{"id":327300,"date":"2024-04-24T08:10:31","date_gmt":"2024-04-24T11:10:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=327300"},"modified":"2024-04-24T08:10:24","modified_gmt":"2024-04-24T11:10:24","slug":"pavao-que-desafia-a-logica-acaba-virando-espanador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pavao-que-desafia-a-logica-acaba-virando-espanador\/","title":{"rendered":"Pav\u00e3o que desafia a l\u00f3gica acaba virando espanador"},"content":{"rendered":"<p>Ainda menino no sub\u00farbio do Rio, minha filosofia de vida \u2013 eu j\u00e1 tinha uma \u2013 era nunca me achar triste porque mudei de ideia. Li sobre isso em um dos achados memor\u00e1veis do jornalista e escritor Appar\u00edcio Torelly, mais tarde meu mestre preferido. Tamb\u00e9m conhecido pelo pseud\u00f4nimo honor\u00edfico (quase real) de Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, ele, mesmo de longe, me ensinou que triste \u00e9 n\u00e3o ter ideias para mudar. Passadas algumas boas d\u00e9cadas, hoje tenho mais do que filosofia. Comprei do Maluco Beleza Raul Seixas a certeza de que \u201ca arte de ser louco \u00e9 jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal\u201d. Tudo que aprendi virou ossos do of\u00edcio. \u00c0s vezes, nem \u00e9 do of\u00edcio, mas s\u00e3o ossos.<\/p>\n<p>Tive v\u00e1rios mestres das pretinhas, teclas da velha m\u00e1quina Olivetti. Como a maioria do meu tempo, sou p\u00f3s-graduado, mestre e doutor em datilografia. Empurrava o ferro que era uma beleza. Naquele tempo, o mais comum nos cronistas eram as met\u00e1foras, cujo significado nem todos sabiam. E n\u00e3o sabem. Eu era um deles. Uma dessas frases figuradas aprendi com S\u00e9rgio Porto, irm\u00e3o siam\u00eas de Stanislaw Ponte Preta, um tricolor dos mais empedernidos que j\u00e1 conheci. Mais do que ele s\u00f3 Nelson Rodrigues, o homem das mil faces. \u201cO sol nasce para todos. A sombra \u00e9 para quem \u00e9 mais esperto\u201d.<\/p>\n<p>Fosse vivo, Stanislaw perguntaria onde est\u00e1 o sujeito na frase acima. Pupilo antenado, embora apol\u00edtico. eu diria que ele est\u00e1 no Pal\u00e1cio do Planalto. Como haveria controv\u00e9rsias, tamb\u00e9m diria, para ficar bem com todos os lados, que s\u00f3 o tira-gosto ajuda a quem bebe 51. Aos demais, lembro que n\u00e3o adianta insistir contra o que est\u00e1 posto. A l\u00f3gica \u00e9 a l\u00f3gica. Ontem pav\u00e3o, hoje espanador. Se preferirem, vou mais longe e afirmo que aquele que ainda acha que vai rir por \u00faltimo \u00e9 retardado mental. O pior cego \u00e9 aquele que quer ver, mas finge n\u00e3o enxergar.<\/p>\n<p>Sobre o que est\u00e1 posto, o que posso dizer al\u00e9m do \u00f3bvio? Deixo para a alerta, zelosa e invejosa oposi\u00e7\u00e3o a tradu\u00e7\u00e3o do texto cuja autoria desconhe\u00e7o: \u201cPau que nasce torto n\u00e3o tem jeito. S\u00f3 pr\u00f3tese peniana para resolver\u201d. Fora o rame-rame monot\u00f4nico do jornalismo di\u00e1rio, sempre me utilizei das met\u00e1foras, prov\u00e9rbios e pensamentos para manter viva a mem\u00f3ria dos mestres do passado. Por exemplo, via na velha Olivetti uma ma\u00e7\u00e3 e passava os dentes nela. Era a tese n\u00e3o finalizada de que, para quem n\u00e3o tinha nada, a metade \u00e9 o dobro.<\/p>\n<p>Assim fui at\u00e9 descobrir que precisava de novos desafios. Esqueci temporariamente do tempo em que era pobre interesseiro, daquele que s\u00f3 pensa em dinheiro, e decidi pelo diletantismo. Em uma fase em que s\u00f3 cume interessava, me aventurei no alpinismo. N\u00e3o deu certo. Na verdade, tudo que via, tocava ou cheirava estava fora da racionalidade, n\u00e3o tinha coer\u00eancia. Achava tudo t\u00e3o gozado que mais parecia camareira de motel. Cheguei a confundir bife de ca\u00e7arolinha com rifle de ca\u00e7ar rolinha. Mudei de vez ao perceber que metade da sociedade passa fome, enquanto a outra metade faz regime. Mudei de fato ao entender que saudade \u00e9 aquilo que ficou daquilo que n\u00e3o ficou.<\/p>\n<p>Continuo fiel \u00e0s met\u00e1foras de Stanislaw, do Bar\u00e3o de Itarar\u00e9, do Mill\u00f4r Fernandes e at\u00e9 do Ibrahim Sued, para quem cavalo dado acaba desmunhencando. O que n\u00e3o fa\u00e7o mais \u00e9 confundir fato com fake, do tipo o comunismo vai destruir o Brasil. Que comunismo? No Brasil de nossos dias, escrever e n\u00e3o ler \u00e9 analfabeto e ponto final. Acompanhado diariamente por olhos de rapina, o comandante em chefe da na\u00e7\u00e3o passou bom tempo da vida como quem confere ferro. Por isso, era chamado metal\u00fargico. Como o tempo \u00e9 um escultor de ru\u00ednas e gravidez \u00e9 a exce\u00e7\u00e3o que n\u00e3o confirma a regra, o destino quis que ele atendesse a apelos nordestinos e, se \u00e9 que me entendem, passasse a usar col\u00edrio light contra olho gordo.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda menino no sub\u00farbio do Rio, minha filosofia de vida \u2013 eu j\u00e1 tinha uma \u2013 era nunca me achar triste porque mudei de ideia. Li sobre isso em um dos achados memor\u00e1veis do jornalista e escritor Appar\u00edcio Torelly, mais tarde meu mestre preferido. 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