindo Bulg\u00e1ria, Est\u00f4nia, Let\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Rom\u00eania, Eslov\u00e1quia e Eslov\u00eania.\u00a0 Com isso, quase metade dos pa\u00edses atualmente membros da OTAN foram incorporados, rumo ao Leste, depois do fim da URSS. Paralelamente expandia-se para Leste a Uni\u00e3o Europeia, cujo \u00faltimo movimento seria a tentativa de tomada de posse da Ucr\u00e2nia. E s\u00f3 n\u00e3o houve a efetiva incorpora\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia e da Ge\u00f3rgia, formalmente sinalizada na c\u00fapula de Bucareste em 2008, porque dessa vez Putin reagiu pela for\u00e7a, pois se tratava, a seu ver, de colocar uma fortaleza militar hostil no quintal de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>O cerco militar \u00e0 R\u00fassia segue uma tr\u00edplice estrat\u00e9gia: alargamento da OTAN, expans\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e promo\u00e7\u00e3o da \u201cdemocracia\u201d, obviamente desconsiderando o risco de uma guerra aberta. Diante do baile estrat\u00e9gico que foi a absor\u00e7\u00e3o da Crimeia pela R\u00fassia, com apoio esmagador da popula\u00e7\u00e3o da pen\u00ednsula, os Estados Unidos se movem na dire\u00e7\u00e3o da guerra atrav\u00e9s inicialmente de san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, a partir de uma posi\u00e7\u00e3o forte, rec\u00e9m-conquistada, no campo da energia. Contudo, n\u00e3o nos iludamos. Uma guerra convencional seria de alto interesse norte-americano, desde que ela pudesse esgotar a capacidade militar e econ\u00f4mica russa sem o risco de escalar para uma guerra nuclear. \u00c9 com essa possibilidade que os neoconservadores contam para iniciar a guerra.<\/p>\n<p>Sabemos, por outro lado, pela experi\u00eancia hist\u00f3rica, que os Estados Unidos n\u00e3o se preocupam muito em como acabar com guerras. Para eles trata-se de um jogo estrat\u00e9gico para assegurar a afirma\u00e7\u00e3o da hegemonia mundial. Por isso, no momento, a \u00fanica for\u00e7a capaz de parar a m\u00e1quina de guerra americana \u00e9 o povo dos Estados Unidos, tocado pela consci\u00eancia de solidariedade com os bilh\u00f5es de inocentes do mundo, e eles pr\u00f3prios, que sofreriam as consequ\u00eancia de uma guerra proto-nuclear. \u00c9 necess\u00e1rio que os inocentes rompam com a passividade, falem e votem. De fato, os Estados Unidos podem esgotar as for\u00e7as econ\u00f4micas e militares dos russos numa guerra em territ\u00f3rio de terceiro. Mas o que acontece com uma pot\u00eancia derrotada, humilhada, sitiada, e n\u00e3o obstante de posse de um imenso arsenal nuclear?<\/p>\n<blockquote><p>Aos que consideram essa an\u00e1lise exagerada pe\u00e7o que leiam \u201cForeign Affairs\u201d, uma das mais prestigiosas revistas do estabelecimento norte-americano, em detalhados e esclarecedores artigos sobre a \u201ccrise\u201d na Ucr\u00e2nia, na edi\u00e7\u00e3o de setembro \u00faltimo. Um deles diz claramente: \u201ca crise na Ucr\u00e2nia \u00e9 nossa culpa\u201d, referindo-se aos Estados Unidos. No corpo da mat\u00e9ria vem a narrativa da marcha da OTAN para Leste, em confronto direto com entendimentos anteriores com os russos e sob constantes protestos destes. Ali tamb\u00e9m se encontra o relato do caos planejado pelo Departamento de Estado e ONGs patrocinadas pelo Governo norte-americano para derrubar o governo leg\u00edtimo pr\u00f3-russo de Kiev, colocando em seu lugar um governo que tem pelo menos quatro membros proeminentes neofacistas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Ainda em termos de medidas provocativas contra a R\u00fassia, destaca-se a monstruosa derrubada do avi\u00e3o comercial MH 17 sobre o Leste da Ucr\u00e2nia, um t\u00edpico atentado terrorista que os Estados Unidos pretenderam atribuir a for\u00e7as pr\u00f3-russas. Falso. O avi\u00e3o, de que j\u00e1 n\u00e3o se fala mais muito sintomaticamente, foi derrubado por for\u00e7as do governo de Kiev, conforme denunciou o presidente russo Vladmir Putin, numa reuni\u00e3o internacional, com base em investiga\u00e7\u00f5es independentes, e com praticamente nula repercuss\u00e3o no Ocidente.<\/p>\n<p>O \u00e2nimo dos neoconservadores norte-americanos para o confronto global com os russos, a partir da economia, ganhou for\u00e7a com a revolu\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica representada pela explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s de xisto nos Estados Unidos atrav\u00e9s de uma das mais criminosas tecnologias do ponto de vista ambiental, o fracking. O sucesso comercial do empreendimento, com r\u00e1pida expans\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s e petr\u00f3leo de xisto, possibilitou atacar o principal pilar da economia russa, grande produtora e exportadora de petr\u00f3leo e g\u00e1s, e, simultaneamente, \u201ctranquilizar\u201d os europeus quanto \u00e0 possibilidade de cessa\u00e7\u00e3o de suprimento de g\u00e1s russo \u00e0 Europa, o qual seria substitu\u00eddo pelo norte-americano.<\/p>\n<p>N\u00e3o se sabe se os sauditas entraram nesse jogo por raz\u00f5es geopol\u00edticas, evitando reduzir a produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo para prejudicar os russos, ou por suas pr\u00f3prias raz\u00f5es de tentar inviabilizar economicamente a produ\u00e7\u00e3o de hidrocarbonetos por fracking. O fato \u00e9 que tamb\u00e9m grandes empresas norte-americanas, que investiram pesadamente no petr\u00f3leo e g\u00e1s de xisto, est\u00e3o tendo pesados preju\u00edzos com a redu\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o do petr\u00f3leo, que agrada mesmo s\u00f3 ao consumidor. Por outro lado, as promessas supostamente infinitas do fracking\u00a0 se revelaram surpreendentemente\u00a0 limitadas nos \u00faltimos meses:\u00a0 em Monterey, na Calif\u00f3rnia, reservas de petr\u00f3leo de xisto antes avaliadas em 13,7 bilh\u00f5es de barris foram reavaliadas oficialmente para 600 milh\u00f5es, ou 96% menos. Al\u00e9m disso, a opini\u00e3o p\u00fablica norte-americana come\u00e7a a semover contra o fracking: segundo uma pesquisa de opini\u00e3o recente, em 2008, 48% a 38% dos norte-americanos apoiavam essa tecnologia; em novembro \u00faltimo, 47% a 41% se manifestaram contra. Isso certamente reflete a comprova\u00e7\u00e3o inequ\u00edvoca da destrui\u00e7\u00e3o ambiental, sobretudo de aqu\u00edferos, que essa tecnologia suja provoca no meio ambiente de forma irrevers\u00edvel.<\/p>\n<p>Enquanto o mercado de hidrocarbonetos n\u00e3o sofrer nova reviravolta, refletindo o fracasso da Calif\u00f3rnia, a R\u00fassia, sem d\u00favida, ser\u00e1 penalizada pela estrat\u00e9gia norte-americana de seu estrangulamento econ\u00f4mico. Putin, com sua frieza caracter\u00edstica, ponderou que a R\u00fassia \u00e9 um pa\u00eds autossuficiente e, de qualquer modo, tem meios de retalia\u00e7\u00e3o \u2013 imaginando certamente um embargo na exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s para a Europa. Uma importante ficha para a R\u00fassia \u00e9 certamente a China, que j\u00e1 lhe garantiu um contrato de fornecimento de g\u00e1s por 20 anos no montante de 400 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, e que tem se alinhado com ela em quest\u00f5es geopol\u00edticas, como no caso da S\u00edria. Contudo, estamos claramente diante de uma escalada.<\/p>\n<p>O novo passo estimulado pelos EUA foi a recente decis\u00e3o do Parlamento da Ucr\u00e2nia de renegar sua neutralidade. Note-se que o pr\u00f3prio Kissinger, num artigo recente, assinalou que a solu\u00e7\u00e3o definitiva para a crise ucraniana, de uma forma aceit\u00e1vel pela R\u00fassia, seria transformar a Ucr\u00e2nia num pa\u00eds neutro entre a Uni\u00e3o Europeia\/OTAN e a R\u00fassia, como aconteceu com a Finl\u00e2ndia na Guerra Fria. Contudo, Kissinger \u00e9 um velho conservador l\u00facido, n\u00e3o um neoconservador alucinado. Os EUA, sob controle destes, indicam que n\u00e3o aceitar\u00e3o perder mais essa oportunidade de guerra. Tudo indica que for\u00e7ar\u00e3o a R\u00fassia a aceit\u00e1-la. Com a integra\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia na OTAN, numa iniciativa indiferente aos milh\u00f5es de russos e russ\u00f3filos no Leste do pa\u00eds, a alian\u00e7a militar ocidental estaria nas costas da R\u00fassia, o que significa amea\u00e7a direta a seu territ\u00f3rio. O m\u00ednimo que a R\u00fassia buscaria seria retalhar a Ucr\u00e2nia com apoio local, o que de uma certa forma foi ensaiado na Crimeia. Seria ent\u00e3o uma guerra global em territ\u00f3rio ucraniano?<\/p>\n<p>E n\u00f3s, que temos a ver com tudo isso? Os inocentes entre n\u00f3s acham que os neoconservadores norte-americanos veem com muita naturalidade nossa aproxima\u00e7\u00e3o, via BRICS, com sua arqui-inimiga R\u00fassia. Acreditam que a grava\u00e7\u00e3o das conversas da Presidenta foi mero divertimento. Acham que as tentativas de desestabiliza\u00e7\u00e3o do leg\u00edtimo Governo brasileiro atual, assim como o reeleito, s\u00e3o fen\u00f4menos exclusivamente internos, ou resultantes dos impulsos \u00e9ticos de alguns tribunais. Pelo fato de termos passado \u00e0 margem de guerras, e estarmos no centro de um continente\u00a0 peculiarmente pac\u00edfico, nos acostumamos a n\u00e3o pensar geopoliticamente \u2013 mesmo porque, na era nuclear, a geopol\u00edtica devia estar definitivamente fora de moda. Contudo, querendo ou n\u00e3o, estamos no jogo. Se o pre\u00e7o do petr\u00f3leo cair abaixo de 40 d\u00f3lares o barril, a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal estar\u00e1 inviabilizada. Se os Estados Unidos fizeram a guerra contra a R\u00fassia em territ\u00f3rio ucraniano, teremos de fazer dif\u00edceis escolhas.<\/p>\n<p><strong>Carlos de Assis<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os Estados Unidos do Pr\u00eamio Nobel da Paz Barack Obama empreendem uma guerra virtual contra a R\u00fassia e preparam obstinadamente uma guerra real para ser travada em territ\u00f3rio ucraniano. N\u00e3o importa a inviabilidade dessa aventura militar, do ponto de vista estrat\u00e9gico. 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