{"id":334465,"date":"2024-08-13T06:46:37","date_gmt":"2024-08-13T09:46:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=334465"},"modified":"2024-08-13T06:47:49","modified_gmt":"2024-08-13T09:47:49","slug":"signatario-do-ai-5-bolo-no-povo-e-sem-condao-para-fazer-milagre-economico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/signatario-do-ai-5-bolo-no-povo-e-sem-condao-para-fazer-milagre-economico\/","title":{"rendered":"Signat\u00e1rio do AI-5, bolo no povo e sem cond\u00e3o para fazer milagre econ\u00f4mico"},"content":{"rendered":"<p>Morreu Delfim, o neto com dois t\u00eas de um contempor\u00e2neo de meu velho pai, Mathuzal\u00e9m S\u00eanior. O fim do Delfim n\u00e3o representa o come\u00e7o do nada. Foi o fim de um princ\u00edpio que durou 21 anos, mas faz 39 anos que se foi. E queira Deus que ele (o princ\u00edpio) fique por l\u00e1. N\u00e3o sei onde, mas que esteja bem longe de n\u00f3s, algo como nos quintos das seis marias do s\u00e9timo dia. Tudo tem fim, mas Delfim aproveitou o que pode. Not\u00e1vel como economista e erudito como cidad\u00e3o, foi ministro de peso, pol\u00edtico pesado por cinco legislaturas consecutivas e consultor de fala leve de 11 entre dez poderosos. Al\u00e9m dos generais, atendeu solicitamente at\u00e9 Luiz In\u00e1cio da Silva<\/p>\n<p>Delfim foi um homem inteligente e bom, mas muito pr\u00f3ximo do mal. Aos 96 anos, ele se imaginava perto do fim, pois tinha certeza de que estava bem longe do in\u00edcio. Enfim, a partida do quase eterno czar da economia brasileira deu fim a uma \u00e9poca de tristes lembran\u00e7as e de falsos milagres econ\u00f4micos, democr\u00e1ticos, sociais e esportivos. O maior deles foi transformar o folcl\u00f3rico Dad\u00e1 Maravilha em tricampe\u00e3o do mundo em 1970, mesmo sendo reserva de luxo de uma sele\u00e7\u00e3o brasileira com craques de A a Z, de Zagallo. Mesmo no banco, n\u00e3o entrou em nenhum dos sete jogos da competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Como Delfim, Dario era bom sujeito, \u00f3timo papo e melhor frasista, embora um cl\u00e1ssico perna de pau. No entanto, foi artilheiro em todos os clubes pelos quais passou. Eis a \u00fanica raz\u00e3o de ter ca\u00eddo nas gra\u00e7as de um cabuloso condutor quatro estrelas do mais tenebroso Bonde do Tigr\u00e3o que j\u00e1 circulou pelo Brasil. Era a dita dura. Nas horas vagas, o comandante cheio de divisas usava de seus ensinamentos m\u00e9dicinais (o assento n\u00e3o \u00e9 mero esquecimento) para tamb\u00e9m conduzir \u00e0s sombras do vale da morte quem atravessasse seu caminho.<\/p>\n<p>Torcedor \u201cfan\u00e1tico\u201d de todos os clubes de massa, entre eles Flamengo, Corinthians e Gr\u00eamio, quando podia dava uma de t\u00e9cnico do escrete canarinho. \u00c9 de sua lavra o convite quase paternal para a for\u00e7ada inclus\u00e3o de Dario no selecionado nacional, ao lado de Pel\u00e9, Rivelino, G\u00e9rson, Jairzinho, Tost\u00e3o, Carlos Alberto, Paulo C\u00e9sar Caju, Clodoaldo e mais uma constela\u00e7\u00e3o de malabaristas com a pelota. Eram os 11, 17 ou 22 homens de ouro que haviam sido maracanamente adorados pelos sete homens de chumbo que conduziram nossos destinos e, por isso, poupados pelo AI-5, ato gerador de um dos per\u00edodos mais duros e sombrios de nossa hist\u00f3ria republicana.<\/p>\n<p>Delfim, que tamb\u00e9m atendia pelo prenome Ant\u00f4nio, foi signat\u00e1rio do AI-5 e dele jamais se arrependeu. Pelo contr\u00e1rio. De certa feita, disse que assinaria se voltasse no tempo. N\u00e3o voltar\u00e1. De volta ao fim que Deus deu ao Del, eu e os do meu tempo chegamos a achar que, com o sonho prometido pelo Delfim e pelos presidentes militares aos quais ele serviu, que bastavam dois passos para o para\u00edso. Quando nos demos conta, descobrimos que, na verdade, est\u00e1vamos a tr\u00eas palmos do precip\u00edcio. Recentemente, quase atingimos o s\u00e9timo palmo. Fomos salvos na pra\u00e7a pelas palmas dirigidas pelo povo a um dos sobreviventes do naufr\u00e1gio da Arca de No\u00e9 lotada de trogloditas e pilotada pelo bom, pelos maus e pelos feios.<\/p>\n<p>Junto com a quebradeira, tamb\u00e9m se quebrou aquele que sonhou um dia ser o oitavo dos sete homens que, \u00e0 for\u00e7a, comandaram nossos destinos por longos anos. \u00daltimo tripulante da barca, Delfim talvez fosse hoje o maior reflexo da intelig\u00eancia artificial. Era, ao mesmo tempo, talentoso, lustroso e genialmente contradit\u00f3rio. Protagonista de uma fase da hist\u00f3ria brasileira, testemunhou decis\u00f5es catastr\u00f3ficas e colaborou como constituinte com a Carta que ajudou a consolidar a democracia. Como integrante de governos ditatoriais, participar t\u00e9cnica e politicamente da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 foi seu <em>mea culpa<\/em> como celebrado servidor da Redentora de 1964. Delfim morreu sem cumprir uma de suas maiores promessas como homem p\u00fablico.<\/p>\n<p>Ministro da Fazenda, ele deu uma de Irm\u00e3 Dulce e jurou de p\u00e9s juntos, mas com os dedos cruzados, que faria o \u201cbolo crescer para depois dividi-lo\u201d. A ideia era impulsionar o PIB para, em seguida, dividir a riqueza entre a popula\u00e7\u00e3o. O bolo solou ou foi retirado do forno antes do completo processo de assadura. Talvez tenha sido dividido ainda na forma, porque os ricos ficaram e continuam mais ricos, enquanto os pobres nem os farelos viram. Delfim morreu olimpicamente devendo essa. Quem sabe ele aproveita as migalhas do bolo para uma festa funk no c\u00e9u. Em grande uni\u00e3o, seria um convescote estrelado pelos rappers verde oliva, tendo como fundo musical o Hino Nacional, executado pela banda da f\u00e9. Por fim, a morte do Delfim selou um destino tra\u00e7ado desde o ber\u00e7o: depois do poder incomum \u00e0 plebe, o pijama de madeira \u00e9 comum a todos, inclusive \u00e0 fidalguia.<\/p>\n<p><strong>*Mathuzal\u00e9m J\u00fanior \u00e9 jornalista profissional desde 1978<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Morreu Delfim, o neto com dois t\u00eas de um contempor\u00e2neo de meu velho pai, Mathuzal\u00e9m S\u00eanior. O fim do Delfim n\u00e3o representa o come\u00e7o do nada. Foi o fim de um princ\u00edpio que durou 21 anos, mas faz 39 anos que se foi. E queira Deus que ele (o princ\u00edpio) fique por l\u00e1. 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