{"id":326722,"date":"2024-04-15T00:00:44","date_gmt":"2024-04-15T03:00:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=326722"},"modified":"2024-04-15T04:55:48","modified_gmt":"2024-04-15T07:55:48","slug":"criancas-do-complexo-da-mare-relatam-violencia-policial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/criancas-do-complexo-da-mare-relatam-violencia-policial\/","title":{"rendered":"Crian\u00e7as do Complexo da Mar\u00e9 relatam viol\u00eancia policial"},"content":{"rendered":"<p>\u201cUm dia deu correria durante uma festa, minha amiga caiu no ch\u00e3o, eu levantei ela pelo cabelo. Depois a gente riu e depois a gente chorou\u201d. O trecho \u00e9 do livro Eu devia estar na Escola. A correria \u00e9 por conta de uma opera\u00e7\u00e3o policial realizada no Complexo da Mar\u00e9, complexo de favelas localizado na zona norte do Rio de Janeiro, e quem conta \u00e9 uma crian\u00e7a.<\/p>\n<p>O livro \u00e9 uma parceria entre a ONG Redes da Mar\u00e9 e a editora Caixote, re\u00fane depoimentos de crian\u00e7as e adolescentes da Mar\u00e9, de situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que viveram no pr\u00f3prio territ\u00f3rio. \u201cToda crian\u00e7a pode sentir medo, vai sentir medo e faz parte da vida da crian\u00e7a sentir medo. Mas \u00e9 diferente sentir medo do monstro debaixo da cama ou de abrir o guarda-roupa \u00e0 noite e sair de l\u00e1 uma bruxa, e sentir medo de perder a vida, n\u00e9? Esse medo de perder a vida elas n\u00e3o deveriam sentir\u201d, diz uma das escribas do livro, Ananda Luz.<\/p>\n<p>Ananda se identifica como escriba porque ela, junto com Isabel Malzoni, organizou os depoimentos e desenhos das crian\u00e7as e adolescentes. Tanto que quando o livro ficou pronto e elas o apresentaram para as crian\u00e7as que participaram de todo o processo, logo essas crian\u00e7as identificaram aquela publica\u00e7\u00e3o como sendo tamb\u00e9m delas.<\/p>\n<p>\u201cUma delas chegou para mim e falou assim, tia, esse \u00e9 o nosso livro? Eu parei, sabe aquela coisa de parar dois segundos e falar, era isso. Eu queria que essas crian\u00e7as falassem, esse \u00e9 o nosso livro. Eu falei, sim, \u00e9 o nosso livro. E a\u00ed quando eu abro e mostro para ela, ao mesmo tempo que ela lida, e \u00e9 um assunto dif\u00edcil, ela fica feliz de ver como ela foi representada, com esse cuidado, com esse carinho, que \u00e9 expresso desde o processo das falas delas aos desenhos dessas crian\u00e7as ali\u201d, disse Ananda.<\/p>\n<p>O livro foi elaborado em parceria com a ONG Redes da Mar\u00e9. A hist\u00f3ria do livro come\u00e7a muitos anos antes do lan\u00e7amento, em 2019, quando a ONG entrega ao Tribunal de Justi\u00e7a do Estado do Rio de Janeiro as cartas e os desenhos com depoimentos de crian\u00e7as sobre a viol\u00eancia que experienciaram. Isabel tem contato com o projeto e imediatamente v\u00ea o potencial para se tornar tamb\u00e9m um livro.<\/p>\n<p>De acordo com dados organizados pela ONG Fogo Cruzado no portal Futuro Exterminado, 642 crian\u00e7as e adolescentes com idades entre 0 e 17 anos foram baleadas no Grande Rio desde julho de 2016. Isso quer dizer que, em m\u00e9dia, a cada quatro dias uma crian\u00e7a ou adolescente \u00e9 baleado. Dessas, 289 morreram.<\/p>\n<p>Do total, quase metade das crian\u00e7as ou adolescentes atingidos, o equivalente a 47,6%, foi ferida durante opera\u00e7\u00f5es policiais. Os dados mostram ainda que um a cada tr\u00eas das crian\u00e7as e adolescentes alvejados foi v\u00edtima de bala perdida. Eles estavam a caminho da escola ou da padaria, brincando no quintal ou correndo com amigos.<\/p>\n<p>As cartas foram escritas pelas crian\u00e7as ap\u00f3s o assassinato de Marcus Vinicius da Silva, de 14 anos, em 2018. Ele foi morto durante uma opera\u00e7\u00e3o militar no Complexo da Mar\u00e9 quando estava a caminho da escola.<\/p>\n<p><strong>Elabora\u00e7\u00e3o do livro<\/strong><br \/>\nAnanda diz que seria dif\u00edcil entrar em contato com as crian\u00e7as que escreveram as cartas, pois a inten\u00e7\u00e3o era proteger a identidade delas. As escribas, com o apoio da Redes da Mar\u00e9 passaram, ent\u00e3o, a se reunir com crian\u00e7as e adolescentes e a coletar novos depoimentos. Ao todo, foram ouvidas mais de 200 que fazem parte de projetos do Redes da Mar\u00e9. As escribas queriam saber como elas viam as situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia que ocorriam na favela.<\/p>\n<p>\u201cA gente nunca escuta as crian\u00e7as de fato, n\u00e9, a gente sempre acha que a gente consegue resolver aquelas crian\u00e7as como adulto e, a\u00ed, o livro mostra que elas sabem que elas t\u00eam consci\u00eancia do que atravessam elas e do que pode ser diferente n\u00e9, ent\u00e3o acho que tamb\u00e9m \u00e9 um di\u00e1logo que \u00e9 importante a gente trazer\u201d, diz Ananda.<\/p>\n<p>A partir das primeiras escutas, foi formado um grupo menor que passou a ser acompanhado diariamente. Foi desse grupo que saiu o livro. Eu devia estar na Escola re\u00fane desenhos e depoimentos de crian\u00e7as e adolescentes moradores do Complexo da Mar\u00e9 sobre as viol\u00eancias que ocorrem sobretudo durante as opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um livro que traz as vozes delas para falar sobre viol\u00eancia, porque as crian\u00e7as t\u00eam a capacidade de falar sobre o que afeta elas, seja de forma negativa ou seja de forma positiva. Ent\u00e3o, tamb\u00e9m, eu acho que \u00e9 um convocar que a gente precisa escutar mais as crian\u00e7as. A gente precisa olhar com horizontalidade para o que ela diz e para que a gente possa tamb\u00e9m garantir que elas tenham essa cidadania plena garantida\u201d, afirma Ananda.<\/p>\n<p>A capa do livro \u00e9 envolta por uma segunda capa, na qual est\u00e3o trechos dos depoimentos das crian\u00e7as que falam sobre medo. Nela est\u00e1 tamb\u00e9m um ve\u00edculo policial blindado, conhecido como caveir\u00e3o, apontado para as crian\u00e7as. Quando essa capa \u00e9 retirada, o cen\u00e1rio muda. As crian\u00e7as est\u00e3o felizes jogando bola e brincando.<\/p>\n<p>\u201cO livro tem esse esperan\u00e7ar, porque a gente via isso na crian\u00e7a que estava conversando com a gente, nos adolescentes, via que existia e existe possibilidade de mudan\u00e7a, eles mesmos apontavam. A Mar\u00e9 \u00e9 um lugar legal pra se viver, eles apontavam isso pra gente. Aqui tem o melhor a\u00e7a\u00ed do mundo, eu ouvi isso de uma crian\u00e7a. A outra falou, eu amo jogar futebol na rua. E elas iam contando as coisas boas que tinham na Mar\u00e9\u201d, diz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cUm dia deu correria durante uma festa, minha amiga caiu no ch\u00e3o, eu levantei ela pelo cabelo. Depois a gente riu e depois a gente chorou\u201d. O trecho \u00e9 do livro Eu devia estar na Escola. 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