{"id":332869,"date":"2024-07-20T09:22:30","date_gmt":"2024-07-20T12:22:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=332869"},"modified":"2024-07-21T13:36:46","modified_gmt":"2024-07-21T16:36:46","slug":"velho-casarao-inspira-os-causos-do-tio-isidorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/velho-casarao-inspira-os-causos-do-tio-isidorio\/","title":{"rendered":"Velho casar\u00e3o inspira os causos do tio Isid\u00f3rio"},"content":{"rendered":"<p>Minha inf\u00e2ncia foi maravilhosa. Foi mesmo! Durante os tempos de aula, era na cidade. Mas bastava chegar as f\u00e9rias, corria para a liberdade da ro\u00e7a, l\u00e1 na fazenda dos pais da minha m\u00e3e. Vov\u00f3 Jurema e vov\u00f4 Hor\u00e1cio. Eita, que saudade!<\/p>\n<p>O casar\u00e3o era enorme, cheio de quartos, tanto espa\u00e7o, que eu, meus irm\u00e3os e primos nos perd\u00edamos. Ao redor tinha de tudo: curral, galinheiro, chiqueiro, um terreno sem fim, o rio l\u00e1 embaixo. Minha av\u00f3, apesar de amorosa, nos tratava com certo rigor.<\/p>\n<p>\u2014 Primeiro, as obriga\u00e7\u00f5es; depois, a devo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E ai de quem risse durante o ter\u00e7o. Era aquela lapada de vara de marmelo no traseiro. Meu primo Antero, esperto que nem ele s\u00f3, colocava capim dentro da cal\u00e7a para amortecer as pancadas.<\/p>\n<p>A despeito desse modo de educar, vov\u00f3 Jurema sabia que precis\u00e1vamos correr livres para gastar energia de crian\u00e7a. No entanto, ela tamb\u00e9m era especialista na hora de atrair todos os netos quando chegava a hora da fome. Bastava abrir a janela da cozinha para que o cheiro do almo\u00e7o chegasse a todos n\u00f3s. Era uma correria s\u00f3.<\/p>\n<p>\u2014 V\u00e3o lavar as m\u00e3os, que n\u00e3o quero menino lamb\u00e3o na minha mesa.<\/p>\n<p>Tio Isid\u00f3rio, que morava a uns quinhentos metros da casa dos meus av\u00f3s, era contador de causos. Por isso, logo ap\u00f3s o jantar, que sempre acontecia \u00e0s 17h, quando a luz do dia ainda fazia sala, caminh\u00e1vamos at\u00e9 a casa do nosso parente. Sa\u00edamos logo ap\u00f3s comermos e \u00edamos em fila indiana por uma trilha, com o capim alto dos lados.<\/p>\n<p>Quando cheg\u00e1vamos, meu tio dava um peda\u00e7o de rapadura para cada um de n\u00f3s. Em seguida, desandava a contar os causos. N\u00e3o sei se era de prop\u00f3sito, mas quase sempre eram hist\u00f3rias de assombra\u00e7\u00e3o, que ele jurava ter acontecido por aquelas bandas. Lembro bem que todos nos entreolh\u00e1vamos assustados, mas n\u00e3o perd\u00edamos nenhuma palavra sequer. Ansi\u00e1vamos pelo final, que sempre era apavorante.<\/p>\n<p>Depois de tio Isid\u00f3rio terminar, precis\u00e1vamos retornar para o casar\u00e3o dos meus av\u00f3s. O problema \u00e9 que a escurid\u00e3o j\u00e1 havia tomado o lugar. De t\u00e3o densa, que nem lua cheia era suficiente para iluminar o caminho de volta. Por conta disso, ningu\u00e9m queria ser o primeiro nem o \u00faltimo da fila. Tir\u00e1vamos a sorte e, depois, corr\u00edamos tanto, que tenho a impress\u00e3o de que nem toc\u00e1vamos no ch\u00e3o, parece que levit\u00e1vamos. Vov\u00f3, assim que entr\u00e1vamos correndo na casa, ralhava.<\/p>\n<p>\u2014 Que \u00e9 isso? T\u00e3o malucos? At\u00e9 parece que viram alma penada.<\/p>\n<p>Mergulh\u00e1vamos na cama, cobr\u00edamos a cabe\u00e7a e os p\u00e9s. Fic\u00e1vamos conversando por um tempo, at\u00e9 que um a um adormecia. Ningu\u00e9m queria ser o \u00faltimo a dormir, como se os fantasmas soubessem quem ainda estava acordado.<\/p>\n<p>No dia seguinte, com a claridade de volta, parecia que todos hav\u00edamos esquecido do medo que sentimos na noite anterior. Os dias corriam ligeiros que nem cavalo desembestado, at\u00e9 que \u00edamos para a casa do tio Isid\u00f3rio. Quanto ao medo, s\u00f3 lembr\u00e1vamos quando v\u00edamos o breu l\u00e1 fora.<\/p>\n<p><strong>*Eduardo Mart\u00ednez \u00e9 autor do livro \u201c57 Contos e Cr\u00f4nicas por um Autor muito Velho\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>Compre aqui\u00a0<span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><span class=\"x19la9d6 x1fc57z9 x6ikm8r x10wlt62 x19co3pv x1g5zs5t xfibh0p xiy17q3 x1xsqp64 x1lkfr7t xexx8yu x4uap5 x18d9i69 xkhd6sd\"><span class=\"xrtxmta x1bhl96m\"><img decoding=\"async\" class=\"emoji\" role=\"img\" draggable=\"false\" src=\"https:\/\/s.w.org\/images\/core\/emoji\/14.0.0\/svg\/1f447-1f3ff.svg\" alt=\"&#x1f447;&#x1f3ff;\" \/><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho\">http:\/\/www.joanineditora.com.br\/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minha inf\u00e2ncia foi maravilhosa. 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