{"id":326064,"date":"2024-04-05T12:06:43","date_gmt":"2024-04-05T15:06:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=326064"},"modified":"2024-04-05T12:08:57","modified_gmt":"2024-04-05T15:08:57","slug":"receita-de-biscoitos-de-maragogi-lembra-os-tempos-da-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/receita-de-biscoitos-de-maragogi-lembra-os-tempos-da-censura\/","title":{"rendered":"Receita de biscoitos de Maragogi lembra os tempos da censura"},"content":{"rendered":"<p>Nesta semana, participei como mediadora de uma mesa sobre ditadura promovida pela Companhia das Letras no Sesc Vila Mariana, em S\u00e3o Paulo. Fiquei surpresa, porque em uma ter\u00e7a-feira \u00e0 noite tinha gente de todas as idades no audit\u00f3rio, que n\u00e3o era grande, mas ficou quase cheio.<\/p>\n<p>Soube pela jornalista Luiza Villam\u00e9a, que estava na mesa para falar do livro A Torre \u2013 o cotidiano das mulheres encarceradas na ditadura, que houve mais dois eventos sobre a ditadura s\u00f3 naquele dia. Ao que tudo indica, a fala do presidente Lula sobre n\u00e3o &#8220;remoer&#8221; o passado provocou o efeito contr\u00e1rio na sociedade civil.<\/p>\n<p>H\u00e1 muito ainda para investigar sobre a ditadura, apesar do &#8220;sumi\u00e7o&#8221; da maior parte dos documentos das For\u00e7as Armadas desse per\u00edodo. A jornalista Laura Mattos, que estava na mesa para falar de O her\u00f3i mutilado, por exemplo, pesquisou mais de 2 mil documentos oficiais para contar a saga de Roque Santeiro, a novela de Dias Gomes que marcou a redemocratiza\u00e7\u00e3o brasileira ao estrear na Globo em 1985.<\/p>\n<p>Dez anos antes, em 1975, Roque Santeiro sofreu censura da ditadura \u2013 e dessa vez na cara dos telespectadores que assistiram \u00e0 abertura da esperada primeira novela em cores na TV. Em seguida, por\u00e9m, em vez das aventuras do falso her\u00f3i e de sua &#8220;fogosa vi\u00fava, a que era sem nunca ter sido&#8221;, assistiram a um editorial tenso, lido pelo apresentador do Jornal Nacional Cid Moreira narrando o veto da Censura Federal \u00e0 novela das 8.<\/p>\n<p>Foi quando o peso da censura apareceu claramente para milh\u00f5es de brasileiros, completamente privados de informa\u00e7\u00e3o sobre o que de fato acontecia no pa\u00eds. Embora a maioria dos jornais tivesse apoiado o golpe em 1964, com o endurecimento do regime, a partir de 1968, passaram a sofrer na pr\u00f3pria carne a viol\u00eancia da ditadura, submetidos \u00e0 censura pr\u00e9via a ponto de inviabilizar as edi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para ficar em um n\u00famero, que consta no document\u00e1rio Morda\u00e7a no Estad\u00e3o, de Jos\u00e9 Maria Mayrink: entre setembro de 1972 e janeiro de 1975 foram censurados 1.136 textos nos dois principais jornais do grupo Estado de S.Paulo \u2013 Estad\u00e3o e Jornal da Tarde.<\/p>\n<p>No lugar das informa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podiam circular \u2013 at\u00e9 as not\u00edcias sobre a epidemia de meningite no pa\u00eds em 1972 foram cortadas \u2013, os editores decidiram sinalizar para os leitores que estavam sendo censurados. No Estad\u00e3o, os espa\u00e7os brancos das mat\u00e9rias censuradas eram preenchidos principalmente com poemas de Cam\u00f5es; no Jornal da Tarde, com receitas de bolo.<\/p>\n<p>Mesmo depois que o governo do general Ernesto Geisel retirou a censura pr\u00e9via dos jornais e emissoras de TV, jornais &#8220;alternativos&#8221;, como se chamavam \u00e0 \u00e9poca os ve\u00edculos produzidos por jornalistas fora das grandes empresas, continuaram a ser apreendidos e jornalistas, enquadrados na Lei de Seguran\u00e7a Nacional. Um processo que se estendeu \u00e0 redemocratiza\u00e7\u00e3o. At\u00e9 mesmo a novela Roque Santeiro, &#8220;aclamada como um \u00edcone da volta da liberdade de express\u00e3o acumulou 597 p\u00e1ginas na Divis\u00e3o de Censura de Divers\u00f5es P\u00fablicas&#8221;, escreve Laura Mattos.<\/p>\n<p>Nem mesmo a Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 conseguiu p\u00f4r um ponto final na censura ao entronizar a liberdade de express\u00e3o, como observa Mattos. &#8220;Se na ditadura o martelo de ju\u00edzes se somava \u00e0 caneta do governo, ap\u00f3s a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 a &#8216;judicializa\u00e7\u00e3o&#8217; da censura recrudesceu.&#8221;<\/p>\n<p>Nesta quarta-feira, uma decis\u00e3o judicial manteve censura que vigora desde setembro passado, quando fomos obrigadas a retirar do ar uma reportagem publicada em junho de 2023 sobre den\u00fancias de viol\u00eancia dom\u00e9stica contra o presidente da C\u00e2mara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL). &#8220;Assim como todas as nossas mat\u00e9rias, a reportagem em quest\u00e3o foi feita com base em documentos judiciais e fontes que deram seu depoimento sobre os fatos, com prop\u00f3sito informativo e de interesse p\u00fablico&#8221;, diz a nota da Ag\u00eancia P\u00fablica publicada na quinta-feira.<\/p>\n<p>A liberdade de express\u00e3o \u00e9 uma luta permanente em um pa\u00eds em que poderosos sempre encontram guarida para garantir &#8220;o direito ao esquecimento&#8221;, esse n\u00e3o fundamental, como o direito \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 verdade, mas defendido pelo relator do processo na 6a Turma C\u00edvel do Tribunal de Justi\u00e7a do Distrito Federal em seu parecer a favor da censura \u00e0 reportagem:<\/p>\n<p>&#8220;[&#8230;] imputando ao autor suposto estupro praticado em novembro de 2006 sob pena&#8230; n\u00f3s estamos em 2024, 18 anos atr\u00e1s, reesquentando novamente mat\u00e9ria espero que a comiss\u00e3o do novo c\u00f3digo civil insira e traga o direito ao esquecimento, porque n\u00f3s estamos com discurso num pa\u00eds crist\u00e3o de perd\u00e3o, mas o esquecimento que \u00e9 o fato n\u00e3o est\u00e1 sendo praticado, lamentavelmente por uma parte da imprensa nesse pa\u00eds. Provavelmente amanh\u00e3 eu serei chamado de censor e vou ter que dizer isso aqui: n\u00e3o sou censor e nunca fui a favor da censura, porque pela minha idade eu sei o que que a Revolu\u00e7\u00e3o de 64 fez em termos de censura neste pa\u00eds&#8221; (grifo meu).<\/p>\n<p>O desrespeito \u00e0 liberdade de imprensa atrav\u00e9s da censura mereceu notas de rep\u00fadio de associa\u00e7\u00f5es de jornalistas como a Abraji e a Ajor e repercutiu em diversos ve\u00edculos. Mas seguimos proibidas n\u00e3o apenas de publicar a reportagem, mas tamb\u00e9m de outros conte\u00fados relacionados ao caso, incluindo a abordagem do tema por esta newsletter.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que encerro a coluna hoje com uma homenagem aos jornalistas que tentaram denunciar a censura durante a ditadura. S\u00f3 n\u00e3o transcrevo a receita de biscoitos de goma de Maragogi, doce t\u00edpico alagoano, porque em tempos de internet basta \u00a0publicar o\u00a0<a href=\"https:\/\/apublica.us8.list-manage.com\/track\/click?u=47bdda836f3b890e13c9f416d&amp;id=cf4938b687&amp;e=149defd5b2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">link.<\/a><\/p>\n<p>Bom apetite!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta semana, participei como mediadora de uma mesa sobre ditadura promovida pela Companhia das Letras no Sesc Vila Mariana, em S\u00e3o Paulo. Fiquei surpresa, porque em uma ter\u00e7a-feira \u00e0 noite tinha gente de todas as idades no audit\u00f3rio, que n\u00e3o era grande, mas ficou quase cheio. 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