{"id":335244,"date":"2024-08-26T07:37:38","date_gmt":"2024-08-26T10:37:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=335244"},"modified":"2024-08-26T07:37:38","modified_gmt":"2024-08-26T10:37:38","slug":"voltar-no-tempo-e-lembrar-que-eu-era-feliz-e-sabia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/voltar-no-tempo-e-lembrar-que-eu-era-feliz-e-sabia\/","title":{"rendered":"Voltar no tempo \u00e9 lembrar que eu era feliz e sabia"},"content":{"rendered":"<p>Se pudesse, voltaria no tempo s\u00f3 para fugir da dem\u00eancia pol\u00edtica em que nos meteram. Aproveitaria para checar, rechecar, prechecar e refazer um monte de coisas que fiz e fazer outras que n\u00e3o fiz. Como amostragem, tentei, mas n\u00e3o consegui aparar o bigode da mulher barbada. Cavuquei no vespeiro, mas deixei escapar o precioso favo de mel da abelha rainha. Trabalhei em um circo instalado na principal pra\u00e7a do meu bairro apenas para descobrir a marca da graxa usada pela acrobata em sua sensual dobradi\u00e7a. \u00c9 claro que fui demitido na primeira tentativa. Uma de minhas maiores agruras de adolescente foi buscar argumentos para explicar \u00e0 dona Guigui o zero que havia tomado em uma prova final de Geografia.<\/p>\n<p>Passadas algumas d\u00e9cadas, hoje percebo o absurdo que foi confundir o habitat de Zumbi dos Palmares com o traseiro da mulher do vizinho de frente. Perdi o ano somente porque disse ao teatcher que a portentosa senhora me fazia lembrar dia e noite de Zumbi: Quilombo! O castigo quase chegou em forma de vasectomia for\u00e7ada. Adentrei o buz\u00e3o e, pronto para me sentar no banco imediatamente atr\u00e1s do motorista, ou\u00e7o a vizinha de assento me alertar: \u201cCuidado com os ovos\u201d. Ao perceber uma caixinha bem no centro do banco, indaguei inocentemente se eram ovos dos brancos ou dos vermelhos. S\u00e9ria, a velha retrucou: \u201cS\u00e3o pregos\u201d. Ufa! Foi por pouco.<\/p>\n<p>Evitei a omelete no coletivo, mas a gargalhada coletiva ainda vai me constranger por algumas encarna\u00e7\u00f5es. Propriet\u00e1rio de dois cursos superiores, hoje entendo a raz\u00e3o pela qual av\u00f4 Aristarco Pederneira de Ara\u00fajo sempre dizia que a vida era a melhor escola para o ser humano. Pura verdade. Afinal, fora as teorias de almanaques, nossos pais tinham pouco ou nenhum conhecimento para nos transformar em homens e mulheres empoderados, conforme o linguajar atual. Os que n\u00e3o conseguiram fugir dos cursos profissionalizantes do Senai ou do Senac s\u00e3o vereadores, deputados, senadores e at\u00e9 presidentes da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, me livrei desses malditos t\u00edtulos. Enfim, sou de um per\u00edodo em que achavam feio um monte de coisas que hoje \u00e9 bonito. Por exemplo, abrasar a mufa (fumar) era coisa de macho alfa. Feio era queimar a rosca, sin\u00f4nimo, \u00e0 \u00e9poca, de bandalheira, degenera\u00e7\u00e3o e devassid\u00e3o. Sem qualquer conota\u00e7\u00e3o homof\u00f3bica, hoje multam quem fuma em locais p\u00fablicos, mas toleram passivamente quem d\u00e1 r\u00e9 no quibe no teatro, na praia ou na varanda de casa. Nada contra, pois, como democrata an\u00e1rquico, entendo que todas as formas de amar valem a pena. Mais do que isso: quem d\u00e1 o que \u00e9 seu n\u00e3o merece ser desprezado. O que quero dizer \u00e9 que eu e os do meu tempo \u00e9ramos felizes e sab\u00edamos.<\/p>\n<p>Sem esnobar ou menosprezar as modernidades inalcan\u00e7\u00e1veis para os mais velhos, como \u00e9 bom lembrar do tempo em que as express\u00f5es toco cru pegando fogo e \u00e1gua morro abaixo, fogo morro acima, mulher quando quer ningu\u00e9m segura eram somente figuras de linguagem. Tamb\u00e9m nunca vi m\u00e1 f\u00e9 ou duplo sentido quando ouvia o colega de classe Seventeen informar que os homens de Ponta Grossa namoravam, mas jamais se casavam com as mo\u00e7as de Curralinho. Ignor\u00e2ncia de um povo que parece ignorar que o passado tem import\u00e2ncia at\u00e9 em nossos liberados dias. Antes que perguntem, Seventeen era paranaense, boa pinta e daqueles que as meninas avaliavam como fogo na roupa.<\/p>\n<p>Ele passou a ser conhecido pelo pomposo apelido porque em um dos p\u00e9s lhe faltavam tr\u00eas dedos. Os 17 restantes foram suficientes para inglesar o ilustre representante ponta-grossense. Por oportuno, devo esclarecer que nunca chequei a ponta do parceiro. Me limitei a alfinetar a cidade no mapa do Paran\u00e1. Falar em fogo na roupa \u00e9 lembrar de algumas das principais g\u00edrias dos anos de ouro. Em momento algum fui um broto ou um p\u00e3o. Apesar do cabelo com o pega rapaz (a v\u00edrgula na testa), tampouco me rotulavam de lel\u00e9 da cuca. Pelo contr\u00e1rio. Tinha fama de batuta e da fuzarca. Grilado, sem beca, com pouco tutu e sem caranga, n\u00e3o podia marcar touca. Por isso, usava o borogod\u00f3 para mostrar \u00e0s minas que n\u00e3o era borocox\u00f4. N\u00e3o posso, mas se pudesse voltar no tempo diria aos mais novos que quem segura, amarra e sangra o porco jamais precisar\u00e1 dizer que \u00e9 imbroch\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>*Wenceslau Ara\u00fajo \u00e9 Editor-Chefe de <em>Notibras<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se pudesse, voltaria no tempo s\u00f3 para fugir da dem\u00eancia pol\u00edtica em que nos meteram. Aproveitaria para checar, rechecar, prechecar e refazer um monte de coisas que fiz e fazer outras que n\u00e3o fiz. Como amostragem, tentei, mas n\u00e3o consegui aparar o bigode da mulher barbada. 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