{"id":325664,"date":"2024-03-30T00:06:08","date_gmt":"2024-03-30T03:06:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=325664"},"modified":"2024-03-30T15:09:36","modified_gmt":"2024-03-30T18:09:36","slug":"mulheres-viveram-dose-extra-de-perversidade-na-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/mulheres-viveram-dose-extra-de-perversidade-na-ditadura\/","title":{"rendered":"Mulheres viveram dose extra de perversidade na ditadura"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Voc\u00ea vai parir fogo&#8221;, disse o torturador da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, enquanto aplicava choques el\u00e9tricos na vagina de Dulce Maia, militante da VPR. Depois a estuprou. Com 29 anos, ela viu seus cabelos embraquecerem da noite para o dia; nunca mais menstruou.<\/p>\n<p>A jornalista Rose Nogueira, presa quando amamentava o filho de 33 dias, seviciada e violentada com os peitos ainda cheios de leite, foi apelidada de Miss Brasil por seu torturador no Dops.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o se referia ao concurso de beleza, mas a uma vaca leiteira premiada em uma exposi\u00e7\u00e3o. &#8220;O torturador fazia quest\u00e3o de mostrar a fotografia da vaca Miss Brasil no jornal. Dizia que eu era uma vaca terrorista&#8221;, contou Rose \u00e0 jornalista Luiza Villam\u00e9a.<\/p>\n<p>Autora do livro A torre \u2013 o cotidiano de mulheres encarceradas pela ditadura, Villam\u00e9a fez uma centena de entrevistas e pesquisou milhares de documentos em arquivos durante dez anos para contar como essas mulheres se organizavam e se relacionavam na pris\u00e3o na torre incrustada no pres\u00eddio Tiradentes, em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Quase todas chegaram ali traumatizadas pela tortura, muitas estupradas, todas submetidas a uma dose extra de perversidade, um indisfar\u00e7ado \u00f3dio mis\u00f3gino que salta aos olhos de quem l\u00ea.<\/p>\n<p>Eu estava no meio dessa leitura, enquanto acompanhava atentamente a s\u00e9rie cheia de revela\u00e7\u00f5es da P\u00fablica sobre os 60 anos da ditadura \u2013 sim, presidente Lula, nunca foi mais importante relembrar essa data \u2013, quando a not\u00edcia sobre a pris\u00e3o dos novos acusados no assassinato de Marielle Franco me fez ligar a TV \u00e0s 7 da manh\u00e3 no domingo passado.<\/p>\n<p>A dor e o susto estampados nos olhos da irm\u00e3 e m\u00e3e de Marielle \u2013 ministra Anielle Franco e dona Marinete \u2013 ao tomarem conhecimento ao vivo de que o delegado Rivaldo Barbosa foi apontado como um dos autores do crime me comoveram e trouxeram uma estranha sensa\u00e7\u00e3o de d\u00e9j\u00e0-vu.<\/p>\n<p>Sim, eu j\u00e1 tinha visto aquela express\u00e3o de desamparo nos rostos de m\u00e3es, irm\u00e3s e esposas de outras v\u00edtimas de crimes cometidos por agentes do Estado. Dos mortos em opera\u00e7\u00f5es policiais em lugares pobres, como a Mar\u00e9 de Marielle, \u00e0s v\u00edtimas da ditadura militar.<\/p>\n<p>Marielle foi morta por ordem de um deputado federal e um conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, em um crime desde o in\u00edcio acobertado pelo chefe da Pol\u00edcia Civil do Rio de Janeiro, segundo a Pol\u00edcia Federal (PF).<\/p>\n<p>Quando \u00e9 o Estado que mata voc\u00ea recorre a quem?<\/p>\n<p>Li o relat\u00f3rio de 479 p\u00e1ginas da PF (na \u00edntegra na internet), a que os deputados do Congresso Nacional disseram &#8220;n\u00e3o ter tido acesso&#8221; como pretexto para postergar a vota\u00e7\u00e3o sobre a pris\u00e3o de Chiquinho Braz\u00e3o. Embora seja consistente, apesar da dificuldade de comprovar pontos da dela\u00e7\u00e3o de Ronnie Lessa seis anos depois do crime, como observou meu vizinho de coluna, Rubens Valente, fiquei com a sensa\u00e7\u00e3o de que faltava algo na motiva\u00e7\u00e3o do crime.<\/p>\n<p>Sim, Marielle tinha um papel importante na conten\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o territorial das mil\u00edcias associada \u00e0 especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, como diz o relat\u00f3rio. Tamb\u00e9m teve participa\u00e7\u00e3o ativa, como assessora de Marcelo Freixo na CPI das Mil\u00edcias.<\/p>\n<p>E se notabilizou, como vereadora, na fiscaliza\u00e7\u00e3o da interven\u00e7\u00e3o militar na seguran\u00e7a do Rio de Janeiro, quando o general Richard Nunes indicou Rivaldo Barbosa para a chefia da pol\u00edcia, uma semana antes do crime.<\/p>\n<p>Mas para muita gente, especialmente mulheres que durante todo esse tempo pressionaram em ruas e redes para que o caso n\u00e3o fosse esquecido, a condi\u00e7\u00e3o de mulher negra, favelada, feminista e LGBT, incans\u00e1vel na den\u00fancia da viol\u00eancia policial e de g\u00eanero, parece insepar\u00e1vel do crime que a vitimou.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer que seja um &#8220;crime de \u00f3dio&#8221;, como tentou justificar a pol\u00edcia comandada por Rivaldo na esperan\u00e7a de arrefecer o clamor popular pelo mandante. Trata-se de um homic\u00eddio cometido por profissionais, com interesses pol\u00edticos e econ\u00f4micos no ecossistema do crime do Rio, como disse o ministro Fl\u00e1vio Dino.<\/p>\n<p>Foi quando me lembrei de um artigo assinado em 2019 pela doutora em comunica\u00e7\u00e3o social e deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), quando apenas os executores do crime eram conhecidos, e n\u00e3o os mandantes. O t\u00edtulo, &#8220;O feminic\u00eddio pol\u00edtico de Marielle Franco&#8221;, refere-se a um conceito desenvolvido academicamente por ela durante o p\u00f3s-doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF) e pode ser aplicado a outras mulheres que tiveram suas vozes caladas pela viol\u00eancia, como a ju\u00edza Patr\u00edcia Acioli, morta por PMs, ou Dorothy Stang, executada por pistoleiros a mando de fazendeiros no Par\u00e1.<\/p>\n<p>Liguei para a deputada, amiga de Marielle e como ela &#8220;cria da Mar\u00e9&#8221;, al\u00e9m de chefe do seu gabinete durante o mandato abreviado pela execu\u00e7\u00e3o da vereadora. Em uma conversa de meia hora, ela se declarou convencida da realidade da trama revelada pela PF &#8220;como ponto de partida para novas investiga\u00e7\u00f5es&#8221;. Falou tamb\u00e9m da impossibilidade de julgar o que \u00e9 motivo para matar na cabe\u00e7a de assassinos, principalmente quando os criminosos tinham desde o in\u00edcio a guarida de um agente de Estado, o delegado Rivaldo, e trouxe outras reflex\u00f5es, que compartilho aqui.<\/p>\n<p>&#8220;Depois de conseguir pensar em qu\u00e3o fr\u00e1gil era [essa estrutura de investiga\u00e7\u00e3o do estado do Rio], tamb\u00e9m penso o quanto o corpo da Marielle era esse corpo mat\u00e1vel na pol\u00edtica, e quanto enfim \u00e9 poss\u00edvel que essas insatisfa\u00e7\u00f5es com a atua\u00e7\u00e3o dela tenham levado ao crime. Mas acredito que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. H\u00e1 todo um conjunto de situa\u00e7\u00f5es que colocam esse corpo mat\u00e1vel de uma mulher pobre, preta, LGBT. Aquela novata na pol\u00edtica que ousou demais, em pouco tempo, dentro de uma estrutura formatada para eles, homens brancos, que t\u00eam a pol\u00edtica como heran\u00e7a e a viol\u00eancia como metodologia pol\u00edtica. Tem as causas objetivas, mas tamb\u00e9m as subjetivas. Acho que eles acharam ousadia demais uma mulher como aquela desafiar de peito aberto o poderio pol\u00edtico que eles j\u00e1 tinham al\u00e9m da certeza da impunidade. Faz sentido dentro de uma l\u00f3gica miliciana calcada no Estado diante de um corpo mat\u00e1vel. \u00c9, sim, um feminic\u00eddio pol\u00edtico&#8221;, concluiu a deputada.<\/p>\n<p>Seja nos por\u00f5es da ditadura dos militares ou no &#8220;pol\u00edtica, pol\u00edcia e crime&#8221; do Rio contempor\u00e2neo, os corpos das mulheres s\u00e3o &#8220;mat\u00e1veis&#8221;, &#8220;tortur\u00e1veis&#8221;, &#8220;estupr\u00e1veis&#8221; e continuar\u00e3o a s\u00ea-lo se deixarmos de gritar por justi\u00e7a da maneira que aprendemos a fazer com familiares, companheiros e amigos de v\u00edtimas da ditadura que se pretende esquecer: Marielle, presente!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Voc\u00ea vai parir fogo&#8221;, disse o torturador da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito, enquanto aplicava choques el\u00e9tricos na vagina de Dulce Maia, militante da VPR. Depois a estuprou. Com 29 anos, ela viu seus cabelos embraquecerem da noite para o dia; nunca mais menstruou. 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