{"id":337024,"date":"2024-09-22T07:56:04","date_gmt":"2024-09-22T10:56:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337024"},"modified":"2024-09-22T15:49:51","modified_gmt":"2024-09-22T18:49:51","slug":"policia-prende-raimundo-mas-o-artista-mantem-sua-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/policia-prende-raimundo-mas-o-artista-mantem-sua-liberdade\/","title":{"rendered":"Pol\u00edcia prende Raimundo, mas o artista mant\u00e9m sua liberdade"},"content":{"rendered":"<p>Passava parte do dia sentado nos degraus da escadaria do museu, oferecendo pequenas esculturas feitas com galhos e folhas. N\u00e3o que vivesse nas ruas, porque s\u00f3 ficava ali por tr\u00eas dias da semana, a fim de conseguir dinheiro e comprar mantimentos. Nos outros momentos, se refugiava em um casebre, em uma \u00e1rea de reserva ambiental muito pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>Vamos cham\u00e1-lo de Raimundo, como s\u00e3o tantos brasileiros.<\/p>\n<p>Raimundo \u00e9 nordestino, pouco letrado, mas dotado de um talento autodidata. Quando chegou \u00e0 cidade grande, logo sentiu na pele a dificuldade de se empregar. Gra\u00e7as a um pequeno servi\u00e7o de entrega, conheceu a reserva ambiental que cercava as belas casas, onde servira. Seu instinto o levou para dentro, e ali levantou um casebre, nos moldes do sert\u00e3o, e cravou seu ref\u00fagio e sua liberdade.<\/p>\n<p>Ao seu redor, respirava tudo o que no agreste n\u00e3o tinha: muito verde, muita \u00e1gua, muita madeira, muita pedra, umidade&#8230; at\u00e9 companhia!<\/p>\n<p>Raimundo era escultor de ideias: olhava uma pedra e via uma mulher; sentava em um tronco de \u00e1rvore e percebia que poderia ser um cavalo.<\/p>\n<p>A \u00e1gua que minava coloria de musgo o terreno que ele moldava.<\/p>\n<p>A arte dentro dele o conduzia. Pouco a pouco o casebre foi cercado de imagens. Algumas mais destacadas, ofertadas pela natureza que as colocava em local isolado; outras mais misturadas \u00e0 vegeta\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o se libertava da raiz ou de sua vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p>A \u00e1gua, sim, se moveu canalizada, para atender a sua necessidade pessoal e de trabalho. Uma arquitetura de bambus que daria inveja a qualquer engenheiro do governo (caso pensasse como povo e n\u00e3o como canetada).<\/p>\n<p>Raimundo usava o que dispunha. A natureza lhe oferecia sem precisar agredir.<\/p>\n<p>O fato de se sentar nas escadarias do museu n\u00e3o significava que ele n\u00e3o tivesse entrado um dia&#8230; e outro dia tamb\u00e9m. A arte, quando batiza o artista, \u00e9 fogo que queima e arde para sempre. E seja pincel, martelo, m\u00e3os ou enxadas mesmo na terra, sempre ser\u00e1 revelada. E assim, Raimundo criou um museu a c\u00e9u aberto: figuras verdes, madeiradas; figuras petrificadas; figuras molhadas \u2013 arte sacra na natureza.<\/p>\n<p>E um dia, na escadaria, Raimundo conhece Andr\u00e9: menino de p\u00e9s descal\u00e7os, que faz da m\u00fasica sua arte.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 toca sanfona, que, na cidade grande, se chama de acorde\u00e3o. Raimundo logo se lembrou do forr\u00f3 l\u00e1 do sert\u00e3o, e, fechando os olhos, sentiu que Andr\u00e9 seria um bom companheiro. Mas a prud\u00eancia \u00e9 amiga, e Raimundo soube esperar.<\/p>\n<p>Depois de semanas de conv\u00edvio, convidou Andr\u00e9 para morar com ele no ref\u00fagio das esculturas, que agora estaria completa, j\u00e1 que, de arte, s\u00f3 faltava a m\u00fasica.<\/p>\n<p>Andr\u00e9, menino sabido, cansado de se defender sozinho, aceitou a ideia de Raimundo e levou sua sanfona para alegrar os micos.<\/p>\n<p>A partir daquele dia, a mata ficou mais feliz. Raimundo at\u00e9 dan\u00e7ava, abra\u00e7ado ao galho que esculpira e vestira como mulher. Assim os dias passavam na alegria. E, com m\u00fasica, Raimundo criava.<\/p>\n<p>Mas uma noite, Andr\u00e9 se empolgou e tocou at\u00e9 mais tarde. O som atraiu a aten\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a, que chamou a pol\u00edcia que fazia ronda ali por perto. Chegaram dois policiais, j\u00e1 com as m\u00e3os nos cassetetes. O que fazem aqui? Seus documentos!<\/p>\n<p>Raimundo conhecia bem aquele tom de voz. Fez sinal pra Andr\u00e9 sentar e foi l\u00e1 dentro pegar a documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Conversou com a pol\u00edcia, explicou o acontecido. Mostrou as artes que fazia e o tempo que ali vivia. Mas policia n\u00e3o \u00e9 sens\u00edvel \u00e0 arte, e o homem da lei s\u00f3 disse: \u201cAqui \u00e9 reserva ambiental. Ningu\u00e9m pode morar. Voc\u00ea est\u00e1 preso por destruir a floresta!\u201d, e jogou Raimundo dentro do carro. Andr\u00e9, assustado, correu e se escondeu no meio da mata.<\/p>\n<p>Deixa o sanfoneiro pra l\u00e1. Vamos levar esse aqui!<\/p>\n<p>Naquela noite, a reserva ficou em sil\u00eancio: os grilos calaram; os vaga-lumes apagaram; a \u201cmulher\u201d foi violentada; e a sanfona, largada nos p\u00e9s da mulher de pedra ficou abandonada.<\/p>\n<p>A noite ficou mais escura \u2013 parecia mesmo que vestira luto.<\/p>\n<p>E, na ladeira estreita e asfaltada, o carro de pol\u00edcia era o \u00fanico que descia, levando o escultor de ideias para a delegacia.<\/p>\n<p>E l\u00e1 se foi o Raimundo, conversar com o delegado, que, com sono e aborrecido, resolveu trancafi\u00e1-lo. Crime contra o meio ambiente \u00e9 inafian\u00e7\u00e1vel. Agress\u00e3o ao meio ambiente!<\/p>\n<p>Raimundo dormiu na cadeia e, de l\u00e1, foi para o pres\u00eddio, sem direito \u00e0 defesa. Afinal, nordestino brasileiro, pouco letrado e artista&#8230; Existe crime maior?<\/p>\n<p>Dias depois, por exig\u00eancia de pap\u00e9is, o delegado foi ver a cena do crime. Encontrou toda aquela arte esculpida. Mandou cercar a \u00e1rea e chamou o trator da prefeitura.<\/p>\n<p>Veio aquele monstro de ferro e passou por cima de tudo: acabou com o casebre, atropelou o cavalo e enterrou a fonte de \u00e1gua que minava, ficando sufocada.<\/p>\n<p>Por fim, por ordem da autoridade, uma placa foi colocada:<\/p>\n<p><strong>RESERVA AMBIENTAL.<\/strong><br \/>\n<strong>N\u00c3O ENTRE!<\/strong><\/p>\n<p>E assim pensou fazer justi\u00e7a, o delegado.<\/p>\n<p>Mas o que o delegado n\u00e3o sabia \u00e9 que Raimundo mantinha em segredo, as esculturas dos Orix\u00e1s, amigos de horas dif\u00edceis e local de recupera\u00e7\u00e3o e for\u00e7a.<\/p>\n<p>Na roda no centro Xang\u00f4 majestoso esculpido em uma enorme pedra. Atr\u00e1s de Xang\u00f4, na roda, Ox\u00f3ssi garantindo a ca\u00e7a para que n\u00e3o lhe faltasse alimento, do lado direito Oxum protegendo sua emo\u00e7\u00e3o, seu equil\u00edbrio, ao lado de Oxum &#8211; Ogum protetor do territ\u00f3rio incentivador das lutas di\u00e1rias e entre Ox\u00f3ssi e Ogum, a linda figura de Ians\u00e3, aquela que domina o tempo. Entre deuses e humano a rela\u00e7\u00e3o afetiva que o consolava e o inspirava.<\/p>\n<p>E a partir daquele dia, o delegado sonhava que um trator o atingiria derrubando sua casa, deixando em p\u00f3 seus pertences e se vendo s\u00f3 no meio de tudo. Enquanto isso, na cela, Raimundo esculpia em pequenas pedras as imagens que cultuava como artista. A cada sono perdido, o delegado se perguntava \u2013 ser\u00e1 que o artista destru\u00eddo o mantinha encarcerado?<\/p>\n<p>Ao visitar a pris\u00e3o, encontrou exposi\u00e7\u00e3o de esculturas em toda parte. Protegido pelos detentos, Raimundo ensinava arte. O delegado ent\u00e3o percebeu que se pode prender o homem, mas nunca a sua liberdade de criar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Passava parte do dia sentado nos degraus da escadaria do museu, oferecendo pequenas esculturas feitas com galhos e folhas. N\u00e3o que vivesse nas ruas, porque s\u00f3 ficava ali por tr\u00eas dias da semana, a fim de conseguir dinheiro e comprar mantimentos. 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