{"id":32501,"date":"2014-12-30T09:39:57","date_gmt":"2014-12-30T12:39:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=32501"},"modified":"2014-12-30T09:52:20","modified_gmt":"2014-12-30T12:52:20","slug":"memoraveis-historias-de-oliveira-bastos-por-renato-riella","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/memoraveis-historias-de-oliveira-bastos-por-renato-riella\/","title":{"rendered":"Memor\u00e1veis hist\u00f3rias de Oliveira Bastos, do ilustre Renato Riella"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 coisas que a gente, impotente, n\u00e3o consegue escrever. Mas h\u00e1 sempre um m\u00e1gico das palavras de plant\u00e3o, para homenagear amigos que nos ensinaram (e ensinam) a viver. Em seu blog, Renato Riella ressuscitou Oliveira Bastos. Provocou l\u00e1grimas e sorrisos. Uma homenagem que <strong>Notibras<\/strong> compartilha a seguir.<\/p>\n<blockquote><p>Na passagem do ano, refletindo sobre velhice, lembrei de como a gente pode superar \u00f3dios cristalizados, depois que amadurece.<\/p>\n<p>Meu principal exemplo se chama Oliveira Bastos, um dos jornalistas mais brilhantes do Brasil em todos os tempos. Era um indiv\u00edduo explosivo, com cenas horripilantes de injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Ele me despertou raros momentos de f\u00faria. Mas o tempo tudo cura. De repente, Oliveira morreu em Bras\u00edlia, debaixo de grande amizade minha. Com o tempo, n\u00f3s nos superamos. Fomos melhores do que parec\u00edamos.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 70, Oliveira me contratou, em 30 segundos, em p\u00e9, \u00a0para fazer a primeira p\u00e1gina do Correio Braziliense. Levei dois ou tr\u00eas anos fazendo s\u00f3 isso \u2013 muuuuuito bem!<\/p>\n<p>Perguntei a ele: \u201cQual a minha mesa?\u201d Respondeu: \u201cMesa? Sente em qualquer lugar, porra, at\u00e9 no ch\u00e3o, se quiser\u201d.<\/p>\n<p>Mirei uma mesa bem humilde, na entrada da reda\u00e7\u00e3o. Fiquei por ali, meses e meses, fazendo a primeira p\u00e1gina junto com o brilhante diagramador Lopes. Diziam que o Correio era um p\u00e9ssimo jornal pendurado na primeira p\u00e1gina.<\/p>\n<p><strong>FUI TRABALHAR \u201cGR\u00c1VIDO\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Quando meu filho Jan nasceu, em 1977, avisei a Oliveira que iria faltar. Faltei s\u00f3 um dia. Cheguei na noite do segundo dia, corrido do hospital, para fazer a primeira p\u00e1gina. O cara gritou do meio da reda\u00e7\u00e3o: \u201cO gr\u00e1vido veio trabalhar\u201d, e muitos deram uma risadinha nervosa de tens\u00e3o, diante da grosseria. Filadeumaputa!<\/p>\n<p>Nosso relacionamento era uma guerra di\u00e1ria. Duas ou tr\u00eas vezes fui na sala dele tirar d\u00favida sobre tema complicado e ele berrava: \u201cPorra, n\u00e3o tem compet\u00eancia nem para fazer uma primeira p\u00e1gina\u201d. Assim me virei, em plena ditadura, sabendo que se errasse n\u00e3o teria cobertura de ningu\u00e9m.<\/p>\n<p><strong>A HIST\u00d3RIA DO EUCLIDES<\/strong><\/p>\n<p>Lembro de Euclides, um \u00f3timo redator que importei da Bahia. Trabalhou alguns meses no Correio (cad\u00ea voc\u00ea, Euclides?)<\/p>\n<p>Oliveira implicou com o rapaz. Expulsou ele no meio da reda\u00e7\u00e3o, aos berros. \u201cPasse no caixa e pegue as suas contas\u201d. Euclides esperou dois ou tr\u00eas dias e assinou a demiss\u00e3o, Foi-se!<\/p>\n<p>Duas semanas depois, Oliveira passa por Euclides numa mesa do Beirute, bota as m\u00e3os na cadeira, e esbraveja: \u201dPorra, um chefe de reda\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode reclamar mais com ningu\u00e9m, que o cara sai todo enfezadinho\u2026 Quero voc\u00ea de volta amanh\u00e3, viu!\u201d Obediente, e precisando do emprego, Euclides desmanchou a demiss\u00e3o e voltou por mais algum tempo.<\/p>\n<p>Oliveira era especial, genial, amigo de Glauber Rocha, do Sarney e de muita gente importante. Depois de dois anos, cansei e sa\u00ed de repente do Correio. Logo depois ele caiu. Perdeu o emprego.<\/p>\n<p>Levei quase 30 anos sem v\u00ea-lo, mas tinha trauma dos seus berros de timbre fino. Antes disso, houve um c\u00e9lebre epis\u00f3dio em que S\u00e9rgio Naya e seus irm\u00e3os deram uma surra em Oliveira no Aeroporto de Bras\u00edlia. Muitas emo\u00e7\u00f5es, sempre!<\/p>\n<p><strong>E OLIVEIRA VOLTOU A BRAS\u00cdLIA<\/strong><\/p>\n<p>No in\u00edcio deste s\u00e9culo, de repente, Oliveira voltou a Bras\u00edlia, fazendo coluna pol\u00edtica numa revista local. E lembrou de mim, que havia casado h\u00e1 pouco com M\u00e1rcia Lima.<\/p>\n<p>O indiv\u00edduo n\u00e3o me esqueceu. Comentando uma an\u00e1lise minha sobre pol\u00edtica local, disse mais ou menos assim: \u201cEsse cara s\u00f3 pensa em loura agora. Por isso escreve uma bobagem dessas\u201d.<\/p>\n<p>Pensei em pegar o revolver que n\u00e3o tenho e ir atr\u00e1s dele, para tirar os atrasados. Mas estava bem de vida, dirigindo o Jornal da Comunidade, e me esqueci.<\/p>\n<p>Dias depois, encontrei Oliveira num local p\u00fablico. Ele olhou pra mim, com a cara da maior felicidade, e falou assim: \u201cComo \u00e9 que est\u00e1, rapaz? H\u00e1 um temp\u00e3o que penso em voc\u00ea. Precisamos conversar\u201d.<\/p>\n<p>E assim, passamos a nos ver, Soube que Oliveira passava por um tratamento de c\u00e2ncer de pr\u00f3stata. De repente, ficamos grandes amigos.<\/p>\n<p>Eu tinha lan\u00e7ado um livro em 2005, uma par\u00f3dia do Lula. Mostrei pra ele, que gostou muito. Pretensioso, disse: \u201cSe tivesse me mostrado antes, a gente cortava o \u00faltimo cap\u00edtulo\u201d. Olhando o livro hoje, o filadaputa tinha raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Lembrei do dia em que dei uma corrida nele na reda\u00e7\u00e3o. Oliveira estava lendo o mural do Correio, instalado na entrada da reda\u00e7\u00e3o, em frente \u00e0 minha rid\u00edcula mesinha (melhor do que o ch\u00e3o!). O dia estava tenso.<\/p>\n<p>Apareceu um cont\u00ednuo com uma correspond\u00eancia. Sem saber quem\u00a0 ele era, perguntou: \u201cQuem \u00e9 dona Riella?\u201d Em altos brados, Oliveira Bastos respondeu: \u201cDona Riella \u00e9 esta coisa a\u00ed\u201d, apontando pra mim.<\/p>\n<p>Gritei: \u201cFilho de uma puta\u201d, e corri atr\u00e1s dele. Deu uma corridinha e bateu a porta da sala de diretor, \u00e0 qual n\u00e3o tive coragem de invadir. No outro dia estava tudo bem. O mesmo caos de sempre.<\/p>\n<p>Anos depois de voltar a Bras\u00edlia, Oliveira piorou do c\u00e2ncer. Foi internado, etc. N\u00e3o tive coragem de visit\u00e1-lo. Acompanhei seu estado via Fernando Lemos, uma das poucas pessoas que Oliveira amava de verdade, mais do que filho.<\/p>\n<p>E assim morreu o meu amigo Oliveira Bastos, do qual tenho saudades nesta passagem de ano. Conto isso como li\u00e7\u00e3o aos mais novos. Nada \u00e9 t\u00e3o ruim quanto parece ser.<\/p>\n<p><strong>O CARA JOGOU UMA M\u00c1QUINA DE ESCREVER NO CHEFE<\/strong><\/p>\n<p>Desculpem! Reabro o assunto para contar uma \u00f3tima. Jo\u00e3o Bol\u00e3o foi um dos maiores redatores (copydesk) de jornal no Brasil. Veio para o Correio, importado por Fernando Lemos e Oliveira Bastos (infelizmente, Bol\u00e3o bebia muito e morreu cedo).<\/p>\n<p>Num plant\u00e3o de domingo, Oliveira encheu tanto o saco do Bol\u00e3o, que ele, muito forte, num ataque de f\u00faria, jogou uma pesad\u00edssima m\u00e1quina de escrever Remington no chefe. Se acertasse, eu n\u00e3o teria essas hist\u00f3rias para contar sobre Oliveira.<\/p>\n<p>No fim, ficou tudo bem \u2013 na medida do poss\u00edvel, \u00e9 claro.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blogdoriella.com.br\/\" target=\"_blank\"><em>blogdoriella.com.br<\/em><\/a><\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 coisas que a gente, impotente, n\u00e3o consegue escrever. Mas h\u00e1 sempre um m\u00e1gico das palavras de plant\u00e3o, para homenagear amigos que nos ensinaram (e ensinam) a viver. 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