{"id":337141,"date":"2024-09-24T10:13:39","date_gmt":"2024-09-24T13:13:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337141"},"modified":"2024-09-24T10:13:39","modified_gmt":"2024-09-24T13:13:39","slug":"tempo-pantera-impiedosa-leva-roberto-e-seus-escritos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/tempo-pantera-impiedosa-leva-roberto-e-seus-escritos\/","title":{"rendered":"Tempo, pantera impiedosa, leva Roberto e seus escritos"},"content":{"rendered":"<p>Roberto estava na faixa dos 70 anos. Jornalista aposentado, divorciado, sem filhos, vivia com dois cachorros numa casinha na serra fluminense. Parafraseando Drummond de Andrade, teve poucos, raros amigos, e afastou-se deles quando trocou as praias cariocas pelas montanhas do interior. Seu dia a dia variava pouco: passeava com os c\u00e3es, ouvia m\u00fasica, via filmes e s\u00e9ries na televis\u00e3o e lia poesia, gostava especialmente de Fernando Pessoa e Drummond. Tamb\u00e9m escrevia poemas que postava no Facebook. Tinha alguma reputa\u00e7\u00e3o como poeta de rede social e pensava, num futuro nebuloso, em reunir suas melhores produ\u00e7\u00f5es num livro.<\/p>\n<p>Mas o tempo \u00e9 uma pantera impiedosa. Os primeiros sintomas surgiram quando Roberto estava com 77 anos. De um dia para outro, n\u00e3o conseguia escrever mais poemas. N\u00e3o razo\u00e1veis, pelo menos. Com grande esfor\u00e7o, cometia versinhos na linha amor-flor-dor, o que jamais fizera. Antes, rimava amor-estupor, por exemplo, conduzindo os leitores por trilhas perturbadoras e inusitadas. E mais, passou a considerar obras-primas os poeminhas chinfrins dessa fase; ficava indignado quando estes n\u00e3o recebiam aplausos generalizados. Roberto, que sempre escrevera por prazer, agora exigia reconhecimento. Quanto mais estridente, melhor.<\/p>\n<p>Logo em seguida, a m\u00fasica o abandonou. At\u00e9 ouvia suas can\u00e7\u00f5es favoritas, mas viraram musak, som de elevador. As composi\u00e7\u00f5es eram as mesmas, ele \u00e9 que perdera o dom de emocionar-se com elas. A mesma coisa aconteceu com suas s\u00e9ries de televis\u00e3o, passou a v\u00ea-las mecanicamente, a ponto de esquecer a trama de um epis\u00f3dio para outro. E nada de enredos instigantes, aderiu com armas e bagagens aos filmes de porrada e assassinatos em s\u00e9rie, quanto mais violentos, melhor. Ainda mais grave, passou a ter encontros sem emo\u00e7\u00e3o com os seus amados poetas maiores (jamais gostara de poesia das redes sociais, exceto da sua pr\u00f3pria). Antes, mergulhava no poema, detinha-se em versos marcantes, murmurava trechos particularmente melodiosos ou comoventes, indagava-se por que o autor havia usado aquela imagem e n\u00e3o outra, sugeria constru\u00e7\u00f5es alternativas. Agora, os poemas de Pessoa, Drummond, Bandeira e outros escritores favoritos transformaram-se em musak liter\u00e1rio, algo a ser consumido para passar o tempo.<\/p>\n<p>Vieram ent\u00e3o as vozes. Primeiro, sons inumanos: latidos. Come\u00e7aram como brincadeira, quando os cachorros latiam, ele latia junto, e morria de rir com os olhares desconfiados dos animais. Mas logo come\u00e7ou a tomar a iniciativa, a latir por conta pr\u00f3pria, mesmo na aus\u00eancia de seus dois companheiros. E ent\u00e3o passou a berrar dentro de casa. De in\u00edcio, numa esp\u00e9cie de kiai das artes marciais, um \u201cainda estou vivo\u201d. Mais tarde, pela simples necessidade de ouvir uma voz humana que n\u00e3o viesse de um aparelho eletr\u00f4nico. Mesmo que a voz emitisse um rosnado.<\/p>\n<p>O sintoma seguinte foi o falar sozinho. Tinha esse h\u00e1bito desde sempre \u2013 mas agora, batia longos papos consigo mesmo. Nesses mon\u00f3logos\/di\u00e1logos, alternava vozes de falsete ou muito graves e dava gargalhadas. O pr\u00f3ximo passo foi fazer caretas, tendo como trilha sonora um discurso delirante pontilhado de latidos e rosnados. E assim continuou vivendo, sem ter consci\u00eancia de que seu universo cultural se tornava a cada dia menor, mais prec\u00e1rio e mais tosco.<\/p>\n<p>Certo dia, por\u00e9m, por um favor\/castigo dos deuses \u2013 ou um rearranjo acidental de seus neur\u00f4nios \u2013, despertou com uma terr\u00edvel lucidez. Terr\u00edvel, porque percebeu, mortificado, como sua vida empobrecera, como as coisas que mais amava o haviam abandonado ou estavam abandonando \u2013 a m\u00fasica, os filmes e s\u00e9ries da TV, sua querida poesia. Recordou, com vergonha, os versinhos amor-flor-dor que escrevera nessa frase pouco exigente. Pior, viu que o pr\u00f3ximo passo seria sair de casa rumo ao centro da cidade, fazendo caretas, gargalhando, latindo, rosnando e falando sozinho em vozes diferentes, de falsete ou muito graves, talvez sem notar as zombarias e olhares de piedade de todos os que o vissem ou escutassem. Era demais.<\/p>\n<p>Com sua lucidez reencontrada, recordou os versos iniciais de uma can\u00e7\u00e3o de que sempre gostara, Charles, anjo 45, de Jorge Ben (antes de se chamar Jorge Benjor). Por algum motivo, sempre achara trist\u00edssima aquela estrofe:<\/p>\n<p>\u201cOba, oba, oba Charles\/ Como \u00e9 que \u00e9\/ My friend Charles\/ Como v\u00e3o as coisas Charles&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Pensou por um instante no personagem, misto de Robin Hood e dom Sebasti\u00e3o do morro, que um dia voltaria \u00e0 companhia dos admiradores e amigos. Depois, entoou \u2013 com sua voz normal, n\u00e3o em falsete, n\u00e3o em um tom grave demais \u2013, um quinto verso para a estrofe, criado na hora por ele:<\/p>\n<p>\u201cHora de ir embora, Charles\u201d.<\/p>\n<p>Sabia que precisava aproveitar a onda de lucidez, que poderia se dissipar a qualquer momento. Assim, colocou os cachorros para fora da casa, fechou bem as portas e janelas e abriu o g\u00e1s do fog\u00e3o. E ent\u00e3o, garantia nunca \u00e9 demais, foi buscar o isqueiro, guardara-o na gaveta das meias depois que parou com o cigarro, sabia que ele ainda lhe seria \u00fatil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberto estava na faixa dos 70 anos. Jornalista aposentado, divorciado, sem filhos, vivia com dois cachorros numa casinha na serra fluminense. Parafraseando Drummond de Andrade, teve poucos, raros amigos, e afastou-se deles quando trocou as praias cariocas pelas montanhas do interior. 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