{"id":333798,"date":"2024-08-03T00:41:41","date_gmt":"2024-08-03T03:41:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=333798"},"modified":"2024-08-03T10:46:52","modified_gmt":"2024-08-03T13:46:52","slug":"rearranjo-global-e-novos-desafios-deixam-a-esquerda-no-vacuo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rearranjo-global-e-novos-desafios-deixam-a-esquerda-no-vacuo\/","title":{"rendered":"Rearranjo global e novos desafios deixam a esquerda no v\u00e1cuo"},"content":{"rendered":"<p>Fervorosos e testados defensores da democracia, por si, n\u00e3o devemos nos iludir quanto aos limites do processo eleitoral, cuja observ\u00e2ncia \u00e9 a conditio sine qua non do governo leg\u00edtimo, independentemente do que seja ele, fa\u00e7a ou deixe de fazer. Ainda que promova a guerra, como os governos estadunidenses, todos origin\u00e1rios de processos eleitorais, ainda que muitos eivados de fraude (de que \u00e9 acusada, por exemplo, a elei\u00e7\u00e3o do Bush filho em 2000). A contar do fim da segunda guerra mundial (para n\u00e3o ir muito longe), todos os presidentes dos EUA, com a poss\u00edvel exce\u00e7\u00e3o de Jimmy Carter, podem ser qualificados de genocidas, como hoje o governo sionista de Israel, sustentado pol\u00edtica, financeira e militarmente pelo Grande Irm\u00e3o, cujo governo, por seu turno, \u00e9 condicionado pelo complexo industrial-militar que o general e presidente Dwight Eisenhower denunciou no ato de transfer\u00eancia do cargo a John F. Kennedy. E assim se abre o fil\u00e3o de explica\u00e7\u00f5es por que o gigante do norte est\u00e1 em guerra ininterrupta em quase todo o planeta, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Talvez explique sua beliger\u00e2ncia no mundo, e talvez explique a viol\u00eancia dom\u00e9stica.<\/p>\n<p>O fundamental, at\u00e9 aqui, diz o cantoch\u00e3o liberal, que tanto vem encantando a opini\u00e3o p\u00fablica mundial e setores menos informados da esquerda, \u00e9 que os pr\u00edncipes tenham sido ungidos por elei\u00e7\u00f5es \u2013 como, conv\u00e9m lembrar, foram Benito Mussolini e Adolf Hitler, al\u00e9m de Ariel Sharon e Benjamin Netanyahu. E pode voltar a ser Donald Trump, um racista condenado por estupro.<\/p>\n<p>Mas nenhuma regra \u00e9 absoluta na pol\u00edtica. A elei\u00e7\u00e3o pode ser leg\u00edtima, mas ser\u00e1 inaceit\u00e1vel na ocorr\u00eancia de variadas hip\u00f3teses: quando amea\u00e7a ou possa amea\u00e7ar a ordem capitalista ou a hegemonia pol\u00edtico-militar-ideol\u00f3gica norte-americana, segundo a lente da CIA e do Departamento de Estado. Alguns poucos exemplos em cat\u00e1logo que n\u00e3o cessa de crescer: a Casa Branca planejou e ajudou a operar o golpe militar de 1964, no curso de cuja viol\u00eancia dep\u00f4s Jo\u00e3o Goulart, presidente leg\u00edtimo, instaurou e sustentou por 21 anos uma ditadura militar que prendeu, exilou, torturou e matou um n\u00famero ainda desconhecido de brasileiros. Durante todos esses anos as nomea\u00e7\u00f5es dos generais-presidentes brasileiros foram consideradas elei\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas. Nenhuma conheceu a m\u00ednima contesta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se via a usurpa\u00e7\u00e3o da soberania popular como uma fraude, desqualificando o sistema. Em 1965, os marines invadiram a pequena Rep\u00fablica Dominicana para impedir a posse de Juan Bosch, o primeiro presidente democraticamente eleito ap\u00f3s a longa ditadura de Rafael Trujillo. A CIA carimbara Bosch como comunista. A interven\u00e7\u00e3o deixou como heran\u00e7a uma guerra civil e a sequ\u00eancia de governos autorit\u00e1rios, que s\u00f3 cessa em 1978.<\/p>\n<p>Mas a viol\u00eancia paradigm\u00e1tica seria registrada em 1965, com a deposi\u00e7\u00e3o do presidente chileno Salvador Allende, este sim intentando alterar o statu quo pela via leg\u00edtima das elei\u00e7\u00f5es. A utopia da democracia socialista foi substitu\u00edda pela ditadura luciferina do general Augusto Pinochet, respons\u00e1vel por um n\u00famero ainda desconhecido de presos e torturados (brasileiros inclusive) e um m\u00ednimo de tr\u00eas mil mortos.)<\/p>\n<p>O sistema pol\u00edtico-eleitoral do Ocidente, inclusive nos EUA, sua matriz material e ideol\u00f3gica, foi engendrado para que, havendo elei\u00e7\u00f5es, trocando-se governantes, mesmo de partidos distintos e aparentemente antag\u00f4nicos, tudo continuasse como dantes no Castelo de Abrantes. Mudan\u00e7as, t\u00e3o somente as perfunct\u00f3rias, aquelas que de vez em quando se fazem taticamente necess\u00e1rias, para que tudo continue como est\u00e1. \u00c9 recorrente a senten\u00e7a de Tancredi no di\u00e1logo engendrado por Giuseppe Lampedusa, em texto liter\u00e1rio que nas m\u00e3os de governantes se converteu em manual da ci\u00eancia de bem gerir o poder para nele manter-se.<\/p>\n<p>Assim s\u00e3o as elei\u00e7\u00f5es nos EUA, nas quais quase tudo pode acontecer (inclusive atentados e assassinatos), contanto que o presidente eleito seja oriundo de um dos dois partidos hegem\u00f4nicos, destinados pelos pais da p\u00e1tria a conduzir o pa\u00eds. Esses dois, e s\u00f3 eles, e entre eles nenhuma personalidade heterodoxa. Para tal n\u00e3o importa que a primeira disputa se fa\u00e7a na busca de doa\u00e7\u00f5es do grande capital, reduzindo em muito o poder do voto, carente de autonomia em face da manipula\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica facilitada pela movimenta\u00e7\u00e3o de grandes recursos. E pouco importa que o resultado final n\u00e3o se conecte com a soberania popular, pois pode chegar \u00e0 presid\u00eancia o candidato que obteve o menor n\u00famero de votos, como ocorreu recentemente com as elei\u00e7\u00f5es de Bush filho e de Trump, irm\u00e3os no reacionarismo. O essencial \u00e9 que o presidente, l\u00e1, aqui e at\u00e9 onde chegue a sombra da Pax Americana, seja um quadro do sistema para que, havendo troca de bast\u00e3o, n\u00e3o haja mudan\u00e7a de governo, e assim a classe dominante tenha assegurada sua hegemonia.<\/p>\n<p>Embora a maior parte dos norte-americanos apoie a taxa\u00e7\u00e3o dos bilion\u00e1rios, nenhum candidato democrata ou republicano \u00e0 Casa Branca abra\u00e7a a ideia, dependentes (e procuradores) que s\u00e3o dos grandes doadores. Embora a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho atinja milh\u00f5es de cidad\u00e3os daquele pa\u00eds, projetos que regulamentem o trabalho intermitente, garantindo direitos m\u00ednimos, sequer s\u00e3o pautados no Congresso.<\/p>\n<p>\u00c9 esta a democracia representativa que se espalha, cada vez mais independente da soberania popular. \u00c9 esta a cartilha a que somos constrangidos a nos adaptar. A simbologia do Estado pode ficar nas m\u00e3os de um presidente sem poder, como por exemplo o presidente da Alemanha, que ningu\u00e9m sabe quem \u00e9, transferida seja a gest\u00e3o do governo para autarquias poderosas desvinculadas do processo eleitoral, como entre n\u00f3s o Banco Central, cujo poder a Faria Lima busca aumentar, como s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es internacionais, como o Banco Mundial e a OTAN, que, sob o mando de Washington, gerencia o poder de guerra da Europa.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o mundo que o neoliberalismo est\u00e1 construindo, ao lado da guerra \u2013 j\u00e1 acesa em quase todos os continentes, e que, a partir da Venezuela, pode chegar at\u00e9 n\u00f3s, quando os embargos se tornarem insuficientes para manter a primazia dos interesses do imp\u00e9rio sobre os interesses nacionais.<\/p>\n<p>A guerra j\u00e1 est\u00e1 na Europa e no Oriente M\u00e9dio e, se depender do sionismo e da beliger\u00e2ncia da Uni\u00e3o Europeia, tende a alastrar-se. J\u00e1 chegou ao L\u00edbano e ao Ir\u00e3. Se depender dos falc\u00f5es da Uni\u00e3o Europeia, \u00e9 incontorn\u00e1vel o ataque \u00e0 R\u00fassia. Todos os pa\u00edses europeus est\u00e3o investindo na produ\u00e7\u00e3o de armas. A ind\u00fastria europeia, a alem\u00e3 \u00e0 frente, est\u00e1 exultante com as encomendas.<\/p>\n<p>O que ocorre na Venezuela, pa\u00eds com o qual dividimos extensa fronteira, que pode ser considerada a entrada da Amaz\u00f4nia, deve ser analisado considerando esse quadro. Como observa o professor Manuel Domingos Neto, se elei\u00e7\u00f5es pudessem mudar a ordem pol\u00edtica, n\u00e3o haveria elei\u00e7\u00f5es. Em face da crise venezuelana \u2013 por que, estranhos em face dela, queremos ditar o que ela deve ser ? \u2013 pensamos e constru\u00edmos nossa opini\u00e3o a partir da apar\u00eancia da realidade, manipulada pela unilateralidade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 monop\u00f3lio na constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica a servi\u00e7o da classe dominante \u2013, sem contar com qualquer resist\u00eancia significativa, porque a esquerda, seus partidos e o nosso governo renunciaram ao seu dever hist\u00f3rico de travar a luta ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Na quest\u00e3o internacional, onde o lulismo tem primado pelo acerto, o governo pode estar cavando seu pr\u00f3prio isolamento, na medida em que evita discutir sua pol\u00edtica com a na\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, neste ponto, suas reservas s\u00e3o bem maiores, posto que nenhuma discuss\u00e3o pol\u00edtica promove e, assim, a cidadania se v\u00ea na conting\u00eancia pol\u00edtica de defender um governo cujo programa n\u00e3o \u00e9 enunciado, ap\u00f3s um ano e meio de mandato. Esse programa \u2013 algo al\u00e9m de uma antologa de iniciativas isoladas \u2013 haveria de ser um projeto estruturado de pa\u00eds, o pa\u00eds que queremos, mesmo sem amea\u00e7ar a ordem capitalista e fazer enfrentamento ao imperialismo.<\/p>\n<p>Estamos sendo condicionados a nos concentrar no superficial, no epid\u00e9rmico, e tamb\u00e9m no pitoresco, no aned\u00f3tico. Isso dificulta o entendimento do que se passa na Venezuela, no Brasil, no mundo, bem como o car\u00e1ter de nosso papel como lideran\u00e7a que almejamos ser na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p>A esquerda em grande parte ficou sem b\u00fassola, ao abandonar a luta socialista e conceitos-chave como imperialismo e luta de classes \u2013 assim, facilmente se confundindo com os liberais, que lhe d\u00e3o a m\u00e3o para poderem apunhal\u00e1-la na primeira oportunidade que surja. Se a esquerda parece confusa e aturdida, que dizer das grandes massas desassistidas politicamente por n\u00f3s, postas \u00e0 merc\u00ea da cantilena di\u00e1ria e permanente dos de comunica\u00e7\u00e3o de massa e da prega\u00e7\u00e3o religiosa mercantil?<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno humano, a hist\u00f3ria n\u00e3o se desenvolve no vazio; o presente, sempre um fen\u00f4meno novo, \u00e9 filho do passado, sem ser seu duplo. Mas pode nos advertir relativamente ao futuro. Aquele que os dados de hoje sugerem n\u00e3o deve surpreender o observador atento da hist\u00f3ria, mas nos deve assustar profundamente. Muito do que estamos a registrar, faz anos, relembra momentos sombrios do grave caminhar da humanidade, que parece rebelde \u00e0 aprendizagem. Os tambores est\u00e3o rufando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fervorosos e testados defensores da democracia, por si, n\u00e3o devemos nos iludir quanto aos limites do processo eleitoral, cuja observ\u00e2ncia \u00e9 a conditio sine qua non do governo leg\u00edtimo, independentemente do que seja ele, fa\u00e7a ou deixe de fazer. 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