{"id":337061,"date":"2024-09-23T06:40:19","date_gmt":"2024-09-23T09:40:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337061"},"modified":"2024-09-23T07:06:57","modified_gmt":"2024-09-23T10:06:57","slug":"sonho-surreal-com-cemiterio-mostra-a-realidade-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/sonho-surreal-com-cemiterio-mostra-a-realidade-da-morte\/","title":{"rendered":"Sonho surreal com cemit\u00e9rio mostra a realidade da morte"},"content":{"rendered":"<p>Pegou um glad\u00edolo que sobressa\u00eda entre as flores que sua irm\u00e3 havia espalhado sobre o t\u00famulo e colocou-o no vaso de cer\u00e2mica azul com desenhos buc\u00f3licos. Depois foi a vez de arrumar os cravos brancos, logo as cal\u00eandulas junto com folhas verdes. Sempre gostou de ramalhetes, at\u00e9 fez cursos de ikebana, por isso, nessa tarde de domingo, quando sua irm\u00e3 Cacilda, sempre impaciente, espalhou as flores sobre o t\u00famulo, rezou uma r\u00e1pida prece e disse tchau Maria, vou para casa de mam\u00e3e, ela nem se preocupou.<\/p>\n<p>Quando terminou de arrumar as flores, o Sol j\u00e1 estava caindo e faltava pouco para que o guarda-noturno do cemit\u00e9rio fechasse os port\u00f5es. Deveria ter sa\u00eddo com Cacilda em vez de dizer tchau e continuar arrumando as flores. Por que eu n\u00e3o fiz isso? Por que sou t\u00e3o detalhista? Falava com seus bot\u00f5es enquanto caminhava entre as cruzes e os t\u00famulos em busca de uma sa\u00edda.<\/p>\n<p>O sol come\u00e7ava a cair e ela, receosa, acelerou o passo. Olhou para os lados. O cemit\u00e9rio ficou deserto e ela l\u00e1, sozinha. Come\u00e7ou a sentir um friozinho na barriga. Deu para perceber o formigamento nas m\u00e3os; sempre que se assusta tem essa sensa\u00e7\u00e3o desagrad\u00e1vel. Acelerou ainda mais o passo, tentou correr. N\u00e3o conseguiu. Sempre que sentia medo acontecia a mesma coisa, suas pernas n\u00e3o obedeciam a seu comando.<\/p>\n<p>Essas cruzes. Oh! n\u00e3o!.. errei o caminho, pensou. Estava na parte mais afastada da entrada, s\u00f3 via um muro pintado de branco. S\u00f3 isso. Voltou sobre seus passos, t\u00famulos enfileirados e mais t\u00famulos&#8230; Seria essa a rua certa? Sentiu medo. S\u00f3 t\u00famulos, cruzes, placas, lamenta\u00e7\u00f5es dos vivos pelos mortos. S\u00f3 isso, placas e t\u00famulos e flores e cruzes e mais placas, flores e fotografias de mortos e placas.<\/p>\n<p>Queria sair e r\u00e1pido. O sol se escondia no horizonte. Cacilda estava apressada, disse tchau Maria, podia ter me esperado &#8211; mas n\u00e3o, nunca me espera, desde crian\u00e7a ela gosta de deixar-me para tr\u00e1s. Ela, por ser a mais velha, sempre teve mais liberdade. Para onde estou indo? Estou perdida. Calma, Maria, calma, voc\u00ea conhece este cemit\u00e9rio, j\u00e1 veio aqui v\u00e1rias vezes. Calma, calma.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ou entre os mausol\u00e9us. Ah! J\u00e1 estava perto de um port\u00e3o, que sorte!&#8230; Queria sair imediatamente dali. N\u00e3o conseguia correr, mas conseguia caminhar, ao menos isso. Seus p\u00e9s pareciam presos \u00e0 terra, seu passo n\u00e3o era t\u00e3o r\u00e1pido quanto ela queria e suas pernas tremiam, mas estava indo para a frente enquanto as sombras avan\u00e7avam. Com desespero, viu o muro branco e os port\u00f5es fechados. N\u00e3o conseguiria sair. Onde estar\u00e1 o guarda- noturno?<\/p>\n<p>As sombras se espalharam sobre os t\u00famulos dando ao cemit\u00e9rio um aspecto fantasmag\u00f3rico. Os mortos eram isso mesmo, mortos. Nada poderiam fazer contra ela, mas mesmo assim ela sentia medo. Devia ter sa\u00eddo com sua irm\u00e3. Cacilda sempre fazia visitas r\u00e1pidas apenas para colocar as flores de qualquer maneira, sem nenhuma arte e sem rezar uma Ave-Maria.<\/p>\n<p>Devia reconhecer a verdade, n\u00e3o sabia o caminho para o port\u00e3o principal do cemit\u00e9rio e estava anoitecendo. Anoitecendo depressa. As sombras se estenderam e ela al\u00ed, caminhando sem cessar. Tentando sair. E o vigia? Olhou suas roupas novas. Nem lembrava quando as havia comprado. Estava t\u00e3o estressada que nem conseguia lembrar quando ou em que loja comprara essas roupas. Pena que n\u00e3o tinha o celular com ela. Ela havia esquecido o celular em casa!&#8230; Seguramente na mesa de jantar ou talvez no criado mudo. N\u00e3o tinha nem um espelho. Queria olhar-se no espelho. Que rid\u00edculo, pensou. Querer olhar-se no espelho em um momento desses.<\/p>\n<p>Aquele mausol\u00e9u de m\u00e1rmore branco. Ela j\u00e1 havia passado por ele em outras oportunidades. Desse mausol\u00e9u lembrava bem, estava \u00e0 esquerda do port\u00e3o principal. Que sorte! O guarda estar\u00e1 l\u00e1. Ele abrir\u00e1 o port\u00e3o. Que bom. Ele abrir\u00e1 o port\u00e3o. Apressou o passo e l\u00e1 estava o port\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Suspirou aliviada. Sob os \u00faltimos raios do sol e a lua cheia que come\u00e7ava a aparecer no horizonte, viu o port\u00e3o, mas ningu\u00e9m por perto. E o guarda? Avan\u00e7ou at\u00e9 o port\u00e3o e olhou para os lados. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 escalar, pensou. E, determinada, come\u00e7ou a escalar o port\u00e3o, primeiro colocou um p\u00e9 na barra inferior da grade e ergueu os bra\u00e7os para segurar na parte superior. Conseguiu elevar-se um pouco. Esfor\u00e7ou-se mais, ergueu os bra\u00e7os novamente e segurou uma das barras horizontais. J\u00e1 estou perto do topo, que sorte! Mais um esfor\u00e7o e&#8230; tocou a barra superior do port\u00e3o, um p\u00e9 no ar e o outro p\u00e9 escorregou antes de poder segurar com as m\u00e3os e caiu de costas.<\/p>\n<p>Sentou-se rapidamente no ch\u00e3o, n\u00e3o estava machucada, mas devia iniciar de novo a subida. O guarda-noturno estar\u00e1 perto? Olhou para os lados. Ningu\u00e9m. Ficaria al\u00ed. Algu\u00e9m passaria a qualquer momento e a ajudaria. Suas m\u00e3os se aferraram \u00e0s grades altas. Quando crian\u00e7a j\u00e1 havia tocado essas grades, foi no enterro da av\u00f3 e sempre lhe pareceram muito frias. Mas agora n\u00e3o. Nem sentia a temperatura, ela estava t\u00e3o fria quanto o port\u00e3o. As m\u00e3os frias e morrendo de medo.<\/p>\n<p>De repente, sons de passos. Um jovem de cabelo loiro transitava pela rua, vinha do bairro em dire\u00e7\u00e3o ao ponto de \u00f4nibus. No desespero por chamar a aten\u00e7\u00e3o do rapaz sacudiu o port\u00e3o e gritou, gritou com todas suas for\u00e7as. Viu o rapaz parar em frente do port\u00e3o, com os olhos arregalados por um segundo, e sair correndo apavorado.<\/p>\n<p>\u2013 Idiota!.. Volte!&#8230; Ajude-me a sair daqui.<\/p>\n<p>\u2013 O que foi mo\u00e7a? \u2013 perguntou algu\u00e9m atr\u00e1s dela.<\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, o guarda do cemit\u00e9rio a escutara. Voltou-se. O que viu a deixou confusa. Havia in\u00fameras pessoas atr\u00e1s dela, homens, mulheres, velhos, jovens, adultos, crian\u00e7as. Todos olhando o port\u00e3o. Alguns com tristeza, outros com desespero e outros ainda, com raiva.<\/p>\n<p>Um velho aproximou-se dela.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea deve ser nova aqui e n\u00e3o conhece as regras. S\u00f3 podemos olhar para fora, mas n\u00e3o podemos sair. N\u00e3o podemos sair. S\u00f3 os vivos podem, s\u00f3 os vivos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pegou um glad\u00edolo que sobressa\u00eda entre as flores que sua irm\u00e3 havia espalhado sobre o t\u00famulo e colocou-o no vaso de cer\u00e2mica azul com desenhos buc\u00f3licos. Depois foi a vez de arrumar os cravos brancos, logo as cal\u00eandulas junto com folhas verdes. 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