{"id":336460,"date":"2024-09-14T08:22:40","date_gmt":"2024-09-14T11:22:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=336460"},"modified":"2024-09-14T09:11:17","modified_gmt":"2024-09-14T12:11:17","slug":"salvem-o-cerrado-bioma-que-leva-agua-e-vida-a-outras-regioes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/salvem-o-cerrado-bioma-que-leva-agua-e-vida-a-outras-regioes\/","title":{"rendered":"&#8216;Salvem o Cerrado, bioma que leva \u00e1gua e vida a outras regi\u00f5es&#8217;"},"content":{"rendered":"<p>Na ch\u00e1cara onde mora, em Bras\u00edlia, Marcos Woortmann aprende com o Cerrado o sentido de resili\u00eancia. Provedor de servi\u00e7os ambientais significativos para o pa\u00eds, sobretudo dentro de um foco hidrol\u00f3gico, o Cerrado vem sendo devastado pelo fogo. Mas as intemp\u00e9ries cotidianas n\u00e3o constrangem a pr\u00f3pria exist\u00eancia e o bioma encontra for\u00e7as para resfriar a atmosfera e alimentar com \u00e1gua e vida outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesta entrevista, Marcos Woortmann diz que \u00e9 importante celebrar o 11 de setembro, Dia do Cerrado; fala da luta cotidiana pela sobreviv\u00eancia do bioma, amea\u00e7ado pelas queimadas e pela cultura do agroneg\u00f3cio que, ao promover a retirada da vegeta\u00e7\u00e3o, cria ilhas de calor; e defende que a sociedade brasileira precisa se unir na luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Confira os detalhes a seguir:<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel fazer correla\u00e7\u00f5es entre desmatamento do Cerrado e aquecimento do Planalto Central?<\/strong><\/p>\n<p>O Cerrado \u00e9 um sistema biol\u00f3gico evolu\u00eddo muito complexo e completamente adaptado \u00e0 regi\u00e3o do Planalto Central do Brasil. \u00c9 um sistema \u00fanico. Considerado no pico de evolu\u00e7\u00e3o. Inclusive por ser o bioma presente em um dos solos mais antigos do Planeta. Exatamente por isso exposto \u00e0s intemp\u00e9ries e com sistemas biol\u00f3gicos em evolu\u00e7\u00e3o h\u00e1 milh\u00f5es de anos. Por essa raz\u00e3o, o Cerrado prov\u00ea toda uma sorte de servi\u00e7os ambientais muito significativos, sobretudo dentro de um foco hidrol\u00f3gico. Todo o processo de evapotranspira\u00e7\u00e3o, por exemplo, capitaneado pelo Cerrado, \u00e9 um processo que naturalmente resfria a atmosfera e tamb\u00e9m conduz os rios a\u00e9reos amaz\u00f4nicos pelo territ\u00f3rio nacional. Quando n\u00f3s falamos dos rios a\u00e9reos amaz\u00f4nicos, o Cerrado s\u00e3o as canaletas por onde eles se disseminam, se capilarizam pelo territ\u00f3rio. E quando a gente retira essa cobertura vegetal, esse fluxo \u00e9 completamente interrompido. Certas \u00e1reas v\u00e3o receber muita \u00e1gua, causando enchentes, outras \u00e1reas n\u00e3o v\u00e3o receber \u00e1gua. \u00c9 prov\u00e1vel que, nas duas \u00e1reas, haja grande aquecimento porque esse processo gradual, perene, de evapotranspira\u00e7\u00e3o, e a pr\u00f3pria cobertura do solo provida pela vegeta\u00e7\u00e3o, tem um efeito de tornar mais apraz\u00edvel a temperatura, mais prop\u00edcia \u00e0 vida humana, com menos extremos de calor. Ent\u00e3o, o modelo atual do agroneg\u00f3cio, que promove a retirada completa da vegeta\u00e7\u00e3o, sistemicamente cria ilhas de calor gigantescas nas regi\u00f5es do Planalto Central, sobretudo nas \u00e1reas periurbanas e rurais pr\u00f3ximas a aglomera\u00e7\u00f5es urbanas, que s\u00e3o as \u00e1reas de maior utiliza\u00e7\u00e3o do solo para fins de agricultura, com consequ\u00eancias imediatas no calor, sentido sobretudo por essas popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea defende a aprova\u00e7\u00e3o, pelo Congresso Nacional, de um benef\u00edcio de aux\u00edlio clim\u00e1tico emergencial para os afetados por eventos clim\u00e1ticos extremos, como enchentes e secas. Como, na pr\u00e1tica, funcionaria esse benef\u00edcio?<\/strong><\/p>\n<p>Esse \u00e9 uma mat\u00e9ria ainda em debate no Congresso Nacional. Para ser regulamentada, ela precisa estar adequada ao Sistema \u00danico de Assist\u00eancia Social (Suas) enquanto sistema de cobertura que assegura a observa\u00e7\u00e3o dos direitos. O direito \u00e0 seguran\u00e7a clim\u00e1tica, embora seja ainda um direito previsto apenas na PEC do Clima, em tramita\u00e7\u00e3o no congresso h\u00e1 v\u00e1rios anos, ainda n\u00e3o aprovada, \u00e9 derivada de outros direitos. Um processo ainda em discuss\u00e3o. E um ponto importante \u00e9 entender que \u00e9 necess\u00e1rio auxiliar as pessoas. E \u00e9 mais pr\u00e1tico tamb\u00e9m, como pa\u00eds, dar recursos diretamente \u00e0s pessoas afetadas por desastres clim\u00e1ticos. Todas as opera\u00e7\u00f5es de log\u00edstica, estruturantes do Estado brasileiro, como em qualquer lugar, demandam tempo. E a necessidade de realoca\u00e7\u00e3o, de atendimento imediato, n\u00e3o pode esperar por esse tipo de opera\u00e7\u00e3o. Por isso, garantir um benef\u00edcio imediato a popula\u00e7\u00f5es atingidas por cat\u00e1strofes, em primeiro lugar, alivia imediatamente o sofrimento dessas pessoas e, em segundo lugar, auxilia que contingentes muito expressivos dessas popula\u00e7\u00f5es possam, por si, sair da situa\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia em que se encontram, facilitando o trabalho estrutural a ser realizado pelo Estado. Esse \u00e9 o esp\u00edrito do projeto, que \u00e9 importante como garantia de direitos, como estrategicamente, considerando-se a probabilidade de as trag\u00e9dias clim\u00e1ticas se tornarem cada vez mais frequentes.<\/p>\n<p><strong>Que estrat\u00e9gias a economia pol\u00edtica brasileira pode adotar para enfrentar os desafios ambientais que amea\u00e7am a biodiversidade do pa\u00eds?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 necess\u00e1rio encarar a realidade como ela \u00e9. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar fechando os olhos para a realidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Hoje, um dos pilares da economia pol\u00edtica brasileira, o mais veemente, o mais militante, inclusive, \u00e9 o agroneg\u00f3cio. E esse modelo estabelecido ao longo dos s\u00e9culos na cultura pol\u00edtica brasileira \u00e9 absolutamente insustent\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel continuar um processo de remo\u00e7\u00e3o da cobertura do solo, produ\u00e7\u00e3o de monoculturas para exporta\u00e7\u00e3o baseada na capacidade h\u00eddrica de um pa\u00eds que depletou os seus recursos h\u00eddricos mais b\u00e1sicos, que s\u00e3o suas florestas. O modelo atual da agricultura \u00e9 baseado em uma riqueza que ela mesma vem destruindo. A riqueza da agricultura vem da riqueza h\u00eddrica do pa\u00eds, que vem da riqueza de florestas, que hoje est\u00e3o chegando a um ponto de n\u00e3o retorno, como \u00e9 o caso da Amaz\u00f4nia, cujo desmatamento, embora tenha ca\u00eddo, continua aumentando. Com aproximadamente mais 5% a 7% de desmatamento de sua \u00e1rea total, a Amaz\u00f4nia pode entrar em um ciclo de savaniza\u00e7\u00e3o sem retorno. Isso significa menos chuvas, maior concentra\u00e7\u00e3o de chuvas e, naturalmente, a quebra das safras. A economia pol\u00edtica brasileira tal como \u00e9, n\u00e3o sobreviver\u00e1 a esse processo. A n\u00e3o ser que se adapte. E, sobretudo, mude seu car\u00e1ter monocultor, concentrador de terra e voltado \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio diversificar o modo de produ\u00e7\u00e3o da terra para pr\u00e1ticas restaurativas, como agricultura sintr\u00f3pica, t\u00e9cnicas de permacultura, que permitam rota\u00e7\u00e3o de safras, consorciamento de safras e, sobretudo, um modo de agricultura que favore\u00e7a a recupera\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica do solo, que \u00e9 precisamente o modelo que existiu historicamente no Brasil, antes do descobrimento, respons\u00e1vel pela exist\u00eancia das terras mais f\u00e9rteis da Amaz\u00f4nia, que s\u00e3o as terras pretas de \u00edndio. Um modelo absolutamente vi\u00e1vel, que o Brasil tem como fazer. Tem ci\u00eancia e conhecimento para garantir a escalabilidade e as cadeias econ\u00f4micas necess\u00e1rias para substituir um modelo de produ\u00e7\u00e3o predat\u00f3rio de alimentos implementado no Brasil nos anos 1960 e que at\u00e9 hoje n\u00f3s pagamos o pre\u00e7o por isso.<\/p>\n<p><strong>Diante das trag\u00e9dias que assolam os biomas brasileiros, \u00e9 poss\u00edvel apontar algum avan\u00e7o no poder legislativo em busca de solu\u00e7\u00f5es efetivas para as consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/p>\n<p>Sim. Existem vit\u00f3rias e elas s\u00e3o importantes. Destaco a aprova\u00e7\u00e3o da PL 4129 de 2021, que traz a obrigatoriedade e as diretrizes para a constru\u00e7\u00e3o de planos de adapta\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica para estados e munic\u00edpios. Um projeto que foi debatido e constru\u00eddo a muitas m\u00e3os, com grande participa\u00e7\u00e3o da sociedade civil, da academia e de especialistas, trazendo bons exemplos constru\u00eddos no Brasil e no exterior e que, espero, o Brasil possa colher os frutos j\u00e1 em curto prazo, a partir da aproxima\u00e7\u00e3o do poder p\u00fablico com a realidade das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e, dentro de um processo democraticamente conduzido, tamb\u00e9m a sociedade civil possa se engajar nisso e conduzir diversos n\u00edveis de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. \u00c9 importante considerar que a escala de adapta\u00e7\u00e3o de cidades \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 gigantesca. Envolve n\u00facleos urbanos, comunidades perif\u00e9ricas, \u00e1reas periurbanas, al\u00e9m de condom\u00ednios, unidades domiciliares, sistemas de transporte, de produ\u00e7\u00e3o de energia, de produ\u00e7\u00e3o de energia, de produ\u00e7\u00e3o de alimento, de seguran\u00e7a h\u00eddrica. Tudo isso \u00e9 absolutamente urgente e, nesse caso, o Congresso Nacional deu uma resposta adequada e, espero, possamos colher, como pa\u00eds, os resultados disso.<\/p>\n<p><strong>Como a sociedade civil pode reagir para resistir a tudo isso?<\/strong><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a sociedade precisa votar conscientemente, entender a import\u00e2ncia da pol\u00edtica. Pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de debates dentro de uma moda, ou dentro de uma opini\u00e3o massificada e dentro de um comportamento de manada que acontece de quatro em quatro anos. A pol\u00edtica \u00e9 no dia-a-dia. \u00c9 uma decis\u00e3o de engajamento. Entender que as solu\u00e7\u00f5es s\u00f3 podem ser resolvidas coletivamente. No caso do clima, por exemplo, \u00e9 muito comum as pessoas se preparem para um aquecimento iminente com a instala\u00e7\u00e3o de um ar condicionado. Mas se as pessoas de todo o edif\u00edcio colocam ar condicionado, a energia cai. Ou seja, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel se adaptar \u00e0 realidade complexa que temos agora, fora da pol\u00edtica. Por isso \u00e9 necess\u00e1rio um amadurecimento profundo por parte da sociedade brasileira que n\u00e3o est\u00e1 acostumada com a democracia, um exerc\u00edcio recente da sociedade brasileira. Um exerc\u00edcio \u00e1rduo que se inicia com o voto, mas n\u00e3o termina com o voto. A democracia precisa se estabelecer no dia-a-dia, na cobran\u00e7a \u00e0s autoridades, na participa\u00e7\u00e3o, no engajamento. Essa \u00e9 a cultura pol\u00edtica que precisamos no Brasil. E ela ir\u00e1 acontecer: nesta e nas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como comemorar, com esperan\u00e7a, o Dia do Cerrado?<\/strong><\/p>\n<p>Eu vivo em uma ch\u00e1cara, imerso no Cerrado, o bioma que me inspira profundamente com sua resili\u00eancia, sua capacidade de ressurgimento e de vencer as dificuldades onde ele est\u00e1 posto, que constrangem a sua exist\u00eancia. Os solos pouco f\u00e9rteis, o fogo, as intemp\u00e9ries. E ele nos inspira a termos uma resili\u00eancia interna muito grande, entendermos que, neste momento, precisamos nos fortalecer. A nossa sociedade precisa se inspirar nesse bioma que alimenta de \u00e1gua e de vida tantos outros biomas e nosso pa\u00eds como um todo. Nesse sentido, 11 de setembro, Dia do Cerrado, precisa ser um chamado \u00e0 resist\u00eancia at\u00e9 quando possamos celebrar vit\u00f3rias para garantir as condi\u00e7\u00f5es de vida do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na ch\u00e1cara onde mora, em Bras\u00edlia, Marcos Woortmann aprende com o Cerrado o sentido de resili\u00eancia. Provedor de servi\u00e7os ambientais significativos para o pa\u00eds, sobretudo dentro de um foco hidrol\u00f3gico, o Cerrado vem sendo devastado pelo fogo. 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