{"id":337388,"date":"2024-09-27T04:01:47","date_gmt":"2024-09-27T07:01:47","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337388"},"modified":"2024-09-27T05:32:25","modified_gmt":"2024-09-27T08:32:25","slug":"quando-macho-alfa-se-faz-femea-para-deliciar-se-no-amor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/quando-macho-alfa-se-faz-femea-para-deliciar-se-no-amor\/","title":{"rendered":"Quando macho-alfa se faz f\u00eamea para deliciar-se no amor"},"content":{"rendered":"<p>Ele se chamava Aderbal, mas podiam cham\u00e1-lo de Carla que \u00e0s vezes atendia.<\/p>\n<p>Aos 60 anos, Aderbal n\u00e3o era uma drag queen esfuziante. Nem um cross dresser enrustido, colocando \u00e0s escondidas a lingerie e o vestido da esposa. Ali\u00e1s, n\u00e3o tinha esposa, era divorciado, sem filhos, vivia sozinho. Mas era o melhor escritor de hist\u00f3rias er\u00f3ticas\/de sacanagem l\u00e9sbicas do Brasil. E as assinava como Carla, sem sobrenome. Carla, primeira e \u00fanica. Suas colabora\u00e7\u00f5es eram relativamente bem pagas nos livros e revistas do pa\u00eds, e mais ainda no exterior: contos seus haviam integrado dezenas de antologias, traduzidos para diversas l\u00ednguas.<\/p>\n<p>O que tornava seu rosto triste, a boca sempre vincada para baixo, era a defasagem crescente entre Aderbal e Carla. Ela era um sucesso, ele n\u00e3o. Ela conquistava mulheres, ele n\u00e3o. E o pior era que ele gostava tanto da fruta que suas personagens chupavam at\u00e9 o caro\u00e7o!<\/p>\n<p>Talvez o problema fosse esse, ser chegado demais no negocinho. Nas raras ocasi\u00f5es em que estava com uma mulher, a ansiedade de Aderbal era tamanha que reduzia as preliminares ao m\u00ednimo e se precipitava, segundo a velha f\u00f3rmula \u201cvai ser bom, n\u00e3o foi?\u201d. Resultado: a parceira n\u00e3o atingia o orgasmo e sa\u00eda jurando para si mesma nunca mais dar pra ele.<\/p>\n<p>Carla n\u00e3o. Suas palavras tornavam-se dedos m\u00e1gicos que tocavam cada dobrinha de pele escondida, ou uma l\u00edngua s\u00e1bia e experiente, que seduzia as leitoras e as levava ao del\u00edrio. Por vezes ela\/ele passava horas \u00e0 procura da palavra correta, a um s\u00f3 tempo delicada e sensual, apta a incendiar a libido das mo\u00e7as, com enredos de desenvolvimento lento e elaborado. Al\u00e9m disso, dominava a arte de adequar a linguagem ao ve\u00edculo, com um estilo mais elegante nas revistas de hist\u00f3rias er\u00f3ticas e mais direto nas de hist\u00f3rias de sacanagem, mas sem jamais cair na vulgaridade ostensiva. Tudo isso extasiava o p\u00fablico feminino, fazia de Carla um sucesso editorial e de vendas \u2013 e tornava Aderbal cada vez mais triste.<\/p>\n<p>Certo dia, seu celular tocou. N\u00famero desconhecido.<\/p>\n<p>&#8211; Boa tarde. Desejo falar com Carla, por favor.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o tem ningu\u00e9m com esse nome \u2013 rosnou Aderbal.<\/p>\n<p>&#8211; Seu Aderbal, n\u00e3o desligue. Olha, trabalho na editora que publica seus contos e sei que Carla n\u00e3o existe, \u00e9 uma cria\u00e7\u00e3o sua. O problema \u00e9 que estou apaixonada por ela, e portanto por voc\u00ea tamb\u00e9m! \u2013 disse a mulher de um s\u00f3 f\u00f4lego. \u2013 Ali\u00e1s, meu nome \u00e9 Fl\u00e1via, muito prazer.<\/p>\n<p>&#8211; Muito prazer \u2013 respondeu ele mecanicamente. A repentina declara\u00e7\u00e3o de amor o tirara do s\u00e9rio. \u2013 Mo\u00e7a, voc\u00ea est\u00e1 apaixonada por Carla, n\u00e3o por mim&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Entendo, Ad\u00ea (o apelido o agradou), mas d\u00e1 pra amar voc\u00ea tamb\u00e9m. Olha, estou perto de sua casa. Vamos nos encontrar em meia hora no barzinho da esquina? H\u00e1 coisas que prefiro falar olhando pra voc\u00ea \u2013 disse com um risinho malicioso.<\/p>\n<p>Uns 40 minutos depois, de banho tomado, ele entrou no bar e viu uma morena bonita, sentada sozinha, com uma cerveja pela metade diante de si.<\/p>\n<p>&#8211; Fl\u00e1via?<\/p>\n<p>&#8211; Ad\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Olha, gostei do que vi, mo\u00e7o. Voc\u00ea n\u00e3o usa barba, isso ajuda. Acho que vai dar pra gente transar gostoso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Fl\u00e1via, voc\u00ea n\u00e3o t\u00e1 entendendo. Raras vezes consigo fazer uma mulher ter um orgasmo&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Olha, Ad\u00ea, imaginava que poderia haver um problema desses. \u00c9 que a Carla \u00e9 muito forte, dominante, e quando voc\u00ea vai pra cama faz quest\u00e3o de deix\u00e1-la de fora. \u00c9 s\u00f3 convid\u00e1-la a participar que vai ser uma del\u00edcia!<\/p>\n<p>Ele olhou-a sem entender bem. Ela prosseguiu.<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea conhece as declara\u00e7\u00f5es l\u00edricas que a Carla j\u00e1 fez em louvor do clit\u00f3ris, afinal foi voc\u00ea quem escreveu. Instrumento destinado ao prazer, dotado de mais termina\u00e7\u00f5es nervosas que o \u00f3rg\u00e3o masculino&#8230; \u2013 Tomou f\u00f4lego e continuou:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea tem de levar a Carla pra cama e deix\u00e1-la conduzir a transa. Nada de pressa, Carla nunca tem pressa. \u2013 E com um sorriso, concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Imagine que voc\u00ea n\u00e3o tem um p\u00eanis, e sim um clit\u00f3ris avantajado. Ele tem menos termina\u00e7\u00f5es nervosas, tadinho de voc\u00ea, mas ainda assim pode dar muito prazer a n\u00f3s dois.<\/p>\n<p>Os dois sa\u00edram do bar, entraram no primeiro motel e transaram feito coelhos. A primeira vez n\u00e3o foi muito boa, ele terminou r\u00e1pido, mas Fl\u00e1via garantiu que a segunda seria muito melhor, mais demorada e gostosa. E foi mesmo.<\/p>\n<p>Desde esse dia, Aderbal \u00e9 muito mais feliz. Transa regularmente com Fl\u00e1via, mobilizando todos os ensinamentos que exp\u00f4s com maestria em seus textos l\u00e9sbicos e sendo conduzido por ela. S\u00f3 tem um probleminha: Fl\u00e1via o veste de mulher, aplica-lhe maquilagem, depois despe-o bem devagar e chama-o de Carla o tempo todo. Mas Aderbal n\u00e3o liga. Afinal, o que um macho n\u00e3o faz por amor?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele se chamava Aderbal, mas podiam cham\u00e1-lo de Carla que \u00e0s vezes atendia. Aos 60 anos, Aderbal n\u00e3o era uma drag queen esfuziante. Nem um cross dresser enrustido, colocando \u00e0s escondidas a lingerie e o vestido da esposa. Ali\u00e1s, n\u00e3o tinha esposa, era divorciado, sem filhos, vivia sozinho. 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