{"id":327986,"date":"2024-05-04T06:10:35","date_gmt":"2024-05-04T09:10:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=327986"},"modified":"2024-05-04T06:15:06","modified_gmt":"2024-05-04T09:15:06","slug":"governo-de-esquerda-de-lula-tropeca-ao-deixar-direita-nadar-de-bracada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/governo-de-esquerda-de-lula-tropeca-ao-deixar-direita-nadar-de-bracada\/","title":{"rendered":"Governo de esquerda de Lula trope\u00e7a ao deixar direita nadar de bra\u00e7ada"},"content":{"rendered":"<p>O oficial que se senta hoje na cadeira de comandante da Marinha sai de seus cuidados e de suas atribui\u00e7\u00f5es para imiscuir-se no que n\u00e3o lhe cabe, ao dar palpites injuriosos sobre projeto de lei j\u00e1 aprovado no Senado e presentemente em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. Da autoria do deputado Lindbergh Farias, a proposta, apoiada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e combatida em termos inaceit\u00e1veis pela caserna, manda inscrever &#8220;no livro dos her\u00f3is da p\u00e1tria&#8221; o marinheiro Jo\u00e3o C\u00e2ndido, negro, filho de ex-escravos, l\u00edder vitorioso da Revolta da Chibata, em 1910, pois, em plena Rep\u00fablica, 38 anos passados da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, o fiador da ordem e da disciplina na Marinha de guerra brasileira era ainda o castigo f\u00edsico, brutal, ignominioso, covarde e racista: a tortura, a chibatada, a palmat\u00f3ria, a inj\u00faria, o aviltamento imposto aos pra\u00e7as, quase todos negros, pelos oficiais, sempre brancos e sempre filhos da classe dominante. A inj\u00faria \u00e9 um padr\u00e3o ideol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Enquanto a chibata que aviltava o pra\u00e7a \u00e9, ainda hoje, um calo na hist\u00f3ria da corpora\u00e7\u00e3o, o almirante Saldanha da Gama, conhecido como &#8220;terr\u00edvel chibateiro&#8221; \u00e9 venerado, encabe\u00e7ando uma lista de torturadores fardados. Segundo Gast\u00e3o Peralva o almirante Vandenkolk n\u00e3o se pejava de afirmar que mais valia a chibatada, como castigo ao r\u00e9u confesso, do que &#8220;os ma\u00e7antes e delongados conselhos de guerra&#8221;.<\/p>\n<p>Tobias Monteiro (Funcion\u00e1rios e doutores) registra que fora da medicina, do direito ou da engenharia, &#8220;eram os rebentos das fam\u00edlias ricas encaminhados para o oficialato da Marinha&#8221;, enquanto o racismo e a viol\u00eancia f\u00edsica, desumanizante, era a l\u00f3gica da disciplina militar. Um racismo que n\u00e3o pode escamotear sua ess\u00eancia classista.<\/p>\n<p>Sem alento para oferecer conselhos de leitura ao atual chefe dos marinheiros, sugiro ao leitor as p\u00e1ginas de Adolfo Caminha (O bom crioulo) descrevendo o supl\u00edcio de uma sess\u00e3o de chibatadas. O comandante do navio palco da selvageria \u00e9 o almirante Saldanha da Gama, tamb\u00e9m descrito por Gilberto Freyre como &#8220;aristocrata&#8221; e &#8220;fidalgo&#8221;.<\/p>\n<p>Refiro-me seguidamente ao almirante Saldanha da Gama porque o \u00f3dio ao marinheiro negro e libertador, se cola com a rever\u00eancia da caserna, ainda hoje, ao almirante chicoteador. Enquanto Saldanha da Gama batiza o navio-escola da marinha \u2013 donde se conclui que a corpora\u00e7\u00e3o abona seus crimes &#8212; o marinheiro negro que livrou a marinha desse opr\u00f3brio&#8211; \u00e9 perseguido, mesmo passados 55 anos de sua morte.<\/p>\n<p>Contra essa mis\u00e9ria, em simbiose com a qual nascera a Marinha e com a qual a corpora\u00e7\u00e3o mantinha sua disciplina de a\u00e7o, dependente da destrui\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter de seus marujos, levantou-se o Almirante Negro, e no campo de batalha em que se transformaria a Bahia de Guanabara, derrotou os fidalgos seus algozes, oficiais da classe dominante.<\/p>\n<p>A revolta dos marinheiros, contra os castigos e os baixos sal\u00e1rios, a escassa alimenta\u00e7\u00e3o, o tempo de servi\u00e7o exagerado, instalou-se no dia 22 de setembro de 1910, no encoura\u00e7ado Minas Gerais, liderada por Jo\u00e3o C\u00e2ndido. O que pleiteavam esses brasileiros desamparados, tratados pelos seus superiores como rebotalho social? Apenas o direito de terem sua condi\u00e7\u00e3o humana respeitada. Est\u00e1 no manifesto lan\u00e7ado \u00e0 na\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8220;(&#8230;) Por isso pedimos a V. Exa. [dirigem-se ao presidente da Rep\u00fablica] abolir o castigo de chibata e os demais b\u00e1rbaros castigos pelo direito da nossa liberdade, a fim de que a Marinha Brasileira seja uma Armada de cidad\u00e3os, e n\u00e3o uma fazenda de escravos, que s\u00f3 tem dos seus senhores o direito de serem chicoteados.&#8221;<\/p>\n<p>O motim, que mobilizou 2 mil homens, duraria quatro dias, ao cabo dos quais o governo entregou os pontos. Presidente da Rep\u00fablica era o marechal Hermes da Fonseca que, acovardado (a cidade estava sob a mira dos revoltados) e pressionado pelo Congresso, negociou o cessar fogo, e na sequ\u00eancia, obra parlamentar, a Anistia aos revoltosos (texto redigido por Rui Barbosa), aos quais foram dadas todas as garantias devidas, para nenhuma ser cumprida.<\/p>\n<p>\u00c0 pr\u00e1tica impune e centen\u00e1ria do crime da tortura, a marinha brasileira de Tamandar\u00e9 ajunta a felonia, marca de ferro em brasa da qual jamais se limpar\u00e1. Ap\u00f3s entregarem as belonaves, os marinheiros foram presos, torturados e muitos assassinados.<\/p>\n<p>Os sobreviventes perseguidos por toda a vida. Todos os anistiados foram expulsos da marinha! Jo\u00e3o C\u00e2ndido permaneceu detido, a primeira vez, por 18 meses em uma pris\u00e3o subterr\u00e2nea, a seguir internado em hospital de alienados, depois solto e novamente preso (numa cela com 30 detidos, dos quais s\u00f3 ele e mais um companheiro de cela sobreviveram).<\/p>\n<p>O her\u00f3i, como quase todos os revoltosos, foi condenado ao desamparo no qual viveu pelo resto da vida, no Rio de Janeiro, vendendo peixe no mercado, at\u00e9 1969, quando morre, na mis\u00e9ria, aos 89 anos. Assim age um Estado sem honra. E agora, passados 114 anos, a Marinha, com o significativo sil\u00eancio do ministro da defesa, investe desabridamente contra a honra do almirante negro e a\u00e7oita a mem\u00f3ria dos revoltosos.<\/p>\n<p>Mas ainda n\u00e3o seria tudo. Falta falar nos massacres da ilha das cobras e do Sat\u00e9lite. A anistia j\u00e1 havia sido defraudada com as pris\u00f5es e as expuls\u00f5es dos pra\u00e7as que se haviam amotinado.<\/p>\n<p>Os marinheiros que a repress\u00e3o p\u00f4de identificar foram presos e removidos \u00e0 Ilha das Cobras, na Ba\u00eda de Guanabara, que servia como se base naval fora. L\u00e1, grande n\u00famero deles foi executado sumariamente.<\/p>\n<p>O Sat\u00e9lite era um cargueiro mercante, no qual, \u00e0s v\u00e9speras do Natal, foi embarcado um n\u00famero ainda incerto de brasileiros desagrad\u00e1veis ao governo do Marechal Hermes. Boa oportunidade para as fileiras tamb\u00e9m se verem livres dos militares amotinados, e o evento foi exclusivamente de ordem militar, sem quaisquer considera\u00e7\u00f5es com a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ou econ\u00f4mica, sem qualquer n\u00edvel de preocupa\u00e7\u00e3o com o processo social.<\/p>\n<p>Deve-se ao jornalista Edmar Moal a recupera\u00e7\u00e3o da verdade em torno daquele que certamente foi o primeiro levante de subalternos nas for\u00e7as armadas brasileiras A historia deve-lhe uma pesquisa preciosa. Refiro-me ao seu livro A revolta da chibata, de 1979. Assim ele descreve a sinistra viagem do Sat\u00e9lite:<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 dif\u00edcil encontrar uma palavra que defina a viagem do cargueiro do Loide Brasileiro, que transportou os rebeldes do &#8220;Batalh\u00e3o Naval&#8221; e dos vasos-de-guerra, fuzilando-os sumariamente em alto mar, a partir da sa\u00edda do paquete da Baia de Guanabara, na noite do Natal de 1910. Outros tombaram assassinados nas selvas do Amazonas&#8221;.<\/p>\n<p>O comandante de hoje diz que a insurg\u00eancia \u00e9 um opr\u00f3bio, e n\u00e3o p\u00f5e na mesa o horror da tortura, dos assassinatos, como se a revolta fosse fruto do nada, quando ela \u00e9 sempre uma constru\u00e7\u00e3o do opressor. Ofende os her\u00f3is chamando-os de &#8220;abjetos marinheiros&#8221;, quando o levante j\u00e1 \u00e9 um velho de mais de cem anos. Como explicar o \u00f3dio sen\u00e3o como uma paranoia constru\u00edda por s\u00e9culos de lavagem cerebral?<\/p>\n<p>O comandante de hoje acusa nossos her\u00f3is de 1910 de haverem desrespeitado a hierarquia e a disciplina militar, mas convenientemente silencia diante da revolta da marinha, de 1893, quando oficiais e comandantes brancos e filhos da classe dominante, chefiados por Saldanha da Gama, pretendiam depor o presidente da Rep\u00fablica. Silencia diante da felonia dos ministros da marinha, ora na intentona de 1955, ora em 1961, e na trai\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia em 1964. E, ainda h\u00e1 pouco, no apoio de seu ministro \u00e0 intentona de 8 de janeiro do ano passado. E silencia diante dos crimes contra a democracia cometidos durante mais de um s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Porque seus atores eram, antes de tudo, oficiais superiores. E quase todos brancos. A lei da chibata e dos castigos jamais constituiu um equ\u00edvoco; trata-se de crime pensado pelo qual s\u00e3o respons\u00e1veis a Marinha como coletivo, e os demais poderes da Rep\u00fablica que o toleraram desde sempre.<\/p>\n<p>A marinha \u00e9, pois, hoje, ideologicamente a mesma, imut\u00e1vel no tempo, blindada contra o processo hist\u00f3rico. Conservadora e racista.<\/p>\n<p>O almirante comandante de hoje, ademais de haver perdido excelente oportunidade de ficar calado, excedeu-se, ofendendo a honra de Jo\u00e3o Candido, um her\u00f3i sem medalhas, mas, no contrapelo dos her\u00f3is oficiais, vencedor no campo da batalha, derrotando seus comandantes, e campe\u00e3o no apre\u00e7o popular Ao fim, pobre e negro, paup\u00e9rrimo, perseguido por toda a vida pelo Estado de classe, ademais de incuravelmente racista, Jo\u00e3o C\u00e2ndido foi eleito her\u00f3i (her\u00f3i do povo), pelo que talvez se possa chamar de consci\u00eancia nacional.<\/p>\n<p>O comandante da marinha, por\u00e9m, qualifica os revoltosos anistiados como &#8220;abjetos marinheiros&#8221; quando deles recolhemos os ensinamentos da dignidade perdidos pela for\u00e7a naval. Ofende a Revolta da Chibata como &#8220;deplor\u00e1vel p\u00e1gina da hist\u00f3ria nacional&#8221;. Ora, dos marinheiros de 1910 somos todos devedores, pois lhes devemos nos havermos livrado da escravid\u00e3o mantida na Marinha por seus comandantes, pol\u00edtica e ideologicamente sempre os mesmos.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o C\u00e2ndido n\u00e3o pode ser chamado de intruso ou &#8220;insurgente&#8221; (ou o \u00e9 por que era negro?), como dita o comandante, mas um her\u00f3i do povo. Ademais, descabe \u00e0s chamadas for\u00e7as dar palpite sobre decis\u00f5es pol\u00edticas do poder legislativo. Fosse outra a nossa rep\u00fablica, e outra a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, o ministro da defesa j\u00e1 teria sido chamado, pelo presidente da Rep\u00fablica, para dar satisfa\u00e7\u00f5es sobre a indisciplina do oficial que escolheu para chefiar a marinha.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, esse quadro infeliz \u00e9 denotativo da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que controla\/sustenta nosso governo. A hist\u00f3ria ensina que se o recuo pol\u00edtico pode ser uma t\u00e1tica, bem sucedia quando ditada pela conjuntura, jamais poder\u00e1 ser receitada como estrat\u00e9gia. E nenhuma estrat\u00e9gia ser\u00e1 capaz de enfrentar as dificuldades de hoje (anunciantes das dificuldades futuras) se o ponto de partida n\u00e3o for a organiza\u00e7\u00e3o social e o grande debate pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Confesso minha dificuldade na tentativa de compreender por que um governo do PT alimenta tanta resist\u00eancia \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e ao di\u00e1logo popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O oficial que se senta hoje na cadeira de comandante da Marinha sai de seus cuidados e de suas atribui\u00e7\u00f5es para imiscuir-se no que n\u00e3o lhe cabe, ao dar palpites injuriosos sobre projeto de lei j\u00e1 aprovado no Senado e presentemente em tramita\u00e7\u00e3o na C\u00e2mara dos Deputados. 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