{"id":324926,"date":"2024-03-18T11:03:46","date_gmt":"2024-03-18T14:03:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=324926"},"modified":"2024-03-18T11:03:45","modified_gmt":"2024-03-18T14:03:45","slug":"cerrado-tem-recursos-hidricos-pressionados-pelo-desmatamento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/cerrado-tem-recursos-hidricos-pressionados-pelo-desmatamento\/","title":{"rendered":"Cerrado tem recursos h\u00eddricos pressionados pelo desmatamento"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Bioma-cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o Cerrado, localizado na parte central do Brasil, tem mais do que uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica estrat\u00e9gica: \u00e9 primordial no bombeio e distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que d\u00e1 vida \u00e0s principais bacias hidrogr\u00e1ficas nacionais e sul-americanas. Esse ber\u00e7o de nascentes oferece recurso h\u00eddrico para ao menos 25 milh\u00f5es de pessoas que vivem na regi\u00e3o e outros muitos milh\u00f5es que s\u00e3o atendidos subsidiariamente.<\/p>\n<p>Mas o recorrente aumento do desmatamento \u2014 que elevou o ecossistema nos \u00faltimos anos aos piores percentuais de convers\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa para outros fins, com perda m\u00e9dia de 10 mil quil\u00f4metros quadrados anuais \u2014 coloca todo esse potencial h\u00eddrico em rota de crise.<\/p>\n<p>Artigo de pesquisa publicado na Global Change Biology, que quantificou os impactos das extensas transi\u00e7\u00f5es de uso de solo sobre a evapotranspira\u00e7\u00e3o e a temperatura da superf\u00edcie terrestre, aponta que o Cerrado j\u00e1 est\u00e1 10% mais seco e 1\u00ba C mais quente, na compara\u00e7\u00e3o com a linha de base hist\u00f3rica de vegeta\u00e7\u00e3o nativa.<\/p>\n<p>Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) demonstram que dos dois milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados que congregam o bioma, quase 51% j\u00e1 foram convertidos. Enquanto em fevereiro de 2024 houve redu\u00e7\u00e3o de quase 30% no desmatamento da Amaz\u00f4nia, na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo per\u00edodo de 2023, no Cerrado houve aumento de 18,5%, o que \u00e9 bastante preocupante, segundo o coordenador do Programa de Monitoramento da Amaz\u00f4nia e demais Biomas do Inpe, Claudio Almeida.<\/p>\n<p>\u2014 Isso mostra que a gente tem muito para avan\u00e7ar, tem muito que conseguir melhorar essa quest\u00e3o do controle de desmatamento na \u00e1rea do Cerrado \u2014 afirma o coordenador do Inpe.<\/p>\n<p>Esse ecossistema, que domina quase um quarto do territ\u00f3rio nacional, tem apenas 20% de sua \u00e1rea legalmente protegida, percentual muito inferior ao da Amaz\u00f4nia, por exemplo, onde em 50% da \u00e1rea n\u00e3o se pode mexer. E ao devastar a vegeta\u00e7\u00e3o nativa, n\u00e3o h\u00e1 como dissociar os efeitos consequentes nas fontes h\u00eddricas.<\/p>\n<p>\u2014 Alguns pesquisadores mostram que j\u00e1 existe uma redu\u00e7\u00e3o no volume de \u00e1gua dos rios que saem do Cerrado. Esses rios est\u00e3o diminuindo sua capacidade por conta do desmatamento. Ent\u00e3o voc\u00ea come\u00e7a a impactar seriamente a produ\u00e7\u00e3o de \u00e1gua, impactar a agricultura, a pecu\u00e1ria, o abastecimento humano, gera\u00e7\u00e3o de energia. Tudo isso depende dessa \u00e1gua que vem do Cerrado \u2014 exp\u00f5e o coordenador do Inpe.<\/p>\n<p>Com pequenas por\u00e7\u00f5es no leste da Bol\u00edvia e nordeste do Paraguai, no Brasil o bioma esparrama-se no Planalto central e consegue congregar estados de todas as regi\u00f5es: Centro-Oeste (DF, GO, MT e MS), Norte (TO, RO, PA, e enclaves do AM, RR e AM), Nordeste (BA, CE, MA e PI), Sudeste (SP e MG) e no Sul (PR).<\/p>\n<p>Duas importantes propostas caminham no Senado na dire\u00e7\u00e3o da conserva\u00e7\u00e3o. A primeira \u00e9 o\u00a0Projeto de Lei (PL) 5.462\/2019, do senador Jaques Wagner (PT-BA), que prop\u00f5e uma pol\u00edtica de desenvolvimento sustent\u00e1vel do bioma, a partir de a\u00e7\u00f5es de prote\u00e7\u00e3o e uso dos recursos ambientes.<\/p>\n<p>A proposi\u00e7\u00e3o, que aguarda an\u00e1lise na Comiss\u00e3o de Desenvolvimento Regional (CDR) do Senado, trata da conserva\u00e7\u00e3o, prote\u00e7\u00e3o, regenera\u00e7\u00e3o, utiliza\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa e da Pol\u00edtica de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel do Bioma Cerrado e dos ecossistemas, da flora e da fauna associados.<\/p>\n<p>\u201cTrata-se, sobretudo, de lan\u00e7ar os olhos sobre o futuro, e contribuirmos para que, por essa via, sejam reduzidos os danos j\u00e1 causados ao bioma, promovida a sua preserva\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o e, com isso, mitigado o grave risco que se avizinha no sentido de uma crise h\u00eddrica sem precedentes\u201d, justifica o senador Jaques Wagner.<\/p>\n<p>Para o autor da proposta, proteger o Cerrado \u201c\u00e9 proteger o Brasil, a Am\u00e9rica Latina e o mundo de uma cat\u00e1strofe ambiental irrevers\u00edvel, que n\u00e3o apenas impedir\u00e1 que a pr\u00f3pria agricultura e pecu\u00e1ria continuem produzindo riquezas para o Centro-Oeste e o Brasil, por aus\u00eancia de seu recurso fundamental \u2014 a \u00e1gua \u2014 como que a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia de milh\u00f5es de brasileiros seja preservada\u201d.<\/p>\n<p>Representante de Goi\u00e1s, o senador Jorge Kajuru (PSB-GO) afirma que o bioma at\u00e9 hoje n\u00e3o teve reconhecida a devida import\u00e2ncia por parte do poder p\u00fablico e da pr\u00f3pria sociedade. O parlamentar diz ser necess\u00e1rio achar um equil\u00edbrio entre a agropecu\u00e1ria e a preserva\u00e7\u00e3o ambiental, a partir de modelos de plantio e pecu\u00e1ria que sejam menos extensivos e respeitem os ciclos naturais da terra.<\/p>\n<p>\u2014 Isso se deu pelo fato de as caracter\u00edsticas do nosso bioma n\u00e3o serem t\u00e3o expl\u00edcitas a olho nu como \u00e9 o caso do bioma amaz\u00f4nico. Com isso, as regras de preserva\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram t\u00e3o r\u00edgidas como em outras regi\u00f5es do pa\u00eds. Hoje, vivenciamos uma situa\u00e7\u00e3o complexa: no Cerrado encontramos grande parte das planta\u00e7\u00f5es de commodities que s\u00e3o importantes para o desenvolvimento do nosso pa\u00eds e, tamb\u00e9m, para alimenta\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a devasta\u00e7\u00e3o desacerbada pode acabar tornando nossas terras inf\u00e9rteis \u2014 afirma Kajuru.<\/p>\n<p>Outra mat\u00e9ria em an\u00e1lise \u00e9 a\u00a0Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o (PEC) 33\/2023, que insere o Cerrado na lista dos biomas a serem protegidos como patrim\u00f4nio nacional, honraria j\u00e1 concedida \u00e0 Amaz\u00f4nia, \u00e0 Mata Atl\u00e2ntica e ao Pantanal. Para o senador Kajuru, essa proposi\u00e7\u00e3o, que tem como primeiro signat\u00e1rio o senador Paulo Paim (PT-RS), d\u00e1 a devida import\u00e2ncia ao bioma.<\/p>\n<p>\u2014 Isso vai fazer com que o Poder Executivo e a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o tenham outros olhos para a regi\u00e3o que o abarca. Como patrim\u00f4nio nacional, as boas pr\u00e1ticas desenvolvidas para recupera\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o do Cerrado poder\u00e3o acessar outros fundos de financiamento e abrir caminho para a cria\u00e7\u00e3o de novas legisla\u00e7\u00f5es infralegais que podem gerar maior prote\u00e7\u00e3o ao bioma \u2014 opina o senador.<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 respons\u00e1vel pelos recursos h\u00eddricos superficiais de 8 das 12 grandes regi\u00f5es hidrogr\u00e1ficas brasileiras. Destacam-se nessa lista as regi\u00f5es das bacias do Parna\u00edba, S\u00e3o Francisco, Tocantins\/Araguaia, Paran\u00e1 e Paraguai, onde tamb\u00e9m se encontram muitas das principais hidrel\u00e9tricas brasileiras.<\/p>\n<p>Apesar de o Cerrado ser considerado uma grande caixa d\u2019\u00e1gua, onde est\u00e3o localizados inclusive tr\u00eas grandes aqu\u00edferos \u2013 Guarani, Bambu\u00ed e Urucuia \u2014 n\u00e3o se pode apenar ir tirando \u00e1gua da torneira, sem qualquer retorno, porque sen\u00e3o \u201cessa grande caixa vai secar\u201d, alerta o professor da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s (PUC-GO) e membro do Instituto Tr\u00f3pico Sub\u00famido, Agostinho Carneiro Campos.<\/p>\n<p>\u2014 Esses aqu\u00edferos n\u00e3o conseguem armazenar tanta \u00e1gua por conta da estiagem, que de setembro at\u00e9 novembro \u00e9 muito severa. Tamb\u00e9m, quando se desmata pr\u00f3ximo \u00e0s nascentes, a \u00e1gua n\u00e3o consegue penetrar no solo. Ainda, a compacta\u00e7\u00e3o do solo, para abrir as rodovias, para a expans\u00e3o dos centros urbanos, tamb\u00e9m vai inibir que essas \u00e1reas sejam infiltradas e alimentem os aqu\u00edferos. Esse \u00e9 um grande problema que n\u00f3s temos \u2014 afirma o professor.<\/p>\n<p>Campos salienta que, quando h\u00e1 desmatamento pr\u00f3ximo, ou at\u00e9 dentro de uma nascente, o solo fica exposto, passa a receber radia\u00e7\u00e3o solar muito maior, o que faz com que a evapora\u00e7\u00e3o aconte\u00e7a muito mais r\u00e1pido, abaixando o len\u00e7ol fre\u00e1tico, \u201co que compromete todo o processo da nascente\u201d, dando margens a uma consequente crise h\u00eddrica.<\/p>\n<p>\u2014 Se n\u00f3s continuarmos tendo essa atitude, achando que a natureza vai sempre nos ajudar, que h\u00e1 sempre \u00e1gua em abund\u00e2ncia, n\u00f3s estamos muito equivocados. N\u00f3s precisamos hoje, como medida bem mais urgente, proteger essas nascentes, fazer uma recomposi\u00e7\u00e3o flor\u00edstica. Muitas nascentes n\u00e3o t\u00eam nenhuma cobertura vegetal. Ent\u00e3o, se continuarmos assim, n\u00f3s vamos ter uma crise muito maior at\u00e9 o ano 2050 \u2014 completa Campos.<\/p>\n<p>O potencial de prote\u00e7\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o nativa \u00e9 muito superior ao que se imagina. Estudos j\u00e1 demonstram que as ra\u00edzes das \u00e1rvores t\u00edpicas do Cerrado s\u00e3o respons\u00e1veis por transportar \u00e1gua das chuvas para uma boa profundidade. Em \u00e9pocas de escassez, essas \u201cflorestas invertidas\u201d passam a liberar essa \u00e1gua para o subsolo ou para os rios.<\/p>\n<p>No Distrito Federal, essa compreens\u00e3o levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o, ainda em 1968, da Esta\u00e7\u00e3o Ecol\u00f3gica de \u00c1guas Emendadas, uma \u00e1rea de prote\u00e7\u00e3o integral, onde n\u00e3o \u00e9 permitida a ocupa\u00e7\u00e3o humana. Da preserva\u00e7\u00e3o do Cerrado depende o fornecimento de \u00e1gua \u00e0 popula\u00e7\u00e3o do Distrito Federal. Mas n\u00e3o s\u00f3. As \u00c1guas Emendadas t\u00eam esse nome porque contribuem para a forma\u00e7\u00e3o de duas das maiores bacias hidrogr\u00e1ficas da Am\u00e9rica do Sul: a Platina, ao sul, e a Amaz\u00f4nica, ao norte.<\/p>\n<p>Coordenadora da rede colaborativa MapBiomas Cerrado e diretora de Ci\u00eancia do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amaz\u00f4nia (Ipam), Ane Alencar afirma que a primeira coisa a ser feita \u00e9 \u201centender o tamanho do problema\u201d, ao destacar que n\u00e3o h\u00e1 sequer conhecimento da exata outorga de \u00e1gua em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2014 \u00c9 preciso fazer esse levantamento das outorgas, daquilo que est\u00e1 sendo usado de \u00e1gua no Cerrado, para que a gente possa pensar numa pol\u00edtica p\u00fablica de restri\u00e7\u00e3o, de governan\u00e7a mesmo desse uso da \u00e1gua no bioma, para saber como agir e mitigar esse problema \u2014 exp\u00f5e Ane.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da redu\u00e7\u00e3o do volume h\u00eddrico, outro grande problema assombra o Cerrado: a contamina\u00e7\u00e3o das \u00e1guas pelo consider\u00e1vel volume de agrot\u00f3xicos utilizados na produ\u00e7\u00e3o, especialmente de gr\u00e3os. Somente na safra 2020\/2021, a \u00e1rea do bioma respondeu por 52% do plantio de soja no pa\u00eds.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s temos ainda aquela ideia que temos \u00e1gua em abund\u00e2ncia, mas dessa \u00e1gua que n\u00f3s temos, quase toda est\u00e1 polu\u00edda, pelos esgotos que s\u00e3o lan\u00e7ados nos mananciais sem tratamento ou pela polui\u00e7\u00e3o dos agrot\u00f3xicos que s\u00e3o utilizados na agricultura, e que nos per\u00edodos de chuva s\u00e3o carregados para as nascentes. Por isso que \u00e9 muito cara hoje a \u00e1gua tratada \u2014 completa o professor Agostinho Campos.<\/p>\n<p>Dados colhidos pela Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz no Centro-Oeste e na regi\u00e3o do Matopiba (Maranh\u00e3o, Tocantis, Piau\u00ed e Bahia) para a Campanha Nacional em Defesa do Cerrado apontaram a presen\u00e7a de agrot\u00f3xico na \u00e1gua nos sete estados pesquisados, entre eles glifosato e atrazina, dois dos pesticidas mais utilizados no Brasil. O documento \u201cVivendo em territ\u00f3rios contaminados: um dossi\u00ea sobre agrot\u00f3xicos nas \u00e1guas do Cerrado\u201d demonstrou a presen\u00e7a de 13 subst\u00e2ncias, das quais cinco n\u00e3o constavam sequer em portaria do governo federal que regulamenta os par\u00e2metros permitidos.<\/p>\n<p>O desmatamento no Cerrado teve grande alavancagem no s\u00e9culo 18, com a ocupa\u00e7\u00e3o da parte mais central do pa\u00eds, sempre de maneira irregular e sem qualquer planejamento adequado. Atualmente, uma por\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel do bioma \u00e9 tomada pelo agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>O coordenador do Inpe Claudio Almeida salienta que, diferentemente da Amaz\u00f4nia, no Cerrado, 73,2% do bioma est\u00e3o em cima de \u00e1reas com Cadastro Ambiental Rural (CAR).<\/p>\n<p>\u2014 S\u00e3o \u00e1reas que voc\u00ea sabe quem \u00e9 o propriet\u00e1rio e, segundo o Ibama, grande parte dessas \u00e1reas j\u00e1 s\u00e3o autorizadas, s\u00e3o desmatamentos que est\u00e3o acontecendo e eles t\u00eam autoriza\u00e7\u00e3o para desmatar, n\u00e3o \u00e9 ilegal, \u00e9 um desmatamento que foi autorizado. A quest\u00e3o agora \u00e9 avaliar at\u00e9 onde vale a pena continuar esse processo. Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 hora de rediscutir quanto o Cerrado suporta mais de desmatamento? \u2014 questiona o coordenador do Inpe.<\/p>\n<p>Uma das maiores especialistas em Cerrado, a professora e pesquisadora da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Mercedes Bustamante afirma que \u00e9 preciso urg\u00eancia nas a\u00e7\u00f5es para estancar esse desmatamento que se acentuou.<\/p>\n<p>\u2014 Muitas vezes h\u00e1 a percep\u00e7\u00e3o de que quando voc\u00ea aumenta a prote\u00e7\u00e3o de um bioma, como \u00e9 o caso da Amaz\u00f4nia, voc\u00ea desloca essa press\u00e3o do desmatamento para outras regi\u00f5es. Ent\u00e3o \u00e9 preciso entender se esse fen\u00f4meno que a gente chama de vazamento est\u00e1 efetivamente acontecendo, e quais s\u00e3o os vetores que est\u00e3o ocasionando esse aumento do desmatamento no Cerrado \u2014 diz Mercedes.<\/p>\n<p>Para a professora, \u00e9 preciso implementar rapidamente o Plano\u00a0de A\u00e7\u00e3o para Preven\u00e7\u00e3o e Controle do\u00a0Desmatamento\u00a0\u2013 PPCerrado, que foi retomado pelo governo federal em 2023, depois de ter sido abandonado por alguns anos.\u00a0Mercedes tamb\u00e9m destaca que a pr\u00f3pria quest\u00e3o fundi\u00e1ria no Cerrado demanda um envolvimento muito mais pr\u00f3ximo do setor privado, j\u00e1 que o desmatamento acontece principalmente em propriedades rurais.<\/p>\n<p>\u2014 Apesar de o C\u00f3digo Florestal at\u00e9 permitir uma supress\u00e3o de vegeta\u00e7\u00e3o autorizada pela lei mais alta do que na Amaz\u00f4nia, muitas vezes isso ocorre sem a devida autoriza\u00e7\u00e3o, sem a autoriza\u00e7\u00e3o do \u00f3rg\u00e3o ambiental. Ent\u00e3o, h\u00e1 todo esse aspecto de entender o que est\u00e1 motivando o processo de desmatamento, mas ao mesmo tempo de convencer os principais atores envolvidos, de que essa \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que prejudica o pr\u00f3prio setor. \u00c9 preciso trazer um pouco de racionalidade nesse debate, porque a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia do setor agr\u00edcola depende de condi\u00e7\u00f5es de clima adequadas que vem sendo desconfiguradas exatamente pelo processo de desmatamento \u2014 afirma a professora da UnB.<\/p>\n<p>Ainda que a maior concentra\u00e7\u00e3o de desmatamento tenha holofotes hoje na regi\u00e3o do Matopiba, \u00e9 poss\u00edvel ver uma retomada da derrubada naquelas \u00e1reas de ocupa\u00e7\u00e3o mais antigas, segundo Mercedes. A professora alerta que a se continuar a rapidez dessa destrui\u00e7\u00e3o, n\u00e3o haver\u00e1 sequer um ponto de retorno, \u201cporque o desmatamento acabar\u00e1 com o Cerrado primeiro\u201d.<\/p>\n<p>Para Ane Alencar, o governo federal deve trabalhar junto aos governos estaduais para identificar o que no desmatamento \u00e9 legal ou ilegal, entender se acontecem dentro de im\u00f3veis rurais e se esses s\u00e3o realmente legalizados ou n\u00e3o. Segundo a coordenadora do MapBiomas, \u00e9 preciso mais averigua\u00e7\u00e3o\/fiscaliza\u00e7\u00e3o no processo de licenciamento e mais incentivos para a melhoria e efici\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria, como forma de desestimular o desmatamento em novas \u00e1reas.<\/p>\n<p>\u2014 Se as pol\u00edticas privadas come\u00e7arem a determinar que n\u00e3o se compra produ\u00e7\u00e3o de \u00e1reas novas desmatadas no Cerrado, vai desestimular o desmatamento em novas \u00e1reas no Cerrado. Ent\u00e3o, o setor privado tem um papel muito forte e importante tamb\u00e9m no desest\u00edmulo \u2014 completa Ane.<\/p>\n<p>Segundo maior bioma da Am\u00e9rica do Sul e uma das savanas de maior diversidade biol\u00f3gica no mundo, o Cerrado, assim como a Mata Atl\u00e2ntica, \u00e9 um dos 40 hotspots para conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade no planeta. Isso significa ser uma \u00e1rea com grande riqueza de esp\u00e9cies, mas que corre extremo perigo pela perda de sua cobertura vegetal nativa.<\/p>\n<p>\u2014 O Cerrado \u00e9 um bioma com uma riqueza biol\u00f3gica muito grande, com um grande n\u00famero de esp\u00e9cies end\u00eamicas, mas que vem perdendo \u00e1rea muito rapidamente. Ent\u00e3o isso o coloca como uma prioridade para a conserva\u00e7\u00e3o. Esse n\u00e3o \u00e9 um selo para a gente dizer, \u00f3timo, n\u00f3s somos um hotspot. O hotspot deve ser prioridade para a conserva\u00e7\u00e3o, exatamente, porque n\u00f3s n\u00e3o estamos conseguindo conservar adequadamente o bioma \u2014 afirma Mercedes.<\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 muito mais do que esparsas \u00e1rvores contorcidas despidas de muita folhagem. No bioma, que tem uma das aquarelas mais bonitas da flora brasileira \u2014 como as numerosas esp\u00e9cies de ip\u00eas de flores vibrantes \u2014 a vegeta\u00e7\u00e3o est\u00e1 presente em \u00e1reas abertas, que s\u00e3o os campos, em savanas, que misturam campo, arbustos e \u00e1rvores, e em forma\u00e7\u00f5es florestais fechadas.<\/p>\n<p>Levantamento oficial do Instituto de Pesquisas do Jardim Bot\u00e2nico do Rio de Janeiro, respons\u00e1vel pelo registro nacional das esp\u00e9cies, aponta que h\u00e1 cerca de 14 mil esp\u00e9cies de flora e funga (fungos) catalogadas no bioma, sendo pouco mais da metade somente end\u00eamicas do Brasil.<\/p>\n<p>\u2014 Essa beleza da complexidade do Cerrado representa tamb\u00e9m um desafio para a sua conserva\u00e7\u00e3o. Porque as estrat\u00e9gias que a gente tem para a conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de campo n\u00e3o podem ser as mesmas estrat\u00e9gias que a gente tem para a conserva\u00e7\u00e3o de \u00e1reas de floresta ou de \u00e1reas de savana \u2014 explica a professora da UnB.<\/p>\n<p>Mercedes chama aten\u00e7\u00e3o para os avan\u00e7os no conhecimento do bioma, mas considera que isso ainda \u00e9 pouco assimilado, tanto por tomadores de decis\u00e3o, pelas lideran\u00e7as pol\u00edticas, como pela popula\u00e7\u00e3o de uma forma mais ampla.<\/p>\n<p>\u2014 Acho que h\u00e1 necessidade efetivamente de transformar esse conhecimento acumulado sobre o Cerrado, de uma forma mais acess\u00edvel, para que ele possa ser realmente incorporado pela popula\u00e7\u00e3o, que ela entenda quando a gente fala da import\u00e2ncia da preserva\u00e7\u00e3o do bioma. Mas a gente n\u00e3o pode esperar que essa consci\u00eancia se amplie. Por isso que eu acho que o papel das lideran\u00e7as pol\u00edticas hoje \u00e9 muito importante. A gente precisa ter um foco realmente em lideran\u00e7as pol\u00edticas que tenham a capacidade de a\u00e7\u00f5es concretas \u2014 enfatiza a pesquisadora.<\/p>\n<p>Ainda existem \u00e1reas para aumentar a prote\u00e7\u00e3o legal da vegeta\u00e7\u00e3o nativa do Cerrado. N\u00e3o \u00e9 muito, segundo a coordenadora do MapBiomas Ane Alencar: s\u00e3o pouco mais de dois milh\u00f5es de hectares em florestas p\u00fablicas n\u00e3o-destinadas.<\/p>\n<p>\u2014 T\u00e3o importante quanto \u00e9 que existem muitas comunidades tradicionais no bioma, as mais diversas poss\u00edveis, como vazanteiros, comunidade de fundo e de fecho de pasto. Muitos s\u00e3o quilombolas, que vivem nessas \u00e1reas mais vegetadas. \u00c9 importante reconhecer os territ\u00f3rios que s\u00e3o historicamente utilizados por essas pessoas, uma popula\u00e7\u00e3o importante e invisibilizada infelizmente \u2014 diz Ane.<\/p>\n<p>Trabalho nesse sentido \u00e9 desenvolvido por meio do projeto \u201cT\u00f4 no mapa\u201d, encabe\u00e7ado pelo Ipam, pelo Instituto Sociedade, Popula\u00e7\u00e3o e Natureza (ISPN), pela Rede Cerrado e Instituto Cerrados, para identificar essas comunidades \u2014 geralmente grandes protetoras da biodiversidade \u2014 que, em a\u00e7\u00e3o com o Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal, busca o reconhecimento dessas \u00e1reas como territ\u00f3rios coletivos e, consequentemente, sua preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m com comunidades tradicionais, assentamentos e unidades escolares que o projeto Valoriza\u00e7\u00e3o de Plantas Aliment\u00edcias do Pantanal e Cerrado, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), dissemina o potencial dessas plantas nativas. O trabalho \u00e9 associado \u00e0 cultura local e busca proporcionar melhoria da qualidade de vida das pessoas e aumento de renda. S\u00e3o disseminados conhecimentos sobre conserva\u00e7\u00e3o, boas pr\u00e1ticas de higiene e de coleta, armazenamento, processamento e comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Criado em 2006, o trabalho veio resgatar plantas do Cerrado, muitas das quais extremamente ricas em vitaminas, minerais e fibras, que eram importantes no passado, mas que estavam sendo abandonadas.<\/p>\n<p>\u2014 Esse \u00e9 um processo que ocorre no mundo inteiro, n\u00e3o ocorre somente no Brasil, no Cerrado, no Pantanal. Com o processo de coloniza\u00e7\u00e3o, muitos dos valores europeus acabaram sendo impostos para a sociedade em geral. Ent\u00e3o, as pessoas queriam consumir mais o que a Corte consumia e com o tempo as pessoas acabaram consumindo o que foi adotado pelos mercados. Essas plantas silvestres, que eram acessadas apenas pelos povos ind\u00edgenas, aqui no caso, tanto do Cerrado, como do Pantanal, passaram a ter uso mais restrito, mais local. E essas plantas passaram a n\u00e3o ser conhecidas pela sociedade em geral \u2014 \u0605explica a professora, pesquisadora e orientadora do projeto Ieda Bortolotto.<\/p>\n<p>A iniciativa trouxe resultados. Frutos como o cumbaru ou baru, que sempre foi parte da flora do Cerrado, come\u00e7aram a ter inser\u00e7\u00e3o no mercado e ganharam espa\u00e7o at\u00e9 mesmo na exporta\u00e7\u00e3o. A castanha do baru tem alto valor nutricional e pode ser comercializada tamb\u00e9m como farinha, \u00f3leo ou outros produtos j\u00e1 prontos, como bolo e geleia.\u00a0Multidisciplinar, o projeto chegou \u00e0s escolas e aos hot\u00e9is, porque sabe-se que a difus\u00e3o de conhecimento resulta em maior valoriza\u00e7\u00e3o e conserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s trabalhamos muito com escolas rurais, que s\u00e3o filhos de pequenos agricultores, que t\u00eam por pr\u00e1tica fazer mudas de plantas. Muitas vezes, eles levam essas novidades para suas casas. Assim como assentamentos, j\u00e1 foram mais de 20, entre eles o Andalucia, no munic\u00edpio de Anast\u00e1cio (MS), que se tornou um grande produtor da castanha de baru e de farinha de jatob\u00e1.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o de Meio Ambiente (CMA) aprovou recentemente projeto que cria a pol\u00edtica nacional para o manejo sustent\u00e1vel, plantio, extra\u00e7\u00e3o, consumo, comercializa\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do pequi e tamb\u00e9m dos demais frutos nativos do Cerrado. O PL 1.970\/2019\u00a0segue para a Comiss\u00e3o de Agricultura (CRA). O projeto foi relatado na CMA pelo senador Kajuru, que associa a cria\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica espec\u00edfica para o manejo do pequi e outras frutas \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o do Cerrado. O parlamentar tamb\u00e9m aposta no modelo agroextrativista, como forma de explora\u00e7\u00e3o da terra de forma n\u00e3o predat\u00f3ria, e na bioind\u00fastria.<\/p>\n<p>\u2014 O Cerrado \u00e9 um bioma muito diverso e temos cerca de 30 esp\u00e9cies frut\u00edferas de interesse econ\u00f4mico que podem gerar grandes riquezas para nosso pa\u00eds. O agroextrativismo somado \u00e0 bioind\u00fastria permitiria o desenvolvimento de interessantes produtos como alimentos, cosm\u00e9ticos e rem\u00e9dios que poderiam ter alcance nacional e at\u00e9 mesmo internacional \u2014 diz o senador.<\/p>\n<p>A flora e a fauna de um bioma est\u00e3o sempre intrinsicamente ligadas. Se a vegeta\u00e7\u00e3o padece, os resultados n\u00e3o ser\u00e3o os melhores para os animais, que acabam por sofrer com a dr\u00e1stica diminui\u00e7\u00e3o do habitat. Presente no Cerrado de Mato Grosso do Sul desde 2015, o Instituto de Conserva\u00e7\u00e3o de Animais Silvestres (Icas) acompanha de perto a influ\u00eancia do desmatamento, dos atropelamentos e da intoxica\u00e7\u00e3o dos animais por agrot\u00f3xicos.<\/p>\n<p>\u2014 A primeira coisa que a gente nota \u00e9 a quest\u00e3o da fragmenta\u00e7\u00e3o. No Mato Grosso do Sul, s\u00f3 h\u00e1 16% da cobertura nativa do cerrado remanescente. E ela est\u00e1 extremamente fragmentada, extremamente pulverizada. Ent\u00e3o, todos esses remanescentes de Cerrado tendem a ser bem pequenos e est\u00e3o envoltos por uma matriz, por uma paisagem que \u00e9 principalmente de cultivo e de pecu\u00e1ria. Os animais silvestres ficam extremamente isolados. Isso \u00e9 um baita impacto nessa popula\u00e7\u00e3o \u2014 diz a bi\u00f3loga e pesquisadora do Icas, Nina Attias.<\/p>\n<p>Animais como tatu-canastra, que variam de 30 a 60 quilos, precisam, em m\u00e9dia, de 25 quil\u00f4metros de \u00e1rea de vida, de uso praticamente exclusivo.<\/p>\n<p>\u2014 O que quer dizer que, provavelmente, os tatus-canastra no Cerrado est\u00e3o vivendo isolados em um fragmento. Quer dizer que para eles se encontrarem e reproduzirem, eles v\u00e3o precisar cruzar toda essa paisagem de agricultura e de pecu\u00e1ria, o que os deixa muito vulner\u00e1veis a encontro com humanos e estruturas humanas \u2014 exp\u00f5e a pesquisadora.<\/p>\n<p>Assim como tamandu\u00e1s e lobinhos, os tatus s\u00e3o alguns dos animais mais atropelados, por tentarem encontrar uns aos outros e n\u00e3o morrerem sozinhos nos seus fragmentos. Al\u00e9m do atropelamento, muitos desses animais s\u00e3o estigmatizados e sofrem retalia\u00e7\u00f5es por parte dos seres humanos.<\/p>\n<p>O Icas desenvolve o Projeto Tatu-canastra, que trabalha com a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade por meio a coexist\u00eancia humano-fauna, do manejo da paisagem. Uma das propostas de maior sucesso \u00e9 a do projeto Canastras e Colmeias, que definiu com apicultores m\u00e9todos para que n\u00e3o houvesse ataque \u00e0s caixas de abelhas pelos tatus, que acabavam sendo mortos por retalia\u00e7\u00e3o. Agora, foi criado at\u00e9 um selo de certifica\u00e7\u00e3o do \u201cmel amigo do tatu-canastra\u201d, o que possibilita a venda do produto por um pre\u00e7o mais elevado.<\/p>\n<p>J\u00e1 por meio do Projeto Bandeiras &amp; Rodovias, pesquisadores conseguiram mapear os efeitos das rodovias na vida dos tamandu\u00e1s-bandeira. Durante 12 meses, v\u00e1rios animais foram monitorados no Mato Grosso do Sul. Cerca de 80% dos animais capturados nas proximidades das rodovias cruzaram as pistas em algum momento do estudo, principalmente no per\u00edodo noturno.<\/p>\n<p>Os resultados mostraram que nenhuma dessas rodovias t\u00eam mecanismos eficazes para inibi\u00e7\u00e3o de travessia, como cercamentos, passagens inferiores e superiores, bueiros adaptados, viadutos e t\u00faneis para a fauna. Ainda, o levantamento apontou que 17 tamandu\u00e1s-bandeiras s\u00e3o mortos por colis\u00f5es com ve\u00edculos a cada 100 quil\u00f4metros nas rodovias.<\/p>\n<p>As estradas pavimentadas tendem a ter mais atropelamento, mas as n\u00e3o-pavimentadas tamb\u00e9m causam impactos letais na biodiversidade animal.\u00a0De 2017 a 2020, o Icas registrou 12,4 mil animais atingidos por colis\u00e3o veicular. Mas para o Instituto, o n\u00famero \u00e9 subestimado e a taxa de mortalidade de animais de m\u00e9dio e grande porte deve superar 5 mil por ano.<\/p>\n<p>Uma forma simples de reduzir essas colis\u00f5es \u00e9 evitar dirigir nos hor\u00e1rios de maior risco, principalmente \u00e0 noite, quando os animais est\u00e3o mais ativos e h\u00e1 menos visibilidade. \u00c9 preciso ainda aten\u00e7\u00e3o e respeito \u00e0 sinaliza\u00e7\u00e3o, geralmente posta nos pontos onde h\u00e1 mais ocorr\u00eancia de atropelamentos. No MS, j\u00e1 est\u00e1 sendo implementado um guia de orienta\u00e7\u00f5es para redu\u00e7\u00e3o de coalis\u00e3o com a fauna, repassado principalmente a quem vai tirar a Carteira Nacional de Habilita\u00e7\u00e3o (CNH).<\/p>\n<p>\u2014 Al\u00e9m disso, hoje em dia a gente est\u00e1 vendo tamb\u00e9m que tem a quest\u00e3o dos agrot\u00f3xicos. Tem alguns casos j\u00e1 de tamandu\u00e1s-bandeira e de antas que vieram a \u00f3bito por contamina\u00e7\u00e3o por agrot\u00f3xico. S\u00e3o animais que estavam extremamente saud\u00e1veis, eram animais que a gente monitorava, e eles vieram a \u00f3bito repentinamente, e de forma muito pouco convencional. Fizemos exames toxicol\u00f3gicos que comprovaram que esses animais tinham altas taxas de agrot\u00f3xicos no sangue \u2014 relata Nina.<\/p>\n<p>Dados do Sistema de Avalia\u00e7\u00e3o do Risco de Extin\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (Salve), do Instituto Chico Mendes de Conserva\u00e7\u00e3o da Biodiversidade (ICMBio), apontam que das 4.866 esp\u00e9cies avaliadas no Cerrado (todos os vertebrados e alguns invertebrados), 303 est\u00e3o em categorias de amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Entre as 63 esp\u00e9cies em \u201ccriticamente em perigo\u201d est\u00e3o o pangola, macaco-preto, rato-candango, rolinha-do-planalto, pato-mergulh\u00e3o, aracu\u00e3, cascudo, bagrinho-de-caverna. \u201cEm perigo\u201d aparecem 101, como o macaco buriqui, sagui-caveirinha, ma\u00e7arico-rasteirinho, ti\u00ea-bicudo, aranha-caranguejeira, tartaruga de escamas e lambari. Por fim, mais 139 completam a lista na categoria \u201cvulner\u00e1vel\u201d, que re\u00fane esp\u00e9cies como bugio, macaco-aranha, lobo-guar\u00e1, boto-do-araguaia, papagaio-de-peito-roxo, on\u00e7a pintada, anta, pica-pau-do-parna\u00edba e pirapitinga.<\/p>\n<p>Os recursos para o Meio Ambiente ainda s\u00e3o escassos. Dados do Portal da Transpar\u00eancia apontam que o or\u00e7amento federal para a pasta ministerial n\u00e3o representou nem 1% do percentual dos gastos p\u00fablicos nos \u00faltimos cinco anos.<\/p>\n<p>\u2014 O or\u00e7amento do Minist\u00e9rio do Meio Ambiente e Mudan\u00e7a do Clima e dos \u00f3rg\u00e3os vinculados, como o Ibama e o ICMBio, sofreu redu\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel nos \u00faltimos anos. Felizmente, h\u00e1 uma tend\u00eancia de recomposi\u00e7\u00e3o desse or\u00e7amento, ainda que muito aqu\u00e9m do necess\u00e1rio. Para se ter uma ideia, a despesa executada em 2019, pelo MMA, foi de aproximadamente R$ 2,8 bilh\u00f5es. Em 2023, o valor alcan\u00e7ou R$ 3,6 bilh\u00f5es, um aumento de mais de 40% \u2014 diz o consultor legislativo em Meio Ambiente do Senado Matheus Dalloz.<\/p>\n<p>Para este o ano de 2024, est\u00e3o previstos R$ 14,64 bilh\u00f5es, sendo que R$ 10,45 bilh\u00f5es s\u00e3o referentes a recursos do Fundo Nacional sobre Mudan\u00e7a do Clima. Dados do Siga Brasil apontam que para a fun\u00e7\u00e3o de gest\u00e3o ambiental, que engloba tamb\u00e9m outros minist\u00e9rios, foram autorizados, de 2022 a 2024, R$ 25,1 bilh\u00f5es, dos quais R$ 15,1 bilh\u00f5es s\u00e3o para este ano, contemplando os j\u00e1 referidos R$ 10,45 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2014 O or\u00e7amento do MMA representa o montante que est\u00e1 sob responsabilidade do minist\u00e9rio. J\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o gest\u00e3o ambiental representa o quanto est\u00e1 sendo gasto nesta determinada \u00e1rea da despesa, independentemente de quem a est\u00e1 executando \u2014 exp\u00f5e o consultor legislativo em or\u00e7amento, Sergio Machado.<\/p>\n<p>S\u00e3o imensos os desafios para que a maior biodiversidade do mundo n\u00e3o pade\u00e7a e, consequentemente, toda a esp\u00e9cie humana que dela depende. O premiado professor e historiador da Universidade de Campinas (Unicamp) Luiz Marques, que publicou obras socioambientais, entre as quais\u00a0Capitalismo e colapso ambiental\u00a0(2015) e\u00a0O dec\u00eanio decisivo. Propostas para uma pol\u00edtica de sobreviv\u00eancia\u00a0(2023), afirma que \u201cn\u00f3s sabemos o que devemos fazer\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 N\u00f3s temos que zerar o desmatamento. N\u00f3s temos que diminuir drasticamente o consumo de combust\u00edveis f\u00f3sseis. N\u00f3s temos que diminuir drasticamente a produ\u00e7\u00e3o de res\u00edduos. \u00c9 isso que n\u00f3s temos que fazer. Mas n\u00e3o h\u00e1 nenhuma chance de alcan\u00e7ar se voc\u00ea n\u00e3o atacar a causa. E, para isso, \u00e9 preciso ter uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica de convencimento da sociedade. A meta deste governo \u00e9 reduzir o desmatamento. E essa meta s\u00f3 pode ser alcan\u00e7ada se voc\u00ea proibir o desmatamento de quem desmata.\u00a0H\u00e1 uma diminui\u00e7\u00e3o sens\u00edvel e merit\u00f3ria do desmatamento da Amaz\u00f4nia,\u00a0mas houve um grande aumento do desmatamento do Cerrado. Sem Amaz\u00f4nia e sem Cerrado n\u00e3o existe sociedade brasileira.\u00a0Temos que ter for\u00e7a pol\u00edtica, coragem, para coibir, para reprimir \u2014 afirma Marques.<\/p>\n<p>Para o historiador, \u00e9 preciso muito mais do que debates e tratados. Ele afirma que todas as tr\u00eas conven\u00e7\u00f5es-quadro das Na\u00e7\u00f5es Unidas firmadas \u2014 a Conven\u00e7\u00e3o sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, a Conven\u00e7\u00e3o sobre Diversidade Biol\u00f3gica e a Conven\u00e7\u00e3o de Combate \u00e0 Desertifica\u00e7\u00e3o e Mitiga\u00e7\u00e3o dos Efeitos da Seca \u2014 \u201ct\u00eam um saldo de total fracasso\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 A palavra &#8220;fracasso&#8221; \u00e0s vezes parece um exagero. Mas n\u00e3o \u00e9 um exagero. Se voc\u00ea tem um plano, uma inten\u00e7\u00e3o, voc\u00ea est\u00e1 a uma certa dist\u00e2ncia do seu objetivo. E voc\u00ea n\u00e3o apenas n\u00e3o alcan\u00e7a o seu objetivo, mas voc\u00ea retrocede em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 posi\u00e7\u00e3o que voc\u00ea estava, quando voc\u00ea decidiu chegar naquele objetivo, que \u00e9 o caso exatamente das tr\u00eas conven\u00e7\u00f5es, voc\u00ea n\u00e3o pode classificar isso como um n\u00e3o fracasso. N\u00e3o \u00e9 um fracasso relativo, porque isso seria se tivesse avan\u00e7ado um pouquinho, mas n\u00e3o chegado na meta que voc\u00ea propunha chegar. Mas n\u00e3o, retrocedeu \u2014 avalia o professor da Unicamp.<\/p>\n<p>Em 2023 as ag\u00eancias de clima apontaram que o planeta registrou as maiores temperaturas nos \u00faltimos 125 anos. Para o professor, \u201cn\u00e3o h\u00e1 mais como continuar sendo destrutivo e acreditar que essa destrui\u00e7\u00e3o n\u00e3o impacta, que n\u00e3o significa uma amea\u00e7a existencial\u201d.<\/p>\n<p>\u2014 Nos \u00faltimos 125 mil anos, quando a esp\u00e9cie humana estava engatinhando, que estava acabando de sair da \u00c1frica, n\u00f3s \u00e9ramos alguns poucos milhares, hoje n\u00f3s somos 8 bilh\u00f5es de pessoas e n\u00f3s temos uma demanda de energia, uma demanda de mat\u00e9ria-prima, um impacto sobre o sistema Terra gigantesco. Ent\u00e3o, n\u00f3s temos que desacelerar, mas n\u00e3o est\u00e3o entendendo isso. O \u00fanico crit\u00e9rio de sucesso de uma sociedade \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o do seu impacto sobre o sistema Terra \u2014 alerta Marques.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Bioma-cora\u00e7\u00e3o&#8221;, o Cerrado, localizado na parte central do Brasil, tem mais do que uma posi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica estrat\u00e9gica: \u00e9 primordial no bombeio e distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua que d\u00e1 vida \u00e0s principais bacias hidrogr\u00e1ficas nacionais e sul-americanas. 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