{"id":336683,"date":"2024-09-17T07:10:34","date_gmt":"2024-09-17T10:10:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=336683"},"modified":"2024-09-17T07:25:00","modified_gmt":"2024-09-17T10:25:00","slug":"rotina-e-correr-comer-dormir-acordar-morrer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/rotina-e-correr-comer-dormir-acordar-morrer\/","title":{"rendered":"Rotina \u00e9 correr, comer, dormir, acordar, morrer&#8230;"},"content":{"rendered":"<p>Comer o conto ou como uma cr\u00f4nica. Na hora de jantar, come qualquer coisa quando chegar em casa. Quando chegar em casa arroz e feij\u00e3o ou quando chegar em casa s\u00f3 arroz que feij\u00e3o est\u00e1 caro. E se chegar em casa: calor, banho e cobertas; se chegar em casa com a conta de luz j\u00e1 paga. Quando chegar em casa: amor? Por enquanto o amor ser\u00e1 apenas uma pergunta, quase uma promessa, ou um prato que comer\u00e1 no jantar. Fome, motorista, fome que eu nem vi crescer, quando na noite o \u00f4nibus passa de supet\u00e3o, quem est\u00e1 mais atrasado eu ou a exposi\u00e7\u00e3o de carnes no a\u00e7ougue? Porque sentado, sinto um frio que percorre os tubos desse ar condicionado e a janela sem passagens, as janelas apenas como um proj\u00e9til decorativo, se o amor voasse l\u00e1 fora, ningu\u00e9m conseguiria toc\u00e1-lo, mesmo que no escuro pudessem v\u00ea-lo porque \u00e9 brilhante.<\/p>\n<p>Uma fam\u00edlia sobe no \u00f4nibus, toma lugar logo nos primeiros bancos, porque mais perto do motorista, a chegada parece que chega mais cedo. Uma m\u00fasica nos fones, uma conversa, amenidades em toda parte, o \u00f4nibus segue viagem, uma mensagem de whatsapp, um reels, um tik tok, tik tok, o \u00f4nibus para, o ar \u00e9 desligado, algu\u00e9m grita, n\u00e3o se entende muito bem o que est\u00e1 acontecendo, ser\u00e1 que o \u00f4nibus quebrou? Dois fiscais e uma fam\u00edlia batem boca l\u00e1 da frente, agora mais essa! os outros passageiros pedem miseric\u00f3rdia para o motorista (pelo amor de Deus, motorista, me deixa chegar em casa), o que est\u00e1 acontecendo aqui?<\/p>\n<p>\u00c9 inverno e o frio n\u00e3o veio, mas o sol continua se pondo como antes, a tarde ficando escura mais r\u00e1pido, o pacote de dados que acaba, a mensagem que n\u00e3o chega, o \u00f4nibus que n\u00e3o anda, como a agonia dentro do rebanho que caminha para o abate. Um dos fiscais grita, Eles n\u00e3o querem pagar a passagem, gente , e j\u00e1 est\u00e3o at\u00e9 com a nota na m\u00e3o, mas n\u00e3o querem pagar e se recusam a descer do \u00f4nibus, j\u00e1 chamamos o coordenador. Mais pedidos por miseric\u00f3rdia, nada do coordenador chegar, a fam\u00edlia alega que foi tratada mal por um dos fiscais e s\u00f3 de revolta, n\u00e3o vai pagar&#8230; at\u00e9 que um rapaz, an\u00f4nimo e negro, l\u00e1 nos fundos se levanta como um Exu muito elegante, vai ao painel, gira a catraca duas vezes, roda-a como uma ciranda, diz que est\u00e1 pago e pede ao motorista para continuar a viagem.<\/p>\n<p>O \u00f4nibus \u00e9 ligado, o coordenador chega no \u00faltimo minuto, a fiscal pede que ele entre s\u00f3 para ver o rosto da fam\u00edlia, pai, m\u00e3e e filho, ent\u00e3o os fiscais e o coordenador saem, j\u00e1 n\u00e3o precis\u00e1vamos mais deles, se \u00e9 que em algum momento tiv\u00e9ssemos precisado deles, finalmente o \u00f4nibus d\u00e1 partida, o casal sentado nos primeiros bancos, porque mais perto do motorista, a chegada parece que chega mais r\u00e1pido, as rajadas frias e mortas do ar condicionado que voltou a circular nas tubula\u00e7\u00f5es, todos pareciam suportar o peso do clima que ficou, mas em alguns a fome j\u00e1 era t\u00e3o grande que n\u00e3o poderiam ouvir outra coisa que n\u00e3o fosse as zoadas nos por\u00f5es dos pr\u00f3prios est\u00f4magos negreiros. Quem \u00e9 que trabalha e passeia e faz compras no baixo centro? Quem \u00e9 que anda na Caet\u00e9s? Quem \u00e9 que pega \u00f4nibus na Tupinamb\u00e1s? Quem \u00e9 que perde a vida na Pra\u00e7a Rio Branco? Quem \u00e9 que n\u00e3o se d\u00e1 na Guaicurus?<\/p>\n<p>Por algum motivo fiquei pensando no que \u00e9 gentileza urbana e talvez seja n\u00e3o se saber a inten\u00e7\u00e3o, mesmo tendo-a, e ajudando a si mesmo, ajuda um pouquinho a todo mundo ou n\u00e3o ajuda, porque a fam\u00edlia num \u00edmpeto de dignidade passa uma nota de dez reais, como num Pix anal\u00f3gico de conex\u00e3o muito antiga e humana, at\u00e9 aos assentos do fundo que parece que demora mais para chegar, e a nota n\u00e3o retornou.<\/p>\n<p>Provavelmente essa mulher, a voz da fam\u00edlia o tempo todo, n\u00e3o queria pagar diante do fiscal porque, por algum motivo, encontrou algum desrespeito ao entrar, mas que eventualmente quando o \u00f4nibus rompesse, ela pagaria para o motorista, a nota j\u00e1 estava na m\u00e3o. O outro abriu os caminhos, com uma m\u00edsera perda de cinquenta centavos e o imenso lucro de ser um her\u00f3i diante de n\u00f3s, no meio de tanta gente de contenda e que n\u00e3o fizeram nada. Contudo, depois de todos esses dias e da aula sobre ECA que tive hoje, me sobra apenas o pensamento naquela crian\u00e7a e concluo que, inclusive a quebra de direitos, est\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o da pressa de chegar logo, para jantar logo, para dormir logo, para acordar logo, para morrer logo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comer o conto ou como uma cr\u00f4nica. Na hora de jantar, come qualquer coisa quando chegar em casa. Quando chegar em casa arroz e feij\u00e3o ou quando chegar em casa s\u00f3 arroz que feij\u00e3o est\u00e1 caro. 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