{"id":335615,"date":"2024-08-31T00:02:46","date_gmt":"2024-08-31T03:02:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=335615"},"modified":"2024-08-31T04:55:33","modified_gmt":"2024-08-31T07:55:33","slug":"quilombolas-participam-da-2a-edicao-do-fliparacatu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quilombolas-participam-da-2a-edicao-do-fliparacatu\/","title":{"rendered":"Quilombolas participam da 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o do Fliparacatu"},"content":{"rendered":"<p>\u201cPra eu falar hoje que eu sou uma mulher negra, quilombola, teve um pre\u00e7o muito alto\u201d. Quem afirma isso \u00e9 Rose Bispo, paracatuense de 47 anos que passou por uma longa jornada at\u00e9 entender que fazia parte de duas comunidades remanescentes de quilombos.<\/p>\n<p>Ela conta que a m\u00e3e n\u00e3o falava sobre o assunto. Mas ela tinha perguntas e foi atr\u00e1s de descobrir as respostas. Nesse processo, descobriu ser das comunidades de Porto Pontal, uma das mais antigas de Paracatu e reconhecida pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares, e da comunidade dos Bagres, que migrou para a cidade h\u00e1 mais de 80 anos e est\u00e1 em processo de reconhecimento.<\/p>\n<p>\u201cPara mim, foi um momento de muita surpresa e de muita felicidade. E eu falei: agora eu vou ter que tomar conta disso. Isso \u00e9 tudo meu\u201d, lembra.<\/p>\n<p>Rose \u00e9 a curadora da Feira de Economia Criativa da segunda edi\u00e7\u00e3o do Festival Liter\u00e1rio Internacional de Paracatu. \u00c9 a primeira vez que o festival conta com o espa\u00e7o, onde os artes\u00e3os e empreendedores da cidade podem expor seus trabalhos e produtos. Ela lamenta que a cidade ainda n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado todo o potencial de aceita\u00e7\u00e3o de sua identidade quilombola e fala do preconceito que ainda resiste.<\/p>\n<p>Ela comemora, entretanto, os avan\u00e7os, como a cria\u00e7\u00e3o do Conselho Municipal de Promo\u00e7\u00e3o da Igualdade Racial, em 2018, do qual \u00e9 presidente, e do Departamento de Igualdade Racial, da Secretaria de Cultura e Turismo.<\/p>\n<p>Rose, que \u00e9 capoeirista, precursora da cultura afro-brasileira, acredita que o Conselho tem feito um bom trabalho junto \u00e0s cinco comunidades que j\u00e1 s\u00e3o reconhecidas pela Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares e que o desafio, agora, \u00e9 fortalecer o sentimento de pertencimento desses quilombolas.<\/p>\n<p>\u201cExiste hoje uma juventude quilombola que se auto reconhece, que se fortalece. Aqui na Fli, por exemplo, tem muito jovem de cabelo black, de cabelo tran\u00e7ado. A gente tem inclusive um estande que \u00e9 das trancistas. Ent\u00e3o, a gente se apoderou muito disso\u201d.<\/p>\n<p>O estande que Rose cita \u00e9 o da Valeria Ferreira Gomes. Aos 35 anos, Val, como \u00e9 conhecida, come\u00e7ou a tran\u00e7ar cabelos aos 16, aprendendo com a tia, uma trancista tradicional do quilombo S\u00e3o Domingos. O of\u00edcio, mais do que um trabalho, foi aprendido no quintal de casa.<\/p>\n<p>Hoje, ela tem um est\u00fadio e diz que, o que faz, \u00e9 m\u00e1gico.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 m\u00e1gico, sabe, empoderar mulheres. A pessoa entra com a cabecinha baixa, triste, e ela sai com a cabe\u00e7a levantada, toda feliz e olhando no espelho. Foi meu sonho, porque a minha tia fazia isso comigo quando eu era pequena e eu queria que as pessoas sentissem isso que eu sentia\u201d.<\/p>\n<p>Val comemora a participa\u00e7\u00e3o no Fliparacatu e a ocupa\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o da cidade que \u00e9 considerado de elite. \u201cTran\u00e7ar aqui no Largo do Ros\u00e1rio \u00e9 muito importante tamb\u00e9m para a gente, porque \u00e9 um lugar que \u00e9 um bairro mais elitizado e a\u00ed com a cultura trazendo para c\u00e1, a gente quebra esses tabus, n\u00e9?\u201d.<\/p>\n<p>Lav\u00ednia Pereira Lopes trabalha com a Val h\u00e1 cerca de dois anos e \u00e9 trancista h\u00e1 quatro. Ela sabe que o trabalho \u00e9 muito mais do que est\u00e9tica. \u00c9 aceita\u00e7\u00e3o, ancestralidade, hist\u00f3ria. \u201cA gente sempre busca renovar, trazer novas t\u00e9cnicas, estilos de cabelo novos. E \u00e9 muito bom essa troca. Hoje muito gente aqui usa tran\u00e7a e n\u00e3o \u00e9 visto mais como um tabu. Eu adoro ser trancista\u201d.<\/p>\n<p>Outro projeto que saiu do territ\u00f3rio S\u00e3o Domingos para ocupar o Largo do Ros\u00e1rio \u00e9 a F\u00e1brica de Biscoitos. Jana\u00edna Lopes de Moura, de 34 anos, conta que \u00e9 a primeira vez que a f\u00e1brica, criada para gera\u00e7\u00e3o de renda das mulheres quilombolas, sai do quilombo.<\/p>\n<p>Jana\u00edna diz que n\u00e3o pensa em sair do quilombo e fica feliz em poder ter uma fonte de renda estando perto dos filhos. O mais novo, de apenas um ano, j\u00e1 se interessa pela caretagem, dan\u00e7a de origem africana que passa de pai para filho nas comunidades de Paracatu.<\/p>\n<p>\u201cEu tenho um menino de 11 anos e ele n\u00e3o gosta. E eu ficava assim: ai meu Deus, eu n\u00e3o vou ter nenhum filho para dan\u00e7ar careta. Mas eu tive outro menino, que tem um ano e s\u00f3 de bater ele j\u00e1 t\u00e1 pulando. Ent\u00e3o, assim, \u00e9 uma coisa que t\u00e1 no sangue, que \u00e9 s\u00f3 viver. Eu amo a minha comunidade\u201d.<\/p>\n<p>Comunidade que vem da ancestralidade, de longos passos e que, se depender dos quilombolas, n\u00e3o se perder\u00e1. Rose Bispo se coloca como uma das respons\u00e1veis por esse processo, mas acredita que essa luta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 dela.<\/p>\n<p>\u201cTem um monte de gente que vem atr\u00e1s de mim. Eu trago aqui, atrav\u00e9s da minha voz, comunidades quilombolas, o hip hop, a capoeira, a dan\u00e7a afro\u201d.<\/p>\n<p>Itamar Vieira J\u00fanior, que participa do Fliparacatu pela segunda vez, acredita ser um privil\u00e9gio estar em uma cidade com tanta hist\u00f3ria, onde poderia ser ambientada a narrativa do seu livro, Torto Arado.<\/p>\n<p>\u201cAcho que [Paracatu] conta um cap\u00edtulo importante da hist\u00f3ria desse pa\u00eds, n\u00e9? Porque aqui se encontra essa diversidade. \u00c9 uma cidade com uma heran\u00e7a da di\u00e1spora, da forma\u00e7\u00e3o do Brasil, que ainda \u00e9 muito presente, marcante, t\u00e1 em todo lugar\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cPra eu falar hoje que eu sou uma mulher negra, quilombola, teve um pre\u00e7o muito alto\u201d. Quem afirma isso \u00e9 Rose Bispo, paracatuense de 47 anos que passou por uma longa jornada at\u00e9 entender que fazia parte de duas comunidades remanescentes de quilombos. Ela conta que a m\u00e3e n\u00e3o falava sobre o assunto. 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