{"id":331693,"date":"2024-06-28T10:14:56","date_gmt":"2024-06-28T13:14:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=331693"},"modified":"2024-06-28T19:13:50","modified_gmt":"2024-06-28T22:13:50","slug":"quarto-poder-imprensa-tem-a-obrigacao-de-ser-isenta-sem-usar-magoas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quarto-poder-imprensa-tem-a-obrigacao-de-ser-isenta-sem-usar-magoas\/","title":{"rendered":"Quarto poder, imprensa tem a obriga\u00e7\u00e3o de ser isenta, sem usar m\u00e1goas"},"content":{"rendered":"<p>Meados de janeiro de 2023. A manh\u00e3 corria tranquila na reda\u00e7\u00e3o de <strong>Notibras<\/strong>. Os primeiros raios de sol atravessavam as grandes janelas, iluminando as mesas desorganizadas e os rostos concentrados dos jornalistas de nossa equipe. L\u00e1 estava este rep\u00f3rter, veterano na profiss\u00e3o, de integridade e \u00e9tica inabal\u00e1veis ao longo de mais de 50 anos. Minha pr\u00e9-escola no jornalismo foi no <em>Correio Braziliense<\/em>; a gradua\u00e7\u00e3o veio logo depois, na sucursal Bras\u00edlia da <em>Folha de S.Paulo<\/em>. Sempre fui dos que acreditam que a verdade \u00e9 o alicerce do jornalismo e que qualquer desvio desse caminho soa como uma trai\u00e7\u00e3o na correta transmiss\u00e3o da not\u00edcia.<\/p>\n<p>Naquela manh\u00e3, por\u00e9m, algo diferente pairava no ar. Eu, geralmente um dos primeiros a chegar, estava sentado em minha mesa com uma express\u00e3o sombria, olhos fixos no monitor do computador. Na tela, o artigo publicado no dia anterior. Um texto que, agora percebia, continha um erro grave.<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria, sobre a ent\u00e3o governadora em exerc\u00edcio Celina Le\u00e3o, acusava a vice de Ibaneis Rocha de manipular o tabuleiro pol\u00edtico para assumir as r\u00e9deas do poder, quando a \u00e1rea da Seguran\u00e7a P\u00fablica da capital da Rep\u00fablica estava sob interven\u00e7\u00e3o federal, fruto do frustrado golpe do dia 8 daquele m\u00eas. A not\u00edcia, equivocada, causou um alvoro\u00e7o na cidade.<\/p>\n<p>As acusa\u00e7\u00f5es, baseadas em informa\u00e7\u00f5es de uma fonte que considerava confi\u00e1vel, pareciam irrefut\u00e1veis. No entanto, durante a noite, uma nova evid\u00eancia surgiu, provando que as acusa\u00e7\u00f5es eram infundadas. A fonte havia se enganado; na pressa de publicar a not\u00edcia, n\u00e3o verifiquei os fatos como deveria. Deixei &#8211; um erro prim\u00e1rio do exerc\u00edcio da profiss\u00e3o &#8211; de ouvir a pr\u00f3pria Celina Le\u00e3o.<\/p>\n<p>Sentado em minha cadeira, senti o peso da responsabilidade. Sabia que havia falhado em meu dever. Cada palavra escrita carregava o poder de moldar opini\u00f5es, de influenciar vidas. E, nesse caso, eu havia ferido injustamente a reputa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Levantei-me com determina\u00e7\u00e3o e reuni a equipe sob meu comando. Olhares curiosos me cercavam sob todos os \u00e2ngulos. Sem hesitar, expliquei a situa\u00e7\u00e3o, detalhando o erro e assumindo total responsabilidade. Discuti com meus colegas uma retrata\u00e7\u00e3o. Ouvi, por\u00e9m, que a governadora em exerc\u00edcio havia ingressado com uma a\u00e7\u00e3o na justi\u00e7a para condenar-me por danos e perdas morais. Considerei, ent\u00e3o, que se a retrata\u00e7\u00e3o fosse publicada imediatamente, poderia ser interpretada como uma chantagem emocional, para que Celina supostamente recuasse de sua decis\u00e3o. Mais dia menos dia, eu tinha certeza, a condena\u00e7\u00e3o viria. Mesmo porque &#8211; eu tinha consci\u00eancia disso -, havia extrapolado a \u00e9tica jornal\u00edstica.<\/p>\n<p>Meus colegas, cientes da minha honestidade, concordaram. No momento oportuno &#8211; como agora &#8211; a hora da retrata\u00e7\u00e3o chegaria. Escrevi e reescrevi este texto ao longo dos \u00faltimos 16 meses. Chegou o dia de public\u00e1-lo. Redigi com suspiros de al\u00edvio, com a mesma paix\u00e3o e cuidado que dedico a todas as minhas mat\u00e9rias. Mas, desta vez, com um toque de humildade e arrependimento.<\/p>\n<p>Minhas desculpas a Celina Le\u00e3o aparecem como manchete de <strong>Notibras<\/strong>. A C\u00e9sar o que \u00e9 de C\u00e9sar. Se dei destaque para acusar, nada mais justo do que destacar o pedido de desculpas. Errar \u00e9 humano. Falhei. Mas insistir no erro, \u00e9 burrice.<\/p>\n<p>Essas palavras n\u00e3o s\u00e3o dirigidas apenas \u00e0 vice-governadora, mas tamb\u00e9m a nossos leitores. N\u00e3o tento, n\u00e3o pretendo, justificar nada. Apenas garantir que meus esfor\u00e7os ser\u00e3o redobrados para assegurar a precis\u00e3o de futuros textos, mesmo tendo me dedicado desde fevereiro \u00faltimo, quando assumi a dire\u00e7\u00e3o da Sucursal Nordeste de <strong>Notibras<\/strong>, a redigir cr\u00f4nicas quase di\u00e1rias.<\/p>\n<p>Tenho consci\u00eancia de que naquele fat\u00eddico janeiro, atravessei a\u00e7odadamente o Rubic\u00e3o. Mas hoje, em Itapuama, no litoral pernambucano, mantenho um para\u00edso particular. Aguardei que este dia chegasse com uma caixinha de Kleenex no bolso. N\u00e3o me falta coragem para admitir publicamente que errei. Como desabafei com um amigo, j\u00e1 estou vencendo o limite da terceira idade. Aprendi mais uma li\u00e7\u00e3o. Jornalismo \u00e9 quarto poder, mas n\u00e3o \u00e9 dono da verdade.<\/p>\n<p><strong>Notibras<\/strong> fecha este m\u00eas de junho comemorando seu Jubileu de Prata. Serve como lembrete de que a integridade n\u00e3o est\u00e1 apenas em evitar erros, mas tamb\u00e9m em saber corrigi-los com honestidade e transpar\u00eancia. A busca pela conquista da confian\u00e7a \u00e9 cont\u00ednua. A \u00e9tica de um jornalista est\u00e1 no reconhecimento da falha e redimir-se. A isso se chama dignidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meados de janeiro de 2023. A manh\u00e3 corria tranquila na reda\u00e7\u00e3o de Notibras. Os primeiros raios de sol atravessavam as grandes janelas, iluminando as mesas desorganizadas e os rostos concentrados dos jornalistas de nossa equipe. 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