{"id":336954,"date":"2024-09-21T08:45:22","date_gmt":"2024-09-21T11:45:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=336954"},"modified":"2024-09-21T08:49:32","modified_gmt":"2024-09-21T11:49:32","slug":"gente-humilde-do-domino-supera-a-plutocracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/gente-humilde-do-domino-supera-a-plutocracia\/","title":{"rendered":"Gente humilde do domin\u00f3 supera a plutocracia"},"content":{"rendered":"<p>Caminhando sem pressa pela cal\u00e7ada, eu passei ao lado de dezenas de homens formando uma roda em volta de uma mesa de concreto. Subitamente, ecoando entre as diversas silhuetas, ouvi um grito estrondoso.<\/p>\n<p>\u2014 Fala, professor!<\/p>\n<p>Imediatamente eu parei, me virei de lado e, mesmo me esfor\u00e7ando, n\u00e3o consegui distinguir a fisionomia da pessoa me chamando. Mas, com certeza, tratava-se de algum dos meus ex-alunos. Mesmo assim, de longe, acenando com a m\u00e3o, respondi ao cumprimento informal.<\/p>\n<p>\u2014 E a\u00ed, tudo beleza?<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o epis\u00f3dio, eu continuei andando. No meio do caminho, comecei a refletir sobre aqueles homens, a maioria velhos aposentados, de rostos sulcados e cabelos grisalhos parados sob a generosa sombra de uma \u00e1rvore. No mesmo ritual sagrado de todos os dias, sentados nos bancos de cimento, quatro deles formavam duplas, se concentravam e jogavam acirradas partidas de domin\u00f3. A cada segundo, as pe\u00e7as retangulares, com uma das faces marcada por pontos indicando valores num\u00e9ricos, suscitavam um barulho cortante sobre o tabuleiro quadriculado de madeira jazendo sobre a mesa de concreto. Mas, por que jogar as pedras com tanta for\u00e7a? Seria para dar mais emo\u00e7\u00e3o ao jogo? Provavelmente. Por\u00e9m, para completar, as disputas aconteciam entre gritos, desafios, blefes, manhas e artimanhas. Afinal, mesmo sem valer nada, ningu\u00e9m queria perder para ficar de fora esperando a pr\u00f3xima vez.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, rodeando as duplas de jogadores, os outros homens aguardavam ansiosos pela vez de entrar no jogo. Enquanto esperavam, alguns davam pitacos, torciam para qualquer lado e criticavam as jogadas erradas no meio de um pequeno vacilo. Outros, por sua vez, sentados em um banco de madeira improvisado, conversavam sobre futebol, pol\u00edtica e o custo de vida. Ao lado do grupo, um velho magro, quase t\u00edsico e de cabelos totalmente grisalhos, tamb\u00e9m esperava. Mas, enquanto isso, como mascate experiente, vendia panelas, bacias, pratos, copos, tapetes e outros utens\u00edlios amontoados dentro de um carrinho de m\u00e3o de duas rodas.<\/p>\n<p>No entanto, as partidas ocorriam no mais puro respeito m\u00fatuo entre os jogadores, os torcedores e mesmo as pessoas passando de um lado para o outro. Nada de palavr\u00f5es, gestos obscenos, brigas, ofensas verbais e agress\u00f5es f\u00edsicas. Nada de desaven\u00e7as, mas somente bocejos de lassid\u00e3o, euforias, sorrisos vitoriosos e lamenta\u00e7\u00f5es pelo azar no momento triste da derrota.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, o que dizer destes homens? S\u00e3o desocupados? S\u00e3o malandros? S\u00e3o vagabundos? Nada disso! S\u00e3o, na maioria, aposentados, trabalhadores nas poucas horas de folga e mesmo alguns aventureiros passando pelo local. S\u00e3o, com certeza, pessoas honestas, probas e de boa \u00edndole buscando momentos ef\u00eameros de lazer, alegria e passatempo para espantar a ociosidade da vida dif\u00edcil na luta pela sobreviv\u00eancia. S\u00e3o cidad\u00e3os brasileiros, resilientes e literalmente verdadeiros her\u00f3is.<\/p>\n<p>Certa hora, eu parei, olhei mais uma vez para tr\u00e1s e estendi as minhas reflex\u00f5es. Pensei no Brasil de uma sociedade vil, inescrupulosa e hip\u00f3crita. No Brasil das injusti\u00e7as, das desigualdades sociais e da viol\u00eancia visceral. Pensei no ninho de cobras formado por pol\u00edticos desprez\u00edveis atolados na lama da corrup\u00e7\u00e3o, roubos e falcatruas disseminando mentiras, \u00f3dio, viol\u00eancia, intoler\u00e2ncia e vivendo em detrimento da mis\u00e9ria do povo. Voando mais alto pelo mundo, pensei nos dirigentes das na\u00e7\u00f5es mais belicosas ami\u00fade conspirando contra a paz, planejando guerras insanas para matar inocentes, principalmente crian\u00e7as, no mero intuito de enriquecer ind\u00fastrias armamentistas. E, para piorar, no meio desses hip\u00f3critas, est\u00e3o muitos velhos grisalhos. Sim, velhos asquerosos dando exemplos expl\u00edcitos de que nem sempre velhice \u00e9 sinal de intelig\u00eancia, sapi\u00eancia e amor.<\/p>\n<p>Dessa forma, em poucos minutos completei meu racioc\u00ednio, minhas reflex\u00f5es e minhas elucubra\u00e7\u00f5es. Sinceramente? Comparados aos homens arrogantes, poderosos, prepotentes, corruptos, ladr\u00f5es, d\u00e9spotas e cheios de irracionalidades pretensiosas em suas a\u00e7\u00f5es nocivas, eu prefiro os homens honestos, humildes, educados, simples, alegres e de racionalidades despretensiosas no meio das acirradas partidas de domin\u00f3. Sabe por qu\u00ea? Porque todos foram, e alguns ainda s\u00e3o, trabalhadores quase sempre invis\u00edveis para a sociedade. Uma sociedade, na verdade, dominada h\u00e1 s\u00e9culos por uma indiger\u00edvel plutocracia. Sim, sem d\u00favida alguma, os inofensivos jogadores de domin\u00f3 s\u00e3o muito mais \u00fateis para o bem da humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caminhando sem pressa pela cal\u00e7ada, eu passei ao lado de dezenas de homens formando uma roda em volta de uma mesa de concreto. Subitamente, ecoando entre as diversas silhuetas, ouvi um grito estrondoso. \u2014 Fala, professor! 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