{"id":337299,"date":"2024-09-26T03:59:13","date_gmt":"2024-09-26T06:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337299"},"modified":"2024-09-26T03:59:13","modified_gmt":"2024-09-26T06:59:13","slug":"deusa-de-tempos-homericos-deixa-amante-para-a-eternidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/deusa-de-tempos-homericos-deixa-amante-para-a-eternidade\/","title":{"rendered":"Deusa de tempos hom\u00e9ricos deixa amante para a eternidade"},"content":{"rendered":"<p>Como as f\u00eameas da esp\u00e9cie humana ganharam o clit\u00f3ris, \u00f3rg\u00e3o \u00fanico, destinado exclusivamente ao prazer? Alguns mencionar\u00e3o o bom e velho Darwin e a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. \u00c9 uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel, mas existem outras. Vejam uma delas, um pouquinho heterodoxa.<\/p>\n<p>Cl\u00edtoris era um poeta grego dos tempos hom\u00e9ricos. Na verdade, tinha uma bronca enorme do bardo cego, que deu nome a sua \u00e9poca.<\/p>\n<p>&#8211; Tempos hom\u00e9ricos&#8230; absurdo! Se aquele imbecil n\u00e3o existisse, minha \u00e9poca certamente seria chamada de tempos clitorianos.<\/p>\n<p>Otimismo dele. Cl\u00edtoris era um bom poeta, mas incapaz de atrair multid\u00f5es para ouvir, embevecidas, os feitos de Aquiles, Heitor e outros her\u00f3is da Guerra de Troia. A rigor, ele nem se propunha a tanto.<\/p>\n<p>Seu ideal era atrair multid\u00f5es de mulheres para escutar, em \u00eaxtase, seus poemas er\u00f3ticos. Pois Cl\u00edtoris n\u00e3o era um grego t\u00edpico, n\u00e3o curtia uma bundinha de efebo, macia como um p\u00eassego. Gostava de transar com mulheres, exclusivamente com mulheres e, em especial, de dar prazer a elas. E as oportunidades para isso eram escassas, a grande maioria das filhas da H\u00e9lade ficava em casa, cuidando dos filhos, enquanto seus esposos gozavam nos bra\u00e7os (\u00f4 coisa pra ter nome) dos amigos.<\/p>\n<p>Em outras palavras, Cl\u00edtoris era um adorador de mulheres sem as ditas cujas para venerar, um poeta er\u00f3tico que, nos tempos (argh) hom\u00e9ricos, n\u00e3o tinha como dar vaz\u00e3o a seu erotismo. Sua apar\u00eancia tamb\u00e9m n\u00e3o ajudava. Era pequeno e delgado, fazendo lembrar um grelo, um broto vegetal. Tamb\u00e9m tinha uma sensibilidade extrema, aspecto negativo numa \u00e9poca de guerreiros brutais. E mais, estava com 59 anos, o que fazia dele um velho decr\u00e9pito, em uma \u00e9poca em que um homem de 40 anos j\u00e1 era um anci\u00e3o. Por tudo isso, eram praticamente nulas as chances de Cl\u00edtoris alcan\u00e7ar a imortalidade como poeta e, em especial, de realizar seu sonho de dar prazer \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Certa tarde, Cl\u00edtoris passeava pelos campos quando viu uma mulher sendo atacada por dois homens que tentavam estupr\u00e1-la. Enraivecido por presenciar o ultraje a uma mulher, o ser mais perfeito que os deuses haviam criado, esqueceu sua idade avan\u00e7ada e sua debilidade f\u00edsica, pegou um peda\u00e7o de pau no ch\u00e3o, correu em dire\u00e7\u00e3o aos agressores e derrubou um deles com uma pancada violenta. O outro, assustado, fugiu.<\/p>\n<p>Enquanto o poeta respirava, ofegante, a quase v\u00edtima transformou-se. Suas fei\u00e7\u00f5es tornaram-se bel\u00edssimas, suas roupas ca\u00edram no ch\u00e3o e seu corpo nu passou a irradiar um fulgor dourado. Devoto das divindades do Olimpo, Cl\u00edtoris reconheceu-a de imediato: estava diante de Afrodite, a Mulher, deusa da beleza e da sensualidade.<\/p>\n<p>&#8211; Per&#8230; perdoai este pobre mortal por presenciar o ultraje a vossa divina pessoa, \u00f3 Afrodite, bela entre as belas \u2013 balbuciou o poeta.<\/p>\n<p>A deusa sorriu e explicou:<\/p>\n<p>\u2013 Na verdade, eu estava me divertindo, vendo at\u00e9 onde os pobres idiotas iriam, antes de fulmin\u00e1-los \u2013 interrompeu-se como se lembrasse de algo a fazer, estendeu a m\u00e3o e transformou em p\u00f3 o assaltante que jazia desmaiado. \u2013 Mas vossa interven\u00e7\u00e3o comoveu-me. Concedo-vos um favor, pedi o que quiserdes.<\/p>\n<p>Cl\u00edtoris pareceu pulsar e crescer, tamanha era a emo\u00e7\u00e3o. Em seguida falou:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d3 divina Afrodite. Permitir-me-eis falar-vos em hel\u00eanico coloquial? Quando estou nervoso, confundo as constru\u00e7\u00f5es da linguagem formal.<\/p>\n<p>A deusa suspirou de al\u00edvio.<\/p>\n<p>&#8211; Ah, que bom! Acho um saco essa linguagem empolada, cheia de mes\u00f3clises \u2013 sorriu e o incentivou:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, manda vara. O que desejas?<\/p>\n<p>&#8211; Ah deusa, sei que s\u00f3 tenho direito a um pedido, mas queria duas coisas. A primeira, dar prazer \u00e0s mulheres. A segunda, imortalizar meu nome, como o daquele corno do Homero!<\/p>\n<p>Afrodite, que havia apoiado os troianos contra os aqueus e por isso n\u00e3o gostava muito de Homero e suas louva\u00e7\u00f5es a estes na Il\u00edada, assentiu, depois olhou para Cl\u00edtoris atentamente, como se o examinasse por dentro e por fora.<\/p>\n<p>&#8211; Olha, tua apar\u00eancia n\u00e3o \u00e9 muito boa, pareces um grelinho de planta. E est\u00e1s velho, tens pouqu\u00edssimo tempo de vida. Em contrapartida, \u00e9s extremamente sens\u00edvel. Humm \u2013 interrompeu-se, pensativa. Depois continuou:<\/p>\n<p>&#8211; H\u00e1 um meio de atender teus dois desejos. Mas terias de abandonar teu corpo. Que, diga-se, j\u00e1 est\u00e1 bem detonado. Entregas-te a mim?<\/p>\n<p>&#8211; Sem d\u00favida, \u00f3 filha da espuma, nascida nas \u00e1guas do mar, bela entre as belas \u2013 respondeu Cl\u00edtoris, pulsando de excita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; O que vou fazer \u00e9 abater-te e transplantar tua extrema sensibilidade para o negocinho das mulheres. Ele \u00e9 meio rudimentar, mas com o acr\u00e9scimo de tuas termina\u00e7\u00f5es nervosas, vai se tornar um instrumento infal\u00edvel de prazer.<\/p>\n<p>Deteve-se por um momento, tomou f\u00f4lego e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Quanto a imortalizar teu nome&#8230; N\u00e3o posso dar o apelido de um ser humano \u00e0 coisinha das mulheres, mas posso chegar perto, cham\u00e1-la de clit\u00f3ris. Vai ser uma parox\u00edtona, que nem o nome de Homero, aquele baba-ovo dos aqueus. Garanto-te que no futuro muitos v\u00e3o errar a pron\u00fancia e dizer o teu nome, Cl\u00edtoris.<\/p>\n<p>Afrodite sorriu.<\/p>\n<p>\u2013 E tem mais, daqui a mil\u00eanios, s\u00f3 os acad\u00eamicos falar\u00e3o nos tempos hom\u00e9ricos, mas os orgasmos clitorianos v\u00e3o ocorrer para todo o sempre.<\/p>\n<p>E perguntou, ainda mais bela e fulgurante:<\/p>\n<p>-Ent\u00e3o, mortal, entregas teu corpo para dar prazer \u00e0s mulheres, at\u00e9 o fim dos tempos?<\/p>\n<p>&#8211; Sim!! \u2013 respondeu o poeta com um sorriso feliz. E caiu morto.<\/p>\n<p>No mesmo momento, por todo o mundo, as mulheres sentiram uma sensibilidade acrescida em suas partes \u00edntimas. E sorriram, como se tivessem recebido de presente uma bijuteria bonita, ou como um gato que acabasse de devorar um can\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como as f\u00eameas da esp\u00e9cie humana ganharam o clit\u00f3ris, \u00f3rg\u00e3o \u00fanico, destinado exclusivamente ao prazer? Alguns mencionar\u00e3o o bom e velho Darwin e a evolu\u00e7\u00e3o das esp\u00e9cies. \u00c9 uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel, mas existem outras. Vejam uma delas, um pouquinho heterodoxa. Cl\u00edtoris era um poeta grego dos tempos hom\u00e9ricos. Na verdade, tinha uma bronca enorme do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":337300,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[234],"tags":[],"class_list":["post-337299","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cafe-literario"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337299","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=337299"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337299\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":337301,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/337299\/revisions\/337301"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/337300"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=337299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=337299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=337299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}