{"id":329074,"date":"2024-05-20T00:00:32","date_gmt":"2024-05-20T03:00:32","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=329074"},"modified":"2024-05-20T08:43:01","modified_gmt":"2024-05-20T11:43:01","slug":"indigenas-podem-melhorar-relacao-com-o-meio-ambiente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/indigenas-podem-melhorar-relacao-com-o-meio-ambiente\/","title":{"rendered":"Ind\u00edgenas podem melhorar rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s seguidas cat\u00e1strofes socioambientais causadas pela a\u00e7\u00e3o do homem na natureza, a busca por conhecimentos que possam orientar a humanidade na rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente t\u00eam sido cada vez mais presente nas pesquisas cient\u00edficas. Em muitas delas, o conhecimento ind\u00edgena, enterrado pela cultura colonizadora, volta \u00e0 tona na forma de escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o estudo Tropical forests as key sites of the Anthropocene: past and present perspectives (em livre tradu\u00e7\u00e3o As florestas tropicais como locais-chave da cena humana: perspectivas passadas e presentes) realizado na Amaz\u00f4nia peruana e publicado, em 2021, na revista cient\u00edfica Proceedings of the National Academy of Sciences.<\/p>\n<p>Ao investigar as mudan\u00e7as causadas pelos habitantes da maior floresta tropical do planeta, os pesquisadores conclu\u00edram que ao longo de 5.000 anos, incluindo o per\u00edodo ap\u00f3s o contato europeu, as florestas n\u00e3o foram periodicamente desmatadas para a agricultura ou significativamente modificadas pelas popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas.<\/p>\n<p>A viv\u00eancia harm\u00f4nica dessas popula\u00e7\u00f5es com a floresta, revelado por camadas profundas no solo, demonstraram \u201ccomo as sociedades ind\u00edgenas foram, e ainda s\u00e3o, for\u00e7as positivas na integridade e na biodiversidade do seu ecossistema, e como o conhecimento ind\u00edgena deve ser utilizado nos esfor\u00e7os de conserva\u00e7\u00e3o e sustentabilidade\u201d, avalia o estudo.<\/p>\n<p>Esse conhecimento permanece perpetuado nas muitas comunidades ind\u00edgenas ainda existentes no Brasil, mas n\u00e3o consegue ultrapassar as barreiras da educa\u00e7\u00e3o formal ofertada \u00e0 maior parte da popula\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, diz o antrop\u00f3logo da Universidade de Bras\u00edlia (UnB) Gersem Baniwa.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o se reconhece essa hist\u00f3ria milenar, que a arqueologia moderna na Amaz\u00f4nia j\u00e1 provou existir h\u00e1 mais de 15 mil anos, de verdadeiras civiliza\u00e7\u00f5es que produziram muita ci\u00eancia, muita pol\u00edtica, muita economia, muito com\u00e9rcio, muita cultura, aritm\u00e9tica. Houve, inclusive, modelos de pol\u00edtica, de cacicados na Amaz\u00f4nia, com extensas redes de rela\u00e7\u00f5es comerciais, culturais e pol\u00edticas\u201d, diz o professor.<\/p>\n<p>Todo esse conhecimento foi perdido em um processo de desconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria imposto por colonizadores e perpetuado na educa\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje, afirma o historiador da Universidade Federal do Par\u00e1 (Ufpa) M\u00e1rcio Couto. \u201cQuando a gente estuda na educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, a contribui\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas \u00e9 associada a quest\u00f5es folcl\u00f3ricas. Eles contribu\u00edram com a rede, com o h\u00e1bito de tomar banho e, por outro lado, as popula\u00e7\u00f5es brancas, europeias, contribu\u00edram com a forma\u00e7\u00e3o de um estado nacional, por exemplo. Vemos a\u00ed uma hierarquiza\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es, colocando no primeiro plano as contribui\u00e7\u00f5es das popula\u00e7\u00f5es brancas, em seguida as popula\u00e7\u00f5es africanas e em \u00faltimo lugar as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u201d, observa.<\/p>\n<p>N\u00e3o enxergar os povos ind\u00edgenas como sujeitos de conhecimento fez com que o Brasil, na sua constru\u00e7\u00e3o sociocultural, n\u00e3o apenas ignorasse essa contribui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m deixasse de usufruir desse conhecimento em grande parte de seu territ\u00f3rio. \u201cSe a gente pega as \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o ambiental no Brasil, ou mesmo na Am\u00e9rica, as \u00e1reas onde t\u00eam mais verde, onde t\u00eam mais mata preservada, essas \u00e1reas coincidem com os mapas das terras ind\u00edgenas\u201d, refor\u00e7a Couto.<\/p>\n<p>Outra consequ\u00eancia, para Baniwa, \u00e9 o surgimento de gera\u00e7\u00f5es que perderam a capacidade de se relacionar com o que est\u00e1 ao seu redor. \u201cUma parcela da ci\u00eancia moderna j\u00e1 come\u00e7a a compreender esse mundo, no sentido da natureza, do universo, do cosmo, como agentes vivos, mas os povos ind\u00edgenas j\u00e1 t\u00eam isso milenarmente.\u201d, destaca.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria arqueologia tem se revelado uma das principais ferramentas na retomada desse conhecimento e tamb\u00e9m para transpor as barreiras que o mant\u00e9m fora das salas de aula. O arque\u00f3logo da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) Eduardo G\u00f3es Neves, que pesquisa a Amaz\u00f4nia h\u00e1 mais de 30 anos, ressalta que o crescimento da arqueologia no Brasil tem estimulado uma busca maior das pessoas por essa etapa da hist\u00f3ria do Brasil.<\/p>\n<p>\u201cAs pessoas t\u00eam um interesse, mesmo fora da Amaz\u00f4nia, em entender melhor quem n\u00f3s somos, o que o Brasil \u00e9. O Brasil se formou como essa imagem de uma parte das elites intelectuais aqui do nosso pa\u00eds, que se viam com europeus transplantados para o novo mundo. Essa vis\u00e3o \u00e9 totalmente equivocada, \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o, que, na verdade, s\u00f3 prejudica o nosso pa\u00eds\u201d, explica.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0 cat\u00e1strofe do Rio Grande do Sul, o pr\u00f3prio uso de express\u00f5es como \u201ccrise clim\u00e1tica\u201d \u00e9 questionado pelo antrop\u00f3logo ind\u00edgena, que a considera uma leitura equivocada do problema, causada pela falta de acesso a esses conhecimentos. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma crise clim\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 o clima que est\u00e1 em crise, n\u00e3o \u00e9 a natureza que est\u00e1 em crise, \u00e9 a humanidade e a civiliza\u00e7\u00e3o humana que est\u00e1 em crise. A gente prefere se enganar, transferir a nossa responsabilidade, dizendo que \u00e9 o ambiente que est\u00e1 em crise, para n\u00e3o dizer que \u00e9 uma crise civilizat\u00f3ria da humanidade\u201d, conclui.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s seguidas cat\u00e1strofes socioambientais causadas pela a\u00e7\u00e3o do homem na natureza, a busca por conhecimentos que possam orientar a humanidade na rela\u00e7\u00e3o com o meio ambiente t\u00eam sido cada vez mais presente nas pesquisas cient\u00edficas. Em muitas delas, o conhecimento ind\u00edgena, enterrado pela cultura colonizadora, volta \u00e0 tona na forma de escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas. 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