{"id":328599,"date":"2024-05-13T07:31:31","date_gmt":"2024-05-13T10:31:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=328599"},"modified":"2024-05-13T07:31:31","modified_gmt":"2024-05-13T10:31:31","slug":"gudesteu-ensina-segredo-a-nicanor-e-julio-enriquece","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gudesteu-ensina-segredo-a-nicanor-e-julio-enriquece\/","title":{"rendered":"Gudesteu ensina segredo a Nicanor e J\u00falio enriquece"},"content":{"rendered":"<p>Gudesteu Neiva, por mais de 40 anos, foi o principal contador na cidade de Nova Iorque. N\u00e3o havia boa firma ou casa de com\u00e9rcio que n\u00e3o lhe contasse com os servi\u00e7os. Organizava os livros, os impostos, as notas fiscais&#8230; E n\u00e3o falo da Nova Iorque dos Estados Unidos, que l\u00e1 \u00e9 terra muito fria, distante. A Nova Iorque de Gudesteu era logo ali, no Maranh\u00e3o, na divisa com o Piau\u00ed, cidade fundada pelo engenheiro norte-americano Edward Burnet, que, em 1890, estando no comando de obras para desobstruir o tr\u00e1fego fluvial pelo rio Parna\u00edba, fixou-se perto do munic\u00edpio de Pastos Bons e fez dali sua morada, logo fundando a cidade cujo nome homenageava sua terra natal. Gudesteu come\u00e7ou a profiss\u00e3o na velha Nova Iorque, que foi inundada pelo lago da represa da Hidrel\u00e9trica de Boa Esperan\u00e7a l\u00e1 pelos anos de 1960.<\/p>\n<p>Praticamente, s\u00f3 duas coisas foram levadas da velha para a nova Nova Iorque antes da inunda\u00e7\u00e3o: o corpo da santa Mariquinha Fonfon, exumado do antigo cemit\u00e9rio, e o cofre que ficava na casa de Gudesteu, onde era tamb\u00e9m seu escrit\u00f3rio de contabilidade. O cofre deu mais trabalho que a santa.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que, durante toda a sua carreira, Gudesteu ganhou muito \u2013 dinheiro e reconhecimento \u2013 e gastou pouco. Morava em modest\u00edssima alcova na parte de tr\u00e1s do conjugado que, na sala, lhe servia de escrit\u00f3rio. Porta e janela pra rua, cuidadosamente trancadas \u00e0 noite. Mas, se n\u00e3o fossem, quem se atreveria a violar os dom\u00ednios de Gudesteu? Cidad\u00e3o muito conhecido e prestante, tinha o respeito de todos. E era pobre, ou ao menos se comportava como um verdadeiro. Mas o cofre era grande, pesado, gross\u00edssimo. Ningu\u00e9m sabia o que havia dentro.<\/p>\n<p>\u2013 Documentos, dizia um.<\/p>\n<p>\u2013 Barras de ouro e dinheiro, arriscava outro.<\/p>\n<p>\u2013 Informa\u00e7\u00f5es comprometedoras, vaticinava um terceiro.<\/p>\n<p>Apesar de ter irm\u00e3os e sobrinhos, Gudesteu vivia s\u00f3. A solitude era quebrada apenas pela companhia de Nicanor, que n\u00e3o sa\u00eda do seu lado. Nicanor era um papagaio, de penas bem verdes e lustrosas. Inteligente, tinha aqueles olhos sempre arregalados e espertos. Bravo, n\u00e3o deixava que ningu\u00e9m chegasse perto de seu dono que logo armava um voo e uma bicada certeira. Como o contador, o papagaio tamb\u00e9m falava pouco. \u00c0s vezes, daquele jeito rouco que tem todo papagaio, dizia coisas que s\u00f3 Gudesteu entendia.<\/p>\n<p>N\u00e3o raro o louro estava empoleirado perto da janelinha em frente \u00e0 qual, quem passasse, veria Gudesteu de costas trabalhando em sua mesa colada ao grande cofre. Paravam na janela e diziam:<\/p>\n<p>\u2013 Currupaco, seu louro. D\u00e1 o p\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>E o bicho taramelava:<\/p>\n<p>\u2013 Seeeis&#8230; Direita, Ooooito. Esquerda.<\/p>\n<p>Talvez de tanto conviver com Gudesteu, o papagaio Nicanor tivesse aprendido os n\u00fameros. Ocorreu que, um dia, como quem n\u00e3o quer nada, a indesejada das gentes veio fazer uma visita a Gudesteu. Como passasse de meio-dia e ele n\u00e3o abrira o escrit\u00f3rio, algum cliente que viera trazer-lhe umas guias para o pagamento de impostos estranhou. Bateu \u00e0 porta e ele n\u00e3o atendeu. Foram abrir, estava morto, sereno, na cama da alcova, logo atr\u00e1s do tal cofre. E o papagaio Nicador l\u00e1, no poleiro da papagaieira:<\/p>\n<p>\u2013 Noooove. Direita.<\/p>\n<p>Foi uma como\u00e7\u00e3o geral. Vel\u00f3rio na c\u00e2mara de vereadores, missa, cortejo f\u00fanebre, at\u00e9 colocarem o contador pertinho da Mariquinha Fonfon.<\/p>\n<p>Ainda no fim daquele dia, os irm\u00e3os e sobrinhos de Gudesteu reuniram-se em sua casa perguntando-se o que fariam com o cofre.<\/p>\n<p>\u2013 Aqui n\u00e3o tem quem o abra. Precisa chamar algu\u00e9m de S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>\u2013 Ou de Teresina.<\/p>\n<p>\u2013 E o papagaio?<\/p>\n<p>\u2013 Esse \u00e9 bravo, n\u00e3o quero. Bica.<\/p>\n<p>\u2013 Solte na Praia do Caju. Ele se vira.<\/p>\n<p>A preocupa\u00e7\u00e3o geral era o cofre. J\u00e1 combinavam como seria a divis\u00e3o de seu conte\u00fado sem sequer abri-lo. J\u00falio, o sobrinho mais novo de Gudesteu, filho do finado Arquimedes, \u00e9 que tomou o partido do bicho:<\/p>\n<p>\u2013 Marr\u00f3ia, voc\u00eas ficam falando de cofre. E o papagaio? Quero cuidar! O bichinho deve estar brocado de fome.<\/p>\n<p>\u2013 Piqueno, tu \u00e9 o raio, disse, em aprova\u00e7\u00e3o, o outro tio, Per\u00e1cio. \u2013 Fique, pois, com o papagaio.<\/p>\n<p>\u2013 Mas e minha parte no cofre? \u2013 quis saber J\u00falio.<\/p>\n<p>\u2013 Rapaz, fique com o papagaio e d\u00ea-se por satisfeito. Onde j\u00e1 se viu?! T\u00e1 exigente! Fica o papagaio pra tu e o resto pra n\u00f3s. Fique satisfeito e cale sua boca.<\/p>\n<p>J\u00falio ficou contrariado, mas engoliu a seco.<\/p>\n<p>Combinaram os demais que s\u00f3 iriam remover o cofre quando o tivessem aberto e, de comum acordo, dividido o seu conte\u00fado. Se n\u00e3o desse em nada, ao menos poderiam vend\u00ea-lo para quem o aproveitasse. Era apenas o caso de achar quem abrisse e trocasse o segredo. Mas quem prestaria o servi\u00e7o? N\u00e3o faziam ideia.<\/p>\n<p>J\u00e1 o pequeno J\u00falio, t\u00e3o franzino aos 19 anos que passaria por um garoto de 14, tentou pegar o papagaio e lev\u00e1-lo para casa. Como levou boas bicadas, resolveu ficar dormindo na casa de Gudesteu mesmo. Todo dia alimentava a ave e tentava fazer amizade com ela. E ficava ouvindo:<\/p>\n<p>\u2013 Doooois&#8230; Ciiiinco, esquerda. Tr\u00ea\u00ea\u00ea\u00eas, direita.<\/p>\n<p>Ao cabo de alguns dias daquilo, deu-lhe um estalo.<\/p>\n<p>\u2013 Espera, agora me lembro. Fiquei ouvindo meus tios conversarem. O cofre se abre girando esse bot\u00e3o numerado. Pra esquerda, pra direita&#8230; com esses n\u00fameros. \u00c9 a tal combina\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Gudesteu, que nada disse a ningu\u00e9m, havia ensinado ao papagaio a combina\u00e7\u00e3o para abrir o cofre. Era apenas uma quest\u00e3o de anotar o que a ave falava e ir tentando, dia ap\u00f3s dia, prestando bem aten\u00e7\u00e3o no bicho e encontrando a ordem certa. Mas isso para os outros. J\u00falio, que era sagaz e maroto, na mesma tarde, partindo de seis \u00e0 direita, foi fazendo as combina\u00e7\u00f5es e destravou a porta do enorme apetrecho. De vingan\u00e7a, nem sequer foi avisar aos irm\u00e3os e tios, que o queriam passar para tr\u00e1s, sobre o fant\u00e1stico conte\u00fado que encontrou. Preferiu correr o mundo, indo embora ainda de madrugadinha.<\/p>\n<p>Nunca mais foi visto. Soube-se, apenas, que levou tamb\u00e9m o papagaio, e nem se importou com algumas bicadas que ia levando pelo caminho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Gudesteu Neiva, por mais de 40 anos, foi o principal contador na cidade de Nova Iorque. N\u00e3o havia boa firma ou casa de com\u00e9rcio que n\u00e3o lhe contasse com os servi\u00e7os. Organizava os livros, os impostos, as notas fiscais&#8230; E n\u00e3o falo da Nova Iorque dos Estados Unidos, que l\u00e1 \u00e9 terra muito fria, distante. 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