{"id":337497,"date":"2024-09-28T09:30:21","date_gmt":"2024-09-28T12:30:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/?p=337497"},"modified":"2024-09-28T09:52:16","modified_gmt":"2024-09-28T12:52:16","slug":"zico-so-um-corpo-depois-do-classico-acaba-no-iml","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.notibras.com\/site\/zico-so-um-corpo-depois-do-classico-acaba-no-iml\/","title":{"rendered":"&#8216;Zico&#8217;, s\u00f3 um corpo depois do cl\u00e1ssico, acaba no IML"},"content":{"rendered":"<p>Desceu a rua com um ar grave. Os olhos marejados de sono denunciavam a vida bo\u00eamia de preto \u00e0toa. Naquele domingo ensolarado e abafado, os paralelep\u00edpedos de Santa Teresa luziam ao sol da tarde junto com os telhados de zinco, o que parecia refor\u00e7ar o cheiro que exalava das cozinhas. Domingo \u00e9 dia de feijoada, couve e farofa na casa da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Domingo em Santa Teresa. Velhos sentados \u00e0 porta de casa, expulsos pelo calor, a conversar sobre a vida alheia, o jogo do bicho. Moleques sem camisa jogando bola, com as pernas ru\u00e7as e os dedos j\u00e1 estourados. Pipas no alto, cerol a rasgar-lhes o indicador.<\/p>\n<p>Sol, jogo no Maraca, trem lotado, ruas intransit\u00e1veis. A cabe\u00e7a passa e repassa a escala\u00e7\u00e3o do Meng\u00e3o: Cantarelli, Leandro, Rondineli, Andrade, Zico, Ad\u00edlio, Cl\u00e1udio Ad\u00e3o&#8230; Ser\u00e1 que o Cl\u00e1udio Coutinho vai escalar o J\u00fanior na lateral esquerda? A zaga precisa de um refor\u00e7o mais ofensivo contra o Vasco.<\/p>\n<p>Passou pelo bar no p\u00e9 da ladeira e tomou uma \u201cbola de fogo\u201d. Afinal, beber \u00e9 o melhor jeito de curar uma ressaca. Pegou a camisa at\u00e9 ent\u00e3o pendurada no pesco\u00e7o e a vestiu. Tomou o 434, pulou a roleta e juntou-se \u00e0 massa, desviando do bandeir\u00e3o enrolado no ch\u00e3o do \u00f4nibus. Cantava hinos reverberantes de provoca\u00e7\u00e3o ao Bacalhau, batucava no teto do coletivo, mexia com a mulata que atravessava o sinal. At\u00e9 a patrulha da PM, com sua \u201cJoaninha\u201d azul e branca foi alvo de provoca\u00e7\u00e3o: \u201c&#8230; e ningu\u00e9m vai me segurar, nem a PM!\u201d.<\/p>\n<p>Lapa, Est\u00e1cio, S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o, Maracan\u00e3. A porta se abriu e saltou do \u00f4nibus. Os urubus sa\u00edram \u00e0 solta, correndo em bandos, sacudindo bandeiras, entoando c\u00e2nticos sagrados, assustando uns, irritando outros. Ganhavam resmungos e muxoxos dos senhores com seus radinhos de pilha colados aos ouvidos, tentando escutar o Waldir Amaral. Pularam a grade do M\u00e1rio Filho como bons Arquibaldos sonegadores de ingresso e bateram em revoada rumo \u00e0 arquibancada, ber\u00e7o da festa democr\u00e1tica de toda torcida organizada.<\/p>\n<p>O Maracan\u00e3 se transformava em um caldeir\u00e3o fumegante, antes mesmo do in\u00edcio do jogo. As torcidas vestidas com seus mantos sagrados, tremulavam bandeiras enormes e cantavam, em un\u00edssono, provoca\u00e7\u00f5es v\u00e1rias. Flamengo e Vasco. Rubro-negros e cruzmaltinos. Urubus e Bacalhaus. E dentro de cada torcida, as pessoas se uniam, sem distin\u00e7\u00e3o: pretos e brancos; velhos e crian\u00e7as; ricos e pobres. Todas as diferen\u00e7as eram reduzidas por algo mais forte e \u00fanico: o amor incondicional ao clube do cora\u00e7\u00e3o. A paix\u00e3o nacional. At\u00e9 os ambulantes, com seus isopores nos ombros a vender cerveja e picol\u00e9, n\u00e3o se olvidavam em comemorar com abra\u00e7os apertados e gritos fren\u00e9ticos o gol marcado, e tamb\u00e9m xingavam com pragas e ofensas o juiz ladr\u00e3o.<\/p>\n<p>A Geral era um show \u00e0 parte. Cartazes, bandeiras, figuras \u00fanicas:<\/p>\n<p>imperadores banguelas do mundo do futebol. Os Geraldinos eram a alma do Maraca, o tempero do gramado. T\u00e3o perto! N\u00e3o obstante os copos de urina de que era alvo, a Geral, diziam muitos, era o melhor lugar para se ver o jogo. S\u00edmbolo cultural da cidade.<\/p>\n<p>A partida come\u00e7ara e os dois times j\u00e1 demonstravam a tens\u00e3o provocada pela decis\u00e3o frente a um Maracan\u00e3 lotado. Travas \u00e0 mostra e faltas desnecess\u00e1rias traduziam o nervosismo. A velocidade das jogadas n\u00e3o era conclu\u00edda com algum lance perigoso de fato. Zico, o maestro do time rubro-negro se dividia entre as investidas advers\u00e1rias em lhe tirar das jogadas e as tentativas de liga\u00e7\u00e3o do meio-de-campo com o ataque.<\/p>\n<p>Roberto Dinamite, pelo clube cruzmaltino, era o craque do time e brindava a torcida com algumas tentativas de belas jogadas e dribles. No entanto, as finaliza\u00e7\u00f5es sempre encontravam uma intranspon\u00edvel barreira no zagueir\u00e3o Rondinelli. Ao final do primeiro tempo, o jogo se mostrava intrincado, apesar da ra\u00e7a que transbordava das duas equipes. Na torcida, o calor era intenso e deixava o ambiente abafado, o que causava uma dan\u00e7a de fragr\u00e2ncias n\u00e3o muito agrad\u00e1veis no ar.<\/p>\n<p>O segundo tempo se inicia e o equil\u00edbrio foi permanecendo at\u00e9 os minutos finais. Aos vasca\u00ednos bastava segurar o empate. As torcidas cantavam quase num tom de prece, quando uma bola cruzada por Andrade foi mandada para escanteio pela cabe\u00e7a de J\u00falio C\u00e9sar. Cobran\u00e7a no c\u00f3rner esquerdo do goleiro vasca\u00edno Le\u00e3o. Zico se apresenta de improviso. Cobre aberto. A torcida levanta e tranca a respira\u00e7\u00e3o. Rondinelli aparece por tr\u00e1s da defesa e soca a redonda com a testa para o fundo da rede; sacudiu o capim no fundo do barbante. A na\u00e7\u00e3o rubro-negra enlouquece. Mais uma vez Rondinelli \u00e9 aclamado pela torcida: \u201cDeus da ra\u00e7a\u201d. As estruturas do velho est\u00e1dio sacodem com a arquibancada em polvorosa. Flamengo campe\u00e3o carioca de 1978. Espuma de cerveja e camisas a girar acima do black power do nosso personagem. A cabe\u00e7a latejava, ainda tonta do \u00e1lcool da v\u00e9spera e o ouvido zunia com o canto ressonante de que sua pr\u00f3pria voz fazia parte. A alegria parecia estourar seus t\u00edmpanos.<\/p>\n<p>Na sa\u00edda, alguns tentavam entender o que acontecia, outros tentavam fugir e outros buscavam a briga. Os \u00e2nimos exaltados dos vencedores e perdedores eram os senhores da festa e da luta. Empurra-empurra, bate carteira, perde sapato, some crian\u00e7a. Fogos e bombas de ar lacrimog\u00eanio. Pedras e paus. A Avenida Maracan\u00e3 tornava-se um campo de batalha enquanto nosso preto em close tentava correr por cima de p\u00e9s incautos.<\/p>\n<p>Tudo parecia inalcan\u00e7\u00e1vel para quem desejasse sumir da confus\u00e3o: a paz, o 434, Santa Teresa. Corria desesperado em meio a vasca\u00ednos e flamenguistas e amaldi\u00e7oava o futebol quando uma pedra portuguesa alcan\u00e7ou sua t\u00eampora em cheio. Tombou, foi pisoteado e esquecido.<\/p>\n<p>O sol do ver\u00e3o parecia lhe cegar a vista ensang\u00fcentada e aquecia o ar insuficiente que respirava. Arfando um surdo solu\u00e7o, sentiu calar o bumbo do peito e turvar de vez os olhos arregalados. Morria em prece aos p\u00e9s de Bellini: \u201c&#8230;\u00c9 campe\u00e3o!\u201d<\/p>\n<p>Por entre o tumulto que se estendia pelas ruas adjacentes, o fusca da PM tentava cortar a fumaceira com sua sirene estridente, como que atravessando trincheiras. Para com um berro e um \u201cCanela de Couro\u201d, desce da viatura com um 38 idoso nas m\u00e3os. Corre-corre. Tiros para o alto. Volve a vista: um corpo estendido no ch\u00e3o. Vira-o com o coturno e grita: \u201cCarvalho, passa um r\u00e1dio pra buscarem o presunto!\u201d. E Carvalho, um Cabo gordo de l\u00edngua presa e vasca\u00edno doente, encosta seu bigode gorduroso no r\u00e1dio da patrulha e informa, de maneira insolente, ao outro do rabec\u00e3o: \u201cZico, camisa 10\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desceu a rua com um ar grave. Os olhos marejados de sono denunciavam a vida bo\u00eamia de preto \u00e0toa. Naquele domingo ensolarado e abafado, os paralelep\u00edpedos de Santa Teresa luziam ao sol da tarde junto com os telhados de zinco, o que parecia refor\u00e7ar o cheiro que exalava das cozinhas. 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