{"id":335658,"date":"2024-08-31T22:45:36","date_gmt":"2024-09-01T01:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=335658"},"modified":"2024-08-31T22:47:14","modified_gmt":"2024-09-01T01:47:14","slug":"pimenta-volta-brigando-com-os-fantasmas-que-rondam-sua-consciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pimenta-volta-brigando-com-os-fantasmas-que-rondam-sua-consciencia\/","title":{"rendered":"Pimenta volta brigando com os fantasmas que rondam sua consci\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Ingressei no jornalismo nos anos 70 do s\u00e9culo passado. Na \u00e9poca, at\u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da reda\u00e7\u00e3o com o comercial era clara: ningu\u00e9m dava pitaco na \u00e1rea do outro. Portanto, nada de inger\u00eancia. E ai do chefe-mor, se ousasse ir contra as normas. Na melhor das hip\u00f3teses, perderia boa parte da equipe de rep\u00f3rteres, redatores e editores. O \u00fanico ambiente onde a escurid\u00e3o reinava era o laborat\u00f3rio fotogr\u00e1fico. Como n\u00e3o havia o hoje sistema digital, o recurso era uma c\u00e2mara escura para a revela\u00e7\u00e3o dos negativos. De luz, apenas uma l\u00e2mpada vermelha, semelhante \u00e0quelas de casas onde s\u00e3o gerados filhos sem que se conhe\u00e7am os pais.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, enquanto meus ent\u00e3o superiores imediatos (Cl\u00e1udio Coletti, Leleco e Ruy Lopes, da sucursal Bras\u00edlia da <em>Folha de S.Paulo<\/em>) me chamavam de &#8216;bagrinho com faro de tubar\u00e3o&#8217;, no Rio Grande do Sul Paulo Pimenta vivia a transi\u00e7\u00e3o do engatinhar para o levantar-se ereto, ou seja, com os p\u00e9s firmes no ch\u00e3o. N\u00e3o creio, por\u00e9m, que j\u00e1 se imaginaria, no futuro, jornalista que caminharia no caminho das trevas.<\/p>\n<p>Parlamentar de muitos mandatos, controverso, criador de problemas que geraram, por exemplo, o Mensal\u00e3o, Paulo Pimenta tem duas grandes virtudes: 1)incorporar, como protagonista, o papel de \u00e2ncora de um grande telejornal para ler not\u00edcias que tentem promover a imagem do chefe; e, 2) escolher a dedo, quatro, \u00e0s vezes cinco, amigos do peito. Um para fechar a tampa do caix\u00e3o. Os outros, para segurarem nas al\u00e7as at\u00e9 a cova final. Para esses, neg\u00f3cios lucrativos. Para os de quem j\u00e1 ouviu falar, as letras da lei impressas em um velho, amarelado e chamuscado papel.<\/p>\n<p>Pimenta deixa muito a desejar, a aprender. Ningu\u00e9m pode chutar balde de leite, independente do g\u00eanero que o produza, e sair ileso. O ministro extraordin\u00e1rio para assuntos de calamidade no Rio Grande do Sul (Estado que sonha governar, j\u00e1 provocando pesadelos nos ga\u00fachos) est\u00e1 de volta a Bras\u00edlia para reassumir a Secretaria de Comunica\u00e7\u00e3o Social da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Chega em meio ao esc\u00e2ndalo, quente tipo corpo de defunto rec\u00e9m anunciado, da contrata\u00e7\u00e3o de um pequeno grupo de empresas para cuidar das m\u00eddias digitais do Governo Lula 3. Como a lupa do Tribunal de Contas da Uni\u00e3o identificou aquelas famosas supostas manobras &#8216;para os amigos, tudo&#8217;, a licita\u00e7\u00e3o foi suspensa. Agora vem a Secom anunciar que decidiu cancelar o certame, promovendo, no devido tempo, outra concorr\u00eancia. Espera-se que dentro da legalidade.<\/p>\n<p>Depois de um per\u00edodo de afastamento provocado por suspeita de atos pouco republicanos (a cat\u00e1strofe l\u00e1 no Sul foi apenas uma m\u00e3ozinha da natureza para abafar muita coisa errada), o ministro retorna ao cargo como quem volta de uma viagem longa e exaustiva. Imagens produzidas pela c\u00e2mera de qualquer aparelho de telefonia celular mostram que seus olhos, vermelhos e ardendo como pimenta, n\u00e3o escondem o cansa\u00e7o e a tens\u00e3o desde que o TCU jogou \u00e1gua no chope da festa das ag\u00eancias de m\u00eddias digitais.<\/p>\n<p>A imprensa &#8211; a clara, n\u00e3o a obscura -, sempre atenta, registra cada detalhe de sua chegada. Os fot\u00f3grafos j\u00e1 disputam um \u00e2ngulo que registre o desgaste em seu rosto e o desconforto de sua postura, como para capturar o pr\u00f3prio cheiro da controv\u00e9rsia que Paulo Pimenta deixa transparecer.<\/p>\n<p>Fatos vivenciados ao longo dos anos permitem ilustrar o que se espera neste in\u00edcio de setembro. O ministro, que volta a comandar a Comunica\u00e7\u00e3o Social de Lula 3, vai entrar em seu gabinete sem alarde. O ar, por\u00e9m, estar\u00e1 carregado com a culpa da desconfian\u00e7a. Os funcion\u00e1rios v\u00e3o evitar olh\u00e1-lo diretamente nos olhos, talvez temendo ver refletidos neles os fantasmas de seus pr\u00f3prios supostos erros apontados pelo TCU. O clima ser\u00e1 de sil\u00eancio, interrompido apenas pelo clique suave dos teclados e pelo zumbido dos computadores.<\/p>\n<p>O desenho que se espera ver trar\u00e1 Pimenta ligando, com um movimento \u00e1gil, o computador em sua mesa. O monitor brilha, mas o ambiente \u00e9 de uma luz fria e artificial. As redes sociais v\u00e3o fervilhar com coment\u00e1rios \u00e1cidos, memes provocativos e hashtags que mais parecem l\u00e2minas afiadas, prontas para cortar qualquer tentativa de defesa que ele possa esbo\u00e7ar, principalmente quando faz, por imposi\u00e7\u00e3o de pessoas de moral, o que deveria ter feito antes: cancelar a licita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A cena transcorre sob suspiros. O ministro respira fundo. Ele sabe que, para sobreviver, precisa transformar esse terreno minado em um campo f\u00e9rtil para a imagem do governo. Ele precisa redigir a narrativa antes que ela seja escrita por jornalistas de verdade, descompromissados com a imprensa chapa-branca que vive sob os ausp\u00edcios do Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>A voz de Pimenta j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 firme. Sai embargada, com a l\u00edngua queimando, exigindo \u00e1gua como ant\u00eddoto de uma malagueta mordida em hora errada. Ele sabe que precisa virar a p\u00e1gina, mudar o discurso, mudar o estilo manchado e adotar a \u00e9tica da transpar\u00eancia. O ministro precisa ser claro. N\u00e3o \u00e9 todo cesto de pescador que rende uma carga de garoupas avaliada em dois milh\u00f5es de reais para um ou outro amigo.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 triste ver, por\u00e9m, que o novo discurso soar\u00e1 como um eco distante de tantas outras vezes em que promessas de mudan\u00e7a foram feitas e n\u00e3o cumpridas. O ministro, consciente disso, sente o peso da desconfian\u00e7a nos olhares dos profissionais de Publicidade e Marketing. E, claro (clareza \u00e9 tudo) no que se fala no Tribunal de Contas da Uni\u00e3o. Se a coisa continuar do jeito que est\u00e1, ser\u00e1 imposs\u00edvel apagar as manchas do passado. Ao contr\u00e1rio, \u00e9 maior o risco de criar novas cicatrizes.<\/p>\n<p>Pimenta precisa entender que uma virada no item m\u00eddias digitais n\u00e3o \u00e9 nenhum col\u00edrio milagroso capaz de fazer os olhos brilharem novamente. A rede \u00e9 clara, o er\u00e1rio \u00e9 claro e caro. E confian\u00e7a n\u00e3o se compra. Como se diz l\u00e1 na c\u00fapula do PT, o caminho da mudan\u00e7a, da credibilidade, \u00e9 longo. O ideal, avaliam at\u00e9 seus amigos mais pr\u00f3ximos, \u00e9 pedir as contas, reassumir o mandato de deputado federal e ficar a um canto do plen\u00e1rio, em sess\u00f5es vazias. Poder\u00e1 at\u00e9 ser visto, mas jamais ser ouvido quando o tema for m\u00eddias digitais.<\/p>\n<p>Paulo Pimenta n\u00e3o tem mais como lutar. Nem contra os fantasmas que insistem em rondar sua pr\u00f3pria consci\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ingressei no jornalismo nos anos 70 do s\u00e9culo passado. 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