{"id":336862,"date":"2024-09-19T15:47:35","date_gmt":"2024-09-19T18:47:35","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=336862"},"modified":"2024-09-19T21:50:19","modified_gmt":"2024-09-20T00:50:19","slug":"instituto-cultiva-poe-pontos-nos-ii-na-obra-de-paulo-freire","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/instituto-cultiva-poe-pontos-nos-ii-na-obra-de-paulo-freire\/","title":{"rendered":"Instituto Cultiva p\u00f5e pontos nos ii na obra de Paulo Freire"},"content":{"rendered":"<p>O nome do recifense Paulo Freire est\u00e1 na boca de brasileiros e estrangeiros que, ou recha\u00e7am os princ\u00edpios de sua filosofia, ou aderem a eles em plena entrega. No caso do advogado, educador e ex-secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o da capital paulista Rud\u00e1 Ricci, a quantidade de equ\u00edvocos em torno do que defendia como m\u00e9todo \u00e9 enorme. Foi com o objetivo de refutar algumas distor\u00e7\u00f5es que o Instituto Cultiva lan\u00e7ou nesta quinta-feira (19) a s\u00e9rie digital &#8220;Os 7 Mitos sobre Paulo Freire&#8221;.<\/p>\n<p>Paulo Freire nasceu na capital pernambucana, em 19 de setembro de 1921. Naquela \u00e9poca, ainda n\u00e3o havia o movimento manguebeat denunciando o que sairia de resultado ap\u00f3s uma an\u00e1lise da cidade pela perspectiva do desenvolvimento social.<\/p>\n<p>O cientista pol\u00edtico Rud\u00e1 Ricci, ex-aluno do educador e atual presidente do Instituto Cultiva, narra como conheceu a obra de Paulo Freire e como o viu, pessoalmente, pela primeira vez.<\/p>\n<p>Aos 16 anos, o paulista Ricci j\u00e1 mantinha contato com lideran\u00e7as de movimentos sociais do Nordeste e lia, entre outros autores, Freire. Quando cursava direito, na Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo (PUC-SP), decidiu comparecer a um evento com o educador. Mas subestimou o n\u00famero de interessados no evento, chegou em cima da hora e acabou n\u00e3o conseguindo se aproximar dele. Por vezes, cabulou as aulas do curso de gradua\u00e7\u00e3o para assistir \u00e0s de Freire, no andar da P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o com a permiss\u00e3o de Freire, sob a condi\u00e7\u00e3o de entregar todos os trabalhos cobrados dos demais.<\/p>\n<p>&#8220;Acho que ele n\u00e3o acreditou muito, mas eu agi como tinha me comprometido. Tempos depois, ele me convidou para um semin\u00e1rio que acontecia s\u00e1bado de manh\u00e3, em uma sala bem maior da PUC, a 333. Eu fui e, de novo, levei um susto. Tinha gente sentada no ch\u00e3o, de tanta gente, um audit\u00f3rio de 200 pessoas. Tinha gente do mundo inteiro, o que me deixava mais surpreso. Eu pensava: como \u00e9 que algu\u00e9m pega um avi\u00e3o da Finl\u00e2ndia para assistir a uma aula dele no s\u00e1bado? Era gente da Argentina, uma coisa muito impressionante. E as aulas dele eram muito diferentes. Ele pegava um livro dele ou outro e n\u00e3o passava de uma p\u00e1gina. Ele lia um par\u00e1grafo, parava, comentava uma coisa que ele tinha passado na Europa, na \u00c1frica, retornava, fazia refer\u00eancias a outros autores&#8221;, relembra.<\/p>\n<p>A primeira vez que ouviu falar da Escola de Frankfurt, que criticava as consequ\u00eancias do capitalismo em diversas dimens\u00f5es sociais, foi nessa fase. &#8220;Era realmente um semin\u00e1rio, muito sofisticado. Ele me chamou para ser alfabetizador de adultos, primeiro, da PUC. Eram faxineiras, porteiros dos pr\u00e9dios. E foi a\u00ed que entrei de vez no mundo da educa\u00e7\u00e3o. Me tornei amigo dele. Ele foi secret\u00e1rio da [Luiza] Erundina, eu fui subsecret\u00e1rio da administra\u00e7\u00e3o regional. A\u00ed, foi uma aproxima\u00e7\u00e3o mesmo, mais te\u00f3rica, mas tamb\u00e9m afetiva. Ele era uma esp\u00e9cie de um av\u00f4, muito cuidadoso. A\u00ed, a minha carreira foi a partir do Paulo Freire, voc\u00ea imagina&#8221;, recorda.<\/p>\n<p>Conforme o representante do Cultiva, Paulo Freire entendia que a dimens\u00e3o pol\u00edtica estava na rela\u00e7\u00e3o do educador com o educando. Ricci esclarece que, para o pensador, o educador n\u00e3o deve ensinar ao aluno o que ele deveria ser.<\/p>\n<p>&#8220;Ele dizia que isso \u00e9 o pior dos educadores ou pol\u00edticos que querem transformar o mundo e est\u00e3o a servi\u00e7o de quem \u00e9 marginalizado. Dizia: olha, tem muito revolucion\u00e1rio que pensa a revolu\u00e7\u00e3o para ele ter mais poder, para ele derrubar quem est\u00e1 no poder e ele assumir esse lugar, mas ele n\u00e3o quer transforma\u00e7\u00e3o. O que eu destacaria \u00e9 como ele obrigava a gente a ter autocontrole sobre a puls\u00e3o do pr\u00f3prio educador, a \u00e2nsia do educador, a vontade de mudar de qualquer jeito, no tapa&#8221;, salienta.<\/p>\n<p>Ricci explica que a vertente concebida por Paulo Freire leva em considera\u00e7\u00e3o o contexto de cada estudante e exemplifica com um caso em que a aluna testemunhou o assassinato do pr\u00f3prio irm\u00e3o, executado por traficantes de drogas, na porta de seu col\u00e9gio, epis\u00f3dio que fez com que n\u00e3o conseguisse mais frequentar as aulas, por conta do trauma. A dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o decidiu, ent\u00e3o, trocar o hor\u00e1rio de suas aulas para ajud\u00e1-la. &#8220;Eles perceberam que, se mudasse o turno dela, talvez mudasse o ambiente, aquela mem\u00f3ria. Mudando o turno, ela desabrochou&#8221;, relata.<\/p>\n<p>Rud\u00e1 Ricci ainda destaca que a educa\u00e7\u00e3o deve se basear na rela\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o somente na t\u00e9cnica, questionando a validade de indicadores de desempenho como \u00fanica forma de avalia\u00e7\u00e3o do ensino.<\/p>\n<p>&#8220;O Paulo Freire vai dizer que a t\u00e9cnica s\u00f3 tem que estar a servi\u00e7o da sala de aula quando eu tenho, primeiro, um diagn\u00f3stico social do aluno. Se o aluno passa fome, como \u00e9 que vai se concentrar em uma conta matem\u00e1tica? Se sofre abuso sexual, como \u00e9 que eu vou acolh\u00ea-lo para ele estudar geografia? Ele vai dizer: isso \u00e9 problema do professor, mas n\u00e3o \u00e9 problema isolado do professor. \u00c9 problema da secretaria, dos governos, do projeto de pol\u00edtica p\u00fablica do Brasil. Isso significa o qu\u00ea? Que a escola n\u00e3o se basta e o professor n\u00e3o se basta. Voc\u00ea precisa ter, pelo menos, uma articula\u00e7\u00e3o entre a escola, a sa\u00fade e a assist\u00eancia social&#8221;, acrescenta.<\/p>\n<p>Pela linha de pedagogia freiriana, que tem a humaniza\u00e7\u00e3o e a emancipa\u00e7\u00e3o como refer\u00eancias, os pr\u00f3prios educadores s\u00e3o transformados. Ricci conta que sai sempre esgotado de qualquer aula, porque fica vigiando suas rea\u00e7\u00f5es e as de sua turma, enquanto se esfor\u00e7a para encontrar as melhores deixas para dialogar efetivamente com os alunos, com base em trocas genu\u00ednas. Al\u00e9m disso, cunhou o termo sil\u00eancio t\u00e1tico, capaz de aumentar as possibilidades de di\u00e1logo quando o educador cont\u00e9m suas manifesta\u00e7\u00f5es diante de um aluno que pensa diferente dele, criando um ambiente de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Segundo Ricci, Paulo Freire dizia que o educador deve sempre observar as express\u00f5es dos alunos durante a aula, o envolvimento deles, se as palavras s\u00e3o entendidas ou n\u00e3o, se as palavras trazem ensinamento ou provoca\u00e7\u00e3o, se a sala de aula \u00e9 um espa\u00e7o para d\u00favida e se os estudantes est\u00e3o sendo respeitados.<\/p>\n<p>&#8220;O Paulo falava o tempo todo isso: voc\u00ea n\u00e3o vai negar o que voc\u00ea \u00e9 ou o que voc\u00ea pensa, mas voc\u00ea tem que saber o momento em que voc\u00ea deve falar o que pensa. Porque, se voc\u00ea falar no momento errado, voc\u00ea humilha o aluno. Porque o educador vai sempre ter autoridade, sempre \u00e9 diferente do aluno, mas a forma como ele se apresenta \u00e9 que deve ser democr\u00e1tica&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>Confira abaixo a lista dos mitos<br \/>\n<strong>1. Paulo Freire n\u00e3o educa, mas doutrina.<\/strong><br \/>\nFreire sempre defendeu que o aluno tivesse condi\u00e7\u00f5es de pensar por si pr\u00f3prio e questionar a realidade.<\/p>\n<p><strong>2. O Brasil adotou o m\u00e9todo freireano.<\/strong><br \/>\nSua metodologia nunca foi aplicada em \u00e2mbito nacional, mas apenas em escolas espec\u00edficas.<\/p>\n<p><strong>3. Seu m\u00e9todo foi respons\u00e1vel pelo aumento do analfabetismo.<\/strong><br \/>\nOs problemas educacionais no Brasil v\u00eam de outros fatores, como a desigualdade social e a falta de investimentos em educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>4. Paulo Freire nunca lecionou.<\/strong><br \/>\nPaulo Freire foi professor de portugu\u00eas no Recife e ocupou diversas fun\u00e7\u00f5es na educa\u00e7\u00e3o, desde o Sesi at\u00e9 universidades como Harvard e a Unicamp.<\/p>\n<p><strong>5. O m\u00e9todo de Paulo Freire \u00e9 um fracasso.<\/strong><br \/>\nO m\u00e9todo de Paulo Freire \u00e9 refer\u00eancia na Finl\u00e2ndia, que frequentemente lidera rankings internacionais de educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>6. Com Paulo Freire o professor perdeu autoridade.<\/strong><br \/>\nFreire nunca defendeu uma educa\u00e7\u00e3o sem autoridade, desde que o professor a exercesse de forma democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>7. Quem segue Paulo Freire \u00e9 comunista.<\/strong><br \/>\nPaulo Freire n\u00e3o s\u00f3 se distanciava da doutrina leninista, como tamb\u00e9m criticava os revolucion\u00e1rios que n\u00e3o dialogavam com a base social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nome do recifense Paulo Freire est\u00e1 na boca de brasileiros e estrangeiros que, ou recha\u00e7am os princ\u00edpios de sua filosofia, ou aderem a eles em plena entrega. No caso do advogado, educador e ex-secret\u00e1rio de Educa\u00e7\u00e3o da capital paulista Rud\u00e1 Ricci, a quantidade de equ\u00edvocos em torno do que defendia como m\u00e9todo \u00e9 enorme. 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