{"id":325601,"date":"2024-03-29T07:27:12","date_gmt":"2024-03-29T10:27:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=325601"},"modified":"2024-03-29T07:54:17","modified_gmt":"2024-03-29T10:54:17","slug":"lembrancas-do-golpe-de-1o-de-abril-permanecem-vivas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/lembrancas-do-golpe-de-1o-de-abril-permanecem-vivas\/","title":{"rendered":"Lembran\u00e7as do golpe de 1\u00ba de abril permanecem vivas"},"content":{"rendered":"<p>Desde 1961, com a derrota imposta pelo povo nas ruas ao golpe militar que intentara impedir a posse de Jango, viv\u00edamos um processo hist\u00f3rico tenso. Hoje, com o distanciamento de tantos anos, dir\u00edamos que tenso, mas muito rico, atravessado que foi por uma realidade em constru\u00e7\u00e3o, povoada por d\u00favidas e receios, muitos sonhos e muitas esperan\u00e7as.<\/p>\n<p>Com os termos de hoje, diria que viv\u00edamos de forma aguda o teatro de uma grande polariza\u00e7\u00e3o, a que nos persegue h\u00e1 500 anos, entre a necessidade do avan\u00e7o (ent\u00e3o o pleito das reformas de base, ainda hoje por serem realizadas) e a resist\u00eancia do <em>status quo<\/em>, nome de fantasia do atraso e da concentra\u00e7\u00e3o de renda, de escandalosa injusti\u00e7a.<\/p>\n<p>Acredit\u00e1vamos, a esquerda de ent\u00e3o, na revolu\u00e7\u00e3o brasileira, vista como em processo, e nos consider\u00e1vamos construtores de uma nova sociedade. A direita, por seu turno, a um tempo negava a ruptura e a concilia\u00e7\u00e3o, e direita e esquerda disputavam alian\u00e7a com os militares, de um lado os &#8220;entreguistas&#8221;, de outro, o nosso campo, os legalistas, herdeiros do Marechal Lott.<\/p>\n<p>Em certos momentos t\u00ednhamos a sensa\u00e7\u00e3o de tocar com as m\u00e3os o horizonte socialista, nossa utopia de sempre, e ao mesmo tempo confi\u00e1vamos no governo Jo\u00e3o Goulart, o que punha r\u00e9deas em nosso deslumbramento revolucion\u00e1rio juvenil. Muitos achavam inconceb\u00edvel os velhos generais abrirem as portas do poder para sargentos, pol\u00edticos de esquerda, &#8220;empres\u00e1rios progressistas&#8221;, estudantes e camponeses sem terra. Nossos ide\u00f3logos no PCB ensinavam que a primeira fase da revolu\u00e7\u00e3o seria em alian\u00e7a com a burguesia nacional.<\/p>\n<p>Contava-se, de igual, com a estabilidade do governo Jango, assentado em larga maioria no Congresso e festejado pelo apoio popular, apesar da campanha ferrenha que lhe movia a grande imprensa, sempre reacion\u00e1ria. E, sobretudo, confi\u00e1vamos na sua base de sustenta\u00e7\u00e3o na caserna, que se dizia forte. Era o tal do &#8220;dispositivo militar do general Assis Brasil&#8221;.<\/p>\n<p>O pa\u00eds discutia as reformas de base, a plataforma-s\u00edntese de nosso projeto e o divisor de \u00e1guas da pol\u00edtica. O pa\u00eds era uma s\u00f3 assembleia, e discutia-se seu destino em audit\u00f3rios por todo o pa\u00eds. Certamente alcan\u00e7ou-se, naquela altura do s\u00e9culo passado, o momento de maior n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o das massas e organiza\u00e7\u00e3o popular. Eram os nossos anos dourados, ap\u00f3s o sucesso de JK; os anos do Cinema Novo, de Maria Esther Bueno, nossa tenista campe\u00e3, do Brasil bicampe\u00e3o mundial de futebol ao lado do Brasil das ligas camponesas, da UNE, da Frente Parlamentar Nacionalista, das centrais sindicais em ebuli\u00e7\u00e3o e do crescimento do movimento popular. Mesmo a Guerra Fria nos favorecia, e foi um marco a viagem de Iuri Gagarin.<\/p>\n<p>Mas a lua tem duas faces: nossos avan\u00e7os eram acompanhados pelo avan\u00e7o dos centros da rea\u00e7\u00e3o que se espalhavam Brasil afora, como o IBADE (encarregado de financiar as candidaturas de direita nas elei\u00e7\u00f5es brasileiras) e o IPES (formulador da doutrina golpista). Nas elei\u00e7\u00f5es de 1962 a direita comprometida com o golpe havia eleito os governadores de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais, o chamado centro din\u00e2mico do pa\u00eds, aproximadamente 40% da popula\u00e7\u00e3o e 60% da economia nacional.<\/p>\n<p>A partir de 1963 sent\u00edamos, sem clareza quanto ao significado, que algo impalp\u00e1vel se movia no quadro tradicional da pol\u00edtica brasileira: a rebeli\u00e3o dos sargentos em Bras\u00edlia e o motim dos marinheiros no Rio. Eram fatos bastante objetivos para serem ignorados.<\/p>\n<p>O recuo de Jango, retirando do Congresso o pedido de decreta\u00e7\u00e3o do estado de s\u00edtio, que dizia amparado no apoio dos ministros militares e com o qual pretendia atingir o governador Carlos Lacerda, da Guanabara, seu principal opositor, era evidente indicador de conflito no seu n\u00facleo mais \u00edntimo: contra o estado de s\u00edtio moveram-se Arraes e Brizola, a Frente Parlamentar Nacionalista, a UNE e as centrais sindicais.<\/p>\n<p>Consolidava-se a ideia da imin\u00eancia de um golpe, quando sonh\u00e1vamos com a revolu\u00e7\u00e3o. No Rio, ex-vice-presidente da UNE, fui conversar com Jos\u00e9 Serra, ent\u00e3o presidente da entidade e quadro pol\u00edtico influente. A conversa confluiu para o plano nacional, e para o golpe, que n\u00e3o se expunha, mas se sentia. Indagado sobre sua vis\u00e3o, o l\u00edder estudantil que seria ministro de Estado no governo FHC e governador de S\u00e3o Paulo, respondeu algo que ainda relembro, passados tantos anos: &#8220;- O golpe ser\u00e1 dado. A d\u00favida \u00e9 simplesmente sobre a iniciativa, se da direta ou da esquerda&#8221;.<\/p>\n<p>Voltaria a ver o Serra de longe, da\u00ed a poucos dias, discursando no palanque do com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o. Passadas dezenas de anos, nos reencontramos no Recife, no vel\u00f3rio de Miguel Arraes. Ele n\u00e3o se recordava do di\u00e1logo. Mas, de fato, a esquerda, ou pelo menos setores da esquerda vinculados ao Partid\u00e3o, j\u00e1 contavam com o golpe, a nosso favor, mas comandado pelos generais, e cuidavam de tomar assento. Estava na esquina o governo democr\u00e1tico-nacionalista e era a hora de negociar sua composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Algo como dois dias passados do encontro com Serra, deparo-me com Ant\u00f4nio Carlos Peixoto, intelectual de primeira linha do PCB, assistente da fra\u00e7\u00e3o da UNE: nosso amigo Fco. Faria, vice-presidente, iria representar a entidade em reuni\u00e3o que come\u00e7aria a definir nosso futuro minist\u00e9rio. O Partid\u00e3o teria dois votos, o seu, da organiza\u00e7\u00e3o, e aquele que chegaria no galope da entidade estudantil. O golpe n\u00e3o seria das For\u00e7as Armadas, nem contra o povo.<\/p>\n<p>O com\u00edcio da Central foi um marco e mudou muitas cabe\u00e7as, inclusive a minha. Antes reticente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s vias de conquista do poder, passei a me incorporar ao contingente dos conquistados pela demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a para uma imediata e irresist\u00edvel conquista do poder.<\/p>\n<p>No dia 17 de mar\u00e7o, havia o que comemorar. Era o anivers\u00e1rio do Partid\u00e3o (que desfrutava de plena liberdade e de uma legalidade fatual), e a festa foi uma confer\u00eancia de Prestes, nosso secret\u00e1rio-geral e l\u00edder quase m\u00edtico. A &#8220;festa&#8221; foi no 9\u00ba andar da ABI, e constituiu de longa e did\u00e1tica prele\u00e7\u00e3o sobre o processo social brasileiro e a presen\u00e7a dos militares em nossa hist\u00f3ria. Relembro, de mem\u00f3ria, tr\u00eas pontos que ainda hoje considero os de maior relevo: I) os militares brasileiros eram oriundos da classe-m\u00e9dia, e por isso refletiam o sentimento nacional; II) as for\u00e7as armadas eram legalistas e democr\u00e1ticas, e, corol\u00e1rio, III) n\u00e3o havia o menor risco de golpe de Estado militar. O que, dito pelo grande comandante, valia para n\u00f3s como verdade irrefut\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sa\u00edmos empolgados e fomos tomar chope no bar Vermelhinho, bem em frente \u00e0 ABI. No dia seguinte, Prestes repetiria sua prega\u00e7\u00e3o no grande com\u00edcio do Pacaembu, em S\u00e3o Paulo. A tradu\u00e7\u00e3o de tudo isso foi a absoluta desmobiliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as populares.<\/p>\n<p>Dois dias passados sub\u00edamos ao Nordeste, Marcos Lins, dirigente da AP, eu e outro personagem cuja imagem e nome a hist\u00f3ria e a mem\u00f3ria n\u00e3o registraram. Marcos Lins levava cartas para dois governadores da regi\u00e3o, e eu para o governador Virg\u00edlio T\u00e1vora, do Cear\u00e1, com quem me encontrei logo na noite de minha chegada. Por indica\u00e7\u00e3o do movimento sindical e partidos de esquerda, eu exercia, a partir de 1963, uma assessoria pol\u00edtica no gabinete do governador, quadro da UDN, amigo a um s\u00f3 tempo de Jango (era o que se dizia) e do banqueiro Magalh\u00e3es Pinto, governador de Minas Gerais e figura das mais decisivas na maquina\u00e7\u00e3o do golpe &#8211; que, n\u00e3o sabia Prestes e n\u00e3o sab\u00edamos n\u00f3s, logo saltaria \u00e0s ruas.<\/p>\n<p>No dia seguinte, estou restabelecendo contatos e tentando montar uma linha de informa\u00e7\u00f5es, quando sou chamado ao gabinete do governador. Quando entro em sua sala, ele est\u00e1 saindo deu uma pequena cabine que mandara instalar, &#8220;para ter mais privacidade em suas liga\u00e7\u00f5es &#8220;com Bras\u00edlia e Rio&#8221;. Ap\u00f3s os r\u00e1pidos cumprimentos de praxe, dirige-se a mim: &#8220;- Doutorzinho (assim ele identificava todos os colaboradores jovens), seu amigo Jango acaba de nos foder: mexeu na \u00fanica coisa em que n\u00e3o se mexe neste pa\u00eds, a hierarquia militar (o governador se referia ao discurso do Presidente aos sargentos no Autom\u00f3vel Clube do Rio, na noite do dia 30\/3). O golpe est\u00e1 dado e eu n\u00e3o posso fazer nada por voc\u00eas Vou tentar salvar meu mandato. Saia daqui e v\u00e1 avisar aos seus amigos&#8221;.<\/p>\n<p>Sa\u00ed, atordoado. Mesmo assim falei com quem pude, saiu de circula\u00e7\u00e3o quem p\u00f4de, mas n\u00e3o havia nenhuma retaguarda, nem op\u00e7\u00e3o t\u00e1tica: est\u00e1vamos preparados, pol\u00edtica e estrategicamente, t\u00e3o-s\u00f3, para assumirmos a dire\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Caminh\u00e1vamos ou corr\u00edamos sem dire\u00e7\u00e3o, como formigas expulsas do formigueiro. E houve muita resist\u00eancia, talvez de ordem mais psicol\u00f3gica do que pol\u00edtica, a aceitar a desagrad\u00e1vel informa\u00e7\u00e3o que eu levava. Ela desmontava as fantasias de h\u00e1 pouco. Est\u00e1vamos todos sem ch\u00e3o, e, pior de tudo, sem saber o que fazer, sem ter a quem consultar. No audit\u00f3rio da F\u00eanix Caixeiral, no centro de Fortaleza, antigo e liberal estabelecimento de ensino fundado por comerci\u00e1rios, sucediam-se discursos inflamados. O sentimento geral era de um repeteco de agosto de 1961 e da resist\u00eancia democr\u00e1tica. Mas n\u00e3o surgiu um novo governador Brizola, n\u00e3o teve voz uma nova Campanha da Legalidade.<\/p>\n<p>No dia seguinte dessa longa noite, chego cedo \u00e0 Faculdade de Direito e me dou com algo que semelhava uma festa. Os companheiros comemoravam o levante do general Mour\u00e3o, porque, diziam, era o que &#8220;o gal. Brasil esperava para cortar a cabe\u00e7a dos golpistas&#8221;. Achei mais prudente ir \u00e0 casa do governador. Era fundamental obter informa\u00e7\u00f5es. L\u00e1 o encontrei pressionado por uma delega\u00e7\u00e3o de empres\u00e1rios que cobravam uma declara\u00e7\u00e3o sua de apoio ao golpe e promessa de repress\u00e3o a qualquer agita\u00e7\u00e3o popular. Imperturb\u00e1vel, Virg\u00edlio, coronel do ex\u00e9rcito, repetiu n\u00e3o poucas vezes que seu papel era o de garantir a ordem, o que faria. Depois se soube que oficiais do 23\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores, que seria o centro da repress\u00e3o, trabalhavam naquele transe pela sua cassa\u00e7\u00e3o. Mas o governador era sobrinho do Marechal Juarez T\u00e1vora.<\/p>\n<p>Finda a press\u00e3o dos endinheirados, ficamos ali, alguns pol\u00edticos e auxiliares diretos do governador. Tentando recuperar o \u00e2nimo enquanto via diante de mim o desmoronamento de um sonho que at\u00e9 h\u00e1 pouco t\u00ednhamos como realizado, virei-me para meu amigo deputado Pontes Neto, um quadro de escol, e comentei, querendo ser otimista, mas carente de convic\u00e7\u00e3o, e ao mesmo tempo em busca do que quer que fosse que me tirasse das previs\u00f5es pessimistas que me assaltavam: &#8220;- Pontes, isso \u00e9 como um mandato que nos foi tomado. Em cinco anos tudo volta ao seu leito&#8230;&#8221; &#8220;- N\u00e3o&#8230; &#8211; respondeu o s\u00e1bio parlamentar &#8211; isso \u00e9 coisa para dez a quinze anos&#8221;.<\/p>\n<p>Pontes seria um dos primeiros presos. Com o peso da realidade me oprimindo, tomei o rumo que as circunst\u00e2ncias me permitiam, mas at\u00e9 minhas m\u00e3os chegou, na manh\u00e3 seguinte, o jornal O Estado, com meu retrato na capa ao lado do deputado Mois\u00e9s Pimentel, &#8220;empres\u00e1rio progressista&#8221;, em um encontro com camponeses promovido pelo C\u00edrculo Oper\u00e1rio Cat\u00f3lico, e a legenda: &#8220;Comunista at\u00e9 no gabinete do governador&#8221;. Ficou claro para mim que o alvo era o governador, e tive tempo para entender que Fortaleza ficara muito pequena.<\/p>\n<p>Logo chegaram os idos de abril, que pareciam n\u00e3o ter fim pois n\u00e3o nos deixavam uma s\u00f3 fresta para contemplarmos o horizonte. Nossas dores falavam de dias luciferinos, e falavam claramente as imagens de Greg\u00f3rio Bezerra, espancado, torturado, seminu sendo arrastado, corda no pesco\u00e7o, exibido como presa de carniceiros pelas assustadas ruas do Recife. Depois, muito depois, seriam as hist\u00f3rias de M\u00e1rio Alves, nosso dirigente (torturado at\u00e9 a morte nas depend\u00eancias da Pol\u00edcia do Ex;ercito, no Rio de Janeiro), e do menino Stuart Angel (trturado at\u00e9 a morte nas depend\u00eancia da Base Aereo do Gale\u00e3o.<\/p>\n<p>Dois saudosos amigos, Luciano Magalh\u00e3es e Aquiles Peres Mota, percorriam de carro as sa\u00eddas de minha cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde 1961, com a derrota imposta pelo povo nas ruas ao golpe militar que intentara impedir a posse de Jango, viv\u00edamos um processo hist\u00f3rico tenso. 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