{"id":336913,"date":"2024-09-20T01:58:04","date_gmt":"2024-09-20T04:58:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=336913"},"modified":"2024-09-20T02:25:08","modified_gmt":"2024-09-20T05:25:08","slug":"ha-um-santo-a-menos-no-paraiso-e-a-culpa-e-das-formigas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/ha-um-santo-a-menos-no-paraiso-e-a-culpa-e-das-formigas\/","title":{"rendered":"H\u00e1 um santo a menos no para\u00edso&#8230; e a culpa \u00e9 das formigas"},"content":{"rendered":"<p>Pedrinho, oito anos, era um garoto igual aos outros. Jogava bola, rodava pi\u00e3o, soltava cafifa, aprendia palavr\u00f5es (um vocabul\u00e1rio novo e fascinante), se tocava todos os dias (uma pr\u00e1tica nova, fascinante e, em especial, muito gostosa). S\u00f3 havia uma diferen\u00e7a entre ele e o resto da molecada: Pedrinho decidiu virar santo.<\/p>\n<p>Influ\u00eancia da fam\u00edlia, cat\u00f3lica na \u00faltima. E da primeira comunh\u00e3o, feita h\u00e1 pouco tempo. E do racioc\u00ednio l\u00f3gico do menino.<\/p>\n<p>\u201cPorra, eu n\u00e3o peco\u201d, dizia para si mesmo. \u201cPalavr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 pecado, \u00e9 modo de falar. Punheta n\u00e3o \u00e9 pecado, e se for, \u00e9 perdo\u00e1vel, todo mundo bate uma. Ent\u00e3o, se eu rezar bastante, viro santo.\u201d<\/p>\n<p>L\u00f3gica impec\u00e1vel. O garoto pegou uma toalha no banheiro e foi para o quintal. Estendeu a toalha no ch\u00e3o, para proteger de pedrinhas, ajoelhou-se e come\u00e7ou a rezar. S\u00f3 Padre Nosso e Ave Maria, emendando um no outro.<\/p>\n<p>Meia hora depois, come\u00e7ou a dar fome (era gordinho, comia pra ded\u00e9u). Mas foi em frente. Uma hora depois, come\u00e7ou a prestar aten\u00e7\u00e3o no canto dos passarinhos, nas risadas que vinham da rua&#8230; Concluiu que eram armadilhas enviadas pelo Coisa Ruim para distra\u00ed-lo e continuou a rezar. Uma hora e meia depois, passou a se achar um idiota por estar rezando no quintal; podia estar batendo uma bolinha com os amigos&#8230; Percebeu que esses pensamentos eram uma nova investida do Maligno, que n\u00e3o queria que ele virasse santo. Afastou-os e prosseguiu, imp\u00e1vido.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed vieram as formigas. Vieram em fila, como as formigas costumam andar, subiam no tapete, passavam junto a sua bunda (n\u00e3o estava mais de joelhos, do\u00eda, sentara no ch\u00e3o) e cravavam os ferr\u00f5es. N\u00e3o todas, para sorte dele; mas em n\u00famero suficiente para se co\u00e7ar com for\u00e7a e xingar as filhas da puta, entre uma Ave Maria e outra.<\/p>\n<p>Claro que Pedrinho poderia ter mudado de lugar, indo para longe da trilha das formigas. Mas achou que era um novo desafio do Cramulh\u00e3o, para ver se ele tinha for\u00e7a de vontade para se tornar mesmo santo. Ent\u00e3o, ofereceu sua dor na bunda a Deus e continuou a rezar \u2013 e a xingar a porra das formigas.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o deu. Tinha formiga demais, seu traseiro j\u00e1 estava todo empolado. Resignado, desistiu da santidade naquele dia, levantou-se, sacudiu a toalha \u2013 ca\u00edram umas quatro formigonas \u2013 foi pra casa, p\u00f4s a toalha pra lavar e tomou um banho, pra diminuir a dor no bumbum.<\/p>\n<p>O diab\u00e3o venceu. Pedrinho nunca mais tentou ser santo. E nunca mais rezou, pelo resto de sua vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedrinho, oito anos, era um garoto igual aos outros. Jogava bola, rodava pi\u00e3o, soltava cafifa, aprendia palavr\u00f5es (um vocabul\u00e1rio novo e fascinante), se tocava todos os dias (uma pr\u00e1tica nova, fascinante e, em especial, muito gostosa). S\u00f3 havia uma diferen\u00e7a entre ele e o resto da molecada: Pedrinho decidiu virar santo. 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