{"id":325999,"date":"2024-04-04T00:00:46","date_gmt":"2024-04-04T03:00:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=325999"},"modified":"2024-04-04T11:05:53","modified_gmt":"2024-04-04T14:05:53","slug":"maracatu-invade-paulista-para-mostrar-a-cultura-nordestina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/maracatu-invade-paulista-para-mostrar-a-cultura-nordestina\/","title":{"rendered":"Maracatu invade Paulista para mostrar a cultura nordestina"},"content":{"rendered":"<p>Aos 13 anos, Jos\u00e9 Luiz da Silva come\u00e7ou a brincar o maracatu. Hoje, aos 65, ele \u00e9 o Mestre Luiz Caboclo do Estrela de Ouro de Alian\u00e7a, difundindo os saberes e hist\u00f3rias dessa tradi\u00e7\u00e3o cultural nordestina.<\/p>\n<p>Nesta semana, Mestre Luiz Caboclo chegou a S\u00e3o Paulo para promover n\u00e3o s\u00f3 a cultura do maracatu, mas a nova exposi\u00e7\u00e3o dedicada ao tema que est\u00e1 em cartaz no Centro Cultural Fiesp, na Avenida Paulista: Maracatu Rural &#8211; A Magia dos Canaviais. A exposi\u00e7\u00e3o, gratuita, poder\u00e1 ser visitada at\u00e9 o dia 9 de junho, de ter\u00e7a a domingo, das 10h \u00e0s 20h. A curadoria \u00e9 de Afonso Oliveira, que tem uma viv\u00eancia de mais de 30 anos nesta manifesta\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n<p>O Maracatu Estrela de Ouro de Alian\u00e7a, do qual o Mestre Luiz Caboclo faz parte, foi fundado em janeiro de 1966 no S\u00edtio Ch\u00e3 de Camar\u00e1, munic\u00edpio de Alian\u00e7a, na Zona da Mata Norte pernambucana. Seu idealizador foi Severino Louren\u00e7o da Silva, o Mestre Batista. Um dos principais s\u00edmbolos carnavalescos da cultura popular de Pernambuco, o Maracatu Estrela de Ouro de Alian\u00e7a \u00e9 um dos representantes do chamado Maracatu Rural.<\/p>\n<p>Em Pernambuco, h\u00e1 os Maracatus de Baque Virado (Maracatu Na\u00e7\u00e3o) e os Maracatus de Baque Solto (Maracatu Rural). Cada um tem sua caracter\u00edstica pr\u00f3pria. O Maracatu Na\u00e7\u00e3o, por exemplo, remonta \u00e0s festas organizadas por grupos de escravos que celebravam nos p\u00e1tios das igrejas a coroa\u00e7\u00e3o do Rei do Congo. O ritmo foi depois inserido aos festejos carnavalescos.<\/p>\n<p>J\u00e1 na Zona da Mata, o maracatu tomou outra fei\u00e7\u00e3o e recebeu o nome de Maracatu Rural, tema da nova exposi\u00e7\u00e3o da Fiesp. L\u00e1, os caboclos de lan\u00e7a fazem um desfile que lembra batalha. H\u00e1 duas trincheiras, cada uma obedece ao comando de um caboclo de frente, que conduz as manobras ordenadas pelo mestre. Eles correm de um lado para o outro, sacudindo as lan\u00e7as, executando manobras chamadas de \u201cca\u00eddas\u201d. A apresenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem um ritmo mais r\u00e1pido dos chocalhos, al\u00e9m do uso de cu\u00edca e instrumentos de sopro (trombone e trompete). O canto \u00e9 de responsabilidade do mestre de apito ou poeta e contra-mestre.<\/p>\n<p>Considerado uma das manifesta\u00e7\u00f5es mais fortes do carnaval, existem atualmente cerca de 110 grupos de Maracatu Rural, principalmente nos munic\u00edpios de Nazar\u00e9 da Mata, Alian\u00e7a, Tracunha\u00e9m, Goiana, Condado, Itaquitinga, Lagoa de Itaenga, Ara\u00e7oiaba e Carpina.<\/p>\n<p>Os primeiros grupos de Maracatu Rural surgiram no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, com influ\u00eancias ind\u00edgenas e afro-brasileiras e produzida pelos trabalhadores da monocultura do a\u00e7\u00facar. \u201cA maioria dos integrantes do maracatu s\u00e3o cortadores de cana. Ele nasceu no setor canavieiro, na zona da mata\u201d, explicou \u00c2ngelo Filizola, produtor-executivo da exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cPara a gente l\u00e1, quando eu comecei a brincar, em 1971, era a divers\u00e3o que tinha na Zona da Mata. A Zona da Mata \u00e9 a Zona da Cana. At\u00e9 1971, ainda tinha escravid\u00e3o na Zona da Mata. E ent\u00e3o come\u00e7ou a levantar maracatu nas zonas da mata, que hoje \u00e9 o lugar que mais tem maracatu rural\u201d, conta Mestre Luiz Caboclo, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia Brasil.<\/p>\n<p>A principal diferen\u00e7a entre esses maracatus \u00e9 que no Rural n\u00e3o existe a Corte Real e seu principal destaque \u00e9 a presen\u00e7a do caboclo de lan\u00e7a, que se encarrega de abrir espa\u00e7o na multid\u00e3o com saltos e piruetas, manejando as lan\u00e7as. Os caboclos de lan\u00e7a usam um galho de arruda atr\u00e1s da orelha e um cravo ou rosa branca na boca para manter o corpo fechado, se proteger. Usam fantasia pesada, de mais de 30 quilos, que consiste principalmente em uma camisa de manga comprida de cor viva com uma arma\u00e7\u00e3o de madeira por cima. Eles tamb\u00e9m usam um len\u00e7o amarrado na cabe\u00e7a e sobre ele um chap\u00e9u de palha. Por cima, uma cabeleira colorida.<\/p>\n<p>\u201cEu saio vestido com uma fantasia bonita. Eu sou o mestre caboclo do Estrela de Ouro. Sou eu quem puxo a na\u00e7\u00e3o. Sou o mestre caboclo da dan\u00e7a. Eu montei um estilo de dan\u00e7a na frente de Estrela de Ouro\u201d, conta Mestre Caboclo. \u201cO Maracatu n\u00e3o pode terminar do jeito que come\u00e7ou. Ent\u00e3o voc\u00ea tem que mudar uma estrat\u00e9gia na frente do maracatu pra ele n\u00e3o se acabar do jeito que come\u00e7ou. Fica sempre uma hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p><strong>Tem a arte<\/strong><br \/>\n\u201cQuem segura o porta-estandarte. Tem a arte, tem a arte\u201d. A letra da m\u00fasica Maracatu At\u00f4mico, escrita por Jorge Mautner e Nelson Jacobina e conhecida pela voz de Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi, resume a nova exposi\u00e7\u00e3o, diz o curador. \u201cEssa frase \u00e9, para mim, emblem\u00e1tica de valoriza\u00e7\u00e3o da cultura popular. Essa frase quer dizer tudo\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 esta frase que abre a exposi\u00e7\u00e3o e guiar\u00e1 o p\u00fablico a uma cenografia composta por documentos, v\u00eddeos, fotografias, objetos, textos, indument\u00e1rias e pe\u00e7as de artesanato. Tudo isso para contar a hist\u00f3ria dessa tradi\u00e7\u00e3o cultural nordestina, que \u00e9 considerada Patrim\u00f4nio Cultural Brasileiro. Entre os objetos est\u00e1 uma medalha da Ordem do M\u00e9rito Cultural, que foi concedida pelo Minist\u00e9rio da Cultura, e uma Mesa de Jurema Sagrada, ritual religioso de origem ind\u00edgena e cultuado por aqueles que fazem o Maracatu Rural.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de contar a hist\u00f3ria do maracatu, a exposi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m apresenta o universo do trabalho, da religi\u00e3o e das influ\u00eancias que o Maracatu Rural exerceu sobre artistas contempor\u00e2neos como Chico Science, Gilberto Gil, Jorge Mautner e Siba.<\/p>\n<p>Outra curiosidade da mostra \u00e9 o destaque feito pelo curador \u00e0 figura das mulheres. \u201cAs mulheres, como em toda a arte no Brasil, sempre foram discriminadas e escondidas. E no Maracatu Rural tamb\u00e9m. Mas a gente tem uma hist\u00f3ria interessante sobre as mulheres no Maracatu Rural. Elas criaram uma associa\u00e7\u00e3o chamada Amunam, Associa\u00e7\u00e3o das Mulheres de Nazar\u00e9 da Mata, formada por mulheres agricultoras. E elas resolveram criar um maracatu rural, chamado Maracatu de Baque Solto Feminino Cora\u00e7\u00e3o Nazareno, que esse ano completa 20 anos\u201d, explicou Oliveira. \u201cEsse Maracatu Cora\u00e7\u00e3o Nazareno \u00e9 o s\u00edmbolo da luta da mulher da cana-de-a\u00e7\u00facar\u201d, destacou.<\/p>\n<p>Todos esses elementos, disse o curador, ajudam a contar a hist\u00f3ria dessa tradi\u00e7\u00e3o pernambucana, que \u00e9 tamb\u00e9m uma hist\u00f3ria de resist\u00eancia. \u201cA exposi\u00e7\u00e3o Maracatu Rural representa a luta de um povo contra o racismo que permeia toda a sociedade brasileira\u201d, falou.<\/p>\n<p>\u201cAqui dentro do maracatu rural est\u00e1 toda a forma\u00e7\u00e3o brasileira. Os povos origin\u00e1rios tinham uma proposta de sociedade, mas eles foram dizimados ou impuseram a eles uma outra forma de viver, uma forma capitalista, uma forma autorit\u00e1ria, uma forma escravocrata. Depois, trouxeram de \u00c1frica os povos que foram escravizados e constru\u00edram essa loucura que \u00e9 o Brasil, um pa\u00eds t\u00e3o rico e diversificado culturalmente, mas t\u00e3o cruel para quem n\u00e3o est\u00e1 no sistema\u201d, disse o curador.<\/p>\n<p>\u201cMas hoje o mundo est\u00e1 descobrindo que existem outras formas de viver, existem outras formas de cura, existem outras formas de trabalhar, existem outras formas de viver. E quando se traz uma exposi\u00e7\u00e3o como essa para a Avenida Paulista, para S\u00e3o Paulo, local para onde muitas dessas pessoas deixaram o maracatu e passaram a viver, isso \u00e9 de uma representatividade gigantesca\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos 13 anos, Jos\u00e9 Luiz da Silva come\u00e7ou a brincar o maracatu. Hoje, aos 65, ele \u00e9 o Mestre Luiz Caboclo do Estrela de Ouro de Alian\u00e7a, difundindo os saberes e hist\u00f3rias dessa tradi\u00e7\u00e3o cultural nordestina. 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