{"id":324909,"date":"2024-03-18T07:57:27","date_gmt":"2024-03-18T10:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=324909"},"modified":"2024-03-18T07:57:27","modified_gmt":"2024-03-18T10:57:27","slug":"morte-e-mero-desejo-de-uma-outra-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/morte-e-mero-desejo-de-uma-outra-vida\/","title":{"rendered":"Morte \u00e9 mero desejo de uma outra vida"},"content":{"rendered":"<p>Multifacetado desde a placenta, onde, sozinho, aprende a nadar, a comer e a se defender de jatos indesej\u00e1veis, o ser humano \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, o mais astuto dos animais. Na ess\u00eancia, o homem (n\u00e3o como g\u00eanero) vivencia a si mesmo, seus pensamentos como algo separado do resto do Universo. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ilus\u00e3o de \u00f3tica de sua consci\u00eancia. Por isso, a gente nasce, cresce, envelhece, embrutece, mas n\u00e3o admite falar em morrer. Interessante porque, filosoficamente, a morte n\u00e3o \u00e9 nada para n\u00f3s, pois, quando existimos, n\u00e3o existe a morte, e quando existe a morte, n\u00e3o existimos mais. <em>Mutatis mutandis<\/em>, \u00e9 a vida se confundindo com a \u00f3pera da cebola, aquela que vai desaparecendo camada por camada.<\/p>\n<p>Mestre dos mestres enquanto viveu, o jornalista Roberto Marinho n\u00e3o foi apenas o tubar\u00e3o que jogou nas 11 com a ditadura e defendeu com os dois p\u00e9s a democracia. Em outras palavras, topou amar a dois senhores, desde que eles lhe garantissem a vida eterna nos rent\u00e1veis neg\u00f3cios. Tarefa cumprida, disse certa vez que o dia que morresse, se morresse, estaria em paz com sua consci\u00eancia e sem d\u00edvida com o pa\u00eds e com seu povo. H\u00e1 controv\u00e9rsias. Muitas controv\u00e9rsias, embora nada tenha contra ele como patr\u00e3o. Foi um dos melhores dos meus tempos de reda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o tive oportunidade, mas se tivesse teria dito ao dono do maior imp\u00e9rio de comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica do Sul que n\u00e3o h\u00e1 espelho melhor que reflita o ser humano do que suas pr\u00f3prias atitudes. Que Deus o tenha no reino dos c\u00e9us, preferencialmente ao lado de Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es, seu fiel parceiro e amigo dos anos de chumbo. Citar Roberto Marinho, ACM e a morte \u00e9 apenas uma simbologia. Ela \u00e1 a \u00fanica certeza que temos. Entretanto, preferimos a d\u00favida. Deliberadamente, esquecemos que a morte e a vida s\u00e3o irm\u00e3s. Como diz o pensador Rubem Alves, a rever\u00eancia pela vida exige que sejamos s\u00e1bios para permitir que a morte chegue quando a vida desejar.<\/p>\n<p>Sou adepto da filosofia de Conf\u00facio. Conforme o pensador e fil\u00f3sofo chin\u00eas, para que nos preocuparmos com a morte se a vida tem tantos problemas priorit\u00e1rios? Mais incisivo, William Shakespeare dizia que os covardes morrem v\u00e1rias vezes, enquanto os corajosos experimentam a morte apenas uma vez. Tenho um amigo que foge de cemit\u00e9rios. N\u00e3o sei se por pavor, cren\u00e7as ou frescura, mas ele desaparece quando \u00e9 \u201cconvidado\u201d para um vel\u00f3rio. Sepultamento? Nem pensar, mesmo que seja de um familiar. E saibam que essa n\u00e3o \u00e9 uma decis\u00e3o isolada. Conhe\u00e7o muitos que pensam e agem desse modo.<\/p>\n<p>Dia desses perguntei ao dito cujo o que far\u00e1 no dia em que ele for o de cujus, o popular finado. \u201cA\u00ed n\u00e3o tem jeito. Serei obrigado a comparecer, sob pena de perder o \u00faltimo quinh\u00e3o de terra a que fiz jus. Mas irei sob protesto\u201d. Resposta justa e digna de um bravo guerreiro que certamente vai morrer como quem soube viver direito. Se vale a pena viver e se a morte faz parte da vida, ent\u00e3o morrer tamb\u00e9m vale a pena. Apesar de f\u00e3 de quem sabe pensar, prefiro os poemas de Vin\u00edcius sobre a morte. Em um deles, o nosso poetinha lembra que \u201cQuem j\u00e1 passou por essa vida e n\u00e3o viveu pode ser mais, mas sabe menos do que eu, porque a vida s\u00f3 se d\u00e1 para quem se deu, para quem amou, para quem chorou, para quem sofreu\u201d.<\/p>\n<p>Poucos no mundo viveram t\u00e3o intensamente como Vin\u00edcius, um dos autores do cl\u00e1ssico e imortal Garota de Ipanema. Embora n\u00e3o concorde, respeito a tese po\u00e9tica que ele criou sobre o u\u00edsque. \u201c\u00c9 o melhor amigo do homem, da\u00ed t\u00ea-lo batizado de \u2018cachorro engarrafado\u2019\u201d. Al\u00e9m da naturalidade carioca, da expectativa do passamento e da simpatia pela doutrina esp\u00edrita, t\u00ednhamos pouco ou quase nada em comum. Todavia, pensava do mesmo modo quando o tema era reencarna\u00e7\u00e3o. A exemplo de Vin\u00edcius, caso me seja concedida uma outra vida, gostaria de voltar igualzinho, s\u00f3 com o bilau um pouquinho maior.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Multifacetado desde a placenta, onde, sozinho, aprende a nadar, a comer e a se defender de jatos indesej\u00e1veis, o ser humano \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, o mais astuto dos animais. 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