{"id":331252,"date":"2024-06-21T06:49:55","date_gmt":"2024-06-21T09:49:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=331252"},"modified":"2024-06-21T08:52:22","modified_gmt":"2024-06-21T11:52:22","slug":"politico-gaucho-segue-como-referencia-da-luta-em-defesa-da-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/politico-gaucho-segue-como-referencia-da-luta-em-defesa-da-democracia\/","title":{"rendered":"Pol\u00edtico ga\u00facho segue como refer\u00eancia da luta em defesa da democracia"},"content":{"rendered":"<p>O momento era de tens\u00e3o total. Naquele 28 de agosto de 1961, o governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, foi correndo para o por\u00e3o do Pal\u00e1cio Piratini e fez um pronunciamento para uma r\u00e1dio que a equipe montou de improviso. \u201cHoje, nesta minha alocu\u00e7\u00e3o, tenho os fatos mais graves a revelar. O Pal\u00e1cio Piratini, meus patr\u00edcios, est\u00e1 aqui transformado em uma cidadela que h\u00e1 de ser heroica (&#8230;)\u201d. Ele pedia resist\u00eancia at\u00e9 o fim. Aquele seria um dos momentos que faria com que Brizola (1922 &#8211; 2004), que morreu h\u00e1 20 anos, entrasse para a hist\u00f3ria brasileira. Segundo pesquisadores, ele foi respons\u00e1vel por evitar, via uma rede de r\u00e1dios, que o golpe militar ocorresse naquele ano.<\/p>\n<p>Momentos como esse ter\u00e3o destaque em um document\u00e1rio de S\u00edlvio Tendler, que deve ser lan\u00e7ado no segundo semestre deste ano. Aquele epis\u00f3dio ocorreu depois da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros. Como Jo\u00e3o Goulart, o vice-presidente, estava em miss\u00e3o diplom\u00e1tica fora do Pa\u00eds, a c\u00fapula militar posicionou-se para impedir a transmiss\u00e3o de posse para o vice. Houve um impasse e quem assumiu o pa\u00eds foi o presidente da C\u00e2mara, Paschoal Ranieri Mazzilli.<\/p>\n<p><strong>Leitura de pa\u00eds<\/strong><br \/>\nDe acordo com o neto de Brizola, Leonel Brizola Neto, que cedeu as imagens para o filme e que busca divulgar o legado do av\u00f4 com uma associa\u00e7\u00e3o cultural, o ent\u00e3o governador tinha a no\u00e7\u00e3o da amea\u00e7a de uma ruptura democr\u00e1tica.<\/p>\n<p>\u201cEle tinha uma leitura do que estava acontecendo. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o havia a facilidade das informa\u00e7\u00f5es que n\u00f3s temos hoje. Ele entendeu e come\u00e7ou a organizar (a resist\u00eancia). Todos os atos do Brizola foram sempre dentro da legalidade democr\u00e1tica\u201d, argumenta o neto.<\/p>\n<p>Em nome dessa legalidade, Brizola passou a utilizar a R\u00e1dio Gua\u00edba, atrav\u00e9s de um ato governamental, para defender a posse do vice. Para o professor de hist\u00f3ria Adriano de Freixo, da Universidade Federal Fluminense, Brizola foi a figura central da resist\u00eancia.<\/p>\n<p>Freixo ressalta que houve de fato uma tentativa de golpe em 1961, orquestrada pelos que executaram o golpe de 1964.<\/p>\n<p>\u201cQuando Brizola montou a rede da legalidade, com seus discursos sendo transmitidos para todo o Brasil, ele tamb\u00e9m consegue apoio militar, do Ex\u00e9rcito no Rio Grande do Sul e da Brigada Militar ga\u00facha, dispostos a ir para o confronto. Isso faz, inclusive, com que outras lideran\u00e7as civis se animassem a resistir\u201d, afirmou o professor.<\/p>\n<p>A \u201crede da legalidade\u201d, como ficou conhecida, congregou mais de 100 r\u00e1dios pelo Brasil, que passaram a retransmitir discursos pela manuten\u00e7\u00e3o da democracia e da legalidade.<\/p>\n<p>Brizola passou a denunciar que avi\u00f5es militares brasileiros teriam ordem para atirar contra o pal\u00e1cio do governo ga\u00facho. Segundo os pesquisadores ouvidos pela Ag\u00eancia Brasil, como conseguiu ades\u00e3o de pra\u00e7as da pr\u00f3pria For\u00e7a A\u00e9rea boicotaram as aeronaves para que n\u00e3o decolassem.<\/p>\n<p><strong>Frustra\u00e7\u00e3o<\/strong><br \/>\nO professor Adriano de Freixo avalia que Brizola estava disposto, inclusive, a partir para o confronto, se fosse necess\u00e1rio. \u201cComo ele mesmo disse em alguns depoimentos, a ideia dele era marchar para o Rio de Janeiro e dissolver o Congresso, j\u00e1 que parlamentares tinham sido coniventes com tentativa de golpe e garantir a posse do Jango\u201d, afirma o professor. Foi uma decep\u00e7\u00e3o para Brizola ter conhecimento de que Jango concordou com uma solu\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria e assumiu um regime parlamentarista provisoriamente.<\/p>\n<p>A frustra\u00e7\u00e3o de Brizola com o presidente deu-se diante de um contexto pol\u00edtico. Pesquisadores do per\u00edodo entendem que havia expressivo apoio popular \u00e0 posse de Jango em 1961. De acordo com o soci\u00f3logo Yago Junho, que tamb\u00e9m pesquisa a trajet\u00f3ria de Brizola, o ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul ganhou a opini\u00e3o p\u00fablica porque compreendeu a import\u00e2ncia do processo de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA batalha pol\u00edtica \u00e9 a batalha das comunica\u00e7\u00f5es. Mais de 70% da popula\u00e7\u00e3o apoiava a posse do Jango e o Brizola, em rela\u00e7\u00e3o a esse apoio popular, queria efetivamente promover mudan\u00e7as. Acabou prevalecendo a concilia\u00e7\u00e3o e a concilia\u00e7\u00e3o s\u00f3 serviu para adiar o golpe por tr\u00eas anos\u201d, analisa o soci\u00f3logo. Os pesquisadores avaliam que Brizola foi h\u00e1bil, mas n\u00e3o contava que Jango iria curvar-se \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dos militares.<\/p>\n<p><strong>Legados<\/strong><br \/>\nOs pesquisadores da trajet\u00f3ria de Leonel Brizola entendem que a inf\u00e2ncia pobre no Rio Grande do Sul foi fator decisivo para as escolhas pol\u00edticas do homem que foi governador de dois estados, o que ele nasceu, e o Rio de Janeiro. Yago Junho analisa que Brizola defendeu o trabalhismo e os direitos da Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho.<\/p>\n<p>O historiador Adriano de Freixo v\u00ea Brizola como uma das figuras p\u00fablicas mais importantes da segunda metade do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>\u201cEle construiu uma carreira pol\u00edtica muito prof\u00edcua. Ele defendeu melhor distribui\u00e7\u00e3o de riquezas, com propostas como a realiza\u00e7\u00e3o da reforma agr\u00e1ria, educa\u00e7\u00e3o integral nas escolas e defesa do pa\u00eds diante de press\u00f5es estrangeiras\u201d, diz<\/p>\n<p>Os pesquisadores assinalam que Brizola acreditava que a educa\u00e7\u00e3o seria a forma de gerar uma constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade menos desigual, tanto na gest\u00e3o do Rio Grande do Sul (1959 &#8211; 1963) como do Rio de Janeiro (1983 &#8211; 1987 e 1991 &#8211; 1994).<\/p>\n<p>\u201cEssa preocupa\u00e7\u00e3o do Brizola com uma educa\u00e7\u00e3o de qualidade, com uma escola de tempo integral, \u00e9 algo que hoje continua no \u00e2mbito de investigadores educacionais do Brasil\u201d, afirma o historiador Adriano de Freixo. Sobre a escola em tempo integral, defendida pelo pol\u00edtico ga\u00facho, o pesquisador avalia que foi uma ideia que acabou sendo combatida por diferentes setores. \u201cEssa \u00e9 uma quest\u00e3o central no pensamento do Brizola\u201d.<\/p>\n<p>O resultado foi que houve redu\u00e7\u00e3o do analfabetismo com a constru\u00e7\u00e3o de mais de seis mil escolas. \u201cO pai dele foi assassinado. A m\u00e3e alfabetizou os filhos. Ele foi depois, com 14 anos, estudar sozinho numa escola t\u00e9cnica em Viam\u00e3o, que \u00e9 perto de Porto Alegre. \u201cConseguiu entrar na universidade como engenheiro\u201d, afirma Leonel Brizola Neto. No Rio de Janeiro, ele implementou a ideia do antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro e criou os Centros Integrados de Educa\u00e7\u00e3o P\u00fablica (Ciep) para fazer valer a educa\u00e7\u00e3o integral.<\/p>\n<p><strong>Contra o \u201catraso\u201d<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m da educa\u00e7\u00e3o, outra marca de Brizola foi a defesa enf\u00e1tica da reforma agr\u00e1ria. \u201cEntendo que essa \u00e9 uma quest\u00e3o central para aquela esquerda trabalhista do in\u00edcio dos anos 60: o latif\u00fandio tinha que ser combatido. Voc\u00ea n\u00e3o consegue combater e superar o subdesenvolvimento se n\u00e3o superar a quest\u00e3o agr\u00e1ria\u201d, sublinha o historiador Adriano de Freixo. O pesquisador explica que, al\u00e9m da necessidade de se combater as press\u00f5es internacionais, seria necess\u00e1rio modernizar o capitalismo brasileiro, numa defesa de uma sociedade menos desigual. \u201cO latif\u00fandio seria uma das causas do atraso nacional\u201d.<\/p>\n<p>O soci\u00f3logo Yago Junho cr\u00ea que Brizola \u201cpagou um pre\u00e7o muito alto\u201d pelas ideias que defendia. \u201cO final da vida dele num ostracismo tem a ver com uma incompreens\u00e3o sobre o legado pol\u00edtico dele\u201d. Uma das acusa\u00e7\u00f5es dos opositores \u00e9 que teria havido uma pol\u00edtica ineficaz de seguran\u00e7a p\u00fablica e que a criminalidade aumentou. O resultado foi, segundo avalia, um final de vida no ostracismo.<\/p>\n<p><strong>Visibilidade<\/strong><br \/>\nNa defesa do legado do av\u00f4, Leonel, al\u00e9m do document\u00e1rio, quer dar mais visibilidade \u00e0s hist\u00f3rias do pol\u00edtico. \u201cA gente est\u00e1 agora em um outro processo para tentar digitalizar todos eles e jogar na internet para as pessoas olharem e pesquisarem\u201d.<\/p>\n<p>Leonel lembra n\u00e3o s\u00f3 do pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m do homem disciplinador que cobrava pontualidade, e que se divertia contando suas hist\u00f3rias nas festas de fam\u00edlia. \u201cLembro dele me ensinando a fazer or\u00e7amento dom\u00e9stico. E tamb\u00e9m plantando bananeira (ponta-cabe\u00e7a no ch\u00e3o) em casa. Ele era um homem muito forte\u201d, recorda o neto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O momento era de tens\u00e3o total. 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