{"id":334359,"date":"2024-08-11T00:28:35","date_gmt":"2024-08-11T03:28:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=334359"},"modified":"2024-08-11T08:31:38","modified_gmt":"2024-08-11T11:31:38","slug":"brasil-precisa-olhar-eua-como-uma-nova-esfinge","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/brasil-precisa-olhar-eua-como-uma-nova-esfinge\/","title":{"rendered":"Brasil precisa olhar EUA como uma nova Esfinge"},"content":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u2013 consabidamente algo muito distinto das cole\u00e7\u00f5es de datas e biografias, se n\u00e3o define o futuro, nem o antecipa, ajuda-nos a compreender o presente, ensejando as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a interven\u00e7\u00e3o na realidade. \u00c9 quando assumimos o papel de sujeito-hist\u00f3rico. Como considerar a chamada primeira guerra mundial sem ter presente o conflito de hegemonia que opunha o expansionismo da Alemanha industrializada ao Ocidente europeu, ainda dependente de suas fontes coloniais?<\/p>\n<p>A segunda guerra mundial \u00e9 curialmente citada como heran\u00e7a mal resolvida do conflito 1914-1919, por seu turno um desdobramento de seguidos confrontos comerciais, pol\u00edticos e b\u00e9licos, entre as pot\u00eancias europeias, senhoras de bara\u00e7o e cutelo do mundo de ent\u00e3o. Travava-se, naquele teatro, como se travaria em 1939, como se trava nos dias presentes, uma disputa de vida ou morte em torno da hegemonia mundial.<\/p>\n<p>E a hist\u00f3ria n\u00e3o conhece uma s\u00f3 hip\u00f3tese de resolu\u00e7\u00e3o desse impasse sem o apelo ao embate armado. A guerra, nunca ser\u00e1 demais repetir, \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o, por outros meios, da pol\u00edtica (Clausewitz), e quase sempre se segue ao fracasso das negocia\u00e7\u00f5es. Exemplo \u00e9 oferecido pela paz de Versalles: fruto da guerra, imporia uma outra, ainda mais violenta, para consert\u00e1-la.<\/p>\n<p>Nenhum grande impasse se apresenta em sua fei\u00e7\u00e3o completa no in\u00edcio das hostilidades. Semelham um quebra cabe\u00e7a, que se vai montando pe\u00e7a por pe\u00e7a, at\u00e9 sua configura\u00e7\u00e3o plena. A invas\u00e3o da S\u00e9rvia pelo Imp\u00e9rio Austro-H\u00fangaro, em julho de 1914, \u00e9 consignada como o ato inaugural do primeiro grande conflito do s\u00e9culo.<\/p>\n<p>Mas o cen\u00e1rio daquela altura havia sido antecipado, para quem quis v\u00ea-la, por uma significativa pol\u00edtica de acordos militares, como a Tr\u00edplice Alian\u00e7a (\u00c1ustria-Hungria, Alemanha e It\u00e1lia) e a Tr\u00edplice Entente (Fran\u00e7a, R\u00fassia e Reino Unido), que come\u00e7am a tomar corpo nos finais do s\u00e9culo XIX, para adquirir sua complei\u00e7\u00e3o final em 1907.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode falar em surpresas. Nesse tempo, as for\u00e7as de direita (ent\u00e3o como agora) estimulam o nacionalismo &#8211; g\u00eanero de que a xenofobia \u00e9 sua doen\u00e7a mais perniciosa -, enquanto exacerba-se a disputa por col\u00f4nias e cresce a rapina de recursos naturais e a disputa de mercados em todo o mundo (uma inevitabilidade do desenvolvimento capitalista), alimentando o militarismo, a alma m\u00e3e das guerras, no qual se sustenta.<\/p>\n<p>De igual modo, a segunda guerra mundial n\u00e3o se apresentou como um raio em c\u00e9u azul, e muito se afirma como resposta incontorn\u00e1vel \u00e0s condi\u00e7\u00f5es leoninas que os vencedores decretaram contra os vencidos quando da assinatura incondicional do Tratado de Versalles: a imposi\u00e7\u00e3o \u00e0 Alemanha de impag\u00e1veis indeniza\u00e7\u00f5es financeiras, confisco de parte do territ\u00f3rio e limita\u00e7\u00f5es ao seu aparato militar. \u00c0s repres\u00e1lias dos vencedores, soma-se, com peso incompar\u00e1vel, a crise de 1930.<\/p>\n<p>Mas a hecatombe social alem\u00e3 remonta a pelo menos 1923, quando se abra\u00e7am hiperinfla\u00e7\u00e3o, desemprego massivo e recess\u00e3o. Por sinal, registra-se em novembro desse ano a primeira tentativa de tomada do poder, por Hitler e pelo Partido Nazista: o frustrado &#8220;putsch da Cervejaria&#8221; de Munique, como seria registrado pela hist\u00f3ria. O objeto da f\u00faria era a Republica de Weimar, espremida entre o fim da primeira guerra e a abdica\u00e7\u00e3o de Guilherme II, e a ascens\u00e3o de Hitler. O interl\u00fadio democr\u00e1tico, desgra\u00e7adamente, colecionaria um rol de frustra\u00e7\u00f5es palmilhando as sendas que ser\u00e3o percorridas pelo projeto totalit\u00e1rio, que em poucos anos manchar\u00e1 o mapa europeu e se espalhar\u00e1 pelo mundo.<\/p>\n<p>A ascens\u00e3o dos regimes totalit\u00e1rios foi, naquela altura, como parece ser ainda agora, ignorada em suas consequ\u00eancias, embora os sinais de mau tempo fossem assinalados sem parcim\u00f4nia, um ap\u00f3s o outro. A hist\u00f3ria nos lembra a It\u00e1lia fascista invadindo e anexando a Eti\u00f3pia em 1935, quando, do outro lado do mundo, o Jap\u00e3o, em 1931, dera asas ao expansionismo territorial (a pedra de toque do militarismo alem\u00e3o) com a invas\u00e3o da Mandchuria, pe\u00e7a preparat\u00f3ria da invas\u00e3o da China em 1937.<\/p>\n<p>Da mesma forma, o acirramento racista contra emigrantes, em toda a Europa, e mais precisamente, hoje, nos EUA (atingindo igualmente afrodescendentes e latinos) e na Europa de um modo geral e particularmente na Fran\u00e7a e na Inglaterra. Nada de novo. Na Alemanha, as persegui\u00e7\u00f5es aos judeus, comunistas e ciganos e aos intelectuais progressistas, antecedem e preparam a tomada do poder: as organiza\u00e7\u00f5es paramilitares do Partido Nazista, como os Camisas Pardas, datam de 1920.<\/p>\n<p>A historiografia, em sua unanimidade, guarda a invas\u00e3o da Pol\u00f4nia (1939) pela Alemanha como o ponto de partida da II Guerra Mundial. Para isso passa batida pela remilitariza\u00e7\u00e3o da Ren\u00e2nia em 1936 e a anexa\u00e7\u00e3o da \u00c1ustria em 1938. E, sobretudo, ignora a ess\u00eancia do nazifascismo, e os desdobramentos das reclama\u00e7\u00f5es por &#8220;espa\u00e7o vital&#8221;.<\/p>\n<p>Todo grande conflito se anuncia mediante tens\u00f5es pol\u00edticas que se desenvolvem em um crescendo como ondas que propagam segundo os ventos soprados pelas estrat\u00e9gias geopol\u00edticas. Ademais, esses conflitos revelam uma tessitura l\u00f3gica que vejo na antessala das duas guerras, como igualmente o identifico na cr\u00f4nica dos dias presentes. Varia o modus faciendi, mas o significado e o desdobramento das tens\u00f5es se repetem, como se repete nossa desaten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vencida a segunda grande guerra, dividido o mundo nos termos da Confer\u00eancia de Ialta (1945), seguiu-se a &#8220;guerra fria&#8221;, assim nomeado o conflito pol\u00edtico, militar e ideol\u00f3gico entre o Ocidente, liderado pelos EUA, e a URSS, cabe\u00e7a do que se identificara como &#8220;leste europeu&#8221;. Os dois polos se guerreiam mediante confrontos levados a cabo por procuradores. Trata-se de hist\u00f3ria conhecida, como cap\u00edtulo de uma novela sedi\u00e7a.<\/p>\n<p>A URSS se espalha no mundo, principalmente emprestando for\u00e7a pol\u00edtica e militar \u00e0s guerras de liberta\u00e7\u00e3o nacional que tomam conta principalmente da \u00c1frica e da \u00c1sia. As grandes pot\u00eancias ordenariam a pol\u00edtica de confrontos fora de seus territ\u00f3rios. Nessa quadra, quase tudo \u00e9 permitido, contanto que seja evitado o embate direto. E assim cheg\u00e1mos a uma lista de centenas de conflitos, insurg\u00eancias, invas\u00f5es, revolu\u00e7\u00f5es civis, lutas de liberta\u00e7\u00e3o nacional e golpes de Estado que percorrem o planeta e n\u00e3o poupam a Am\u00e9rica Latina. O Brasil jamais se esquecer\u00e1 do 1\u00ba de abril de 1964, e do papel nele exercido pelos EUA.<\/p>\n<p>O quadro de nossos dias n\u00e3o \u00e9 diverso, se considerarmos que no posto antes ocupado pela URSS se encontra a China. A transi\u00e7\u00e3o da guerra por meios tradicionais para eventual duelo nuclear, assustava a todos, com a hip\u00f3tese do apocalipse. Esse \u00e9 o quadro at\u00e9 o suic\u00eddio da URSS e o fim do que se chamava &#8220;socialismo real&#8221;. Cessa a &#8220;guerra fria&#8221; e se instala a hegemonia pol\u00edtica e militar dos EUA.<\/p>\n<p>O fim do unilateralismo, por\u00e9m, dar-se-ia, j\u00e1 nos tempos presentes, com a ascens\u00e3o da Eur\u00e1sia, liderada pela China, com seu espantoso desenvolvimento econ\u00f4mico, tecnol\u00f3gico e, consequentemente, industrial e militar. As conting\u00eancias geopol\u00edticas fazem da R\u00fassia capitalista, em guerra sem fim previs\u00edvel, uma aliada de primeira linha, levando consigo o maior arsenal de ogivas nucleares do mundo.<\/p>\n<p>O unilateralismo cede ao multilateralismo (ao lado da China emergem novos atores, caso que \u00e9 o da \u00cdndia), e uma vez mais se coloca para o mundo, como se colocara l\u00e1 atr\u00e1s na primeira linha das duas guerras mundiais, uma nova disputa de boco pela hegemonia. Voltamos a conviver com tens\u00f5es, desta feita ainda mais graves do que as anunciadoras dos dois conflitos mundiais do s\u00e9culo passado.<\/p>\n<p>Os confrontos, diretos ou operados por procura\u00e7\u00e3o, se instalam em todos os continentes, e a crise do capitalismo financeiro monopolista (um indicador s\u00e3o os atuais temores de recess\u00e3o nos EUA, a longa recess\u00e3o japonesa e o crash da bolsa de T\u00f3quio) deve reacender-se em tempos pr\u00f3ximos, convivendo com uma era de guerras jamais conhecida no passado recente, guerras s\u00f3 aparentemente localizadas, pois, ao fim e ao cabo, cruzam interesses que dizem respeito \u00e0s pot\u00eancias em duelo.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ignorar o cen\u00e1rio de guerra, nem a linguagem belicista da OTAN e da Comunidade Europeia. Depois da \u00c1frica, do Oriente e da \u00c1sia, com sparrings escolhidos e que servem para manter os marines em forma, a guerra chega \u00e0 Europa, com a invas\u00e3o levada a cabo pela R\u00fassia contra o territ\u00f3rio da Ucr\u00e2nia (por seu turno defendida com armas da OTAN e recursos financeiros e equipamentos dos EUA e da comunidade europeia) e promete incendiar o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Mais do que pura loucura, h\u00e1 muito de consci\u00eancia pol\u00edtica e estrat\u00e9gia no genoc\u00eddio dos palestinos pelo Estado sionista de Israel e suas provoca\u00e7\u00f5es ao Ir\u00e3 e seus bombardeios no L\u00edbano. Trata-se de esfor\u00e7o por alastrar o cen\u00e1rio da guerra, que, por outras formas, encetam os EUA e a Comunidade Europeia.<\/p>\n<p>Associada \u00e0s formas cl\u00e1ssicas da guerra, sempre vigentes, ingressamos, o mundo como v\u00edtima, em uma nova modalidade de combate, insidioso, definido como Guerra h\u00edbrida, que o professor Manuel Domingos Neto define como &#8220;o confronto em que um vasto leque de opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o necessariamente letais ganham preced\u00eancia sobre os procedimentos militares convencionais&#8221;. Essas opera\u00e7\u00f5es compreendem, entre outras medidas, embargos comerciais e tecnol\u00f3gicos, e a inafast\u00e1vel batalha pol\u00edtico-ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Entram em cena, como expedientes de guerra, ataques cibern\u00e9ticos, a\u00e7\u00f5es dirigidas de hackers, desinforma\u00e7\u00e3o, guerra econ\u00f4mica, etc. No governo de Barack Obama o telefone da presidente Dilma Rousseff foi grampeado, e invadidos por espi\u00f5es cibern\u00e9ticos os computadores da Petrobr\u00e1s. E n\u00e3o est\u00e1vamos e n\u00e3o estamos em guerra com o imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>Como a guerra \u00e9 anunciada por sinais aparentemente isolados entre si, a boa cautela nos aconselha tentar decifrar a esfinge.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria \u2013 consabidamente algo muito distinto das cole\u00e7\u00f5es de datas e biografias, se n\u00e3o define o futuro, nem o antecipa, ajuda-nos a compreender o presente, ensejando as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a interven\u00e7\u00e3o na realidade. \u00c9 quando assumimos o papel de sujeito-hist\u00f3rico. Como considerar a chamada primeira guerra mundial sem ter presente o conflito de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":230591,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[16],"tags":[],"class_list":["post-334359","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasil"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334359","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334359"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334359\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":334360,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334359\/revisions\/334360"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/230591"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334359"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334359"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334359"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}