{"id":328272,"date":"2024-05-08T15:51:38","date_gmt":"2024-05-08T18:51:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=328272"},"modified":"2024-05-08T15:51:38","modified_gmt":"2024-05-08T18:51:38","slug":"tragedia-enfrentada-pelos-gauchos-nao-foi-por-mera-falta-de-aviso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tragedia-enfrentada-pelos-gauchos-nao-foi-por-mera-falta-de-aviso\/","title":{"rendered":"Trag\u00e9dia enfrentada pelos ga\u00fachos n\u00e3o foi por mera falta de aviso"},"content":{"rendered":"<p>A trag\u00e9dia que se abate sobre o Rio Grande do Sul n\u00e3o tem precedentes. A quantidade de chuva que caiu nos \u00faltimos dias e ainda cai no estado \u00e9 extrema e as consequ\u00eancias, idem. As mortes j\u00e1 chegaram a 90 e ainda h\u00e1 mais de uma centena de desaparecidos. Mais de 1 milh\u00e3o de pessoas foram afetadas. Este j\u00e1 \u00e9 considerado o maior desastre clim\u00e1tico do estado.<\/p>\n<p>Esses n\u00fameros impressionantes e as imagens que mais parecem de desastres provocados por furac\u00f5es ou tsunamis podem gerar uma falsa ideia de raridade, de azar. &#8220;Choveu como nunca antes, n\u00e3o tinha como estar preparado para isso&#8221; \u00e9 a frase mais usada para justificar calamidades como esta. Mas n\u00e3o \u00e9 acaso. J\u00e1 era sabido, j\u00e1 era esperado. E, eu sinto muito dizer isso, vai acontecer de novo. E de novo. E n\u00e3o s\u00f3 com os ga\u00fachos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me entendam como alarmista nem pessimista. A ci\u00eancia alerta h\u00e1 muito tempo que o aumento da ocorr\u00eancia de eventos extremos \u00e9 uma das principais consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A quantidade surreal de g\u00e1s carb\u00f4nico que se acumula na atmosfera \u2013 por causa das atividades humanas \u2013, e aquece o planeta, altera todo o funcionamento do sistema clim\u00e1tico. A Terra estar mais quente significa mais energia na equa\u00e7\u00e3o. Calor \u00e9 sin\u00f4nimo de trag\u00e9dia.<\/p>\n<p>O Rio Grande do Sul, pela sua localiza\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, \u00e9 particularmente sens\u00edvel aos fen\u00f4menos naturais El Ni\u00f1o e La Ni\u00f1a. Da\u00ed que \u00e9 relativamente comum a altern\u00e2ncia de secas e chuvas intensas por l\u00e1. Mas o aquecimento global vem piorando isso. Assim como o desmatamento.<\/p>\n<p>&#8221; E, por mais que muito dessa nova realidade se traduza em situa\u00e7\u00f5es que parecem nos pegar de surpresa, os cientistas j\u00e1 estimavam que seria assim. As trag\u00e9dias consecutivas que se acumulam desde o ano passado n\u00e3o se deram por falta de aviso.<\/p>\n<p>O site Intercept Brasil lembrou nesta segunda-feira, 6, um estudo que foi encomendado no governo Dilma que j\u00e1 alertava para os riscos de enchentes no Rio Grande do Sul. O projeto &#8220;Brasil 2040&#8221; falava tamb\u00e9m sobre as vulnerabilidades do agroneg\u00f3cio, principalmente no estado, e tamb\u00e9m das hidrel\u00e9tricas, o que batia de frente com os planos de expans\u00e3o el\u00e9trica do governo. Acabou sendo engavetado em 2015 sem que nenhuma medida fosse tomada a respeito (conto essa hist\u00f3ria no quinto epis\u00f3dio do podcast Tempo Quente, que lancei com a R\u00e1dio Novelo em 2022).<\/p>\n<p>N\u00e3o precisou chegar a 2040. Nem s\u00f3 esse estudo alertou sobre isso. Pesquisadores locais, como Francisco Aquino, climatologista da UFRGS, mostram que os eventos extremos j\u00e1 est\u00e3o se intensificando, sem que nada tenha sido feito para evitar mortes e perdas. No ano passado, o Rio Grande do Sul j\u00e1 tinha sido o estado com o maior n\u00famero de decretos de situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia e de calamidade p\u00fablica relacionados \u00e0 chuva no Brasil.<\/p>\n<p>Um levantamento da Ag\u00eancia P\u00fablica contabilizou que, ao longo do ano passado, o governo federal reconheceu, em todo o pa\u00eds, decretos do tipo 1.073 vezes; 433 deles foram em munic\u00edpios ga\u00fachos, cerca de 40% do total. No per\u00edodo, pelo menos 71 pessoas morreram em decorr\u00eancia dos temporais no estado.<\/p>\n<p>S\u00f3 que uma coisa \u00e9 o aquecimento global, os danos ambientais, as previs\u00f5es cient\u00edficas, outra \u00e9 o que a gente faz com elas. Sabendo o que vem pela frente, \u00e9 preciso agir: primeiro para tentar evitar o pior, mitigar o problema \u2013 que se traduz, basicamente, em reduzir as emiss\u00f5es de gases que causam o aquecimento global.<\/p>\n<p>Depois, \u00e9 preciso se adaptar para proteger a popula\u00e7\u00e3o. Porque, mesmo se a gente zerasse as emiss\u00f5es hoje \u2013 o que est\u00e1, infelizmente, muito longe de acontecer \u2013, esses gases, principalmente o CO2, ficam muito tempo agindo na atmosfera, o que significa que ainda vamos ter de lidar com os danos por um bom tempo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso para j\u00e1 criar, entre outras coisas, estruturas mais resilientes, tirar as pessoas das \u00e1reas de risco, oferecer moradias seguras, saneamento b\u00e1sico, elaborar bons sistemas de alerta e rotas de escape, aumentar a cobertura verde de cidades de modo a n\u00e3o s\u00f3 melhorar o conforto t\u00e9rmico e reduzir os efeitos das ondas de calor, mas tamb\u00e9m para proteger encostas e margens de rios para que eles n\u00e3o fiquem assoreados e n\u00e3o transbordem. \u00c9 muito trabalho.<\/p>\n<p>A especialista em pol\u00edtica clim\u00e1tica Natalie Unterstell, do Instituto Talanoa, resumiu a situa\u00e7\u00e3o em suas redes sociais: &#8220;O que est\u00e1 acontecendo no Rio Grande do Sul hoje \u00e9 a nossa nova realidade e n\u00e3o uma &#8216;triste exce\u00e7\u00e3o&#8217;. Precisamos internalizar que estamos dependendo de infraestrutura, sistemas, pol\u00edticas, casas feitas para um clima que n\u00e3o existe mais. Estamos dependendo de sistemas inaptos a nos proteger&#8221;.<\/p>\n<p>Em nota t\u00e9cnica sobre a trag\u00e9dia, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) tamb\u00e9m ressaltou esse despreparo. &#8220;Podemos afirmar que os desastres gerados por chuvas intensas s\u00e3o consequ\u00eancia de atividades humanas. Constru\u00e7\u00f5es em \u00e1reas com risco de inunda\u00e7\u00f5es, que j\u00e1 foram inundadas em setembro de 2023, voltaram a ser inundadas novamente em maio de 2024; por\u00e9m, com maior n\u00famero de fatalidades&#8221;, diz o \u00f3rg\u00e3o.<\/p>\n<p>A nota se refere a cidades como Roca Sales e Mu\u00e7um. Destru\u00eddas nas tempestades do ano passado, foram novamente atingidas agora. Popula\u00e7\u00f5es que tiveram suas casas destru\u00eddas naquela \u00e9poca, est\u00e3o mais uma vez desabrigadas.<\/p>\n<p>&#8220;Estruturas hidr\u00e1ulicas que protegem a cidade de Porto Alegre n\u00e3o resistiram \u00e0s ondas de inunda\u00e7\u00f5es e romperam, o que sugere que foram subdimensionadas ou que n\u00e3o se considerou que os volumes de chuvas poderiam aumentar com o tempo&#8221;, continuam os pesquisadores.<\/p>\n<p>E alertam: &#8220;A falta de resili\u00eancia de Porto Alegre frente aos extremos de clima e mudan\u00e7as clim\u00e1ticas foi detectada em 2023, e este \u00e9 o caso de outras grandes cidades que podem n\u00e3o estar preparadas para extremos clim\u00e1ticos como os ocorridos em 2023 ou nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. Assim, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem aumentar o cen\u00e1rio de risco de desastres em \u00e1reas urbanas do Brasil, nesta d\u00e9cada, como j\u00e1 registrado nas cidades de Petr\u00f3polis (RJ) e Recife (PE), em 2022, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o (SP) e no Vale do Rio Taquari (RS) em 2023, e em Porto Alegre, em 2024&#8221;.<\/p>\n<p>S\u00f3 que as a\u00e7\u00f5es ainda v\u00e3o no sentido contr\u00e1rio da preven\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria. Tanto as emiss\u00f5es continuam subindo quanto n\u00e3o temos planos de adapta\u00e7\u00e3o em curso. No caso espec\u00edfico do Rio Grande do Sul, apesar de isso n\u00e3o ser uma exclusividade local, leis ambientais v\u00eam sendo fragilizadas. O governador Eduardo Leite alterou 480 pontos do C\u00f3digo Ambiental do estado em 2019, como conta esta reportagem do ICL.<\/p>\n<p>Uma reportagem important\u00edssima da P\u00fablica do ano passado mostrou que o governo do estado engavetou diversos planos para lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Por outro lado, deputados federais do estado, que bem fariam se estivessem brigando no Congresso por pol\u00edticas que protejam seus eleitores de desastres como os dos \u00faltimos nove meses, est\u00e3o agindo para enfraquecer as leis nacionais em prol apenas do agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>&#8220;Assim, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas podem aumentar o cen\u00e1rio de risco de desastres em \u00e1reas urbanas do Brasil, nesta d\u00e9cada, como j\u00e1 registrado nas cidades de Petr\u00f3polis (RJ) e Recife (PE), em 2022, em S\u00e3o Sebasti\u00e3o (SP) e no Vale do Rio Taquari (RS) em 2023, e em Porto Alegre, em 2024&#8221;. Cemaden<\/p>\n<p>No \u00f3timo epis\u00f3dio desta ter\u00e7a-feira, 7, do podcast O Assunto, Suely Ara\u00fajo, coordenadora de pol\u00edticas p\u00fablicas no Observat\u00f3rio do Clima, relata como a bancada parlamentar do RS tem um hist\u00f3rico de vota\u00e7\u00f5es para reduzir a prote\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>Neste mesmo momento, 25 projetos de lei e tr\u00eas emendas \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o tramitam no Congresso que flexibilizam a legisla\u00e7\u00e3o ambiental. S\u00e3o alvo, por exemplo, o C\u00f3digo Florestal \u2013 a principal lei do pa\u00eds que protege a vegeta\u00e7\u00e3o nativa \u2013, o licenciamento ambiental e at\u00e9 o financiamento da pol\u00edtica ambiental. O Observat\u00f3rio do Clima apelidou os projetos de &#8220;Pacote da Destrui\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>De acordo com reportagem da P\u00fablica sobre o pacote, &#8220;dois PLs se destacam como especialmente prejudiciais ao Rio Grande do Sul&#8221;. Um deles pode levar \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de \u2153 dos Pampas, segundo an\u00e1lise. Os dois projetos est\u00e3o em uma lista lan\u00e7ada pela Frente Parlamentar Ambientalista com 23 projetos considerados prejudiciais e que, na opini\u00e3o do grupo, deveriam ser arquivados por &#8220;impulsionarem a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e agravarem a crise clim\u00e1tica e a ocorr\u00eancia de cat\u00e1strofes&#8221;.<\/p>\n<p>Bem, n\u00e3o custa lembrar que o pr\u00f3prio agroneg\u00f3cio do estado vem sofrendo perdas atr\u00e1s de perdas com os eventos extremos. O setor, no entanto, prefere dar ouvidos para um negacionista clim\u00e1tico.<\/p>\n<p>O meteorologista Luiz Carlos Molion, professor aposentado da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) que no ano passado disse, em depoimento na CPI das ONGs, que havia um &#8220;alarmismo incr\u00edvel&#8221; em torno do El Ni\u00f1o e que o fen\u00f4meno n\u00e3o ia causar seca na Amaz\u00f4nia nem tempestades no Sul do pa\u00eds \u2013 apenas alguns dias antes de essas trag\u00e9dias ocorrerem \u2013, \u00e9 sempre convidado para dar palestras para produtores.<\/p>\n<p>No fim de abril, ele esteve no F\u00f3rum Norte Ga\u00facho do Trigo e Milho, na cidade de Get\u00falio Vargas, onde disse que, no trimestre de abril, maio e junho as chuvas devem ficar abaixo da m\u00e9dia na regi\u00e3o de Passo Fundo. De novo, acho que nem preciso dizer que Passo Fundo est\u00e1 entre as cidades atingidas agora, n\u00e9? Tamb\u00e9m foi assim nas chuvas de setembro do ano passado.<\/p>\n<p>A realidade se imp\u00f5e.<\/p>\n<p>A crise clim\u00e1tica precisa ser o novo imperativo das pol\u00edticas p\u00fablicas, dos planos econ\u00f4micos e dos planejamentos estrat\u00e9gicos de infraestrutura. As cidades ter\u00e3o de ser reconstru\u00eddas e n\u00e3o d\u00e1 para fazer as obras do jeito que elas sempre foram feitas. \u00c9 preciso considerar que o clima \u00e9 outro. Assim como n\u00e3o d\u00e1 mais para eleger pessoas que n\u00e3o tenham como diretriz estruturar o pa\u00eds, os estados e munic\u00edpios para proteger suas popula\u00e7\u00f5es do que est\u00e1 por vir, sempre com base na ci\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 pra eleger deputados que defendem um \u00fanico setor, em um pensamento curto-prazista em que vale tudo pra hoje e o amanh\u00e3 a gente v\u00ea depois. O amanh\u00e3 est\u00e1 aqui, meus caros. Que essa trag\u00e9dia terr\u00edvel esteja nas mentes de todos n\u00f3s nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A trag\u00e9dia que se abate sobre o Rio Grande do Sul n\u00e3o tem precedentes. A quantidade de chuva que caiu nos \u00faltimos dias e ainda cai no estado \u00e9 extrema e as consequ\u00eancias, idem. As mortes j\u00e1 chegaram a 90 e ainda h\u00e1 mais de uma centena de desaparecidos. 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