{"id":326104,"date":"2024-04-07T02:10:53","date_gmt":"2024-04-07T05:10:53","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=326104"},"modified":"2024-04-07T02:01:24","modified_gmt":"2024-04-07T05:01:24","slug":"racismo-estrutural-invade-nossas-salas-e-ninguem-reclama","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/racismo-estrutural-invade-nossas-salas-e-ninguem-reclama\/","title":{"rendered":"Racismo estrutural invade nossas salas e ningu\u00e9m reclama"},"content":{"rendered":"<p>O caviar est\u00e1 para Zeca Pagodinho exatamente como o Big Brother Brasil est\u00e1 para mim. Nunca vi o programa, mas j\u00e1 ouvi falar. E nem sempre ou\u00e7o coisas boas do circo espalhafatoso montado em rede nacional para, naturalmente, mostrar o lado cruel das pessoas. Ricos e pobres, camarotes e pipocas, brancos e negros se juntam para que, oportuna ou diariamente, mostrem quem verdadeiramente s\u00e3o. No ar, a edi\u00e7\u00e3o 24, transformou-se em um dos mais eloquentes redutos do pensamento racista. Como n\u00e3o sou cr\u00edtico de TV, vou tentar analisar exclusivamente o comportamento de determinados participantes. Depois de todo esse tempo no ar, os brothers e as Sisters esquecem que s\u00e3o filmados 24 horas e que tudo que dizem reverbera.<\/p>\n<p>Baiano, afrodescendente, sonhador e disposto a mudar de vida, o motorista de aplicativo Davi Brito \u00e9 considerado um dos mais chatos do programa. Talvez por isso seja uma das maiores v\u00edtimas dos racistas. Reitero que sei pouco da casa mais vigiada do Brasil. No entanto, ou\u00e7o o suficiente para saber que o favoritismo do rapaz \u201cobriga\u201d seus \u201ccolegas\u201d a disparar sistematicamente torpedos contra ele. Rec\u00e9m-alijada, uma tal Fernanda Bande, confeiteira de origem e modelo ocasional, \u00e9 uma dessas incomodadas, talvez revoltadas, com a possibilidade de vit\u00f3ria do jovem baiano. Segundo ela, o lugar de pessoas como Davi \u00e9 ocupando fun\u00e7\u00f5es de baixa remunera\u00e7\u00e3o e desvaloriza\u00e7\u00e3o social. \u201cEle devia arrumar um emprego de seguran\u00e7a em um pr\u00e9dio\u201d.<\/p>\n<p>Recalque \u00e9 uma merda. O pensamento hostil foi referendado por outros participantes, entre eles a patricinha Wanessa Camargo, estagi\u00e1ria de canto, e Yasmin Brunet, de cuja trajet\u00f3ria s\u00f3 me lembro da m\u00e3e. S\u00e3o pessoas como essas que fazem da escravid\u00e3o de base racista uma heran\u00e7a sem fim do colonialismo europeu. Repito que n\u00e3o sou habitu\u00e9 do BBB. Na verdade, nunca assisti. Nesta edi\u00e7\u00e3o, o que me chamou aten\u00e7\u00e3o foram as discuss\u00f5es externas sobre o racismo interno. Parece que tudo come\u00e7ou quando Davi compartilhou com os \u201cexilados\u201d do programa o antigo sonho de ser m\u00e9dico. Mais uma vez, os nem t\u00e3o brancos deixaram vazar o sentimento escravocrata que os move.<\/p>\n<p>No \u00fatero de cada uma das racistas \u2013 alguns homens tamb\u00e9m merecem o r\u00f3tulo \u2013 est\u00e1 estampado que pretos e pobres n\u00e3o podem ascender. Eles est\u00e3o proibidos de ocupar profiss\u00f5es de prest\u00edgio. Tamb\u00e9m eliminada, a trancista negra Leidy Elin sofreu ofensas racistas nas redes sociais, inclusive de formadores de opini\u00e3o, como o cantor baiano Manno G\u00f3es. Apesar de barraqueira, ela n\u00e3o merecia a sugest\u00e3o de G\u00f3es para trabalhar como capataz em uma das fazendas de Ronaldo Caiado, governador de Goi\u00e1s. S\u00f3 para ilustrar, capataz era e continua sendo fiscal de trabalhadores submetidos a condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 o caso da mo\u00e7a. \u00c9 a tal da inveja.<\/p>\n<p>Embora compositor com algum espa\u00e7o na Bahia, Manno G\u00f3es jamais teve a exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de Leidy. Talvez seja essa a raz\u00e3o de sua repulsa \u00e0 jovem. Subdesenvolvido econ\u00f4mica e socialmente, o Brasil somente deixar\u00e1 de ser racista quando os racistas se derem conta de que suas almas e condutas negras s\u00e3o t\u00e3o imperfeitas que eles precisam estar sempre lembrando que s\u00e3o diferentes. Diferentes, pobres de esp\u00edrito e invejosos, pois n\u00e3o admitem sequer imaginar um amigo de epiderme escura melhor colocado socialmente do que eles. Imagina faturar R$ 3 milh\u00f5es de uma s\u00f3 tacada e, de quebra, ser oportunamente convidado para um papel secund\u00e1rio em uma novela de \u00e9poca da V\u00eanus Platinada.<\/p>\n<p>Como todos n\u00f3s brasileiros temos pelo menos um p\u00e9 na \u00c1frica, as raras distin\u00e7\u00f5es de negros aceitas pelos que se dizem brancos s\u00e3o pontuais, mas com ressalvas: as empregadas dom\u00e9sticas, as bab\u00e1s e os porteiros e seguran\u00e7as, conforme recomenda\u00e7\u00e3o da tal Fernanda Bande. De acordo com ensaio do professor, economista e pesquisador baiano Elias Sampaio, o pior dos negros \u00e9 aquele \u201cque n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed para serem os negros servis que os brancos gostam\u201d. Esses assustam, incomodam e preocupam. N\u00e3o irei assistir, mas certamente serei informado que um dos negros levar\u00e1 para casa o pr\u00eamio maior do BBB24. Os racistas de dentro e de fora do programa ter\u00e3o de se contentar com os sabugos dos tr\u00eas milh\u00f5es. Que me perdoem os brancos racistas, mas prefiro o sorriso, a aura, a paz, a solidariedade, a f\u00e9 e a for\u00e7a dos negros e dos pobres. Por mais que n\u00e3o queiram, s\u00e3o eles os verdadeiros BBBs: Bons, Bonitos e Baratos.<\/p>\n<p><strong>*Armando Cardoso \u00e9 presidente do Conselho Editorial de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O caviar est\u00e1 para Zeca Pagodinho exatamente como o Big Brother Brasil est\u00e1 para mim. Nunca vi o programa, mas j\u00e1 ouvi falar. E nem sempre ou\u00e7o coisas boas do circo espalhafatoso montado em rede nacional para, naturalmente, mostrar o lado cruel das pessoas. 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