{"id":337309,"date":"2024-09-26T04:50:00","date_gmt":"2024-09-26T07:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337309"},"modified":"2024-09-26T04:50:00","modified_gmt":"2024-09-26T07:50:00","slug":"pais-tropical-brasil-tem-nova-lenda-sobre-noite-de-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/pais-tropical-brasil-tem-nova-lenda-sobre-noite-de-natal\/","title":{"rendered":"Pa\u00eds tropical, Brasil tem nova lenda sobre noite de Natal"},"content":{"rendered":"<p>&#8211; Tom\u00e1s, quer que eu conte uma hist\u00f3ria antes de dormir?, pergunta Janaina ao filho deitado.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, m\u00e3e. Sabe alguma sobre o Natal?<\/p>\n<p>&#8211; Por que sobre o Natal?<\/p>\n<p>&#8211; Hoje, na escola, recebemos uma visita que nos perguntou se sab\u00edamos o motivo de montarmos uma \u00e1rvore de Natal. Voc\u00ea sabe?<\/p>\n<p>&#8211; Como assim, filho? Conte.<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m sabia, ent\u00e3o, ela disse:<\/p>\n<p>-Voc\u00eas conhecem as esta\u00e7\u00f5es do ano?<\/p>\n<p>N\u00f3s respondemos: Sim.<\/p>\n<p>E ela continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o, voc\u00eas sabem que em alguns lugares o frio \u00e9 tanto que as \u00e1rvores perdem as folhas. E, muito antigamente, os povos marcavam o dia mais curto e a noite mais longa do ano, que geralmente acontecia no dia 21 ou 22 de dezembro, usando galhos com folhas verdes. Essas plantas serviam para lembrar que outras folhagens cresceriam novamente, assim que terminasse o inverno. Esses povos eram chamados de pag\u00e3os. Cultuavam as \u00e1rvores como sagradas, porque viviam por muitos anos. E tamb\u00e9m possu\u00edam um significado de estabilidade, for\u00e7a, uni\u00e3o e alimentos.<\/p>\n<p>Outros povos acreditavam que simbolizavam a vida eterna e tinham a capacidade de afastar os maus esp\u00edritos e as doen\u00e7as, por isso, penduravam galhos com folhagens verdes nas portas e dentro de casa. E os \u00fanicos galhos que tinham folhas eram os pinheiros. Da\u00ed, serem escolhidos mais tarde, como s\u00edmbolo da festa natalina.<\/p>\n<p>Dizem que a primeira \u00e1rvore de Natal foi montada em 1419 pelos padeiros numa cidade alem\u00e3. Come\u00e7aram a decorar um pinheiro todos os anos com: ma\u00e7\u00e3s, frutas e nozes. E, no dia de Ano Novo as crian\u00e7as podiam sacudir a \u00e1rvore e comerem o que caia dela. Da\u00ed a ideia dos presentes<\/p>\n<p>O mundo adotou o pinheiro como a \u00e1rvore de Natal e cada um decidiu como enfeitar. Mesmo nos pa\u00edses onde as \u00e1rvores n\u00e3o perdem suas folhas usam os pinheiros como \u00e1rvores de Natal.<\/p>\n<p>&#8211; A\u00ed, o Tiago perguntou pra ela.<\/p>\n<p>&#8211; Aqui no Brasil as \u00e1rvores n\u00e3o perdem as folhas. L\u00e1 em casa tem um pinheiro de pl\u00e1stico com bolas coloridas. A gente n\u00e3o pode comer.<\/p>\n<p>-Eu pensei que ela fosse brigar. Mas sorriu.<\/p>\n<p>-Voc\u00ea tem raz\u00e3o, n\u00f3s importamos essa tradi\u00e7\u00e3o para enfeitar a \u00e9poca natalina.<\/p>\n<p>&#8211; Poxa, Tom\u00e1s que lindo! Adorei ouvir. Afinal, foi voc\u00ea que contou a hist\u00f3ria hoje. Amanh\u00e3 eu vou pensar em uma.<\/p>\n<p>Agora \u00e9 hora de dormir. Boa noite.<\/p>\n<p>Jana\u00edna ficou admirada com seu filho. Como ele conseguiu aprender e contar toda a hist\u00f3ria que ouviu? Que bom, que a escola permitia essas visitas.<\/p>\n<p>Apagou a luz e debru\u00e7ou-se na janela aberta.<\/p>\n<p>Da sua casa sem reboco, situada no alto do morro, conseguia ver a silhueta da cidade e ouvir o seu burburinho.<\/p>\n<p>Ao olhar as ruelas da subida iluminadas pelas janelas abertas, o movimento do vai e vem das pessoas carregadas de pacotes e sacos de mercado imaginou os preparativos da ceia de Natal; despertou nela um sentimento diferente.<\/p>\n<p>Aquela noite custou a dormir revivendo as palavras de Tom\u00e1s.<\/p>\n<p>Ainda madrugada, levantou.<\/p>\n<p>Voltou a debru\u00e7ar na janela. E viu que as luzes j\u00e1 haviam sido apagadas; o sil\u00eancio das ruelas s\u00f3 era quebrado pelos passos apressados de quem descia o morro no compromisso de hor\u00e1rio.<\/p>\n<p>Dia clareado e Jana\u00edna na janela.<\/p>\n<p>Percebeu pela primeira vez: as mangueiras na vizinhan\u00e7a, o capim teimoso que cresce nas frestas dos degraus, as bananeiras do Seu Z\u00e9 plantadas em garraf\u00e3o de \u00e1gua e, at\u00e9 as embalagens de isopor que eram usadas para o plantio de coentro e salsinha &#8211; temperos que a Zefinha distribu\u00eda entre os moradores.<\/p>\n<p>Olhou para o c\u00e9u e agradeceu a Deus por viver num pa\u00eds tropical.<\/p>\n<p>O ventilador espalhava o ar quente que batia e rebatia entre as paredes de tijolos que guardavam o calor do ver\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 a vida no morro \u2013 j\u00e1 virou tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No dia seguinte, Jana\u00edna tomou uma decis\u00e3o. Foi ao l\u00edder comunit\u00e1rio. Pediu uma entrevista. Agendada, no dia certo, levou consigo um envelope com suas ideias. Faltavam quinze dias para o Natal.<\/p>\n<p>Waldomiro, o \u201cs\u00edndico\u201d do morro, gostou do que ouviu e viu. E numa manh\u00e3 de um s\u00e1bado, dia de roda de samba, juntou a mulherada e as crian\u00e7as e deu voz a Jana\u00edna.<\/p>\n<p>Empolgada, ela mostrou seus desejos de organizar um Natal diferente.<\/p>\n<p>&#8211; Somos pessoas simples e ordeiras e por que \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil ter um Natal Coletivo na Comunidade? Muitos moradores passam sozinhos, sem parentes, sem cuidados. Vamos inovar. J\u00e1 dizia um sambista das antigas: o morro pede passagem, morro quer se mostrar; abram alas pro morro, tamborim vai falar&#8230;<\/p>\n<p>De m\u00e3o em m\u00e3o o papel foi passando e numa mesa improvisada Jana\u00edna anotava quem e o qu\u00ea cada um precisava.<\/p>\n<p>Votaram mesmo na aus\u00eancia do seu Eust\u00e1quio que ele seria o velhinho.<\/p>\n<p>O saco deveria ser costurado para caber todas as surpresas a serem preparadas e dadas de presente para a crian\u00e7ada.<\/p>\n<p>Jana\u00edna se encarregaria de montar uma roupa de papel crepom e torcer pro Seu Eust\u00e1quio n\u00e3o suar, sen\u00e3o ficaria manchado de vermelho, o velho gord\u00e3o.<\/p>\n<p>A laje j\u00e1 era o local escolhido e no lugar de pinheiro, as bananeiras do Zezinho, enfeitadas com la\u00e7os de fita que a garotada ficou de fazer. M\u00fasica natalina estava prevista, mas o samba de roda n\u00e3o iria deixar de acontecer.<\/p>\n<p>Churrasquinho na brasa seria a ceia e cerveja no lugar do vinho, bem gelada no tonel de gelo que Waldomiro iria providenciar.<\/p>\n<p>Um Natal de ver\u00e3o na laje. Bem no alto do morro sob o olhar do Redentor, que acima protegia cada morador.<\/p>\n<p>Nunca no morro apareceu tanta ajuda.<\/p>\n<p>Nas ruelas, bandeirinhas de S\u00e3o Jo\u00e3o, foram penduradas misturadas com bolas de isopor douradas &#8211; retiradas de fantasias de carnaval. Afinal criatividade \u00e9 que n\u00e3o falta ao brasileiro.<\/p>\n<p>E a laje. Recebeu aparelhagem de som. Carv\u00e3o n\u00e3o faltou e o bar do Tenebroso cedeu mesas e cadeiras sem choro.<\/p>\n<p>Dezembro j\u00e1 chegara, e o morro em rebuli\u00e7o se preparava.<\/p>\n<p>Algumas moradoras trabalhavam em casa de fam\u00edlia, e n\u00e3o perderam a oportunidade de conversar sobre o que iria acontecer. Muitas conseguiram doa\u00e7\u00f5es de pisca &#8211; pisca bonecas e brinquedos novos para surpreender as crian\u00e7as. Os pastores com seus crentes se cotizaram e ofertaram uma bicicleta a ser sorteada.<\/p>\n<p>At\u00e9 a livraria que ficava pr\u00f3xima da entrada do morro doou caixas de livros sugerindo que inaugurassem uma biblioteca no centro comunit\u00e1rio.<\/p>\n<p>A laje ficou pequena. Vizinhos tiveram que acolher o tanto de gente que apareceu&#8230; E teve gente de fora que adentrou como penetra na festa. Traziam garrafa de champanhe e ta\u00e7a de cristal. Apareceu at\u00e9 uma bandeja com um peru inteiro. Ningu\u00e9m soube quem colocou na mesa do churrasco.<\/p>\n<p>Gente de todas as cores, de todo n\u00edvel social \u2013 todos brasileiros colaborando com a festa de Natal. Noite digna de registro, filmagem por celular a circular pela cidade. Exemplo de harmonia e humanidade.<\/p>\n<p>No final da festa, recolhidos o lixo e apetrechos, pouco a pouco a laje esvaziou. Jana\u00edna foi a \u00faltima. Chegou em casa, exausta e se deitou junto ao filho. Estava feliz.<\/p>\n<p>Tom\u00e1s percebeu que a m\u00e3e dormira, e levantou de mansinho, deixando ao lado da janela uma surpresa.<\/p>\n<p>Manh\u00e3 mais fresca, Janaina se levanta e quase trope\u00e7a no presente. Assustada, n\u00e3o percebeu a alegria do filho.<\/p>\n<p>&#8211; Gostou? \u00c9 pra voc\u00ea.<\/p>\n<p>&#8211; Um pinheirinho?<\/p>\n<p>&#8211; Comprei.<\/p>\n<p>&#8211; Uau! Um pinheiro de verdade! T\u00e3o lindo! Filho, voc\u00ea gostou da nossa festa?<\/p>\n<p>&#8211; M\u00e3e, eu adorei a festa. Tamb\u00e9m quis fazer uma surpresa. Depois da escola, mesmo de uniforme, consegui com seu Josaf\u00e1 umas balinhas. E vendi no sinal. Economizei durante tr\u00eas dias e fui ao mercado. Vi um pinheiro grande, e fiquei admirando. O mo\u00e7o chegou e perguntou o que eu queria. Falei que gostava daquele pinheiro. Ele disse o pre\u00e7o, mas percebi que era muito pesado para eu carregar, ent\u00e3o escolhi um menor, mas ainda n\u00e3o dava para carregar&#8230; Eu disse para o mo\u00e7o que eu podia pagar e mostrei o que eu tinha. Ele ent\u00e3o olhou e me entregou esse vasinho. \u00c9 pequeno, mas ele garantiu que se eu plantar vai crescer e que eu s\u00f3 precisava pagar uma parte. A outra ele me dava de presente de Natal. Muito legal.<\/p>\n<p>&#8211; Poxa, filho!<\/p>\n<p>&#8211; Eu sei que n\u00f3s vivemos num pa\u00eds tropical, e podemos criar muitas coisas novas, com o que temos. Nossas \u00e1rvores est\u00e3o sempre floridas e verdes. Mas pensei que esse pinheiro reviveria o esp\u00edrito do Natal. N\u00e3o esqueci a hist\u00f3ria que ouvi sobre quando tudo come\u00e7ou. Feliz Natal, mam\u00e3e!<\/p>\n<p>Janaina abra\u00e7ou o filho com tanta for\u00e7a, escondendo o rosto para que ele n\u00e3o a visse chorar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8211; Tom\u00e1s, quer que eu conte uma hist\u00f3ria antes de dormir?, pergunta Janaina ao filho deitado. &#8211; Sim, m\u00e3e. Sabe alguma sobre o Natal? &#8211; Por que sobre o Natal? &#8211; Hoje, na escola, recebemos uma visita que nos perguntou se sab\u00edamos o motivo de montarmos uma \u00e1rvore de Natal. 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