{"id":334898,"date":"2024-08-19T00:17:52","date_gmt":"2024-08-19T03:17:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=334898"},"modified":"2024-08-19T11:22:13","modified_gmt":"2024-08-19T14:22:13","slug":"especto-de-trump-ronda-americas-e-pode-afundar-tudo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/especto-de-trump-ronda-americas-e-pode-afundar-tudo\/","title":{"rendered":"Especto de Trump ronda Am\u00e9ricas e pode afundar tudo"},"content":{"rendered":"<p>Estamos condenados a conviver com espectros. Uns, desejados e ao mesmo tempo temidos, como o espectro do comunismo a que se referia Marx em 1890. Cansado de tanta luta, resguarda-se em demorada reflex\u00e3o (ou autocr\u00edtica) mas seu retorno, sem data aprazada com a Hist\u00f3ria, \u00e9 esperado. De cara nova, mas sempre temido e sonhado. Esta \u00e9 uma das promessas do capitalismo monopolista financeiro. At\u00e9 l\u00e1, la nave va\u2026, ensinou Felini, o cientista pol\u00edtico que se valeu do cinema para nos ajudar a compreender a vida e seus espectros: das peste e das epidemias antigas e contempor\u00e2neas, \u00e0 trag\u00e9dia ambiental. E, \u201cnaturalizados\u201d, reinam aqueles espectros com os quais a humanidade resolveu conviver: as guerras, a fome, as desigualdades sociais.<\/p>\n<p>Rondando o mundo como um projeto e uma amea\u00e7a, o espectro de hoje \u00e9 o avan\u00e7o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o protofascistas, que j\u00e1 avan\u00e7am em perigoso n\u00famero de grandes pot\u00eancias. Exemplo paradigm\u00e1tico vem dos EUA, caminhando com botas de sete l\u00e9guas para o que pode ser o governo prometido pelo candidato do Partido Republicano. Como nenhuma desgra\u00e7a \u00e9 solteira, a guerra, estimulada pela incontorn\u00e1vel disputa de hegemonia (Ocidente-Eur\u00e1sia) \u2014 j\u00e1 deu seus primeiros e firmes passos. Doutro modo n\u00e3o pode ser visto nem o conflito R\u00fassia x OTAN (essa a composi\u00e7\u00e3o de fato), nem muito menos o genoc\u00eddio do povo palestino levado a cabo por Israel, gra\u00e7as ao apoio militar e financeiro dos EUA e seus aliados, notadamente, a comunidade europeia.<\/p>\n<p>O avan\u00e7o da direita traz consigo, como irm\u00e3o siam\u00eas, o recesso da esquerda, tanto do ponto de vista do controle de poder pol\u00edtico, quanto na formula\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria: o recuo se revela no pensamento e na a\u00e7\u00e3o, o que se reflete na crise existencial dos partidos comprometidos com os interesses da classe trabalhadora, como os partidos trabalhistas, socialistas e comunistas. Grandes e poderosos partidos, como PCF, o PCI, os PS franc\u00eas e italiano, s\u00e3o condenados \u00e0 irrelev\u00e2ncia, enquanto outros transitam para socialdemocracia como o Partido Trabalhista ingl\u00eas.<\/p>\n<p>O Partido da socialdemocracia alem\u00e3 (SPD) se confunde com a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Crist\u00e3 (CDU, de Konrad Adenauer e Angela Merkel. (Registre-se, uma rea\u00e7\u00e3o: no contrapelo da vit\u00f3ria fascista na It\u00e1lia, as esquerdas francesas, reunidas em uma frente, contribu\u00edram decisivamente para deter a amea\u00e7a totalit\u00e1ria nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es). O decl\u00ednio da esquerda, como poder e expectativa de poder, como projeto revolucion\u00e1rio, como movimento de ideias e organiza\u00e7\u00e3o popular, se permite inumer\u00e1veis especula\u00e7\u00f5es, tem um marco hist\u00f3rico: o suic\u00eddio da URSS em 1991, com todos os seus ingredientes conhecidos, como o fim do \u201csocialismo real\u201d das rep\u00fablicas do Leste Europeu, e, na sua cauda a ascens\u00e3o dos EUA como pot\u00eancia hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre o avan\u00e7o progressivo das forma\u00e7\u00f5es de direita e a crise dos partidos que integram o campo das esquerdas, uma refer\u00eancia ideol\u00f3gica que compreende um leque de varia\u00e7\u00f5es determinadas por fatores hist\u00f3ricos e culturais, condicionadas pelas circunst\u00e2ncias de luta e mesmo pelo car\u00e1ter do advers\u00e1rio. Em qualquer xadrez, por\u00e9m, o outro lado do avan\u00e7o da direita, ou, dito em outra ordem, a outra margem do recuo da esquerda, \u00e9 o recesso democr\u00e1tico com o eclipse daqueles regimes que, mesmo sob controle dos aparelhos do Estado de classes, possibilitam a organiza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p>O rompimento da ordem democr\u00e1tica \u00e9, sempre, a resposta das for\u00e7as conservadoras e de direita \u2014 sempre vinculadas ao grande capital e aos interesses estrat\u00e9gicos da hegemonia estadunidense \u2013 em todas as oportunidades nas quais o processo social sugere o avan\u00e7o pol\u00edtico ou pol\u00edtico-eleitoral da for\u00e7as progressistas e de esquerda. A Am\u00e9rica Latina, ao lado de outros teatros, registra um sem-n\u00famero de golpes de Estado. Duas dolorosas lembran\u00e7as: o golpe de 1\u00ba. de abril de 1964, que derrubou o governo democr\u00e1tico-progressista de Jo\u00e3o Goulart, e o golpe militar que em 1973, operado pelos militares mas dirigido pelos EUA, p\u00f4s por terra a experi\u00eancia de socialismo democr\u00e1tico de Salvador Allende.<\/p>\n<p>Os tempos presentes ainda assustam, embora n\u00e3o sejam novos em nossa hist\u00f3ria os assaltos da rea\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, nem estejam distantes de nosso dia-a-dia. Recuperada formalmente a democracia, com a Constituinte de 1988, o regime deca\u00eddo sobreviveria na ordem que o havia derrocado: sobreviveria e sobrevive ainda hoje a preemin\u00eancia militar, e \u00e9 crescente o predom\u00ednio, sobre os neg\u00f3cios do Estado, dos interesses do capital financeiro. A Faria Lima \u00e9 reconhecida como um dos \u201cpoderes\u201d da Rep\u00fablica, como a caserna e os bar\u00f5es da economia prim\u00e1rio-exportadora.<br \/>\n\u00c9 nesse contexto que, dos desv\u00e3os do \u201cbaixo clero\u201d e dos por\u00f5es da ditadura, emerge o bolsonarismo, uma for\u00e7a de direita apoiada nas grandes massas e setores destacados das for\u00e7as armadas do Estado brasileiro.<\/p>\n<p>Mesmo setores ponder\u00e1veis do pensamento progressista, desprovidos por\u00e9m daqueles recursos metodol\u00f3gicos que ajudam a compreender a natureza dos fen\u00f4menos hist\u00f3ricos, n\u00e3o conseguem encontrar o caminho de sa\u00edda<br \/>\ndo impasse.<\/p>\n<p>\u201cO que fazer\u201d permanece como perigosa esfinge. O Brasil se insere na rota geral da crise dos partidos de esquerda e das organiza\u00e7\u00f5es que em tempos passados se distinguiam como revolucion\u00e1rias, no simples sentido de propugnarem pela revoga\u00e7\u00e3o do Estado de classe. Aqui uma nova conjun\u00e7\u00e3o: muitos dos partidos do campo da esquerda, crist\u00e3os novos do legalismo e do eleitoralismo, conquistados pela miragem do poder imediato, renunciaram \u00e0 batalha ideol\u00f3gica, esqueceram o esfor\u00e7o da organiza\u00e7\u00e3o popular, desestimularam a forma\u00e7\u00e3o de quadros e militantes. Os sindicalistas abandonaram ch\u00e3o de f\u00e1brica. Do nosso dicion\u00e1rio foram deletadas express\u00f5es como luta-de-classe.<\/p>\n<p>N\u00e3o se fala mais em socialismo. Sem pretender alter\u00e1-lo, optamos por bem cuidar um aparelho de Estado estruturado para garantir a continuidade do sistema. Renunciando \u00e0 nossa pr\u00f3pria imagem, terminamos por assumir as fei\u00e7\u00f5es do advers\u00e1rio. As ruas vazias, os sindicatos esvaziados (aqui erros crassos de condu\u00e7\u00e3o agravados pela crise do trabalho), a academia em sil\u00eancio, as chamadas entidades de classe consumidas na administra\u00e7\u00e3o de sua domesticidade, as milit\u00e2ncias partid\u00e1rias desmobilizadas, os bairros prolet\u00e1rios abandonados, eis como o territ\u00f3rio da pol\u00edtica foi cedido \u00e0 a\u00e7\u00e3o das mil\u00edcias, do tr\u00e1fico e da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio da esquerda aumenta o espa\u00e7o e a intensidade da prega\u00e7\u00e3o dos aparelhos ideol\u00f3gicos da classe dominante. A religi\u00e3o \u00e9 utilizada como eficaz instrumento de tranquiliza\u00e7\u00e3o das massas. O homem deixa de ser agente hist\u00f3rico, e sua responsabilidade \u00e9 transferida para Deus, pois foi ele que lhe deu o emprego, a casa, o carro, foi ele e n\u00e3o a assist\u00eancia m\u00e9dica que o salvou da doen\u00e7a. O homem deixa de ser respons\u00e1vel por si e pelo mundo, pelo que faz e deixa de fazer: o ser \u00e9 marioneta dos des\u00edgnios divinos. A dor, a mis\u00e9ria, os males que o assolam, tudo o que de indesej\u00e1vel e ruim que se abate sobre o ser humano (sempre em d\u00edvida porque \u00e9 um pecador), tudo o que penaliza o mundo, como as trag\u00e9dias, \u00e9 obra do diabo. A arma do bom crist\u00e3o, cujo dever \u00e9 oferecer a outra face \u00e0 ofensa, n\u00e3o pode ser a revolta. Cumpre-lhe resignar-se diante dos des\u00edgnios de Deus e preparar-se para a salva\u00e7\u00e3o. Orando e doando parte de seu sal\u00e1rio para a poupan\u00e7a do pastor.<\/p>\n<p>Ao fim e ao cabo, nossos te\u00f3ricos e nossos pr\u00e1ticos n\u00e3o encontram explica\u00e7\u00f5es para o avan\u00e7o do pensamento e da a\u00e7\u00e3o da extrema-direita, que conquista os cora\u00e7\u00f5es e as mentes dos desvalidos, dos exclu\u00eddos, dos explorados pelo capital, dos desassistidos pelo Estado de classe, ou seja, conquistam a alma de suas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>Dir-se-\u00e1 que a crise n\u00e3o \u00e9 especificidade nossa, posto que muito do afirmado pode ser referido ao panorama internacional, no que diz respeito ao avan\u00e7o da extrema-direita protofascista. A crise na matriz, pois a extrema direita caminha com botas de sete l\u00e9guas nos EUA, se reproduz na periferia, gra\u00e7as ao denodado esfor\u00e7o de nossa classe dominante.<\/p>\n<p>O mundo contempor\u00e2neo lembra (aten\u00e7\u00e3o: lembra, mas n\u00e3o repete) os tensos anos 30 do s\u00e9culo passado, com um diferencial: enquanto hoje, entre n\u00f3s, a apatia \u2014 doutrin\u00e1ria, organizacional e pol\u00edtica \u2013 domina a esquerda org\u00e2nica \u2013 na Europa de ent\u00e3o a resposta \u00e0 bota fascista foi a intensifica\u00e7\u00e3o da luta de classes, e, com ela, o revigoramento da batalha ideol\u00f3gica. A expectativa de constru\u00e7\u00e3o de uma nova sociedade estava na raiz da resist\u00eancia pol\u00edtica e armada a Mussolini e Hitler. O enfrentamento fortaleceu os fundamentos te\u00f3ricos e doutrinarios da esquerda, a ascens\u00e3o dos partidos ligados aos interesses da classe oper\u00e1ria. A organiza\u00e7\u00e3o popular seria uma consequ\u00eancia, sobrevivendo \u00e0s violentas formas de repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Em Pele negra, m\u00e1scaras brancas (1952), Franz Fanon observa a internaliza\u00e7\u00e3o, pelo colonizado, da ideologia do colonizador. Esse fen\u00f4meno, por\u00e9m, se observa igualmenteno plano das institui\u00e7\u00f5es. Refiro-me especificamente a partidos de esquerda, que, ingressando na institucionalidade, ao inv\u00e9s de intentar alter\u00e1-la, terminaram por absorver seu car\u00e1ter, de que resultou um mundo de desvios ideol\u00f3gicos que, como sempre, transitaram da teoria para a pr\u00e1tica. Um desses efeitos \u00e9 a contamina\u00e7\u00e3o, do pensamento originalmente de esquerda, com formula\u00e7\u00f5es liberais, a incorpora\u00e7\u00e3o, como suas, de teses e conceitos constru\u00eddos exatamente para preservar a ordem que os socialistas pretendem demolir. Assim a esquerda, que j\u00e1 se fizera reformista, \u00e9 condenada a transformar-se em esquerda sem pol\u00edtica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos condenados a conviver com espectros. Uns, desejados e ao mesmo tempo temidos, como o espectro do comunismo a que se referia Marx em 1890. Cansado de tanta luta, resguarda-se em demorada reflex\u00e3o (ou autocr\u00edtica) mas seu retorno, sem data aprazada com a Hist\u00f3ria, \u00e9 esperado. De cara nova, mas sempre temido e sonhado. 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