{"id":332617,"date":"2024-07-15T00:53:36","date_gmt":"2024-07-15T03:53:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=332617"},"modified":"2024-07-15T01:12:01","modified_gmt":"2024-07-15T04:12:01","slug":"nothura-minor-teve-muita-gloria-em-seu-tempo-de-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/nothura-minor-teve-muita-gloria-em-seu-tempo-de-vida\/","title":{"rendered":"Nothura Minor teve muita gl\u00f3ria em seu tempo de vida"},"content":{"rendered":"<p>Custei a lembrar a raz\u00e3o por que tinha ido ao centro da cidade naquele dia. Mas, como uma mem\u00f3ria de computador onde a pesquisa fica rodando, rodando, at\u00e9 chegar ao resultado esperado, a lembran\u00e7a me ocorreu: foi tudo por causa da torneira el\u00e9trica da cozinha. Claro! Quem mora numa cidade fria sabe a diferen\u00e7a que faz lavar a lou\u00e7a do jantar com uma aguinha quente. A torneira el\u00e9trica havia dado defeito e, naquele dia, minha mulher quase me amea\u00e7ara de div\u00f3rcio caso eu n\u00e3o conseguisse consertar o problema a tempo de ela voltar do trabalho.<\/p>\n<p>N\u00e3o que a tarefa de lavar a lou\u00e7a pesasse inteira sobre ela \u2013 n\u00f3s divid\u00edamos a fun\u00e7\u00e3o e posso dizer, com certeza, que na maioria das vezes era eu que assumia a pia da cozinha ap\u00f3s prepararmos as refei\u00e7\u00f5es. Mas \u00e9 que ela tamb\u00e9m fazia alguma parte daquilo e a \u00e1gua quente era, portanto, fundamental. Ela detestava \u00e1gua fria.<\/p>\n<p>Enfim, sa\u00ed em demanda de uma resist\u00eancia el\u00e9trica para a torneira. Meu filho, ent\u00e3o com uns 4 anos, curtindo suas f\u00e9rias de julho, foi comigo. L\u00e1 \u00edamos n\u00f3s, pelo frio da tarde, para a \u00e1rea de variado com\u00e9rcio local. Achar a loja que vendia as resist\u00eancias foi extremamente f\u00e1cil. Estando nela, bastou fornecer ao balconista a marca da torneira e, rapidamente, ele identificou a pe\u00e7a nas prateleiras atr\u00e1s de si. Ainda disse que, se precisasse, ali mesmo tinham um servi\u00e7o de troca e de teste das torneiras el\u00e9tricas. Mas meu orgulho de dono-de-casa envolvia eu mesmo fazer o servi\u00e7o. Fechar o registro da cozinha, tirar a torneira do lugar, trocar a resist\u00eancia e instalar tudo de novo a contento.<\/p>\n<p>Paguei o pre\u00e7o pedido e sa\u00ed da loja, meu filho pela m\u00e3o, para o caminho de retorno. Passando em frente a uma loja de animais, n\u00f3s dois, ao mesmo tempo, tivemos nossa aten\u00e7\u00e3o despertada para o quadro que se divisava: dentre v\u00e1rias aves em suas diminutas gaiolas \u2013 periquitos, calopsitas e at\u00e9 pintinhos \u2013 vimos uma pequena codorninha. Uma codorninha triste, encolhida de frio, marrom, manchadinha de branco, l\u00e1 no fundo de um compartimento de gaiola, como a pensar nas suas irm\u00e3s desaparecidas.<\/p>\n<p>Meu filho e eu ignoramos as aves mais belas e almejadas e nos concentr\u00e1vamos na pobre codorna. Dirigi-me ao rapaz que atendia na loja e perguntei:<\/p>\n<p>&#8211; Mo\u00e7o, onde est\u00e3o as outras codornas? Por que ela est\u00e1 sozinha?<\/p>\n<p>&#8211; Foram vendidas. Codorna tem muita sa\u00edda.<\/p>\n<p>&#8211; E essa ficou?<\/p>\n<p>&#8211; Ficou! \u00c9 a \u00faltima. S\u00f3 chega mais na ter\u00e7a-feira que vem. O senhor quer levar?<\/p>\n<p>Por um instante, fui chamado de volta \u00e0 raz\u00e3o. Por que raios eu levaria esse bicho para casa? Gost\u00e1vamos de viajar sempre que havia chance. Uma ave t\u00e3o delicada exigiria cuidados.<\/p>\n<p>&#8211; Quanto \u00e9?, perguntei.<\/p>\n<p>&#8211; Cinco reais.<\/p>\n<p>Meu filho me olhou com seus olhinhos implorantes, no que foi respondido pela minha ternura, por ele e pelo indefeso bichinho. Eu era, naquele instante, a m\u00e3o de Deus, que podia salvar a vida da codorna ou deix\u00e1-la \u00e0 merc\u00ea de um destino desconhecido e cruel. Por apenas cinco m\u00edseros reais, podia fazer com que a codorninha vivesse o resto de sua vida natural em santa tranquilidade, alimentada, aquecida e acarinhada.<\/p>\n<p>O que minha mulher iria dizer quando nos visse trazendo pelas m\u00e3os uma resist\u00eancia de torneria e uma codorna?<\/p>\n<p>Preferi crer que a divindade escreve o certo pelas linhas tortas e, pensando na vida da pequena ave, comprei-a. E o rapaz da loja a entregou numa caixinha de papel\u00e3o com furos. Comprei tamb\u00e9m, na mesma loja, alguns gramas de comida pr\u00f3pria para ela, uma ra\u00e7\u00e3o que se podia dar molhada. E milho picado, conhecido como canjiquinha.<\/p>\n<p>Voltamos felizes para casa e, l\u00e1 chegando, a festa foi t\u00e3o grande pelo bichinho que at\u00e9 esquecemos a quest\u00e3o da torneira.<\/p>\n<p>Minha mulher logo simpatizou com ela, meu filho sugeriu que lhe d\u00e9ssemos o nome de Joana. E Joana ficou, embora eu n\u00e3o soubesse bem se ela era f\u00eamea ou macho. Colocamos at\u00e9 sobrenome, inspirado em seu nome cient\u00edfico descoberto num livro de ci\u00eancias: Nothura minor tinamiforme.<\/p>\n<p>Depois me esclareceram que era, certamente, f\u00eamea, porque raramente se vendem os machos. Muitos compram esses bichinhos para raz\u00f5es culin\u00e1rias. Inclusive pelo ovo.<\/p>\n<p>E o g\u00eanero de Joana foi confirmado quando, numa manh\u00e3, achamos dentro de sua gaiolinha um ovo, desses coloridos, que ela havia posto.<\/p>\n<p>Ela passava o dia em um viveiro grande, no quintal, onde ciscava \u00e0 vontade, tomava sol e balan\u00e7ava suas asinhas. Tomava banho numa tigela de cer\u00e2mica e, aparentemente, era muito feliz. Vez ou outra emitia um piozinho discreto e met\u00e1lico.<\/p>\n<p>\u00c0 noite, buscando p\u00f4-la a salvo do ataque de algum gamb\u00e1, eu a guardava em uma gaiolinha menor e a levava para dentro de casa onde, num canto quentinho do quarto, ela dormia tranquilamente at\u00e9 que o dia come\u00e7asse a nascer, quando ouv\u00edamos o inconfund\u00edvel ru\u00eddo de ela ciscando no fundo da gaiola guarnecido de jornal dobrado.<\/p>\n<p>No dia em que Rose, nossa diarista, foi trabalhar, achou muito engra\u00e7ado que houv\u00e9ssemos comprado uma codorna. Com aquele vozeir\u00e3o dela, sempre com um sorriso no rosto, disse:<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 mesmo voc\u00eas&#8230; Mas \u00e9 pra criar, ou \u00e9 pra comer? Isso a\u00ed recheado com farofa \u00e9 uma del\u00edcia!<\/p>\n<p>Claro que o destino de Joana Nothura Minor Tinamiforme j\u00e1 estava tra\u00e7ado. N\u00e3o era, certamente, o forno. Era a gl\u00f3ria. Gl\u00f3ria almejada, mas pouco alcan\u00e7ada, pela maioria das codornas que n\u00e3o estivessem conformadas com a dura e triste rotina c\u00edclica de colocar ovos para se comer em conserva.<\/p>\n<p>Joana ia vivendo sua vidinha, imaculada, cheia de ternuras. Meu filho a colocava na m\u00e3o e ela se encolhia, como a entender o carinho.<\/p>\n<p>O tempo passou e ela foi ficando mais gordinha.<\/p>\n<p>Fiquei pensando&#8230; Caso ela pudesse filosofar sobre sua pr\u00f3pria vida, veria nela uma sorte aben\u00e7oada ou uma inutilidade total? Seria ela uma codorna feliz ou uma forma esf\u00e9rica de manchada inutilidade?<\/p>\n<p>Nunca saberemos.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que seguimos juntos por aquelas f\u00e9rias de inverno, at\u00e9 vir novamente o per\u00edodo de aulas, sucedido por novas f\u00e9rias, agora de ver\u00e3o, e Joana sempre bem cuidada e alimentada.<\/p>\n<p>Um dia, fiz-lhe um poema. Jamais soube que outro poeta houvesse dedicado versos a uma codorna.<\/p>\n<p>Viveu assim por aproximadamente dois anos quando, desanimada, morreu num fim de tarde, cumprindo seu ciclo natural de vida.<\/p>\n<p>Tenho ainda uns ovinhos dela, guardados imaculados dentro de uma ta\u00e7a, na cristaleira de nossa sala.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Custei a lembrar a raz\u00e3o por que tinha ido ao centro da cidade naquele dia. Mas, como uma mem\u00f3ria de computador onde a pesquisa fica rodando, rodando, at\u00e9 chegar ao resultado esperado, a lembran\u00e7a me ocorreu: foi tudo por causa da torneira el\u00e9trica da cozinha. Claro! Quem mora numa cidade fria sabe a diferen\u00e7a que [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":332618,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[161],"tags":[],"class_list":["post-332617","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-quadradinho-em-foco"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/332617","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=332617"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/332617\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":332624,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/332617\/revisions\/332624"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/332618"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=332617"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=332617"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=332617"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}