{"id":326271,"date":"2024-04-09T07:09:45","date_gmt":"2024-04-09T10:09:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=326271"},"modified":"2024-04-09T07:10:18","modified_gmt":"2024-04-09T10:10:18","slug":"raimundo-com-raiva-da-porca-come-feijao-arroz-e-farinha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/raimundo-com-raiva-da-porca-come-feijao-arroz-e-farinha\/","title":{"rendered":"Raimundo, com raiva da porca, come feij\u00e3o, arroz e farinha"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo, mais precisamente por volta do finalzinho dos anos 1950, um certo menino, l\u00e1 pelos seus sete anos, de nome Raimundo como tantos outros em uma velha cidade nordestina, lutava para comer o p\u00e3o que o Diabo amassou, tamanha a pen\u00faria da fam\u00edlia. Depois da batalha, ainda precisava dividi-lo com a m\u00e3e e as duas irm\u00e3s mais velhas, Maria e Ant\u00f4nia. As carnes penavam para se manter naqueles cambitos e gravetos secos.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas irm\u00e3os levantavam mais cedo do que o Sol, que, pregui\u00e7osamente, s\u00f3 dava as caras quando eles j\u00e1 estavam a caminho da escola Dona Enide. As meninas, mais resignadas, caminhavam firmes. Raimundo seguia atr\u00e1s, muitas vezes tendo que ser arrastado pelo bra\u00e7o para apressar o passo. A fome os consumia.<\/p>\n<p>Arroz, feij\u00e3o e um tanto de farinha. Era o que aquele povo possu\u00eda para comer. \u00c9 verdade que, de tempos em tempos, o feij\u00e3o rareava. \u00c0s vezes, faltava arroz e, dependendo, at\u00e9 a farinha era pouca. A escassez do\u00eda nos esqueletos, que teimavam em permanecer de p\u00e9.<\/p>\n<p>Durante a aula, Raimundo se entretinha mais em sonhar com algo al\u00e9m de arroz, feij\u00e3o e farinha. N\u00e3o raro, perdia a explica\u00e7\u00e3o sobre vogais e consoantes. Na verdade, desde sempre ele convivera com quatro letras: F, O, M, E. Isso, ali\u00e1s, ningu\u00e9m lhe tirava da barriga.<\/p>\n<p>Pois foi justamente algo que lhe aconteceu na sa\u00edda da escola, quando tentava acompanhar os passos das irm\u00e3s ali no Beco da Mangueira, esquina com a rua Domingues Nunes, que marcou o car\u00e1ter do menino para sempre. O beco, ali\u00e1s, tinha tal alcunha porque havia um p\u00e9 de manga. N\u00e3o desses frondosos, mas um que tamb\u00e9m tentava sobreviver naqueles tempos de vacas magras.<\/p>\n<p>Atento a qualquer oportunidade, Raimundo se deparou com aquele milagre. L\u00e1 estava, bem no topo da \u00e1rvore, uma manga. Mas n\u00e3o uma manga qualquer. Era a \u00faltima da esta\u00e7\u00e3o. O bucho do pirralho suplicava por aquele manjar dos deuses.<\/p>\n<p>Raimundo pegou uma pedra, mirou bem e atirou, certo de que derrubaria a fruta. Que nada! Errou. Catou outra pedra, mirou melhor e ela passou ainda mais longe. Desesperado, pegou mais uma, duas, tr\u00eas, todas as pedras que encontrou. Uma a uma, nenhuma conseguiu derrubar a manga, que se mantinha firme l\u00e1 no alto.<\/p>\n<p>Quase sem for\u00e7as, o moleque encontrou a derradeira pedra. Esfregou bem as m\u00e3os, rezou para todos os santos, alguns que nem existiam. Fez mira de \u00edndio que joga flecha certeira. Acertou bem em cheio.<\/p>\n<p>A manga despencou l\u00e1 de cima. Raimundo mal acreditou no seu feito. Correu feito beb\u00ea que chora por peito quando, ent\u00e3o, uma porca, sa\u00edda de n\u00e3o se sabe onde, ligeira que nem pre\u00e1, abocanhou a manga e saiu desembestada. O moleque, feroz como on\u00e7a-pintada, foi ao seu encal\u00e7o, mas sem sucesso.<\/p>\n<p>L\u00e1 se foi a manga, devorada logo adiante por aquela porca desalmada. Ao pobre Raimundo, desolado, s\u00f3 restou amaldi\u00e7oar a leitoa. Que virasse torresmo! Mo\u00eddo de \u00f3dio, foi despertado pelas irm\u00e3s daquela embirra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Raimundo, vamos logo, que hoje tem arroz, feij\u00e3o e farinha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 muito tempo, mais precisamente por volta do finalzinho dos anos 1950, um certo menino, l\u00e1 pelos seus sete anos, de nome Raimundo como tantos outros em uma velha cidade nordestina, lutava para comer o p\u00e3o que o Diabo amassou, tamanha a pen\u00faria da fam\u00edlia. 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