{"id":325691,"date":"2024-03-31T03:00:29","date_gmt":"2024-03-31T06:00:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=325691"},"modified":"2024-03-31T03:44:26","modified_gmt":"2024-03-31T06:44:26","slug":"institutos-privados-prepararam-terreno-para-o-golpe-de-64","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/institutos-privados-prepararam-terreno-para-o-golpe-de-64\/","title":{"rendered":"Institutos privados prepararam terreno para o golpe de 64"},"content":{"rendered":"<p>Al\u00e9m da for\u00e7a das armas, o golpe de Estado de 1964 contou com o apoio pr\u00e9vio de uma extensa estrutura pol\u00edtico-ideol\u00f3gica que preparou o terreno para a destitui\u00e7\u00e3o do governo de Jo\u00e3o Goulart. As duas principais estruturas utilizadas pelos golpistas foram o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (Ibad) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes). Ap\u00f3s o golpe, as lideran\u00e7as desses institutos ocuparam cargos-chave na administra\u00e7\u00e3o do general Castello Branco.<\/p>\n<p>Esses institutos chegaram a ser alvos de Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) no Congresso Nacional, em 1963, um ano antes do golpe. A CPI investigou se os institutos usavam mecanismos ilegais de financiamento de campanhas pol\u00edticas. Ao final, a Comiss\u00e3o culpou o Ibad por corrup\u00e7\u00e3o eleitoral e determinou seu fechamento, mas isentou o Ipes.<\/p>\n<p>A professora de rela\u00e7\u00f5es internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Camila Feix Vidal, especialista na rela\u00e7\u00e3o entre Estados Unidos e Am\u00e9rica Latina, destacou que os estudos do golpe de 1964 tendem a se concentrar na movimenta\u00e7\u00e3o militar, ignorando que ela foi preparada bem antes.<\/p>\n<p>\u201cO golpe \u00e9 gestado muito antes a partir de v\u00e1rios instrumentos, sendo o principal deles o complexo Ipes\/Ibad. Esse complexo trabalhou nos \u00e2mbitos da propaganda e da pol\u00edtica, fazendo essa rela\u00e7\u00e3o entre pol\u00edtica, For\u00e7as Armadas, m\u00eddia e iniciativa privada com os empres\u00e1rios. Primeiro, voc\u00ea precisar preparar o terreno, para depois, de fato, iniciar a opera\u00e7\u00e3o militar.\u201d<\/p>\n<p>O Ibad surgiu oficialmente em 1959 \u201ccom o alegado e amb\u00edguo prop\u00f3sito de defender a democracia\u201d, enfatizou Ren\u00e9 Dreifuss em seu livro 1964: A Conquista do Estado. Ex-professor de ci\u00eancia pol\u00edtica da Universidade Federal Fluminense (UFF), Dreifuss faleceu em 2003.<\/p>\n<p>O livro de Dreifuss destaca que o Ibad era formado, principalmente, por empres\u00e1rios nacionais e estrangeiros, com participa\u00e7\u00e3o especial dos membros da C\u00e2mara de Com\u00e9rcio Brasil-Estados Unidos, de membros da Escola Superior de Guerra (ESG), ligada ao Ex\u00e9rcito, e com estreita colabora\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia de Intelig\u00eancia dos Estados Unidos, a CIA. O Ibad ganhou notoriedade durante a presid\u00eancia de Goulart, \u201cespecialmente durante a campanha eleitoral de 1962, quando serviu de conduto de fundos maci\u00e7os para influenciar o processo eleitoral\u201d, escreveu.<\/p>\n<p>J\u00e1 o Ipes surgiu oficialmente em novembro de 1961, ap\u00f3s a ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros, fundado por empres\u00e1rios nacionais e dos Estados Unidos. De acordo com Dreifuss, a cria\u00e7\u00e3o do instituto foi uma \u201crea\u00e7\u00e3o empresarial ao que foi percebido como a tend\u00eancia esquerdista da vida pol\u00edtica\u201d no Brasil.<\/p>\n<p>Oficialmente, o Ipes se apresentava como organiza\u00e7\u00e3o com o objetivo de \u201cpromover a educa\u00e7\u00e3o cultural, moral e c\u00edvica dos indiv\u00edduos\u201d por meio de \u201cestudos e atividades sociais\u201d com recomenda\u00e7\u00f5es para \u201ccontribuir para o progresso econ\u00f4mico, o bem-estar social e fortificar o regime democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, o Ipes produzia e distribu\u00eda, gratuitamente, extenso material de propaganda contr\u00e1ria ao governo Goulart, alertando para o \u201crisco comunista\u201d em meio a atmosfera da Guerra Fria. Entre seus principais l\u00edderes, estava o general Golbery do Couto e Silva, uma das principais figuras da ditadura brasileira. Golbery foi o fundador do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o (SNI), respons\u00e1vel pela intelig\u00eancia do regime, e chefe da Casa Civil nos governos dos generais Ernesto Geisel (1974-1979) e Jo\u00e3o Figueiredo (1979-1985).<\/p>\n<p><strong>Criar consensos<\/strong><br \/>\nA professora da UFSC, Camila Vidal, destacou que o papel do complexo Ipes\/Ibad era o de criar um consenso na sociedade brasileira para justificar o golpe de Estado e a ditadura de 21 anos que se seguiria.<\/p>\n<p>\u201cEles trabalharam nesse clima das ideias, de persuadir a m\u00eddia, a popula\u00e7\u00e3o e determinados pol\u00edticos a defender a ideia de neoliberalismo, do fim de um incipiente Estado de bem-estar social.\u201d<\/p>\n<p>\u201cNo caso do Ipes, teve todo o arranjo midi\u00e1tico de criar o medo da Guerra Fria, da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e do comunismo, relacionando determinados setores da pol\u00edtica, e mesmo da sociedade brasileira, como comunistas e como isso seria perigoso. Isso teve um papel decisivo\u201d, completou.<\/p>\n<p>De acordo com a professora Camila Vidal, o Ibad teve uma atua\u00e7\u00e3o mais pol\u00edtica, financiando deputados e governadores para desestabilizar o governo Goulart e a esquerda no geral, incluindo a infiltra\u00e7\u00e3o nos movimentos populares, sindicais e estudantis. Em outra frente de atua\u00e7\u00e3o, o Ipes teve mais uma fun\u00e7\u00e3o de propaganda, articulando ainda todo o bloco contr\u00e1rio ao governo.<\/p>\n<p>Camila destacou ainda que essas estruturas usavam a fachada de instituto t\u00e9cnico e acad\u00eamico para promover a agenda dos Estados Unidos em meio a Guerra Fria. \u201cS\u00e3o institutos que, ainda que se colocassem como dom\u00e9sticos, como t\u00e9cnicos e tudo mais, na realidade, s\u00e3o bra\u00e7os de uma pol\u00edtica externa dos Estados Unidos para a atua\u00e7\u00e3o no Brasil\u201d, defendeu, acrescentando que Washington \u201cprecisava manter aqui a sua influ\u00eancia e a sua hegemonia\u201d.<\/p>\n<p><strong>M\u00eddia<\/strong><br \/>\nO complexo formado pelo Ipes\/Ibad gozava de amplo espa\u00e7o na imprensa nacional para repercutir as opini\u00f5es, estudos e a\u00e7\u00f5es lideradas por esses institutos, especialmente o Ipes. Segundo Dreifuss, \u201co Ipes conseguiu estabelecer um sincronizado assalto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica, atrav\u00e9s de seu relacionamento especial com os mais importantes jornais, r\u00e1dios e televis\u00f5es nacionais\u201d.<\/p>\n<p>Jornalistas influentes e diretores ou editores dos mais importantes jornais do pa\u00eds faziam parte do Ipes. Entre os jornais interligados ao instituto estavam: O Estado de S. Paulo, a Folha de S.Paulo, o Di\u00e1rio de Not\u00edcias, a TV Record, a TV Paulista, o Jornal do Brasil, o Di\u00e1rio de Pernambuco, o Correio do Povo, O Globo, a R\u00e1dio Globo e os Di\u00e1rios Associados (poderosa rede de jornais, r\u00e1dio e televis\u00e3o de Assis Chateubriand).<\/p>\n<p>Al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o com a m\u00eddia nacional, o Ipes \u201cpublicava e financiava, editava, traduzia e distribu\u00eda livros, livretos, revistas e folhetos de produ\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, como tamb\u00e9m de fontes afins\u201d, escreveu Dreifuss.<\/p>\n<p>A professora Camila Feix Vidal destacou que as campanhas do Ipes e do Ibad tiveram um sucesso, especialmente nas classes m\u00e9dias, dando sustenta\u00e7\u00e3o a ditadura.<\/p>\n<p>\u201cEssa batalha das ideias n\u00e3o acabou com o golpe. Ela se manteve legitimando o papel dos militares, a zona de influ\u00eancia estadunidense e n\u00e3o sovi\u00e9tica e toda a ca\u00e7a aos tidos como comunistas subversivos. Isso vem dentro dessa vis\u00e3o de mundo, dessa doutrina de seguran\u00e7a nacional que foi gestada e divulgada pelos Ipes e pelo Ibad.\u201d<\/p>\n<p><strong>Financiamento<\/strong><br \/>\nA bancada financiada e apoiada pelo complexo Ipes\/Ibad reunia cerca de 200 parlamentares em dezembro de 1962 (quase metade da C\u00e2mara dos Deputados), segundo a pesquisa de Dreifuss, que estima que o dinheiro usado pelo Ipes\/Ibad para bancar pol\u00edticos equivaleu a \u201cuns US$ 12,5 milh\u00f5es, possivelmente at\u00e9 US$ 20 milh\u00f5es\u201d. A a\u00e7\u00e3o desses deputados \u201cmostrava-se vital no esfor\u00e7o de bloquear as tentativas de Jo\u00e3o Goulart quanto a implementa\u00e7\u00e3o de reformas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>O livro de Dreifuss detalha como funcionou o financiamento dessa estrutura. O dinheiro era recolhido por meio de intensa campanha de contribui\u00e7\u00f5es de empres\u00e1rios do Brasil e do exterior, principalmente dos Estados Unidos, com opera\u00e7\u00f5es para disfar\u00e7ar o recebimento desses fundos.<\/p>\n<p>\u201cComo resultado dessa campanha intensa, o Ipes recebeu o apoio de 500 membros corporativos em meados de 1963 e de um n\u00famero ainda maior em 1964\u201d, escreveu o cientista pol\u00edtico, acrescentando que \u201cem dois anos, j\u00e1 se havia recolhido US$ 4 milh\u00f5es e, at\u00e9 1964, essa soma [foi] muitas vezes multiplicada\u201d.<\/p>\n<p>Foram 297 corpora\u00e7\u00f5es estadunidenses identificadas como financiadoras do complexo Ipes\/Ibad, sendo 101 empresas de outras nacionalidades. O pesquisador citou, entre as companhias, gigantes globais como: Texaco, Shell, Standart Oil of New Jersey, Bayer, General Electric, IBM, Coca-Cola, Cigarros Souza Cruz e General Motors.<\/p>\n<p>A professora da UFSC, Camila Feix Vidal, destacou que o apoio financeiro foi fundamental para o sucesso da campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o do governo brasileiro. \u201cDe nada adianta ter um instituto como o Ipes, ou mesmo o Ibad, atuando se n\u00e3o tem um financiamento t\u00e3o grande como o que eles tiveram para desenvolver de fato as suas a\u00e7\u00f5es\u201d, comentou.<\/p>\n<p><strong>Controle do Estado<\/strong><br \/>\nCom o golpe, as principais lideran\u00e7as do complexo Ipes\/Ibad ocuparam cargos chaves na nova administra\u00e7\u00e3o, como mostra a detalhada pesquisa de Ren\u00e9 Dreifuss.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico identificou os associados e colaboradores do Ipes nos cargos de mando em institui\u00e7\u00f5es como: o rec\u00e9m-criado Banco Central do Brasil; os minist\u00e9rios do Planejamento e da Fazenda; a Casa Civil, ligado ao presidente Castello Branco; al\u00e9m de terem redigido a Reforma Administrativa Federal e coordenado o Escrit\u00f3rio de Planejamento Econ\u00f4mico e Social do Estado.<\/p>\n<p>Outros \u00f3rg\u00e3os importantes que ficaram nas m\u00e3os das lideran\u00e7as do Ipes foram: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico (BNDE, atual BNDES); o Banco do Brasil; o Conselho Nacional de Economia; a Caixa Econ\u00f4mica Federal e diversos outros bancos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Dreifuss destacou que o ministro da Fazenda, Oct\u00e1vio Bulh\u00f5es, e o do planejamento, Roberto Campos, av\u00f4 do atual presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, tornaram-se os mais importantes \u201cmodeladores da nova economia brasileira\u201d, ambos associados ao Ipes. Para o autor de 1964: A Conquista do Estado, as lideran\u00e7as do Ipes \u201cmoldaram o sistema financeiro e controlaram os minist\u00e9rios e principais \u00f3rg\u00e3os da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d.<\/p>\n<p>Dreifuss conclui afirmando que: \u201cos ativistas do Ipes impuseram uma moderniza\u00e7\u00e3o da estrutura socioecon\u00f4mica e uma reformula\u00e7\u00e3o do aparelho do Estado que beneficiou, de maneira ampla, as classes empresariais e os setores m\u00e9dios da sociedade, em detrimento das massas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Al\u00e9m da for\u00e7a das armas, o golpe de Estado de 1964 contou com o apoio pr\u00e9vio de uma extensa estrutura pol\u00edtico-ideol\u00f3gica que preparou o terreno para a destitui\u00e7\u00e3o do governo de Jo\u00e3o Goulart. 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