{"id":331509,"date":"2024-06-25T15:43:58","date_gmt":"2024-06-25T18:43:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=331509"},"modified":"2024-06-25T15:43:58","modified_gmt":"2024-06-25T18:43:58","slug":"grupos-de-bumba-meu-boi-mapeados-em-projeto-especial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/grupos-de-bumba-meu-boi-mapeados-em-projeto-especial\/","title":{"rendered":"Grupos de bumba-meu-boi mapeados em projeto especial"},"content":{"rendered":"<p>Mapear as particularidades dos grupos de bumba-meu-boi em S\u00e3o Lu\u00eds, por meio de tecnologias digitais \u00e9 o objetivo do projeto Caminhos da Boiada. A iniciativa visa contribuir com a difus\u00e3o de uma parte dessa rica hist\u00f3ria, mostrando as localidades dos diferentes grupos. Alguns dos quais centen\u00e1rios, com os primeiros registros remetendo ao s\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Desenvolvido pelo Grupo de Estudos Culturais no Maranh\u00e3o (Gecult-MA), da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, o levantamento utiliza tecnologias digitais como o georreferenciamento para tra\u00e7ar mapeamento cultural das manifesta\u00e7\u00f5es, que podem ser visualizadas na p\u00e1gina do projeto.<\/p>\n<p>Segundo a coordenadora do projeto, a professora do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o da UFMA, Let\u00edcia Cardoso, a iniciativa come\u00e7ou em 2020, mas em raz\u00e3o da pandemia da covid-19, n\u00e3o foi poss\u00edvel realizar a pesquisa de campo para identificar in loco as sedes dos bois. Let\u00edcia disse \u00e0 Ag\u00eancia Brasil que um estudo preliminar, identificou muitas informa\u00e7\u00f5es inconsistentes, como endere\u00e7os errados e\/ou desatualizados, contatos que j\u00e1 n\u00e3o existiam mais, nomes de l\u00edderes errados.<\/p>\n<p>Essa etapa preliminar conseguiu identificar 76 grupos espalhados nos munic\u00edpios da grande S\u00e3o Lu\u00eds, que al\u00e9m da capital, inclui as cidades de S\u00e3o Jos\u00e9 de Ribamar, Pa\u00e7o do Lumiar e Raposa. Com esse material, foi criado um mapa impresso com a localiza\u00e7\u00e3o deles.<\/p>\n<p>\u201cEm 2023, fomos a campo e ampliamos o n\u00famero de grupos mapeados. Chegamos a 100 grupos. Ent\u00e3o, n\u00f3s fizemos essa segunda vers\u00e3o do mapa impresso e tamb\u00e9m lan\u00e7amos o site, que \u00e9 totalmente interativo. L\u00e1 voc\u00ea tem fotos, contatos, link para o Instagram, link para, via GPS, chegar \u00e0 sede dos grupos\u201d, informou.<\/p>\n<p>No site, os grupos de bumba-meu-boi est\u00e3o divididos em cinco sotaques, como s\u00e3o chamadas no Maranh\u00e3o as formas de tocar, dan\u00e7ar e se apresentar de cada um deles: matraca, baixada, cota de m\u00e3o, orquestra, zabumba e alternativo.<\/p>\n<p>\u201cNo site \u00e9 poss\u00edvel ter mais informa\u00e7\u00f5es sobre os sotaques, se quiser ouvir, conhecer um pouco, de cada um deles, sobre a equipe que realizou o projeto. Temos tamb\u00e9m uma pequena hist\u00f3ria do bumba-meu-boi, enfim, v\u00e1rias informa\u00e7\u00f5es relativas a esse patrim\u00f4nio imaterial brasileiro, que n\u00f3s consideramos, embora seja patrim\u00f4nio, ainda tem muito a ser feito nesse campo das pol\u00edticas p\u00fablicas, culturais, para valoriza\u00e7\u00e3o, fomento e divulga\u00e7\u00e3o\u201d, aponta Let\u00edcia.<\/p>\n<p>A professora e pesquisadora contou ainda que o projeto tamb\u00e9m se prop\u00f5e a contribuir para o fortalecimento da cadeia produtiva do bumba-meu-boi sendo uma oportunidade de expans\u00e3o dos saberes e pr\u00e1ticas tradicionais da manifesta\u00e7\u00e3o cultural em dimens\u00f5es midi\u00e1tica, econ\u00f4mica, tur\u00edstica e patrimonial.<\/p>\n<p>&#8220;Por isso nosso projeto tem esse objetivo, que \u00e9 fomentar a cadeia produtiva dos bumba-meu-boi por meio de estrat\u00e9gias de comunica\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o a gente est\u00e1 agindo principalmente na cadeia produtiva, na circula\u00e7\u00e3o dos grupos. Seja com sites, seja com os mapas, seja com a\u00e7\u00f5es, como semin\u00e1rios\u201d, disse.<\/p>\n<p>Segundo Let\u00edcia, em uma dessas cadeia, conseguiu reunir mais de 200 grupos de bumba-meu-boi, com os quais foram realizadas oficinas. \u201cEnt\u00e3o \u00e9 um projeto tamb\u00e9m propositivo. Fizemos carta de necessidades apontadas pelos boieiros (como s\u00e3o conhecidos os integrantes dos grupos), que foi entregue ao poder p\u00fablico, para as secretarias de Cultura e Turismo. Temos essa dimens\u00e3o do nosso projeto, que \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de roteiros tur\u00edsticos\u201d, relatou.<\/p>\n<p>A pesquisadora contou, tamb\u00e9m, que, em 2023, foi feito um diagn\u00f3stico sobre a estrutura, os barrac\u00f5es dos grupos, sua capacidade, o potencial de recep\u00e7\u00e3o de visitantes de alguns grupos. \u201cIdentificamos que alguns grupos j\u00e1 t\u00eam tudo pronto para receber visita tur\u00edstica, mas ainda n\u00e3o tem a forma\u00e7\u00e3o, a qualifica\u00e7\u00e3o. E a\u00ed, a partir desse diagn\u00f3stico, n\u00f3s escolhemos alguns grupos para criar um roteiro tur\u00edstico\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p><strong>Aplicativo<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m dessas iniciativas, o projeto est\u00e1 em fase final de testes de um aplicativo para dispositivos m\u00f3veis. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 estender o alcance dos grupos, utilizando a tecnologia.<\/p>\n<p>\u201cO aplicativo traz algumas funcionalidades a mais do que o site, como, por exemplo, venda de produtos dos pr\u00f3prios artes\u00e3os de bomba boi. Al\u00e9m disso, fica mais f\u00e1cil acessar a comunidade com o celular, porque a\u00ed voc\u00ea vai clicar no grupo e esse clique j\u00e1 te leva para a localidade, a sede do grupo de bumba-boi. \u00c9 uma forma de facilitar a identifica\u00e7\u00e3o dos grupos e n\u00f3s acreditamos que isso tamb\u00e9m vai aumentar a visita\u00e7\u00e3o, vai fomentar a circula\u00e7\u00e3o e a visibilidade deles\u201d, adiantou Let\u00edcia.<\/p>\n<p><strong>Sotaques<\/strong><br \/>\nNa p\u00e1gina dos projetos s\u00e3o descritos os diferentes sotaques dos grupos. O sotaque de matraca ou sotaque da Ilha, prov\u00e9m da regi\u00e3o de S\u00e3o Lu\u00eds. Tem como elementos r\u00edtmicos os pandeir\u00f5es (de couro ou nylon) e as matracas, pe\u00e7as de madeira que emitem som estridente. Fazem \u201carrast\u00e3o\u201d por onde passam por reunir muitos admiradores, que colaboram na percuss\u00e3o do batalh\u00e3o. Tem como destaque: caboclos-de-pena e rajados.<\/p>\n<p>O da baixada ou sotaque de Pindar\u00e9 (munic\u00edpio da Baixada Ocidental Maranhense), caracteriza-se pelo som cadenciado reunindo instrumentos percussivos como pandeiros, caixas, tambores-on\u00e7a, marac\u00e1s e pequenas matracas. O destaque do sotaque \u00e9 o Cazumba ou Cazumb\u00e1, personagem m\u00edstico com apar\u00eancia animalesca.<\/p>\n<p>O de costa-de-m\u00e3o origina-se no munic\u00edpio de Cururupu, no Litoral Ocidental Maranhense. Recebe essa denomina\u00e7\u00e3o pela forma como os pandeiros s\u00e3o tocados, com a costa da m\u00e3o. De ritmo lento, tamb\u00e9m usam os tambores-on\u00e7a, marac\u00e1s e pandeiros. Tem como destaques: vaqueiros campeadores e de cord\u00e3o, tapuias.<\/p>\n<p>O de zabumba ou sotaque de Guimar\u00e3es \u00e9 origin\u00e1rio do munic\u00edpio com o mesmo nome, localizado no Litoral Ocidental Maranhense. As zabumbas constituem grandes tambores cobertos em couro, tocados em ritmo acelerado, apoiados em forquilhas. Tamb\u00e9m s\u00e3o usados os pandeirinhos ou tamborinhos, esquentados no calor da fogueira, junto com as zabumbas. Como destaques: rajados, campeadores e tapuias.<\/p>\n<p>O de orquestra surgiu na regi\u00e3o do Rio Munim, em munic\u00edpios como Ros\u00e1rio, Icatu e Axix\u00e1. Com o ritmo acelerado e toadas mel\u00f3dicas, \u00e9 marcado pelos instrumentos de sopro e de corda, como saxofone, clarinete, flautas e banjos, que se misturam aos marac\u00e1s e tambores. Tem como destaques: \u00cdndias, \u00edndios e vaqueiros.<\/p>\n<p>J\u00e1 o sotaque alternativo \u00e9 utilizado para denominar grupos ligados a uma l\u00f3gica mais urbana, de cria\u00e7\u00e3o mais recente, autodeclarados alternativos por realizarem experimenta\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas inspiradas em outros formatos de bumba-meu-boi ou mesmo associados a outras din\u00e2micas culturais. Usam instrumentos de cordas, de sopro, al\u00e9m da percuss\u00e3o. Tem como destaques: bailarinos que encenam v\u00e1rios personagens.<\/p>\n<p><strong>Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial<\/strong><br \/>\nEm 2019, Complexo Cultural do Bumba Meu Boi do Maranh\u00e3o foi consagrado como Patrim\u00f4nio Cultural Imaterial da Humanidade pelo Comit\u00ea Intergovernamental para a Salvaguarda da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (Unesco).<\/p>\n<p>\u201cO bumba-meu-boi maranhense constitui um complexo cultural que compreende uma variedade de estilos, multiplicidade de grupos e, principalmente, porque estabelece uma rela\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca entre a f\u00e9, a festa e a arte, fundamentada na devo\u00e7\u00e3o aos santos juninos, nas cren\u00e7as em divindades de cultos de matriz africana e na cosmogonia e lendas da regi\u00e3o\u201d, disse a Unesco.<\/p>\n<p>A manifesta\u00e7\u00e3o cultural j\u00e1 era reconhecida, desde 2011, pelo governo brasileiro como patrim\u00f4nio cultural imaterial. Com reconhecimento, cabe ao poder p\u00fablico desenvolver a\u00e7\u00f5es de salvaguarda para fortalecer a autonomia dos grupos, promover mais a\u00e7\u00f5es de educa\u00e7\u00e3o patrimonial, realizar nova documenta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ampliar pesquisas e a valoriza\u00e7\u00e3o do bem cultural.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (IPHAN), os primeiros registros hist\u00f3ricos do bumba-meu-boi s\u00e3o datados de 1829, no Maranh\u00e3o, em uma pequena nota no jornal \u201cFarol Maranhense\u201d. A manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 citada, no Maranh\u00e3o em jornais e ocorr\u00eancias policiais datadas da d\u00e9cada de 20 \u00e0 d\u00e9cada de 90 daquele s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Let\u00edcia lembra que a hist\u00f3ria do bumba-meu-boi \u00e9 marcada pelo preconceito, estigmatiza\u00e7\u00e3o e o racismo. E que at\u00e9 meados do s\u00e9culo XX os grupos eram perseguidos e impedidos de se apresentarem na \u00e1rea central de S\u00e3o Lu\u00eds e que, mesmo diante de um cen\u00e1rio adversos, os grupos de bumba meu boi do Maranh\u00e3o conseguiram manter uma tradi\u00e7\u00e3o centen\u00e1ria que se renova, adapta, mantendo viva a mem\u00f3ria da cultura popular maranhense.<\/p>\n<p>Contudo ela avalia haver um descaso do poder p\u00fablico nas a\u00e7\u00f5es de salvaguarda do bumba-meu-boi e de outras manifesta\u00e7\u00f5es culturais como o tambor de crioula, o Lel\u00ea e outras dan\u00e7as. Ela aponta que as manifesta\u00e7\u00f5es est\u00e3o perdendo espa\u00e7o nas programa\u00e7\u00f5es dos arraiais promovidos pela prefeitura e pelo governo do estado, para apresenta\u00e7\u00f5es de artistas nacionais, de ritmos como sertanejo, funk, ax\u00e9, entre outros.<\/p>\n<p>\u201cColoca-se no mesmo espa\u00e7o o grupo cultural daqui, que dan\u00e7a dan\u00e7as populares tradicionais, para disputar aten\u00e7\u00e3o e p\u00fablico com artistas de fora que j\u00e1 t\u00eam um nome trabalhado midiaticamente. Essa retalia\u00e7\u00e3o ocorre dentro dos arraiais quando os grupos s\u00e3o chamados para se apresentar. S\u00e3o arraiais com v\u00e1rios palcos, sendo o palco principal para as atra\u00e7\u00f5es consideradas nacionais e um palco secund\u00e1rio para os grupos daqui. \u00c9 uma l\u00f3gica extremamente violenta, cruel, nociva para os grupos tradicionais de cultura\u201d, criticou. \u201cSe o evento milion\u00e1rio fosse colocado \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos artistas maranhenses, talvez isso seria visto de outra maneira\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>A historiadora, doutora em ci\u00eancias sociais e professora do Instituto Federal do Maranh\u00e3o (IFMA) Joelma Santos Silva tamb\u00e9m avalia que o poder p\u00fablico est\u00e1 sendo omisso no seu dever de salvaguarda as manifesta\u00e7\u00f5es culturais do Maranh\u00e3o. Segundo ela, al\u00e9m da disputa de espa\u00e7o com artistas de renome nacional, os grupos sofrem com a queda no n\u00famero de apresenta\u00e7\u00f5es, especialmente os oriundos do interior do estado dos sotaques de zabumba e costa-de-m\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que a gente tem visto nos depoimentos dos grupos \u00e9 que as pol\u00edticas culturais para promo\u00e7\u00e3o, para manuten\u00e7\u00e3o desses grupos, elas n\u00e3o t\u00eam acontecido. Um amo de um grupo de costa-de-m\u00e3o publicou em uma rede social um pedido ao secret\u00e1rio de cultura para que olhe para os bois de costa-de-m\u00e3o porque esse ano eles n\u00e3o tiveram dinheiro para comprar sapatilha para as dan\u00e7arinas, eles n\u00e3o conseguiram fazer o couro do boi porque eles n\u00e3o tiveram dinheiro para fazer\u201d, relatou.<\/p>\n<p>Ainda segundo a historiadora, o pano de fundo n\u00e3o \u00e9 a apresenta\u00e7\u00e3o de artistas de renome nacional, que vem se consolidando h\u00e1 alguns anos. Mas o apagamento da presen\u00e7a dos grupos na programa\u00e7\u00e3o oficial do S\u00e3o Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cO que a gente tem de retorno dos grupos, \u00e9 que eles est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de extrema fragilidade, tem grupos que n\u00e3o conseguiram sair esse ano porque ano passado n\u00e3o dan\u00e7aram e os grupos precisam do cach\u00ea para comprar indument\u00e1ria, para comprar material para sair no ano seguinte\u201d, afirmou. \u201cNa pr\u00e1tica o que o governo est\u00e1 cometendo \u00e9 um processo n\u00e3o s\u00f3 de apagamento da cultura popular do Maranh\u00e3o, mas de exterm\u00ednio dos grupos de boi, dos grupos da cultura popular e principalmente dos grupos do interior do estado. Esses grupos n\u00e3o t\u00eam chance dentro da programa\u00e7\u00e3o do governo do estado\u201d, criticou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mapear as particularidades dos grupos de bumba-meu-boi em S\u00e3o Lu\u00eds, por meio de tecnologias digitais \u00e9 o objetivo do projeto Caminhos da Boiada. A iniciativa visa contribuir com a difus\u00e3o de uma parte dessa rica hist\u00f3ria, mostrando as localidades dos diferentes grupos. Alguns dos quais centen\u00e1rios, com os primeiros registros remetendo ao s\u00e9culo 19. 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